Notas Taquigráficas
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| R | O SR. PRESIDENTE (Carlos Viana. Bloco Parlamentar Juntos pelo Brasil/PODEMOS - MG. Fala da Presidência.) - Muito bem. Guten Tag, meine Damen und Herren! [Tradução simultânea: bom dia, senhoras e senhores, gostaria de dar as boas-vindas aqui ao Senado.] ... a esta Casa. Desejamos, desde já, que nosso encontro seja um encontro profícuo e um encontro de trocas de ideias entre duas nações irmãs. (Pausa.) Vocês me ouvem? Muito bom. Quero dar, mais uma vez, as boas-vindas a todos os... Veja ali; o dele não está funcionando. (Pausa.) A todos, às senhoras e aos senhores representantes do Parlamento alemão, nossas boas-vindas, especialmente à nossa Comissão de Educação, Pesquisa, Ciência e Tecnologia, do Senado Federal brasileiro. Os senhores são muito bem-vindos. A Alemanha é uma nação irmã do Brasil. Boa parte da nossa população tem, no Sul do nosso país e também no meu próprio Estado de Minas Gerais, a descendência de imigrantes que começaram a chegar ao nosso país já no final do século XVIII, ao longo do século XIX e também no início do século XX. Um dos nossos representantes, inclusive, o Senador Jorge Seif, que está ali, é de descendência alemã e hoje, no primeiro mandato, um dos grandes Senadores já desta legislatura. Portanto, o nosso desejo de que possamos trocar ideias e, naturalmente, fortalecer a democracia de cada um dos países. Quero dar as boas-vindas aqui ao Deputado Kai Gehring - obrigado pela presença -; ao Deputado Dr. Holger Becker; ao Deputado Michael Müller; à Dra. Ingeborg Gräßle; à Professora Monika Grütters; Friedhelm Boginski, Deputado; à Deputada Barbara Lenk; à Deputada Dra. Petra Sitte; Andreas Meyer, assessor do grupo parlamentar que acompanhará a delegação; o Sr. Christian Stertz, Ministro-Conselheiro para Assuntos Científicos da Embaixada da Alemanha; ao Sr. Frank Grohmann, Conselheiro para Assuntos Financeiros da Embaixada da Alemanha; e à Sra. Suzana Bervian, intérprete que está conosco, fazendo todo esse trabalho. Quero agradecer também nossa Diretora do Senado, Ilana Trombka, que nos acompanha sempre, que organizou brilhantemente este encontro; aos servidores do meu gabinete, aos servidores da Comissão o meu agradecimento. Boa tarde a todos que estão nos acompanhando. Senhoras e senhores, hoje é um dia muito especial para este colegiado. Temos a honra de receber um grupo de integrantes da Comissão de Educação, Pesquisa e Avaliação Tecnológica do Parlamento alemão. |
| R | Em nome de todos os membros da Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação e Informática do Senado brasileiro, manifesto nossas boas-vindas e a certeza de que vamos desenvolver um diálogo enriquecedor e produtivo. Sentimo-nos honrados em fazer parte da agenda do grupo, que busca conhecer as políticas públicas voltadas para a ciência, pesquisa e inovação, assim como as iniciativas de divulgação científica empreendidas no Brasil. Nosso país tem um histórico muito consistente de diálogo com a Alemanha no que concerne ao tema da ciência e tecnologia. Em 1966 - um exemplo - foi firmado o Acordo sobre Cooperação e Pesquisa Científica e Desenvolvimento Tecnológico, e, desde então, diversos projetos conjuntos têm sido desenvolvidos, não apenas no âmbito do Governo Federal, mas também envolvendo estados, municípios, terceiro setor e a iniciativa privada. Nossas universidades têm se beneficiado muito dos intercâmbios acadêmicos e programas de pesquisa envolvendo equipes de pesquisadores de ambos os países. São dignos de registro também os acordos firmados em 2015 pela Primeira-Ministra alemã Angela Merkel. Na ocasião, foram assinados cinco atos bilaterais, instituindo um sistema de consultas intergovernamentais de alto nível. Esse programa engloba as áreas de educação, ciência, tecnologia e inovação, pesquisa marinha, bioeconomia e matérias primas de importância econômica estratégica, as chamadas "terras raras". Brasil e Alemanha são parceiros estratégicos. Os eventos denominados Diálogos Brasil-Alemanha de Ciência, Pesquisa e Inovação, organizados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, a nossa Fapesp, e pelo Centro Alemão de Ciência e Inovação têm sido um sucesso há muitos anos. O tema escolhido para a 10ª edição do evento, ocorrido em maio deste ano, foi "A transição energética sustentável como foco nos desafios do uso de novas matrizes energéticas", evidenciando a relevância da troca de experiências em um conclave dessa natureza. Senhoras e senhores, como mencionei, há um longo histórico de cooperação frutífera entre os nossos países e um grande número de eventos, publicações, cursos, intercâmbios, pesquisadores e universitários que têm ocorrido nas últimas décadas. No âmbito das atribuições desta Comissão, da qual sou Presidente, comprometemo-nos a fortalecer essa conexão. Nosso desafio é identificar as potencialidades dessas trocas, com o objetivo de fortalecer nossas políticas públicas no campo da ciência e da tecnologia. Somos, por exemplo, um país que ainda tem muito o que fazer no campo da divulgação científica. Desenvolver aprendizagem para a ciência, desde a educação básica, despertando vocações e talentos, é uma tarefa urgente no Brasil atual. Uma pesquisa sobre o tema "Percepção pública da ciência e tecnologia do Brasil", realizada em 2019 pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, uma organização social vinculada ao nosso Ministério da Ciência e Tecnologia, Inovações e Comunicação, resultou em informações muito impactantes. O levantamento evidenciou, por exemplo, que 82% dos brasileiros não visitaram nem participaram de atividades em locais de ciência e tecnologia nos 12 meses que antecederam a pesquisa. Além disso, 90% dos brasileiros - do meu povo - não conhecem ou não conseguem lembrar o nome de um cientista do país, e 88% não se lembram ou não sabem indicar uma instituição científica brasileira. Temos uma ampla e potente estrutura de educação básica ao ensino superior, que se destaca pela capilaridade e abrangência em todo o país. Entretanto, apesar de esse sistema incluir um conjunto de instituições de ensino superior dotado de um sistema de pós-graduação stricto sensu muito qualificada e reconhecida internacionalmente, esse potencial não tem se refletido na aproximação do brasileiro comum com os temas da ciência. Há um longo caminho a trilhar nesse campo, e tenho certeza de que o tema da popularização da ciência estará presente no diálogo que vamos desenvolver. |
| R | De acordo com os estudiosos da área de ciência e tecnologia, as parcerias estratégicas são fundamentais para impulsionar o desenvolvimento de países como o Brasil. Mais do que isso, os pesquisadores enfatizam que tais iniciativas devem ocorrer em espírito de cooperação, com ênfase na transferência de tecnologia e na formação de pesquisadores de alto nível. É com esse espírito que devemos celebrar encontros como o que ora realizamos e com essa gratidão, de coração aberto, que recebemos os senhores representantes das áreas de pesquisa do Parlamento alemão para um país que tem sede de conhecimento e de crescimento na área tecnológica. São oportunidades de avaliar nossas formas de trabalho conjunto, promovendo o incentivo à inovação e o desenvolvimento da tecnologia, que é a engrenagem que move as economias mais poderosas do planeta. O meu muito obrigado. Sejam todos muito bem-vindos. (Palmas.) Eu agradeço. Quero passar a palavra imediatamente ao Deputado Kai Gehring para que ele também possa fazer a sua apresentação e para, naturalmente, darmos aqui sequência ao nosso encontro. Por favor. O SR. KAI GEHRING (Para expor. Tradução simultânea.) - Sim, muito obrigado. Obrigado, Sr. Presidente. Caros colegas Senadores, caros colegas do Parlamento alemão, meus cooperadores e todos que nos assistem e ouvem, estou muito feliz por vocês nos receberem aqui hoje. Que nós possamos continuar esse intercâmbio estratégico, com uma parceria e uma amizade que perdurou sempre nos diversos governos, porque nós temos certeza de que educação e pesquisa vão ser as fontes de crescimento, bem-estar e prosperidade no futuro. Por isso, nós estamos muito felizes com esse intercâmbio hoje. Nós somos uma delegação da Comissão de Educação, Pesquisa e Avaliação Tecnológica e estamos aqui hoje em um grupo de vários partidos diferentes. Nós realmente somos um grupo de pessoas interessadas em uma política baseada em ciência e em evidências. É importante termos confiança na ciência, na potencialidade da ciência. Isso é muito decisivo para informar a população e também para imunizar as pessoas contra a desinformação. Ao mesmo tempo, ciência pode contribuir fortemente para que, num momento de crises múltiplas, nós possamos lidar conjuntamente com os grandes desafios do nosso futuro. Nós somos uma comissão do Parlamento alemão e nós acreditamos que nós somos uma comissão que trata do futuro. Nós queremos chances para todos. Nós queremos fortalecer a alegria da inovação. Nós queremos a liberdade da ciência. Nós queremos defender essa liberdade no mundo inteiro. Eu acho que esse é um dos valores que nos unem como democracias. |
| R | A ciência cria a também a liberdade da ciência. Para nós é muito importante que a pesquisa seja financiada com valores adequados tanto na Alemanha como também nos nossos países parceiros. E por isso eu acho que é importante que agora, depois da pandemia do covid, depois das eleições também no Brasil, podemos confirmar com muitas visitas como as relações entre Brasil e Alemanha são importantes para nós. O Presidente alemão esteve aqui, o Chanceler, o Vice-Chanceler, a Ministra de Relações Exteriores, vários ministros do Governo alemão já estiveram aqui e, com isso, ficou muito claro já que o Brasil para nós, na Alemanha, é o país parceiro mais importante na América Latina de longe. E isso vale tanto para o Governo como para o Parlamento. E, junto com essas conversas que acontecem no âmbito do Governo, é importante que também os Parlamentos tenham esse intercâmbio - ambos os países têm Parlamentos fortes. Na semana passada, nós tivemos a última semana de sessões antes das férias, e vocês aqui estão tendo a última sessão antes das férias de inverno. Aqui no Brasil então, por isso eu estou muito feliz, vocês nos deram a oportunidade de estar aqui hoje. Para nós é importante nós termos uma cooperação de ganho-ganho para ambas as partes, porque nos dois países nós temos cientistas excelentes, pesquisas excelentes e nós devemos pensar nossos sistemas de inovação para o futuro. Nós trabalhamos, o senhor também já disse isso, nós temos uma cooperação de 50 anos com base em acordos técnico-científicos. Vemos que o Brasil é um parceiro político, um parceiro econômico, mas também um parceiro de valores e de pesquisa. Um parceiro em valores porque vocês todos são democratas e também um parceiro muito importante de pesquisa. Os nossos focos na cooperação bilateral são as áreas de biodiversidade, pesquisa climática, também a questão da bioeconomia, a pesquisa marítima, saúde, mas também todas as pesquisas nas áreas humanas e sociais são características para a nossa cooperação. Nós temos projetos muito importantes de que nós podemos ter muito orgulho. A Torre ATTO, de proteção climática, que trouxe muitos conhecimentos importantes para a pesquisa climática; e temos também o Centro Alemão de Ciência e Inovação (DWIH) em São Paulo, onde as nossas instituições alemãs oferecem uma plataforma para muitas cooperações. O Brasil é também um parceiro em sustentabilidade, porque isso é uma questão muito importante para nós também. A mudança de atitude aqui no Brasil, protegendo mais as florestas, protegendo mais os biomas, foi importante. É uma grande tarefa reduzir o desmatamento ilegal, porque é importante para a proteção climática no mundo inteiro. Em nossas pesquisas, as áreas de pesquisas climáticas cooperam muito bem. |
| R | A Alemanha é o quarto maior parceiro comercial do Brasil, e eu fiquei muito surpreso com que 10% dos brasileiros têm algum antecedente alemão, mais de 1 milhão de pessoas aqui no Brasil falam alemão. Por isso, nós estamos muito felizes e queremos realmente manter esse bom relacionamento e ainda aprofundá-lo. Nossos dois países e também as regiões que nos apoiam - na Alemanha, toda a União Europeia; aqui no Brasil, todo o continente latino-americano - enfrentam grandes desafios. Nós temos que trabalhar para digitalizar a nossa economia, descarbonizar, fazer uma reforma econômica descarbonizada, nós temos que cooperar para manter a confiança na ciência e nós queremos um sistema de educação com chances para todos. Para nós é importante que o futuro não dependa da sua origem. Na Alemanha, nós temos muita tarefa de casa ainda para fazer, os estudos sobre educação nos mostram isso. Sabemos que nós temos um bom sistema educacional na Alemanha, existem acessos justos, mas na Alemanha nós temos, por exemplo, problema com profissionais especializados. Nós estamos muito interessados na internacionalização do sistema de educação e também do sistema científico. Eu acho que isso são chances para abrir um novo capítulo da cooperação entre o Brasil e a Alemanha. É muito bom que membros do nosso Governo cheguem a acordos no Brasil sobre profissionais. Nós temos que pensar mais sobre brain circulation, quer dizer, os talentos da ciência devem poder trabalhar bem no Brasil e na Alemanha. Eu acho que há um grande interesse dos partidos alemães em facilitar a imigração. Foram muitas discussões, são passos que nós também temos que dar, porque nós sentimos que nós estamos num mundo multipolar, nós temos vários centros de força dentro desse mundo e nós, como Alemanha, dentro da Europa, somos um centro de força para ciência e pesquisa. É muito bom quando a gente junta, une forças e quando a gente fortalece a cooperação de tão boa tradição. Então, depois da onda da covid, talvez nós possamos agora fortalecer programas de mobilidade, as energias renováveis que nós temos aqui, o hidrogênio verde. Na Alemanha nós temos muita energia eólica e solar, talvez aqui nós possamos realmente cooperar sobre a transformação energética, todas as questões de pesquisa energética. E nós temos também o interesse conjunto, pois os talentos que nós temos, os jovens devem ter a possibilidade de cooperar, por isso nós estamos também pensando em reformar o reconhecimento de cursos e graduações de outros países, acreditamos que isso é importante. |
| R | Nossa comissão é uma das maiores do nosso Parlamento, e a avaliação de consequências técnicas é talvez uma invenção alemã, mas nós cuidamos muito do princípio de avaliar os riscos e as consequências para facilitar o acesso de novas tecnologias no mercado, e isso nos ajudou. Nós fazemos consultoria sobre novas tecnologias e nós queremos abrir o espaço para introduzir as novas tecnologias, sempre pensando no alinhamento social e ecológico que nós temos na Europa e que vocês compartilham aqui no Brasil também. Eu estou muito feliz com o nosso intercâmbio, com as nossas conversas. Na Alemanha, nós temos muitas cooperações entre as universidades, universidades alemãs e brasileiras, com as instituições de pesquisa. Os institutos Max Planck, Fraunhofer, Leibniz e Helmholtz são institutos que também estão presentes no Brasil. Devemos apoiar esse intercâmbio, aprofundá-lo, e também a cooperação entre os Parlamentos, como aqui, com o Senado. Tudo isso é muito importante. Vocês têm 27 estados, nós temos 17, e o federalismo na educação é um grande desafio para nós Parlamentares, mas é de interesse para todo o país que o sistema educacional seja bom para o futuro e traga chances justas para todo mundo. Muito obrigado pela atenção. O SR. PRESIDENTE (Carlos Viana. Bloco Parlamentar Juntos pelo Brasil/PODEMOS - MG) - Obrigado, Sr. Gehring. Antes de abrir a palavra aos demais participantes, quero fazer alguns comentários, na sequência do raciocínio que o senhor trouxe aqui com relação à energia renovável. No Brasil, menos de 10% da energia consumida no país é poluente. Nós somos, talvez, a nação no mundo com o maior parque de energia renovável no planeta, uma vez que desde os anos 60 o Brasil optou pela energia hidrelétrica. A grande quantidade de rios, de água facilitou que nós tivéssemos hoje um parque de fornecimento de energia no Brasil considerado um dos mais limpos do mundo. Os 10% que nós temos são de populações de brasileiros que vivem dentro da área amazônica ou posteriormente a ela, já nas chamadas planícies, em direção à Venezuela. Esses estados têm muita dificuldade porque o sistema brasileiro é interligado, as nossas hidrelétricas no Sudeste, no Nordeste e no Norte têm um sistema único no Brasil de ligação, que nós chamamos de Operador Nacional do Sistema. Esse operador é que faz o controle dos 27 estados. E existem alguns, que são estados mais recentes em nosso país, que estão na área amazônica e que não conseguiram ser atendidos ainda por conta exatamente do debate que nós temos em relação à preservação do meio ambiente e preservação das culturas originais, especialmente indígenas. As linhas de transmissão no Brasil não podem livremente ser construídas, naturalmente, por essa questão da preservação ambiental, que é muito cara ao mundo e ao nosso país. E nós estamos buscando, este Parlamento tem construído uma legislação, em conjunto com todas as forças, o terceiro setor, na busca de resolver esse desafio para que todo o país tenha o sistema integrado pela energia elétrica e que nós não tenhamos a necessidade de construir outros sistemas. Nós tínhamos, no sul do Brasil, até pouco tempo - o Seif está aqui -, Santa Catarina que ainda usava o carvão. Hoje praticamente eliminado o carvão mineral, o estado tem buscado também a energia limpa. |
| R | Essa questão da preservação do meio ambiente é uma preocupação muito grande do Parlamento brasileiro, porque nós sabemos da importância desse setor para todos nós, mas sabemos também da importância de que partes do Brasil possam ser atendidas naquilo que não são, especialmente em estradas. Há uma dificuldade muito grande de manutenção de estradas em área amazônica por conta de chuva, da questão das aldeias indígenas. Tudo isso gera uma discussão muito grande que nós temos enfrentado nos últimos 30 anos e que, aos poucos, estamos conseguindo vencer com muito diálogo e, principalmente, com respeito a essa nossa tradição. Uma hidrelétrica hoje, no Brasil, para ser construída é praticamente impossível, porque, quando nós vamos falar em áreas alagadas, estamos falando em pessoas remanescentes, em áreas históricas, em arqueologia, em licenças ambientais. Então, hoje o Brasil se voltou para energias renováveis em que a Alemanha, inclusive, já tem um grande exemplo, que são as fontes fotovoltaicas, a energia do sol. Eu sei que a Alemanha decidiu abandonar a questão da energia nuclear como principal fonte e hoje, inclusive, apesar de não ter tanto sol como nós, está à frente do Brasil na produção de energia fotovoltaica. E nós esperamos, muito em breve, superar a Alemanha com as usinas que temos construído e com o acesso cada vez maior a essa questão da mudança de padrão na energia brasileira no fornecimento de energia. Com relação à Amazônia, o assunto desperta naturalmente a atenção de todo mundo. A Amazônia responde por 40% do território brasileiro, a área geográfica da Amazônia. Nós temos a chamada Amazônia Legal, que é a Amazônia onde nós temos cidades, portos, temos a vivência urbana, mas temos também a Amazônia de preservação. Essa área corresponde praticamente a 30%, quase 35% do nosso território nacional. E muitas vezes se torna difícil o acesso, porque nós estamos falando, por exemplo, em determinadas regiões que nós levamos de cinco a seis horas para sobrevoar. Então, toda e qualquer ação do Governo Federal tem que ser muito bem planejada, numa estratégia de longo prazo, na questão de preservação, proteção aos índios. Isso nos gera sempre uma dificuldade muito grande, mas têm sido dadas respostas importantes. Com relação à infraestrutura, esse é um assunto em que nos interessa muito um diálogo com a Alemanha. A Alemanha tem já, no seu país, naturalmente... Nós estamos falando do território brasileiro, que é possivelmente 15 vezes maior, mas a experiência de construção das estradas, a manutenção e até a questão, por exemplo, do transporte público na Alemanha, o subsídio que é dado aos trens e aos metrôs são uma lição que o Brasil precisa aprender. Nós aqui ainda temos um problema sério de transporte de nossa produção por estradas. O Brasil abandonou o sistema ferroviário já nos anos 60, foi totalmente sucateado em troca de estradas para que as montadoras de caminhões se instalassem em nosso país. Foi uma opção daquela época, de petróleo mais barato, que hoje se mostra para nós pouco efetiva, porque as distâncias são muito grandes e nós precisamos reabilitar a malha ferroviária brasileira, como a Alemanha fez ao longo dos últimos séculos; ao contrário, manteve boas estradas, mas também tem sistemas de ligações férreas muito importantes, que eu mesmo já utilizei várias vezes. Então, essa é uma área em que o Brasil terá um desenvolvimento muito grande nos próximos anos. |
| R | Nós votamos aqui, no ano passado, se não me falha a memória, o marco ferroviário brasileiro. O que é isso? Uma nova legislação em que os grandes grupos internacionais que operam ferrovias poderão construir ferrovias no Brasil livremente, sem a necessidade da concessão, ou seja, sem a necessidade de que o Estado seja parceiro naquela construção. Qualquer grupo que queira construir uma ferrovia no Brasil hoje pedirá uma licença, assumirá as questões ambientais e poderá construir uma ferrovia para transporte e desenvolvimento em nosso país, e será muito bem-vindo. Com relação ao intercâmbio educacional, é outro assunto sobre o que a Comissão de Parlamentares também pode trabalhar com muita efetividade. As universidades brasileiras precisam ampliar o intercâmbio. Quanto aos nossos alunos engenheiros, arquitetos, de todas as nossas áreas, nós precisamos fazer com que eles visitem, estudem e se aprimorem; e a Alemanha para nós é um exemplo muito interessante de uma educação pública democrática e para todas as pessoas. Independentemente de classe, sociedade, gênero, a educação alemã é muito abrangente. E nós gostaríamos muito, se o Senado... E aqui eu coloco a Comissão de Ciência e Tecnologia à disposição, para que a gente possa estabelecer, com as universidades alemãs e com as universidades brasileiras, o intercâmbio necessário para que os alunos possam visitar e se formar na Alemanha, assim como queremos também a presença dos alunos alemães em nosso país. Vou passar agora, antes, primeiro à Ilana Trombka, nossa Diretora do Senado, para as considerações dela. A SRA. ILANA TROMBKA (Para expor.) - Boa tarde a todos e a todas. Antes de minhas considerações, eu gostaria de recomendar que todos experimentassem o pão de queijo, uma iguaria mineira da terra do nosso Senador Carlos Viana, amplamente divulgada, degustada e deliciosa, que está à disposição de vocês. No recente 2018, eu estive fazendo um curso no Bundesrat, homônimo, nossa contraparte irmã do Senado brasileiro em Berlim, e lá percebi a quantidade de similitudes que temos entre o Senado Federal brasileiro e a nossa contraparte alemã. Dentre todas essas similitudes, que significam a representação da federação num Estado nacional como o nosso, talvez o que mais tenha me chamado atenção é o respeito que o sistema político alemão direciona à importância do federalismo. Lá, Senador, regras que impactam o federalismo são analisadas primeiramente pelo Bundesrat e, caso não sejam aprovadas, já são descartadas de imediato. Isso mostra a quão importante a Alemanha eleva a questão do federalismo, questão que também é fundamental para o nosso país, especialmente neste momento, uma quadra muito específica da história, quando a reforma tributária, uma matéria muito necessária ao nosso país, chega ao Senado Federal. Então, é uma feliz coincidência a presença das senhoras e dos senhores no nosso Senado Federal. |
| R | Mas eu gostaria de, muito rapidamente, fazer um cumprimento especial às Sras. Parlamentares e de dizer que este Senado Federal é uma Casa que valoriza a mulher Parlamentar e a servidora da Casa. Estamos, neste momento, com o maior número de representantes nesta Casa: 15 Senadoras. Nunca antes tivemos um número tão elevado. É claro, é um número que todos concordam que deve subir, tendo em vista a representatividade da mulher no Brasil - mais de 50% -, mas que já apresenta uma significativa melhora em relação às legislaturas anteriores. Também, este Senado Federal, sob a gestão do Presidente Rodrigo Pacheco, sua primeira gestão, aprovou que nós tivéssemos uma liderança feminina na Casa, de tal maneira que, obrigatoriamente, o Colégio de Líderes sempre conta e contará com a voz e a percepção da mulher na definição dos temas legislativos em que o Parlamento se detém. Temos também, dentro dessa estrutura que privilegia, que dá voz e dá espaço à mulher Parlamentar, a Procuradoria Especial da Mulher, hoje ocupada pela nossa Senadora Zenaide Maia, e também a Comissão Mista de Combate à Violência contra a Mulher, que funciona conjuntamente, Senado e Câmara. Falo isso - e não sou Parlamentar, então posso ter a liberdade de falar -, porque testemunho, nos últimos anos, a abertura que o Parlamento brasileiro, e muito especialmente o Senado Federal, tem dado à participação feminina, privilegiando temáticas de interesse específico das mulheres nas suas pautas, em todas as pautas, inclusive as pautas atinentes à ciência e tecnologia. Então, não é estranha a esta Comissão e a esta Casa a valorização, a participação e o reconhecimento da mulher Parlamentar. E, por fim - e muito objetivamente -, não poderia deixar de falar como sulista e judia que sou. Sou do Rio Grande do Sul, onde há uma imensa colonização alemã. Ouso dizer que é um dos estados em que a presença europeia se dá basicamente pela presença alemã e italiana, diferentemente de outros lugares do nosso país, em que a presença portuguesa é preponderante. No Rio Grande do Sul, as colonizações alemãs e italianas marcaram a história das nossas tradições, e talvez o principal ícone do turismo brasileiro seja uma cidade alemã: Gramado, no Rio Grande do Sul, uma cidade alemã, de colonização alemã, que trabalha de uma forma muito diferenciada, em especial, em um paradigma para todo o país, a questão de turismo. E, depois, finalizando, como judia que sou, tive a oportunidade, na visita que fiz a Berlim, a convite do Parlamento e do Senado alemão, de entender como a Alemanha não só aprendeu com os terrores nazistas, mas faz questão de lembrar, a cada dia, que a democracia é o valor maior de uma nação - a democracia, a aceitação e a não discriminação. Muito obrigada pela oportunidade, Senador. Talvez nem o senhor saiba o quanto ela significa para mim. |
| R | (Palmas.) O SR. PRESIDENTE (Carlos Viana. Bloco Parlamentar Juntos pelo Brasil/PODEMOS - MG) - Obrigado, Ilana. Herr Gehring. O SR. KAI GEHRING (Para expor. Tradução simultânea.) - Muito obrigado. É realmente muito bom ver como vocês avançam nas energias renováveis. Na Alemanha também, depois da mudança no Governo, tornou-se uma grande tarefa ser mais rápido na descarbonização para nós conseguirmos alcançar as nossas metas climáticas. É uma grande tarefa também na discussão entre os partidos no Parlamento, mas nós também discutimos com a população, o terceiro setor e a economia. Por exemplo, com o setor de construção civil, como nós queremos construir as casas; com o setor de transportes, sobre a mobilidade. Nós temos muita coisa para mudar também, porque, assim, a Alemanha pode alcançar também as metas climáticas. E assim como vocês descreveram a sua infraestrutura, nós temos a mesma questão na Alemanha. Como nós podemos investir em infraestruturas modernas? Como nós podemos investir em tecnologias de futuro? Porque nós temos essa sensação também, nós temos que acelerar essa coisa. Por exemplo, a inovação disruptiva da inteligência artificial. Aqui, especialmente para as democracias, é muito importante eles alinharem esse desenvolvimento com a sua ética; utilizar as chances, mas também minimizar os riscos inerentes a essas novas tecnologias. A segunda questão que eu gostaria de mencionar é que nós também temos igualdade de gênero: 40% dos membros do Parlamento são mulheres, e, mesmo assim, nós temos que sempre dizer que talentos não dependem de gênero. O meu partido é o Partido Verde, e todo mundo sempre fala, a metade do poder tem que ser para as mulheres - os homens também falam isso -, e eu espero que nós consigamos fazer isso em todos os países. Eu acho que a questão aqui é aproximar meninas de matemática, das ciências, da natureza, e também animar mais jovens meninos para as profissões sociais. Eu acho que isso ainda depende realmente muito do gênero nesse momento. Mesmo assim, nós queremos o intercâmbio sobre o futuro das nossas democracias. E, de fato, uma democracia só é estável quando nós temos muitos democratas, mulheres e homens, nos países. E nós temos realmente esse equilíbrio, nós, com o federalismo na Alemanha, com todas as dificuldades: sentar e resolver problemas de forma rápida. E para nós é muito importante ouvir outras regiões e procurar soluções boas conjuntamente. Mas o que é mais importante: as democracias precisam das pessoas democráticas, a consciência democrática. E nós vemos o que se perde quando a democracia entra em risco ou quando as ditaduras tomam a frente. |
| R | Sobre o sistema científico, as universidades na Alemanha são boas na sua quantidade. As universidades são importantes. Nós vamos ter 15 iniciativas de excelência. Aí nós podemos ver as principais universidades. Mas nós temos universidades para ciências aplicadas, que têm mais um foco regional e as universidades são mais internacionais. Mas, mesmo assim, toda a área acadêmica quer a internacionalização, porque ciência é internacional e quanto mais diversificada, melhor. Nós precisamos de muitos talentos e muita tolerância. O SR. PRESIDENTE (Carlos Viana. Bloco Parlamentar Juntos pelo Brasil/PODEMOS - MG) - Primeiro, gostaria de saber se algum dos Deputados do Parlamento alemão gostaria de fazer uso da palavra? (Pausa.) A Prof. Monika Grütters, seja muito bem-vinda! A SRA. PROF. MONIKA GRÜTTERS (Para expor. Tradução simultânea.) - Sim, eu tenho duas perguntas. Uma sobre a pesquisa na área de saúde. Nós falamos sobre os temas em que a Alemanha pode aprender muito com o Brasil, o clima, o ambiente. Mas eu acho que pesquisa da saúde é um ponto importante, porque também é muito relacionado à economia. E para a Sra. Trombka me tocou muito, porque nós havíamos já falado sobre a participação das mulheres, e todas nós, de todos os partidos, nós sabemos que é difícil. E, como o Sr. Gehring fala, na Alemanha, até os homens já sabem que uma equipe mista tem mais sucesso do que uma somente dominada por homens. Mas o segundo ponto, a senhora disse que esteve na Alemanha e que conheceu mais sobre a sociedade. Acho isso importante, porque eu fui Ministra de Cultura e Mídias por oito anos, e a cultura da memória, da lembrança, é muito importante, porque é um fator importante para estabilizar a democracia. Nós tivemos que aprender isso a duras penas. Nós temos que defender a democracia a cada dia, especialmente quando forças radicais da direita se estabelecem no país. Muito obrigada por ter falado sobre isso também a partir da sua perspectiva. O SR. DR. HOLGER BECKER (Para expor. Tradução simultânea.) - Dr. Holger Becker, do Partido Social Democrático. Sim, muito obrigado pela oportunidade. |
| R | Tem dois pontos que eu gostaria de citar: a pesquisa na biodiversidade, na bioeconomia, porque eu acredito, claro, que o Brasil está numa posição única no mundo inteiro. E nós, na Alemanha, por um lado, poderíamos ser parceiros e teríamos um mercado para alguns produtos. E existem novos campos tecnológicos, e nós temos chances para novas empresas startups, empresas de pequeno e médio porte, na área de pesquisa de matéria prima, diagnósticos. Então, o que eu gostaria, realmente, é que a gente pensasse em uma cooperação dos nossos dois países nesta área. A SRA. DR. PETRA SITTE (Para expor. Tradução simultânea.) - Muito obrigada pela chance de estarmos aqui. Uma coisa que eu acho muito interessante é que vocês são a Comissão de pesquisa e tecnologia, e nós temos também educação e as questões dos riscos tecnológicos. Como Kai Gehring falou, o significado de tecnologias disruptivas está sendo muito debatido no nosso Parlamento. O que vai acontecer com a sociedade? O que vai acontecer com a pessoas? Quais são as possibilidades de as pessoas participarem de forma controlada disso sem passar por cima das pessoas com essa tecnologia? Por isso nós temos várias comissões no Parlamento alemão sobre o que acontece com modelos de inteligência artificial quando isso está acessível para todo mundo e sobre qual é a responsabilidade política nessas questões, como a política precisa garantir o acesso à participação. Por isso, além do potencial técnico e econômico, nós estamos também interessados na questão de como nós, como sociedade, vamos lidar com isso e em qual é a responsabilidade do Parlamento. Isso me interessa, porque o Brasil, em algumas áreas, está muito mais avançado do que a Alemanha. O senhor vê o grande interesse dos nossos colegas. O SR. FRIEDHELM BOGINSKI (Para expor. Tradução simultânea.) - Muito obrigado também da minha parte palas informações, pelas explanações. Na Alemanha, neste momento, nós temos um grande problema com profissionais, com falta de profissionais. E nós queremos convidar quase 0,5 milhão de pessoas, todos os anos, do exterior para ajudar nos trabalhos. Então, nossos ministros já estiveram aqui, nosso Chanceler já esteve aqui. Como vocês entendem essa ideia da Alemanha? Isso é uma coisa que o Brasil apoia ou vocês não gostam? A SRA. BARBARA LENK (Para expor. Tradução simultânea.) - Muito obrigada. Eu tenho uma pergunta sobre a energia: qual é o papel da energia nuclear, da pesquisa na energia nuclear? E também sobre inteligência artificial: qual é o papel da inteligência artificial na área de pesquisa? Vocês conseguem pensar numa cooperação com empresas alemãs? Como a sociedade brasileira realmente utiliza aplicações de inteligência artificial. |
| R | E, por último, nós temos ainda a Dra. Gräßle, do Partido Cristão Democrático. Muito obrigado, Senador, pela sua fala. Foi uma fala muito aberta e muito crítica e me impressionou muito. Por isso, a minha pergunta já parece até um programa de governo. Qual é a sua lista de prioridades? O que seriam os primeiros passos? Quais são os desenvolvimentos no Brasil mesmo? O SR. PRESIDENTE (Carlos Viana. Bloco Parlamentar Juntos pelo Brasil/PODEMOS - MG) - Obrigado pelas perguntas e pela participação de todos. Com relação à pergunta do doutor Becker sobre pesquisa, nós temos, no Brasil, Dr. Becker uma série de desafios com relação a doenças tropicais. O Brasil, há quase seis anos, talvez um pouco mais, está tentando desenvolver uma vacina contra a dengue. A dengue é uma doença que veio para o Brasil do Oriente, que é muito comum na Malásia, nos países do Extremo Oriente, na África, e que ainda causa muitas mortes e vítimas no Brasil. Para que os senhores entendam, chegou primeiro uma vacina japonesa ao Brasil, que está sendo vendida em nosso país, ao preço de quase US$100 a dose, e a nossa pesquisa de vacinas não avançou na rapidez que nós gostaríamos em nosso país. O desenvolvimento de vacinas, até mesmo contra a dengue, a chikungunya, a síndrome de Guillain-Barré, que se tornou um problema também em vários países, que é o mesmo transmissor, eu entendo que seria muito interessante se a Alemanha fizesse acordos com os nossos laboratórios de referência, laboratórios públicos, e nós temos três grandes laboratórios no Brasil que são capazes de desenvolver essas vacinas no âmbito público. Aqui, nós não estamos falando de desenvolver patentes para a venda no mercado privado. Eu estou falando de acordos de Estado para Estado que desenvolvam vacinas que possam ser cedidas gratuitamente não só em território brasileiro, mas também em áreas de interesse da Alemanha, por exemplo a África, e em países do Oriente. Nós poderíamos ter aqui uma cooperação no desenvolvimento, o patenteamento e, naturalmente, depois a distribuição de governo para governo. Essa é uma possibilidade muito firme com que esta Comissão aqui trabalha, e podemos avançar nessa direção. Havendo a disponibilidade de recursos e laboratórios alemães, podemos fazer muito rapidamente o desenvolvimento dessas vacinas em nosso país. Com relação à mão de obra. O Sr. Boginski perguntou: o Brasil vê com muito bons olhos. Não há nenhuma restrição sobre a contratação ou mesmo que a Alemanha possa buscar profissionais. Nós estamos vivendo no Brasil um problema também semelhante à Alemanha, porque, apesar de ser uma nação com 200 milhões de habitantes, nós temos uma educação pouco inclusiva no Brasil no sentido de formação. Aproximadamente 63% dos brasileiros não são capazes de ler e de entender o que leram. O que é isso? Nós chamamos isso de semialfabetização, porque o sistema abrange todas as crianças da escola, abrange mulheres e meninos - aqui não há diferença entre homens e mulheres em sala de aula -, mas o aprendizado público no Brasil ainda é muito distante do que nós gostaríamos. |
| R | O Brasil é o país, o quarto lugar no mundo no investimento em educação na relação com o PIB, ou seja, o nosso problema não é falta de dinheiro, de recursos; o nosso problema é a estrutura educacional que é falha na formação dos professores, no acompanhamento de sala de aula e nas distâncias, muitas vezes, em que esses alunos vivem. É como eu disse para os senhores: nós estamos falando em áreas do Brasil, não adensadas, que estão remotas, e essa educação tem dificuldade. Aqui, no âmbito da ciência e tecnologia, Sra. Petra, um dos primeiros passos aqui para o nosso trabalho, respondendo também à Sra. Gräßle, é nós tornarmos a tecnologia acessível a todas as escolas públicas brasileiras. Nós precisamos, o Governo brasileiro... Agora há um novo Governo, que, naturalmente, vai começar um novo projeto, e todas as vezes em que nós falamos em recomeçar no Brasil, nós estamos falando em dois, três, quatro anos, dada a legislação brasileira. Não é algo fácil. Então, o Governo brasileiro está recomeçando, mas o Senado, esta Comissão de Ciência e Tecnologia, a nossa preocupação é fazer com que os programas, tanto como internet nas escolas, o 5G, os laboratórios de inteligência artificial possam ser acessíveis nas escolas públicas do nosso país, porque as escolas privadas, Sr. Gehring, estão num patamar muito avançado. E não há problema nenhum, elas são pagas, só que escolas privadas e escolas públicas, no Brasil, geram uma desigualdade muito grande, elas mantêm o que nós chamamos de fosso sociológico no Brasil, que é o aprendizado das famílias mais pobres e das famílias mais ricas. Esse é um grande desafio que o Brasil precisa vencer na área da educação. Como eu disse, à medida que o Brasil vai envelhecendo... Porque nós hoje somos uma nação em que, em 2035, morrerão mais brasileiros do que vão nascer brasileiros, e a formação educacional do nosso país não nos dá tranquilidade futura de que nós teremos mão de obra suficiente para poder, até mesmo, pagar a nossa previdência social. É o mesmo problema, só que a Europa está num patamar de desenvolvimento muito superior ao nosso. Nós estamos enfrentando essa questão como em desenvolvimento ainda e vamos ter que, em 2035... Isto já é um debate aberto aqui: ou nós transformamos cada jovem brasileiro, cada menino e menina numa possibilidade de um investidor, de uma pessoa que possa ter conhecimento, ou o Brasil terá que também abrir-se para uma imigração em massa. A nossa legislação de imigração, por exemplo, já é muito facilitadora. Uma pessoa que viva seis meses no Brasil e que mostre interesse em permanecer em nosso país já recebe, de imediato, a possibilidade de um emprego. Nós recebemos, por exemplo, da Venezuela, quase 1 milhão de pessoas, de venezuelanos, que chegaram ao Brasil e que estão hoje inseridos no mercado de trabalho. Também recebemos do Haiti uma parcela significativa; alguns falam em 300 mil, outros em 350 mil haitianos que vivem no Brasil. A sociedade brasileira é muito aberta aos imigrantes. Nós aqui não temos diferenciação, como hoje a Alemanha é em receber a mão de obra externa. Mas os pontos principais são estes: a questão dos projetos de intercâmbio na educação, especialmente de inteligência artificial e internet acessível às escolas - uma ajuda seria muito importante - e essa questão de pesquisa para vacinas de doenças tropicais, para as quais o Governo brasileiro não tem recursos suficientes, mas nós poderíamos ser o centro, Dr. Becker, de desenvolvimento e, inclusive, cedermos ao mundo essas patentes públicas. |
| R | Vou ceder a palavra aqui ao Senador Jorge Seif. Eles já estão... Como o Dr. Gehring me disse que nós podemos ter uma conversa o quanto for necessária, nós estamos aqui trocando efetivamente as ideias. Deputado Jorge Seif. O SR. JORGE SEIF (Bloco Parlamentar Vanguarda/PL - SC) - Senador. O SR. PRESIDENTE (Carlos Viana. Bloco Parlamentar Juntos pelo Brasil/PODEMOS - MG) - Senador. Touching me a light. Perdão, Senador. O SR. JORGE SEIF (Bloco Parlamentar Vanguarda/PL - SC) - Senador Carlos Viana, uma boa-tarde para o senhor. Deputado Kai Gehring, sejam bem-vindos ao Brasil, ao Senado brasileiro, o senhor e toda a comitiva. Primeiramente, Senador Carlos, eu queria fazer uma contribuição: a Alemanha ajudou muito. Construiu importantes partes do nosso Brasil. Para que o senhor tenha ideia, alguns dados que nós temos: 100 mil imigrantes alemães, na Segunda Guerra, vieram para o nosso país, e hoje já contam com mais de 5 milhões de descendentes alemães. A maioria, como a Ilana comentou, estão no Estado do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, sendo a maior colônia alemã hoje no Estado de Santa Catarina. Deputado Kai, não por um acaso, não por um acaso, Santa Catarina, hoje, dos 27 estados brasileiros, goza do maior índice de desenvolvimento humano, um dos estados onde mais se gera emprego, um com os maiores índices escolares, e eu tenho certeza de que não só os alemães, como italianos, austríacos, contribuíram muito para o nosso país, especialmente para o estado que eu represento, que é o Estado de Santa Catarina, onde temos Blumenau, fundada por uma alemão, Dr. Blumenau, e temos lá a tradicional Oktoberfest, a segunda maior Oktoberfest - a primeira maior fora da Alemanha, não é? -, e isso, para nós, é um motivo de muita honra e muito orgulho. Sobre os temas que nós comentamos aqui - queria até complementar para o Deputado Boginski a fala do Senador Carlos Viana -, o Brasil é muito aberto. Sempre recebeu muito os imigrantes porque nós somos uma nação de imigrantes - japoneses, italianos, alemães... - e, conforme o Senador Carlos Viana comentou, nós já recebemos aqui especialmente venezuelanos, nessa crise humanitária que vemos lá na Venezuela - no Haiti, depois do terremoto -, e até afegãos hoje vivem aqui, por conta lá da grande problemática de guerra civil e insurreições militares no Afeganistão. O que eu queria também complementar e contribuir, Deputado Carlos Viana... O SR. PRESIDENTE (Carlos Viana. Bloco Parlamentar Juntos pelo Brasil/PODEMOS - MG) - Senador. O SR. JORGE SEIF (Bloco Parlamentar Vanguarda/PL - SC) - Senador Carlos Viana... (Risos.) ... é que nós, aqui no Brasil, Deputado Kai, sabemos que é de grande importância a questão do meio ambiente. É uma preocupação que não é só da Alemanha, não é só do Brasil, é do mundo inteiro. Nós acompanhamos as revistas, Nature e outras publicações internacionais de cientistas, e, realmente, os problemas climáticos que o ser humano tem provocado podem promover uma série de catástrofes e várias extinções de animais no Brasil e no mundo. No entanto, é válido destacar que, além das informações que o Senador Carlos Viana trouxe de energia - que hoje é um grande problema por conta do petróleo -, o Brasil já faz o seu papel e é o líder mundial em produção hidrelétrica. |
| R | O senhor falou que é um dos maiores? Não. É o maior. Mesmo com Três Gargantas, na China, o Brasil, ainda com Itaipu e todas as demais hidrelétricas, nós somos os maiores produtores de energia limpa do mundo e expandindo agora para energia eólica, especialmente nos estados do Nordeste brasileiro, onde temos abundância de ventos, e também para fotovoltaica. Outra questão muito importante, Deputado Kai, Sras. e Srs. Deputados do Parlamento alemão: o Brasil hoje utiliza menos de 8% do seu território para alimentar mais de 1 bilhão de pessoas no mundo. Somos um dos grandes produtores mundiais de alimento. E isso é um dado importante, porque o que nós vemos aqui, muitas vezes, Deputado Boginski, é uma narrativa de que o Brasil está desmatando, de que o Brasil está queimando florestas, de que o Brasil isso e aquilo... No entanto, nós damos lição para o mundo. Além de preservar... Para o senhor ter ideia, Deputado Kai, em algumas regiões, 50% do território do produtor rural - 50%! - é exigência da nossa legislação que sejam preservados; na grande maioria, são 20%, em outros estados com maiores restrições ambientais. Então, o Brasil já é um modelo: além de preservar florestas, além de ter uma energia limpa, de produzir energia limpa, o que também é exemplo para o mundo... E nós precisamos muito da questão de vocês do Parlamento alemão para firmar finalmente o Acordo Mercosul-União Europeia, porque o que nós temos entendido - o que a população brasileira tem enxergado - é que, muito mais por protecionismo, por questões políticas, não se está assinando esse acordo, vindo com muitas restrições ambientais, que não são verdadeiras... Nenhum país do mundo produz alimento com tanta preservação como o Brasil. Não tenho dúvida, são estudos que existem no mundo inteiro. É lógico que temos problemas de queimadas, assim como o Canadá está perdendo grande parte das suas florestas, como vimos na Califórnia há pouco tempo. São problemas que realmente são pontuais, não são uma deliberação, não é falta de controle, não é uma bagunça, mas, sim, existe um cuidado muito especial dos brasileiros com a produção sustentável de alimentos. Por último, eu quero agradecer à Alemanha e também agradeço à Noruega, porque vocês são os maiores patrocinadores do fundo amazônico, o fundo de proteção à Amazônia, mas quero aproveitar e dar um alerta para os senhores. Fizemos algumas auditorias no Brasil, e desse dinheiro, desse recurso que vem de Alemanha e de Noruega praticamente 80% não estão significando ações de preservação ou de cuidados ou de políticas públicas, mas, sim, estão alimentando os executivos das ONGs, ou seja, ONGs se instalam do Brasil e recebem do Governo Federal, através dos recursos repassados por Alemanha e Noruega, e essas ONGs, em vez de gastarem realmente com pesquisa, com ajuda, com questões humanitárias ou com ações efetivas, consomem esse dinheiro para pagar seus executivos. Então, eu peço ajuda dos senhores para também nos ajudarem a fiscalizar o dinheiro do fundo amazônico, do qual os senhores são grandes contribuintes. Muito obrigado. Sejam bem-vindos ao Senado Federal. Contem com o Senador Jorge Seif. O SR. PRESIDENTE (Carlos Viana. Bloco Parlamentar Juntos pelo Brasil/PODEMOS - MG) - Obrigado, Jorge. O senhor gostaria de falar, Sr. Gehring? (Intervenção fora do microfone.) O SR. PRESIDENTE (Carlos Viana. Bloco Parlamentar Juntos pelo Brasil/PODEMOS - MG) - Respondendo aqui à Sra. Deputada Barbara Lenk, eu me esqueci de citar a questão da energia nuclear. Deputada, o Brasil tem três usinas nucleares, duas em funcionamento e uma terceira sendo construída. E os reatores são alemães, a tecnologia foi repassada pela Alemanha ao Brasil nos anos 70 e, de lá para cá, o Brasil desenvolveu as usinas - há uma terceira em construção - e desenvolveu... O Brasil tem um acordo. O Brasil não utiliza para bombas, nada. O Brasil tem acordos apenas na área militar. Tem o desenvolvimento de um grande programa naval de submarinos nucleares, que está já em fase final de execução. |
| R | Mas a energia nuclear responde em nosso país por menos de 3% do total gerado. Estão concentradas no Rio de Janeiro, as usinas estão lá em Angra dos Reis. E foi um acordo Brasil-Alemanha nos anos 70 que possibilitou o nosso país de ter acesso às pesquisas na área nuclear. Pois não, Deputado Kai. O SR. KAI GEHRING (Para expor. Tradução simultânea.) - Sim, muito obrigado. Eu gostaria, talvez, da nossa parte, de responder uma outra coisa e aí, já chegando ao final, agradecer esta discussão tão aberta e tão ativa, porque é isso que é a democracia. Primeiramente, a pesquisa climática internacional é muito clara sobre o papel da Amazônia: é o pulmão verde para o clima mundial. Por isso, para o Brasil, para a Alemanha, mas também para o mundo inteiro, é uma área muito importante. E, depois de anos com aumento de desmatamento, nós achamos muito importante que o novo Governo, o novo Presidente queira reduzir o desmatamento ilegal - é um grande desejo -, assim como todo país nesse mundo tem que fazer suas tarefas. Eu falei onde na Alemanha nós temos que descarbonizar para reduzirmos a nossas emissões de carbono. Cada país tem as suas tarefas, cada país tem que decidir a sua própria matriz energética. No final das contas, o importante é reduzir a produção de CO2. Nós estamos no meio de uma transição energética rápida, nós queremos aumentar muito as energias renováveis, temos mais áreas para energia eólica, ofensivas de energia solar no nosso Parlamento. Em meados dos anos 90, nós já desistimos do carvão - e a minha região, onde nasci, é uma área de carvão; nós estamos desistindo. Em 15 de abril, nós desistimos também da energia nuclear. A nova matriz energética da Alemanha vai ser energia renovável. E um país industrializado como a Alemanha também tem um grande potencial sobre eficiência energética, economia. Novas tecnologias que estão surgindo no nosso sistema científico vão ajudar a melhorar isso. Sobre as cooperações de pesquisa que já existem, eu estou muito feliz que todas elas foquem nos ODSs, nas metas globais de sustentabilidade, porque, além da crise climática, a questão da biodiversidade é um grande desafio. E o que vocês sugeriram aqui sobre pesquisa na área de saúde nós vamos trazer para o nosso debate interno também, porque, nos próximos meses, nós vamos rediscutir pesquisas de saúde no nosso debate doméstico. |
| R | Outra questão para nós: chances para todos são muito importantes. Por isso, em dezembro, como país da OECD, nós vamos receber os estudos comparativos do Pisa para entender o nosso sistema educacional. Nós já estamos contando com resultados não muito bons, por isso nós, assim como vocês, estamos pensando como é que nós podemos melhorar a qualidade, a formação dos professores, as grandes diferenças que existem nas diferentes regiões e também nas classes sociais. Isso é uma questão central também para nós, por isso achamos importante melhorar os potenciais e a educação no nosso país, mas, ao mesmo tempo, nós queremos abrir as portas para jovens talentos de outros países, porque nós temos boas experiências com migração no mercado de trabalho, com novos talentos. Nós acreditamos que isso vai nos trazer mais próximo ao futuro que nós queremos. Queremos ser um país industrializado, digitalizado, sem emissões climáticas, mas nós temos muito o que fazer, e o Brasil é um grande parceiro para nós, acho que muitos problemas podem ser resolvidos conjuntamente. Por isso, eu agradeço também, em nome de toda a minha delegação, por esse intercâmbio, minhas lembranças a todos os seus colegas da sua Comissão e vamos continuar cooperando. Muito obrigado. O SR. PRESIDENTE (Carlos Viana. Bloco Parlamentar Juntos pelo Brasil/PODEMOS - MG) - Só peço que não percam a qualidade das cervejas alemãs, por favor. (Risos.) O SR. KAI GEHRING (Tradução simultânea.) - Por que senão não vai ter Oktoberfest, não é? O SR. PRESIDENTE (Carlos Viana. Bloco Parlamentar Juntos pelo Brasil/PODEMOS - MG) - Obrigado. Eu quero dar ao Deputado Kai uma lembrança em nome do Senado brasileiro. Brasília é uma cidade planejada e vários artistas contribuíram para a arquitetura da cidade hoje no Brasil. Um deles, Athos Bulcão, é um artista brasileiro especializado em desenhos em azulejos, o que é uma tradição portuguesa, chegou ao Brasil da colonização. Eu espero que, com isso, possam, naturalmente, no Parlamento, ter lá a lembrança de que foram muito bem-vindos a este debate aqui, em nosso país. Muito obrigado. (Palmas.) O SR. KAI GEHRING (Tradução simultânea.) - Muito obrigado. Então, vamos só resolver o problema depois no aeroporto, mas muito, muito obrigado. E eu, da nossa parte, gostaria de dar um presente, um pequeno presente do Parlamento alemão. Falamos tanto sobre digitalização, mas, às vezes, a gente tem que pegar a caneta na mão, e essa é uma tecnologia que a gente vai conseguir fazer com essas canetas. O SR. PRESIDENTE (Carlos Viana. Bloco Parlamentar Juntos pelo Brasil/PODEMOS - MG) - Agradeço. Está encerrada esta sessão especial da Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado Federal. (Iniciada às 15 horas e 17 minutos, a reunião é encerrada às 16 horas e 29 minutos.) |

