Pronunciamento de Randolfe Rodrigues em 17/11/2025
Discurso durante a 170ª Sessão Especial, no Senado Federal
Sessão Especial destinada a celebrar o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra e a realizar a entrega da Comenda Senador Abdias Nascimento. Reflexão sobre as raízes africanas do Brasil. Crítica à exclusão do povo preto nos espaços de poder.
- Autor
- Randolfe Rodrigues (PT - Partido dos Trabalhadores/AP)
- Nome completo: Randolph Frederich Rodrigues Alves
- Casa
- Senado Federal
- Tipo
- Discurso
- Resumo por assunto
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Direitos Humanos e Minorias,
Homenagem:
- Sessão Especial destinada a celebrar o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra e a realizar a entrega da Comenda Senador Abdias Nascimento. Reflexão sobre as raízes africanas do Brasil. Crítica à exclusão do povo preto nos espaços de poder.
- Publicação
- Publicação no DSF de 18/11/2025 - Página 22
- Assuntos
- Política Social > Proteção Social > Direitos Humanos e Minorias
- Honorífico > Homenagem
- Matérias referenciadas
- Indexação
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- SESSÃO ESPECIAL, CELEBRAÇÃO, Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, ENTREGA, Comenda Senador Abdias Nascimento, NECESSIDADE, REPRESENTAÇÃO POLITICA, NEGRO, PODER PUBLICO, PODERES CONSTITUCIONAIS.
O SR. RANDOLFE RODRIGUES (Bloco Parlamentar Pelo Brasil/PT - AP. Para discursar.) – Sr. Senador Paulo Paim, meus cumprimentos, minhas homenagens ao senhor, a todos que recebem no dia de hoje a Comenda Abdias Nascimento. Meus cumprimentos à minha colega Senadora Eudócia, meus cumprimentos à Tatiana, à Elisa, a Martvs das Chagas, enfim, a todos e todas aqui presentes.
Não poderia também deixar de registrar, agradecer, cumprimentar, com muita ênfase, pela presença também, o nosso querido Gilberto Carvalho. Tenho muito orgulho, Paim, de ser discípulo de Gilberto Carvalho desde tempos de pastoral de juventude, quando ele e Frei Beto eram referência para todos nós...
O SR. PRESIDENTE (Paulo Paim. Bloco Parlamentar Pelo Brasil/PT - RS) – Não é só você, muita gente neste Brasil. (Palmas.)
O SR. RANDOLFE RODRIGUES (Bloco Parlamentar Pelo Brasil/PT - AP) – ... e de ter sido formado por ele na Secretaria Nacional de Formação Política do Partido dos Trabalhadores.
Querido Senador Paulo Paim, todos e todas aqui presentes, em 1877, um médico e proprietário de terras – estou falando de 1877 –, um proprietário de terras cearense chamado Domingos José Nogueira Jaguaribe Filho, se assustava com as estatísticas populacionais daquele Brasil do século XIX. E chamava a atenção, segundo ele, que, num contingente de 10 milhões de brasileiros, naquele Brasil de 1877, apenas 3,8 milhões pertenciam à raça branca, enquanto os mais de 6 milhões restantes distribuíam-se entre negros, índios e mestiços, palavras desse latifundiário, proprietário de terras do século XIX. Dizia então o Sr. Domingos José Nogueira Jaguaribe Filho que era necessário, abro aspas, "aperfeiçoar a raça", fecho aspas, e, para isso, deveria ter um processo de cruzamentos em que tivesse um embranquecimento da sociedade brasileira.
O dizer desse proprietário de terras do século XIX tem um significado de duas constatações. Primeiro, que a elite brasileira constatou tarde demais o óbvio. Talvez quem tenha sido antecessor nessa constatação tenha sido o Padre Antônio Vieira, dois séculos antes, dos dizeres do proprietário de terras cearense.
O Padre Antônio Vieira disse que "o Brasil tem seu corpo na América e sua alma na África". Há uma distância enorme dos dizeres do Padre Antônio Vieira, aí no século XVII, para a realidade. E, de fato, o que o Padre Antônio Vieira falava naquele século XVII era significado e diagnóstico da nossa formação nacional.
Dos 11 milhões, 12 milhões de escravizados trazidos para a América, numa das piores chagas da história humana, 5 milhões, pelo menos, vieram para o Brasil, segundo estatísticas, que não são tão exatas. Essa formação nos constitui como a maior nação negra do mundo fora da África. E isto deve ser razão de orgulho nosso: a mistura que nos forjou enquanto povo, destacado em obras, como as de Darcy Ribeiro.
Darcy Ribeiro, em O Povo Brasileiro, diz que, em nenhum outro lugar do planeta, se processou uma mistura como se processou na formação deste país, desta nação, deste canto da terra. Aqui a mistura foi formada com toda a sua tragédia, mas também, ao mesmo tempo, formou um povo generoso, que, ao passo da sua formação, trouxe lamentavelmente uma elite que tem, ainda nos séculos XX e XXI, a compreensão muito parecida com a compreensão do proprietário de terra cearense do século XIX. Esse é o significado do que deve ser refletido nesta semana que se inicia, Senador Paulo Paim e minha querida Senadora Eudócia.
Eu me refiro ao Senador Paulo Paim porque talvez ele seja um dos significados do contraste que ainda existe na sociedade brasileira. Eu poderia falar de tudo que nós avançamos ao longo do tempo, mas o fato de termos somente o Paim como o único Senador negro neste Senado Federal ainda é um bom diagnóstico de que nós estamos muito longe do ideal e muito longe de construir uma sociedade mais igualitária e mais identificada com o diagnóstico ainda feito pelo Padre Antônio Vieira no século XVII: o Brasil é um país que tem os pés na América e a alma na África.
Nós fomos forjados, enquanto povo, por essa triste realidade. Essa triste realidade da espoliação, ao longo do tempo, e de uma das piores chagas da história humana, que é a escravização de um humano pelo outro, tem sido destacada, lamentada e denunciada, sobretudo por nossos intelectuais.
O Navio Negreiro, de Castro Alves, no século XIX, proclama sobre a tragédia que era a transferência de seres humanos da África em navios, trazidos como objetos nos porões, e, ao serem mortos ou ao morrerem, sobre o fato de serem lançados ao mar, fato responsável, entre outras coisas, por ser uma tragédia tão grande que até modificou o hábito alimentar dos tubarões, no Atlântico, devido à sequência e às rotas que os navios faziam. É Castro Alves que, no século XIX, Senador Paim, pronuncia sua célebre poesia O Navio Negreiro, e, entre outras coisas, ao denunciar a escravidão, destaca:
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus...
Ó mar! por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noite! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!...
A poesia de Castro Alves, do século XIX, proclama com atualidade para o século XXI, porque o conjunto das contradições, os conjuntos das distorções, o conjunto da desigualdade racial não deixou de ser presente na vida nacional. O racismo persiste no Brasil, sobretudo nas mortes violentas, 79% das vítimas de assassinatos neste país são negros.
Via de regra – via de regra –, a ação do preconceito racial persiste no dia a dia da vida urbana das cidades e, sobretudo, nas favelas de todo o Brasil. A morte atinge inclusive as lideranças do povo negro. Há aqui de se registrar, melhor dizendo, que uma Vereadora negra, Marielle Franco, foi assassinada barbaramente junto com o seu companheiro e motorista, Anderson, em 2018, vítima da sua atuação e da sua luta política pela construção de uma sociedade mais igualitária, mas, sobretudo, pela denúncia que fazia do racismo que se expressa de formas distintas.
Esta semana não é uma semana que nós construímos, Senador Paim, com o feriado do Vinte de Novembro, em alusão a zumbi e a Dandara, não somente para os feriados serem celebrados e festejados, mas, sobretudo, com o Prêmio Abdias Nascimento, para que sejam referenciados os números que expressam a desigualdade, que têm de bater profundamente na consciência nacional, que têm de ser refletidos concretamente na presença do povo preto nos diferentes espaços de poder e de decisão da política, seja aqui no Senado Federal, seja nos tribunais de justiça, seja nos tribunais regionais eleitorais, seja no Tribunal Superior Eleitoral, como foi mais recentemente, seja em todos os espaços onde é necessária a expressão e o exercício do poder político, porque o poder político só se faz com a diversidade deste país na ocupação dos espaços públicos.
Por isso, Senador Paim, quero saudá-lo, saudar a todos que recebem, no dia de hoje, o Prêmio Abdias Nascimento. Que esta semana seja, sobretudo, uma semana para ser celebrada e refletida na consciência brasileira. Lamentavelmente, ainda há os testemunhos e a presença, hoje um pouco mais obscuras, de proprietários de terras do passado, como tinham as proclamações do Sr. Domingos, no século XIX. Ainda bem que ainda temos vários poetas com formas diferentes de recitar, tal qual Castro Alves, para denunciar o racismo presente.
Sobretudo, ainda temos a constatação, feita há três séculos por Padre Antônio Vieira, de que este é um país que se orgulha de sua identidade africana, mas que, para consolidar essa identidade africana, é necessário que sejam resgatadas a cultura e a identidade dos diferentes povos que formaram o Brasil.
O Brasil é uma nação com os pés na África, mas é uma nação com diversidade e é, sobretudo, uma nação que é uma aliança de diferentes povos. Nós somos resultado dos povos originários que aqui estávamos, somos resultado dos diferentes povos africanos que para cá vieram, somos resultado dessa mistura.
Que essa mistura, como disse Darcy Ribeiro, seja mais o resultado de nossas virtudes e menos de nossos defeitos e vicissitudes.