Notas Taquigráficas
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| R | A SRA. PRESIDENTE (Lúcia Vânia. Bloco Parlamentar Democracia e Cidadania/PSB - GO) - Bom dia a todos e a todas aqui presentes. Havendo número regimental, declaro aberta a 45ª Reunião da Comissão de Educação, Cultura e Esporte, em conjunto com a 41ª Reunião da Comissão de Assuntos Sociais, da 4ª Sessão Legislativa Ordinária da 55ª Legislatura. A presente reunião atende os Requerimentos nºs 58, de 2018, da Comissão de Educação, de autoria do Senador Pedro Chaves, e nº 26, de 2018, da Comissão de Assuntos Sociais, de autoria da Senadora Marta Suplicy, para a realização de audiência pública destinada a debater o tema "Educar para a Paz: experiências internacionais e brasileiras". A audiência está inserida na programação da XI Semana de Valorização da Primeira Infância e Cultura da Paz. Informo que a audiência tem a cobertura da TV Senado, da Agência Senado, do Jornal do Senado e da Rádio Senado e contará com os serviços de interatividade com o cidadão Alô Senado, através do telefone 0800-612211, e e-Cidadania, por meio do portal www.senado.gov.br/ecidadania, que transmitirá ao vivo a presente reunião e possibilitará o recebimento de perguntas e comentários aos expositores via internet. Audiência Pública Interativa. Assunto/Finalidade: Debater o tema "Educar para a Paz: experiências internacionais e brasileiras". Observações: a audiência pública está inserida na programação da XI Semana de Valorização da Primeira Infância e Cultura da Paz. As palestras serão realizadas com tradução simultânea (Português, Inglês, Português); a audiência contará com o serviço de Língua Brasileira de Sinais (Libras) e será realizada em caráter interativo, através do portal e-Cidadania e do Alô Senado, como já foi colocado aqui. Anuncio os convidados: Joshua Sparrow, Jaqueline Wendland, Sandra Regina Rezende Garcia e Maria Clara Nassif. |
| R | O Sr. Joshua Sparrow é Psiquiatra formado pela Yale University especializado em criança e adolescente; Professor Associado de Psiquiatria na Harvard Medical School; Diretor do Brazelton Touchpoints Center na Divisão de Medicina do Desenvolvimento do Boston Children’s Hospital e Supervisor de Serviços de Psiquiatria Ambulatorial no Hospital Infantil de Boston. A Sra. Jaqueline Wendland é Psicóloga com Mestrado em Psicologia do Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS); Especialista e Doutora em Psicopatologia do Bebê pela Universidade Paris XIII e Livre Docente pela Universidade Paris Descartes (Paris V); Professora Titular de Psicopatologia da Perinatalidade, da Parentalidade e da Primeira Infância na Universidade Paris Descartes; membro do Grupo Internacional de Experts em Saúde e Desenvolvimento da Mãe, em Paris. A Sra. Sandra Regina Rezende Garcia é Mestre em Psicologia do Desenvolvimento Humano e Processos de Ensino e Aprendizagem; Pós-Graduanda em Neuroeducação; Pedagoga; Psicomotricista; Graduada em Modificabilidade Cognitiva Estrutural e Enriquecimento Instrumental. A Sra. Maria Clara Nassif é Graduada em Serviço Social pela Faculdade Paulista de Serviço Social; Graduada em Psicologia pelo Instituto Metodista de Ensino Superior; Especialista nos métodos Ramain e Dia-Log e Terapia de Troca e Desenvolvimento. Passo a palavra inicialmente à Presidente da Comissão de Assuntos Sociais, Senadora Marta Suplicy. A SRA. MARTA SUPLICY (Bloco Maioria/MDB - SP) - Bom dia a todos! Serei extremamente breve. Primeiro, quero parabenizar pela discussão do tema "Educar para a Paz: experiências internacionais e brasileiras" e, principalmente, pelo fato de seu foco ser a primeira infância, porque é exatamente na primeira infância que são desenvolvidas as emoções, os aspectos cognitivos e os instrumentos com os quais a criança vai contar para o resto da vida. Nós podemos debater esse tema e fazer esse aprofundamento. Aqui no Senado, isso é extremamente importante. Esta é uma outra Mesa. As Mesas estão se seguindo - acho que amanhã teremos outra - e, por esse aprofundamento que está sendo feito de forma tão cuidadosa, parabenizo todos que estão aqui participando, especialmente os nossos convidados estrangeiros, que fizeram a gentileza de aqui estarem presentes para subsidiar as nossas informações e os nossos conhecimentos. Muito obrigada a todos. A SRA. PRESIDENTE (Lúcia Vânia. Bloco Parlamentar Democracia e Cidadania/PSB - GO) - Agradeço à Senadora Marta Suplicy. Vamos ouvir inicialmente os convidados e, posteriormente, abriremos para o debate. Passo a palavra ao Psiquiatra Joshua Sparrow. V. Sa. dispõe de dez minutos. (Pausa.) Corrigindo: cada expositor terá o período de vinte minutos para sua exposição, pois, obviamente, o tema é complexo e é preciso um pouco mais de tempo. Com a palavra o Dr. Joshua. |
| R | O SR. JOSHUA SPARROW (Tradução simultânea.) - Eu gostaria de iniciar por agradecer à Comissão por nos trazer até aqui para esta importante palestra. Eu pensei que hoje eu iria focar na alegria, na excitação que estamos vendo crescer nos Estados Unidos por duas gerações, dois modelos de geração que se destinam a quebrar o ciclo de pobreza que começa no início da vida. Um exemplo disso é o início... Vocês podem estar familiarizados com dois modelos de gerações que são baseados no desenvolvimento precoce infantil ou da primeira infância, e nós sabemos que a intervenção funciona desde a idade precoce. Mas duas gerações incluem duas famílias nos Estados Unidos, que são três gerações nos Estados Unidos. Por exemplo, as famílias em que os avós estão tomando conta das crianças, porque os pais não podem, porque são viciados em drogas. Suporte a bebês e a crianças e também aos seus pais, e isso começa na gravidez. Por que duas gerações? Porque as crianças aprendem, em seu desenvolvimento aprendem com o ambiente dos seus pais. Nos Estados Unidos, nós temos um problema político. Nós estamos mais confortáveis ao investir os fundos públicos em bebês e crianças, e menos confortáveis em investir nos pais, mas você não pode apoiar o desenvolvimento infantil sem apoiar os pais. Por quê? Porque as escolas... Nós temos de investir nos pais porque eles são a maior capacidade que as crianças possuem para aprendizado e desenvolver a sua saúde, e a maneira com que fazemos isso representa uma grande mudança na maneira... É a participação da família que constrói habilidades. A nossa mentalidade muda quando temos os provedores de saúde pública, educadores e trabalhadores que trabalham juntos com essas crianças para criar forte relação de confiança com os pais. Até agora, para esses profissionais foi dado pouco ou nenhum treinamento, e eles tiveram de trabalhar com os pais. E muitas vezes os pais eram objeto do seu criticismo, e eles colocam a culpa nos pais também. Então, eu gostaria, primeiro, de fazer um argumento a favor desse modelo de gerações e olhar o berço de duas gerações pelos dutos da prisão e perguntar para quem esse sistema foi desenhado. Nesses sistemas humanos, todos os seus membros são colocados em seu lugar respectivo pelas forças que têm objetivos de certos resultados particulares. |
| R | Nos Estados Unidos, nós temos o maior número de encarceramentos no mundo: 716 para cada mil na população. A população americana é apenas 4,4% da população mundial, mas tem cerca de 22% da população carcerária do mundo inteiro. Então, esse é o modelo de duas gerações que nós temos. E chamo isso de modelo de duas gerações, porque ele começa no nascimento ou até antes. Eu queria apenas apontar que nesse sistema humano nós pensamos primeiro em prisioneiros, mas nós temos de pensar e olhar em quem mais está participando desse sistema, porque eles, juntos, compõem esse sistema. Nos Estados Unidos nós temos donos de prisões privadas, guardas e todo pessoal com poderosos sindicatos e toda uma indústria em volta disso. Eu não vou... Isso é muito mais do que as pessoas pensam sobre o incentivo financeiro que existe para manter as prisões sendo construídas, abertas e crescendo. Então, deve existir, para esse sistema continuar a sua existência, um suprimento contínuo de prisioneiros. Os prisioneiros têm de ficar lá o máximo possível e, quando eles saem, eles devem cometer novos crimes, para que eles voltem para alimentar esse sistema prisional faminto. Eu não vou entrar em detalhes, mas só para mostrar, existe toda uma economia construída em torno de manter esse sistema funcionando. No fim, simplesmente nos Estados Unidos o total anual, o custo total anual é US$182 bilhões todo ano. Quero mostrar para vocês o custo por Estado. Aqui vocês podem ver que vai de US$60 mil por prisioneiro por ano até 10 a 20 mil em apenas seis Estados. A maioria dos Estados vai entre US$20 e US$50 mil por ano por cada prisioneiro. É muito caro manter esse sistema para quem vota e para quem paga imposto, mas é extremamente lucrativo para todas as pessoas envolvidas nesse sistema que não são prisioneiros. Esse eslaide mostra a diferença entre o quanto nós gastamos todo ano por estudante no nosso jardim de infância e escolas de ensino médio comparado com quanto nós gastamos nos Estados Unidos para prisioneiros. E vocês podem ver que os pontos amarelos são os pontos para cada um dos Estados e dos custos por estudante por ano. Então, são cerca de US$10 mil por estudante por ano; no máximo US$10 mil por ano por estudante, mas aqui, nos azuis, vocês podem ver os prisioneiros. Já começa mais alto do que a maioria dos estudantes, e a maior parte do custo é de três a cinco vezes mais. E nós construímos um sistema que é desenhado para produzir exatamente esse resultado. Os sistemas são feitos, configurados para produzir os resultados que eles esperam. Para vocês que estão envolvidos e estão interessados em mudar sistemas, nós temos de olhar quais são as forças no sistema que mantêm esses sistemas como eles estão. Eu chamo isso de sistema de duas gerações, porque é o sistema de criação de crianças, do bem-estar das crianças, orfanatos... O sistema de dutos para as prisões. Os sistemas de orfanato e cuidados infantis não são considerados responsáveis por transformar essas crianças em adultos que podem pertencer às sociedades. Os sistemas prisionais não são responsabilizados pelos adultos que cometem crimes e que devem ser, depois, convertidos em cidadãos que cumprem a lei. Esses sistemas simplesmente existem para se perpetuarem. |
| R | Em adição a isso, os dois sistemas contam com o controle e o cumprimento das suas normas. Essas são maneiras particulares de se engajar com outras pessoas que têm resultados particulares. Em particular, eles levam à dependência. Em orfanatos que dependem de cumprimento e controle - e prisões também dependem disso -, você cria seres humanos que se tornam dependentes desses sistemas, sistemas que não são desenhados para construírem uma capacidade para funções independentes de crianças órfãs ou adultos que estão na prisão. Eles não vão ter capacidade de voltar para as suas comunidades e funcionar independentemente. E esses sistemas que contam com o poder autoritário para controlar o comportamento das pessoas vão criar membros desses sistemas que dependem do poder de outros para controlar a si mesmos. E isso é insustentável - nos Estados Unidos, pelo menos. Os sistemas humanos são construídos na base das funções do potencial humano e, mesmo assim, eles se tornam profecias autorrealizáveis. Quando as crianças abandonadas são consideradas sem cura, sem nenhum jeito, elas são mantidas dessa forma. Eles mantêm esses mesmo tratamento, e elas continuam reproduzindo esse comportamento. Eu já vi isso, ao longo dos anos - mais de 3 mil pacientes crianças -, como psiquiatra. E, quando adultos que cometeram crimes são considerados incuráveis, eles começam a acreditar nisso sobre eles mesmos e se comportam de acordo com isso. Uma das experiências mais importantes que os seres humanos parecem ter em qualquer cultura que eu já vi é o senso de pertencimento. E uma das coisas que os orfanatos, os cuidados infantis, as prisões e o sistema de duas gerações cria é a privação dessa sensação de pertencimento. Se você pertence a algum lugar, ao orfanato, ao grupo de pares de prisioneiros, o único lugar a que você vai pertencer de fato é a uma contrassociedade como gangues nas ruas, fazendo coisas erradas... Como nós sabemos, é ali que as pessoas vão quando não existem outras opções. Então, uma das coisas nos Estados Unidos que eu acho tão surpreendente é que nós temos ferramentas de gestão de negócios que ajudam na educação e em outros serviços sociais. Nós temos responsabilidade baseada em resultados e nós decidimos em que hospitais, em que escolas nós vamos atuar. O sistema prisional está completamente sem responsabilidade pelos seus resultados. Nós não temos nenhuma métrica que requeira que eles possam reduzir o tempo que as pessoas passam na prisão, reduzir o número de pessoas que eles soltam e que voltam à sociedade. Não há responsabilidade para essa métrica porque, no passado... Uma lei está circulando no Congresso pelo Presidente atual que está tentando revitalizar o sistema para reduzir as sentenças e colocar a habilitação, a mediação no espaço que possa reduzir o tempo de prisão. Mas estamos aqui para falar sobre algo mais eficiente do que isso que é a prevenção. Então, eu gostaria de indicar a vocês que, nos Estados Unidos, 95% dos prisioneiros acusados de crimes violentos apresentam um dano cerebral. Através de scanning de imagens, nós estabelecemos, sem dúvida, que experiências adversas na infância resultam nesses traumas na idade adulta, ou seja, os traumas na infância apresentam um risco maior de problemas mentais, e a maior parte deles tem a tendência maior de terminar preso. De fato, nos Estados Unidos, nós descobrimos que as crianças que são suspensas ou expulsas da pré-escola nas idades de três a seis anos, têm mais risco de falha ou abandonar o ensino médio, desemprego e outro tipo de prisão. |
| R | Similarmente, é importante mencionar que, nos Estados Unidos, a grande maioria daquelas crianças entre três a seis anos que são suspensas ou expulsas são crianças negras. Similarmente, no nosso sistema prisional, homens negros são desproporcionalmente representados não porque eles cometem mais crimes, mas porque eles estão presos desproporcionalmente. Há mais presos, mais acusados, e recebendo sentenças mais longas de forma desproporcional. Então, nós temos de perguntar: para quê esse sistema foi projetado? Quais os resultados que ele apresenta? Para responder isso, nós temos de olhar a história dos Estados Unidos, que sempre, perpetualmente, apresentou sistemas como esse. Não há balas de prata, e eu sei, de minha conversa com membros do Congresso dos Estados Unidos, que não há soluções simples e baratas. E esse é o motivo por que nós temos de focar no começo da vida, porque os cérebros saudáveis proporcionam um comportamento saudável nos primeiros três anos. Portanto, a boa notícia é que essa fase é muito crítica para o sucesso. A coisa complicada é que não há um único investimento, porque o desenvolvimento do cérebro depende de uma grande gama de fatores no ambiente humano. Esse é o momento em que o cérebro humano é mais vulnerável na nossa época, mas também que tem mais potencial. Então, temos de desenvolver melhor os cérebros nos três anos de idade iniciais. Temos de observar o ambiente, a água, o alimento a que eles estarão expostos e os desafios que as mães enfrentam, que produz estresse maternal, e o desenvolvimento do cérebro dos fetos é afetado antes que eles nasçam, por causa da experiência das mães. Mas é importante não exagerar nos primeiros três anos, porque nós podemos empurrar os bebês penhasco abaixo. Não importa o quanto os seus cérebros sejam bem desenvolvidos nesses três primeiros anos. Eu gostaria de rapidamente focar a promessa de intervenção para fortalecer as comunidades. Isso vem do modelo que veio da administração Obama, baseada no centro onde eu estive por 12 anos preparando para que se tornasse modelo para intervenções em todo o País. Eu gostaria de focar essa intervenção cívica no condado de Santa Clara, na Califórnia, porque acho que é um bom exemplo. Há uma ampla explicação do sistema, que é focado nas duas gerações, para que eles possam ser melhores cuidadores para as crianças. |
| R | Para iniciar, eu gostaria de mencionar esse trabalho. Um bebê nasceu em uma família exposta à metanfetamina, que era uma droga dos anos... Em 2007, havia uma epidemia de opioides. Mas, em grande parte da pesquisa, vemos que os problemas e as soluções são semelhantes. O que a pesquisa mostra é que a coisa mais importante que podemos fazer para os bebês expostos é proteger a qualidade da relação humana que eles experienciam nas suas três primeiras fases da vida, nos três primeiros anos da vida. O cérebro humano pode ser mais bem suportado com os pais sendo os melhores cuidadores. Mas, em muitos casos nos Estados Unidos, em muitos Estados, nós temos uma abordagem punitiva. Então, os bebês são removidos sistematicamente de seus pais em casos de drogas, muito embora nós saibamos que uma família postiça não é equipada para fornecer o cuidado de que os bebês precisam nos três primeiros anos. Há muitas palavras no eslaide, mas eu gostaria apenas de mostrar a vocês o quão abrangente esse tipo de trabalho precisa ser. Esse projeto foi, de fato, aprovado por uma das varas de família com que nós trabalhamos. A coisa importante para se entender é que o desenvolvimento humano depende de muitos aspectos em nosso ambiente. Quando um pai tem problema com drogas, todos aqueles resultados são afetados, não apenas a mente, o corpo, os relacionamentos com os parentes, com seus parceiros, com a família. Eles podem perder sua casa e seu carro e ter um registro criminal. Então, se você vai quebrar o círculo de pobreza e de violência que vem sendo transmitido por várias gerações, essa não é a solução. Nós temos que fazer uma intervenção nos cérebros dessas comunidades para descobrir o que está sendo destruído pelo abuso de drogas. |
| R | A coisa mais eficiente sobre esse projeto na Califórnia foi que, embora houvesse 60 agências diferentes em um condado, em determinado momento, envolvidas com essas famílias - para qualquer família, pode haver entre 8 e 12 agências trabalhando com elas -, o trabalho foi centralizado nos tribunais, nas varas, que ensinaram a eles como criar relações de confiança fortes com os pais. Eles mudaram o nome do tribunal. Lá está escrito Tribunal da Droga, e foi mudado o nome para Tribunal de Bem-Estar da Família; essa é uma mudança radical. Eles falaram com todos os provedores de serviços, mas eles viram que, mesmo com menores ofensas criminais, eles foram removidos da sua ficha criminal. Eles perguntam: "Vocês têm tatuagens que têm relação com alguma gangue ou com alguma coisa do tipo?" Fazem isso para que eles possam depois voltar à força de trabalho. Você poderia ajudá-los a passar por toda a lista de espera, com a papelada, para conseguirem os tratamentos de que eles precisam. As cortes tiveram o poder, na organização, para trazer juntos todos esses serviços que eram necessários. Não vou entrar nos detalhes, quero só fazer uma abordagem geral. Mas eu gostaria de mencionar três coisas, por fim. Uma delas é a exposição das mães de bebês nascidos no meio das drogas. A grande maioria dessas mães já veio do sistema de orfanatos, teve experiências de falta de lar e de grande pobreza. Esse é um sistema que está repleto de traumas. Então, as mães estão transmitindo suas experiências - e elas não tiveram ajuda para superá-las - para a próxima geração. Outro ponto desse programa que gosto de mencionar é que ele foi muito bem-sucedido ao apoiar os pais para manterem seus bebês em casa, para que eles retornassem dos cuidados do Governo, o mais rápido possível, para o lar. Os resultados mostram a economia de dólares americanos, que era muito maior que o custo de todo o programa. Esse programa já se paga por si mesmo. Isso explica tudo aos contribuintes e aos fazedores de políticas. O que foi dito por uma juíza nesses tribunais? Esses tribunais ficam mais endurecidos e não se importam mais, porque o seu trabalho é muito duro. Mas o que ela disse a um grupo de 200 assistentes sociais? "Eu aprendi que, nesse sistema, existe trauma em todo lugar e que esse sistema reproduz o trauma. Então, agora, quando estou prestes a educar uma mãe, quando estou na tribuna e quando a mãe está lá embaixo, eu desço para falar com ela." Isso não é o que os juízes fazem normalmente nos Estados Unidos, mas ela abre seus braços e abraça a mãe, como se dissesse: "Eu não vou traumatizar você novamente. Eu estou aqui para ajudá-la. Eu tenho esperança no seu potencial em criar o seu filho". |
| R | Muito obrigado. (Palmas.) A SRA. PRESIDENTE (Lúcia Vânia. Bloco Parlamentar Democracia e Cidadania/PSB - GO) - Agradeço ao Prof. Joshua e passo a palavra à psicóloga Jaqueline Wendland. A SRA. JAQUELINE WENDLAND - Bom dia a todos. Estou muito feliz de estar aqui todos os anos com a Comissão e de, este ano, ter a oportunidade de participar de novo dessa audiência pública. Este ano, eu vou falar de um tema que ainda não foi abordado e que eu mesma, enfim, é a primeira vez que estou abordando em uma conferência pública, que é o tema das mães em tempos de guerra, de miséria, de migração. É um tema extremamente atual e, eu diria, global: o mundo todo está enfrentando uma crise muito grande com migrações e com guerras generalizadas, extrema violência, extrema pobreza, extrema miséria. E eu vou focar a minha apresentação mais nas mães, nas futuras mães, porque a gente está trabalhando aqui com a primeira infância. Então, não vai ser em geral a questão da migração, que é uma questão bem mais ampla. Só para situar, primeiro, acho importante a gente definir o que são os migrantes, os exilados, os refugiados e os asilados políticos, porque às vezes a gente coloca tudo isso no mesmo saco, como se diz, no mesmo cesto. O migrante - é uma definição mais ampla - é uma pessoa que se desloca, em geral de forma voluntária, do seu país de origem para outro, com a intenção de se estabelecer por um certo tempo, principalmente por razões econômicas ou em busca de uma vida melhor. Já o refugiado é uma pessoa que deixou seu país e que vai ser protegido em virtude de perseguições; uma pessoa que vai, enfim, buscar refúgio porque foi perseguida por motivos de raça, de religião, de nacionalidade, de opinião política. E hoje em dia o refúgio é procurado principalmente em razão de conflitos armados, de violência generalizada, de violação massiva dos direitos humanos. Os exilados são pessoas que também deixaram seu país por razões de perseguição; que foram obrigadas a deixar seu país. E o asilado político é uma pessoa que também foi perseguida, mas por motivos políticos expressamente. Então, qual é a situação hoje em dia? Estes são dados da ONU: 258 milhões de pessoas são consideradas migrantes, em 2017, 3,4% da população mundial. E, o que é interessante, mais ou menos a metade, 48% são mulheres, ou seja, potencialmente mães ou mulheres grávidas. Em 2015, havia cerca de 1,8 milhão de pessoas migrantes no Brasil; e, em 2016, foram recebidos 126 mil migrantes no Brasil. |
| R | É interessante ver também que a maioria dos migrantes, na verdade, buscam refúgios nos países vizinhos, porque não têm condições de ir muito longe. E na verdade os que migram mais para longe são os que têm o melhor nível de vida já, que têm condições de pagar a travessia, como se diz lá na Europa, pagar a travessia para os outros países do Mediterrâneo. Então, muitos irão simplesmente para países vizinhos. Segundo o Alto Comissariado dos Refugiados da ONU, em 2015, somente 37% se dirigem para um país desenvolvido, ou seja, não é a maioria que vai para um país desenvolvido. Das pessoas que atravessam - estou colocando mais a situação europeia, que é a que eu mais conheço, morando há 24 anos na França -, essas pessoas que têm esse percurso migratório, eu coloquei aqui algumas características. Elas são pessoas cuja primeira coisa que perdem são os parâmetros de referência. Elas chegam, em geral, em um mundo desconhecido, incontrolável, cujas regras elas não conhecem. É como se você entrasse em um jogo cujas regras você não conhece. Elas são muito desorientadas. E, claro, há muita solidão, depressão, luto, retraimento social - são pessoas que às vezes não ousam pedir ajuda também. Elas têm às vezes essa impressão de estar num entremeio, entre duas, porque elas não estão na casa delas, não estão no país próprio, mas também não estão num outro país; elas não têm reconhecimento, porque não existem nesse país para onde elas migraram. Também há esse sentimento de estranheza, de despersonalização. Às vezes elas se perguntam: "Quem sou eu? Onde estou?". Enfim, como elas não têm existência legal, há um sentimento de despersonalização. Também há o estresse pós-traumático, é óbvio. Todas essas pessoas viveram estresse extremamente importante, com perda de memória, com flashbacks, e muitas sofreram extrema violência. Sobreviver à travessia em si já é um trauma muito importante: elas atravessaram deserto, mar, montanha, floresta; viveram fome, sede, guerra; violência dos passadores, essas pessoas que as ajudam a passar pelas fronteiras; violência da polícia também; abuso financeiro, porque elas são obrigadas a pagar bastante caro nessa passagem; foram às vezes violentadas, estupradas; trabalho escravo para poder atravessar; viveram naufrágios. Enfim, tudo que é desgraça possível essas pessoas viveram. Então, essas pessoas, quando vão chegar ao país de acolhimento, estão em uma situação de extrema precariedade, na verdade; precariedade não só financeira, material, mas também de segurança física. Há muita violência nos campos de migrantes e violência também da polícia, como acabei de dizer. Há a questão administrativa, porque são pessoas que não sabem quais são os procedimentos para poder obter um visto. Elas vivem na clandestinidade. Também fisicamente, muitas vezes, elas estão feridas e com a saúde em risco; sofreram contaminações, doenças, desnutrição durante esse período. E também há uma precariedade, como a gente diz, linguística, que é a barreira da língua, que impede você de se comunicar corretamente no país de acolhimento. |
| R | Então, se a gente se refere a essa pirâmide de Maslow, que é bem conhecida sobre as necessidades da pessoa, a gente pode ver que a migração, na verdade, representa muitas necessidades vitais em perigo. Essa pirâmide vai de baixo para cima, tudo o que está mais embaixo é o mais básico, o mais necessário, e o que está na ponta é o que é menos necessário. Enfim, as pessoas migrantes têm problemas em todos esses andares da pirâmide. Podemos dizer que essas pessoas são sem teto, sem direito e sem existência. Muitos dizem... Na França, são presos do lado de fora, porque estão excluídos do laço social. Também há essa questão: "Será que os migrantes são terroristas, são criminosos?". Na sua imensa maioria, não são terroristas, não são criminosos. Na verdade, são as primeiras vítimas do terrorismo, do radicalismo, das guerras. E essa é a principal razão pela qual eles fugiram, tiveram que sair do seu país. Ninguém migra de maneira voluntária. "Vou fazer a minha vida em outro lugar". Claro, algumas pessoas por razões econômicas, mas muitos dos que estão vindo vêm porque não têm mais condições de vida no seu país e foram vítimas do terrorismo eles próprios. Aí a gente vai ver que essas pessoas finalmente vão se encontrar numa situação que a gente diz extremamente destruidora para o ser humano, ou seja, uma situação onde vão se conjugar os sentimentos de impotência, de não poder fazer grande coisa, de passividade, que não podem ser ativas, e também a ameaça real de morte. É uma experiência extremamente parecida a de um campo de concentração. É impotente, passivo e ameaçado de morte. Qual é a situação das mães, sobretudo das grávidas migrantes que eu recebo no serviço onde trabalho? São pessoas que estão numa situação de extrema vulnerabilidade, com muita insegurança, higiene precária, risco elevado de abuso, de violência, que vão lutar cotidianamente para sobreviver, procurando um teto para se proteger e alimentar seus filhos. São consideradas também muitas vezes irresponsáveis por terem um filho nessas condições. "Ainda mais grávida, o que é isso? Como fez um filho não tendo o que comer?". Enfim, há muito preconceito contra a mães em particular, até mais do que contra os homens. Claro, para essas mães, ter um bebê representa uma esperança, é uma projeção no futuro, é uma nova vida, mas também pode gerar muita culpa, porque elas se perguntam: "Será que o meu filho vai suportar essa vida?". Porque elas vão colocar o filho numa condição extremamente precária. Será que o filho vai perdoar, será que elas vão ser boas mães nesse contexto? Há um acúmulo de vulnerabilidade, porque há essa precariedade, há traumas e mais uma gravidez. E gravidez já é um período de vulnerabilidade para qualquer mulher. Então, o bebê pode ser um salvador, como eu disse, uma esperança, talvez para obter direitos, assistência, uma regularização. Às vezes, há uma inversão de papéis, o bebê dá à luz a mãe. Na verdade, o bebê que traz a mãe ao mundo no final das contas. E é também uma razão para viver, é óbvio. Muitas mulheres dizem: "Ainda bem, se eu não tivesse um filho eu já teria me suicidado, não estaria aqui". Elas podem fabricar vida, ou seja, é um movimento em direção da vida. E também a questão da maternidade que é inclusiva. Porque, quando essas mulheres são acolhidas, elas vão passar pela maternidade como as outras. Então, é uma questão de inclusão. Elas vão participar de uma certa maneira da vida das pessoas que têm direitos, as pessoas ordinárias do país. |
| R | E o bebê também pode ser um objeto estranho fora do seu contexto. Porque, como essas mães não estão tendo filho no contexto habitual, cultural delas, esse bebê pode ser estranho, pode ser até perseguidor, porque incomoda. Elas são muito pouco pacientes com o choro, a criança perturba e às vezes se torna um fardo. Então, há esses dois lados: o bebê salvador e o bebê fardo. E claro elas têm sempre a questão do medo de perder o direito de ficar com o filho. Elas dizem inclusive que vão se matar se o serviço social retirar o filho. Quando elas estão grávidas, a situação é bastante complicada. Uma primeira questão é: "Será que essa gravidez é resultado de uma escolha? Será que é uma gravidez voluntária ou não?". Porque muitas vezes elas estão grávidas do passador, de homens que as atacaram durante esse percurso migratório. Quem é o pai? A questão do pai é sempre complicada. Muitas vezes ele é ausente, desconhecido, é um migrante também. Às vezes o casal é separado porque o serviço de acolhimento manda os homens para um lado e as mulheres para o outro, às vezes em cidades diferentes. Então, o casal se perde. Esse é um fato que vem complicar bastante a situação dessas mães. E também são mães que muitas vezes vão se esconder. Aí essa gravidez vem se impor de uma certa maneira, o corpo elas não podem esconder. Então a gente se pergunta como elas vivem essa gravidez. Pode ser como um escudo, ou seja: "Eles não podem me expulsar porque eu estou grávida". E vão impor finalmente cuidados à sociedade porque estão grávidas. Outra questão importante são os fatores de risco perinatal. Eu não vou entrar em todos esses detalhes, mas é óbvio que uma mãe que não está sendo seguida, cuidada durante o pré-natal, é uma pessoa que vai apresentar muitos fatores de risco perinatal, prematuridade, criança de baixo peso, risco de cesariana, anomalias congenitais, depressão. E a gente pode dizer que esses bebês - ontem se falou no estresse tóxico, enfim, influências sobre o feto - são crianças que já vão nascer vítimas de um estresse tóxico massivo durante a gravidez e no pós-natal. Enfim, quando elas são cuidadas nos hospitais, o que a gente vê lá na França, por exemplo, é que elas vivem de uma maneira difícil, sofrida. Por exemplo, quanto à ecografia, muitas dessas mães que vêm de países muçulmanos, da África ou da Ásia não querem fazer a ecografia, porque normalmente há coisas que não se deve ver, o que está no interior do corpo é visto como algo bastante intrusivo. A gravidez é muito medicalizada - na França, há muitos exames -, e as práticas culturais são postas de lado. Isso é uma coisa que é vivida com uma certa violência. Muitas vezes, também, nos países de origem, a gravidez é anunciada de maneira mais tardia, não se deve dizer que se está grávida. Elas vão dizer que estão grávidas já com seis, sete meses, quando já não há mais como esconder, porque há essa ideia do mau olhar. Se você diz muito cedo que está grávida, causa inveja e pode haver um impacto negativo. |
| R | Então, elas vão viver muitos desses cuidados médicos de uma maneira intrusiva. Por exemplo, a preparação para o parto é muito difícil, porque elas não querem ouvir falar de como é que vai ser o parto, enfim, são coisas que podem reativar os traumas, o cuidado do corpo, tocar. São mães que, às vezes, não se deixam tocar, não se deixam examinar. O que a gente, os cuidadores veem é que são corpos muitas vezes marcados pelo sofrimento, pela violência que viveram. E também, às vezes, a gente vai descobrir, durante a gravidez, que elas foram contaminadas por doenças sexualmente transmissíveis, por HIV. Então, o que se deve fazer? Essas mães, às vezes, também não dizem que estão sofrendo, não dizem, não admitem, por exemplo, que estão com depressão, que não conseguem dormir, que não comem. E, às vezes, fica até difícil de saber como dar ajuda para essas mães. E a questão principal, então, é a questão dessa segurança emocional que é extremamente importante, quando a gente vai acolher um bebê. E essa segurança não pode existir se não há segurança física, material, emocional. Com isso, questiona-se a questão da disponibilidade para cuidar do filho. E aí há esse esquema que a gente chama de gangorra entre o apego da mãe e o sistema de caregiving, que é o sistema de cuidados. Essas mães vivem uma competição entre o próprio sistema de apego delas... Quando o sistema de apego delas está ativado, elas têm que responder às suas próprias necessidades. E, nesse sistema, quando um está ativado, o outro não pode funcionar. E há o sistema de caregiving quando o adulto dá prioridade para as necessidades da criança. Uma outra questão também que se vê é a ausência da avó, de que elas se queixam bastante, a ausência desse envelope materno com a perda dos saberes, da confiança. Muitas vezes elas dizem que não vão poder bem cuidar do filho, porque não têm essa transmissão da avó materna. E uma outra problemática também é que, às vezes, essas mães têm outros filhos, mas que ficaram no país de origem. E elas, às vezes, nunca mais vão ver esses filhos. Imaginem o que deve ser isso na cabeça de uma mulher que deixou filhos longe que jamais irão rever. (Soa a campainha.) |
| R | E as crianças que vão nascer no país de acolhimento também não têm existência legal, porque, às vezes, podem nascer, e não vão ter identidade, não vão estar registradas; é uma situação extremamente complicada. E há países - e, por exemplo, a gente pode citar o Iraque, o Afeganistão, os palestinos também - em que há gerações inteiras de crianças agora que nunca conheceram a paz, nunca conheceram segurança e todas as famílias, na verdade, têm alguma pessoa ferida, morta ou presa, ou seja, são gerações de crianças que estão nascendo numa situação extremamente precária. Então, como é que se faz? Eu descrevi um quadro bastante negro, como se diz, bastante alarmante, terrível. O que se pode fazer? E essas imagens de mão é o que me vêm sempre ao espírito, quando eu penso nisso. Temos que dar a mão para essas pessoas que estão no chão, que estão realmente... A gente tem que as levantar, dando a mão para acompanhar esse percurso. E a ideia é a de que o cuidador da primeira infância vai ser como uma terra firme para pessoas que estão à deriva, que estão em uma situação de errância, um porto seguro. E, é claro, é um acolhimento que tem que ser incondicional, ou seja, integral, também com cuidados para não perpetuar essa cadeia de trauma, violência, carência. Então, vou só mostrar algumas imagens que são do serviço em que trabalho, que é uma unidade de primeira infância e parentalidade em que nós recebemos essas mães de maneira gratuita e incondicional, ou seja, mesmo pessoas que não têm papéis - e é uma coisa rara isso - têm o direito de receber os mesmos cuidados que mães que estão em situação regular, podem receber cuidados. Nós vamos, às vezes, buscá-las nas ruas, porque, às vezes, são romenos, são, enfim, pessoas que, às vezes, são nômades, pessoas que nunca tiveram casa na verdade; nós vamos buscá-las fora, e a gente atende. Temos também todo um trabalho de valorização da língua de origem, porque muitas vezes elas imaginam que não devem mais falar sua própria língua com as crianças, porque acham que a criança não vai se adaptar à vida na França. Então, elas que não falam direito francês vão falar uma língua na qual elas não se exprimem muito bem e, na verdade, isso aí é uma maneira até de criar mais carência nessas crianças, que não vão aprender nem a língua materna nem a língua do país de maneira correta. Então, o que a gente faz com elas é que elas devem falar a língua materna, devem transmitir a sua língua materna e o francês vão aprender na escola de qualquer jeito, pouco importa. Não há pressa para falar francês. E também só mostro algumas imagens. A gente criou... Em Paris, há algumas redes de cuidados para essas mães em situação de migração, de precariedade. E a ideia é adaptar os dispositivos - bom dia! - de cuidados para essas mães que muitas vezes nem conhecem, por exemplo, o que é um psicólogo e que não imaginam, por exemplo, que possa haver cuidados psicológicos durante a gravidez ou durante esse período da primeira infância. Muitas vezes, nos países, não existe nem psicólogo, nem psiquiatra, e elas ficam com desconfiança com relação a esse tipo de serviço. |
| R | Enfim, vou terminando também, falando de grupos que a gente criou e chamamos de grupos de comadres, grupos de avós, grupos de pessoas da comunidade dessas mães, com a ideia de relembrar os rituais, as crenças, as cantigas infantis que essas mães muitas vezes esqueceram. Elas não conseguem, por exemplo, cantar as canções de ninar para os bebês porque estão fora do contexto delas, da vida habitual; então, elas perdem todo esse rito de passagem da parentalidade, que fica muito empobrecido pela migração. É como tricotar novamente esse ninho, esse berço cultural que elas perderam, para que coloquem o filho nesse berço. A gente fala muito, também, das práticas culturais, enfim. E a gente usa, por exemplo, a preparação para o parto com intérprete; e elas podem trazer uma pessoa da comunidade, quando não têm a mãe, o marido - o pai às vezes não está lá também. Então, elas podem ser acompanhadas durante o parto por uma pessoa da sua cultura. A gente usa também técnicas de relaxamento, de mindfulness, que podem ajudar essas pessoas a evacuar um pouco o trauma que elas viveram, porque isso também é importante. Só para terminar, os profissionais... Porque nós estamos aqui fazendo formação, de uma certa maneira, para os profissionais que vão acolher essas pessoas. Então, é muito difícil, eu posso dizer isso, trabalhar com essa população. Isso necessita de bastante treinamento, bastante supervisão. Eu faço muita supervisão de profissionais nessa área, porque é difícil de acolher esses relatos de grande violência, de miséria humana extrema. Quando você ouve isso, você não dorme depois, de noite. E o cuidador pode se sentir muito impotente, inútil. Às vezes, eu vejo, as enfermeiras dizem: "Não serve para nada; essa situação é desesperada! Não tem mais solução, não tem o que fazer". Então, elas podem, às vezes, até se desligar emocionalmente, para se proteger; ou seja, colocam as emoções de lado para nem pensar mais em termos de emoção. Trabalha-se muito em equipe. Há uma reflexão ética também. Devemos pensar eticamente as nossas práticas, porque a gente pode ter muito preconceito, querer impor a nossa maneira de pensar para essas mães, aí a gente acaba perdendo o contato com elas. Na verdade, a gente aprende muito com essas pessoas diferentes que vêm de outro meio. Aprendemos muito também sobre nós como seres humanos. É isso aí. Obrigada. (Palmas.) O SR. PRESIDENTE (Pedro Chaves. Bloco Moderador/PRB - MS) - Srs. Senadores e convidados, nosso bom dia. Eu gostaria de convidar agora a Mestre em Psicologia, Sra. Sandra Regina Rezende Garcia, para fazer uso da palavra. Peço que se atenha ao tempo de 20 minutos, para que possamos, na verdade, fluir melhor depois, até nos questionamentos. |
| R | Obrigado. A SRA. SANDRA REGINA REZENDE GARCIA - Bom dia a todos. Eu me sinto muito honrada de fazer parte dessa assembleia. Embora eu tenha feito meu Mestrado na área da Psicologia do Desenvolvimento, a minha experiência e a minha trajetória toda vem da Educação. Eu trabalhei bastante com a educação infantil e crianças da primeira infância. Acho que isso despertou um sentimento de muita necessidade e curiosidade para que pudéssemos ajudar também os adultos, ou seja, os professores e a família, esses adultos que estão em torno dessa criança. Eu venho compartilhar com vocês uma experiência de um projeto que a gente tem feito há bastante tempo aqui no Brasil e hoje estamos indo para outra área também, que trabalha muito com a violência e a doença, a dependência química, enfim. Então, eu queria dizer para você, Jaqueline, que você com a sua apresentação mexeu emocionalmente conosco que somos mães. Pensamos como já é difícil, nesse tempo, uma maternidade, quando em ambientes relativamente mais tranquilos, como já é uma missão muito difícil, imagine para essas pessoas ali. Parabéns, Jaqueline. E conte conosco para aquilo que você precisar. Eu quero começar... É um pouco estranho uma educadora vindo da área da Educação começar com uma apresentação trazendo um economista. Creio de hoje, de ontem para cá, a gente tem ouvido muito sobre essa questão do investimento em termos financeiros. E eu quero aproveitar para trazer também o investimento em termos emocionais. A gente tem ouvido muito, visto e lido bastante sobre essa questão de quanto temos investido e o que poderíamos fazer preventivamente, para evitar que na verdade esse sistema se reproduza. Aí trazemos James Heckman, que fez uma pesquisa muito importante mostrando que o quanto a gente investe nessa primeira infância definirá o que teremos de economia, no futuro, lá na frente, tanto financeira quanto de investimento emocional. Claro que também vamos fechando todas essas pesquisas que temos ouvido e observado o quanto a qualidade daquilo que se faz é importante nessa primeira infância, para ter essa reprodução na sociedade, no sistema, em relação à saúde, a evitar a questão das drogas, a pensar numa pessoa feliz com um emprego bem-sucedido. Ainda numa linha de pensar esse sujeito integral, ou esse sujeito que é constituído de razão e emoção, devemos trazer a importância desse investimento no que se refere também ao desenvolvimento cognitivo. Aí eu queria também trazer um pouquinho para cá pesquisas, dados e evidências que mostram a importância desses dois aspectos serem considerados desde o início dessa primeira infância. Pensando nisso, a gente faz uma pergunta: o que a gente quer para o nosso futuro, para as nossas crianças? Essa pergunta eu estendo para os nossos profissionais, para os nossos professores, enfim, num tempo em que a gente vê mudanças acontecendo na educação, no que se refere à Base Nacional Comum Curricular, vindo trazer essa necessidade, a gente tem que se fazer esta pergunta: o que a gente quer para o nosso futuro? Nós queremos pessoas mais inteligentes ou nós queremos, na verdade, pessoas que executem? E aí eu trago muito rapidamente essa questão das funções executivas e num espírito de muita esperança. |
| R | O que eu quero dizer como esperança? Claro que na minha mesa eu tenho psiquiatras, psicólogos, pessoas muito ligadas a esses estudos referentes ao desenvolvimento do ser humano, mas, quando a gente revela, escancara, traz à tona isso, fica muito mais fácil para que isso chegue no nível de compreensão desses sujeitos que estão no processo, ou seja, os professores, as lideranças, até a própria família. Quando a gente traz esse conceito de que essas funções executivas, porque é isso que vai dar conta, sim, de ter sujeitos mais ativos, atores do processo, a gente precisa trazer a esperança de que o nosso cérebro é, sim, uma máquina de aprender. Eu acredito nisso, acreditamos na teoria da modificabilidade. A gente acredita que nós seres humanos podemos, sim, ficar mais inteligentes a cada dia. Então, esse é o pressuposto teórico que fundamenta aquilo que a gente faz e o projeto que eu vou apresentar para vocês. Eu fico muito feliz quando a gente olha esses estudiosos e eles mostram para a gente que esse ciclo maturacional não está concluído tão rapidamente assim. A gente tem esperança de estarmos na educação e termos as nossas crianças, os nossos jovens com um ciclo maturacional que vai até os 25, 21 anos. Eu sempre brinco que em nós mulheres o nosso ciclo maturacional fica pronto antes dos homens, dos meninos. Isso nos enche de muita esperança de que, sabendo desse ciclo maturacional que é ainda a esperança da mudança, da modificabilidade, sabendo que, se a gente tem acesso a experiências completas e simbólicas, isso amplia as redes neurais, a gente precisa, sim, buscar intervenções - foi uma palavra bastante usada nesse evento -, intervenções que sejam planejadas e que façam, sim, a diferença nesse desenvolvimento tanto cognitivo quanto emocional. Uma imagem do cérebro. Eu gosto de trazer essa imagem para a gente lembrar também que essa nossa área do frontal, essa área onde ficam as funções executivas, onde a gente tem possibilidade ainda do ciclo maturacional estendido, também está muito ligada ao sistema límbico, e o sistema límbico é onde ficam as emoções. Então, não dá para dissociar, quando a gente fala de desenvolvimento integral, trazer essas duas áreas ou esse cérebro e essas funções. É claro que a gente faz uma pergunta: então, nesse contexto, quando a gente escuta experiências - a gente ouviu o Dr. Joshua falando bastante dessa questão das experiências do desenvolvimento, quando a gente fala dos sistemas prisionais. Enfim, nós temos de lembrar que esta sociedade é constituída desses diferentes sujeitos. O que é mais importante a gente fortalecer: a razão ou a emoção? E aí a gente tem um programa, que entra, claro, na educação, estruturado dentro de um currículo, e que faz um trabalho de 50 minutos dentro de um contexto para se trabalhar essas habilidades cognitivas, sociais, emocionais e éticas. Esse currículo atende as crianças de quatro anos até os adultos, em ensino médio, e claro que os nossos conteúdos trabalham especificamente com essas funções executivas e com essas habilidades emocionais. |
| R | É um programa que tem como base de estrutura esses eixos de tudo aquilo que a gente vem falando até agora. Ele prima pelo desenvolvimento dos aspectos emocionais, mas ele traz também os aspectos razão e emoção. Não se dissociam, e a gente pensa nesse ser humano desse jeito integral. Quando a gente pensa nesses pilares da metodologia - e aí eu vou falar um pouquinho por que é o lúdico trazendo de uma forma bastante revelada as emoções -, trabalha com jogos, trabalha com ícones, com métodos metacognitivos, e a gente tem essa figura desse mediador, que é esse professor. Enfim, intervenções que usam o jogo para promover esse espaço de trocas e reflexões. Quando a gente escuta essas experiências tão doloridas, e o trabalho que a gente vem ouvindo desde ontem que tem sido feito, o jogo é lúdico, ele provoca essa interação social por meio do brincar - e a gente tem muitos estudos mostrando que você faz um discurso indireto, então você trata de emoções e de coisas que emergem naquele momento de uma forma bastante indireta. Você não precisa falar do sujeito em si, mas você fala dessa atitude dele em relação ao jogo. E claro que, quando você está nesse momento lúdico, a sua área do cérebro, que é a área do prazer, tem toda a capacidade e o potencial de você provocar essas reflexões de um jeito mais leve. Este é um exemplo de um jogo que nós temos. Este jogo se chama bloqueio e trabalha também com o desenvolvimento dessas funções executivas que eu citei lá na frente. Então, na hora em que você está jogando, além de você estar vivenciando a sua emoção, você tem a possibilidade de envolver aquelas habilidades executivas que a gente falou que são importantes para esses tempos e para termos essas crianças executoras, atores do processo. Os métodos o que são? Na verdade, eles são organizadores de muito símbolos, porque a gente tem, muitas vezes, processos de pensamentos muito rebuscados e a gente sabe o poder da metáfora e do ícone. Ele traz e traduz, pela própria imagem, jeitos diferentes de você pensar e agir. Há muito deles, mas esse aqui é o semáforo - todo mundo sabe o que é um semáforo. Imaginem se nós vivêssemos numa sociedade sem um organizador de trânsito. Seria o caos. E, quando a gente apresenta isso, de forma lúdica, o nosso desejo é que a gente desenvolva o nosso semáforo interno, portanto para a gente ter esse controle das nossas emoções. |
| R | São todos esses métodos, e a gente tem um método de escada, por exemplo, que é importante para que você realize as suas tarefas e você se organize, enfim, por etapas; a gente traz um detetive que lhe ajuda a encontrar a raiz dos problemas, traz uma árvore do pensamento que lhe dá inúmeros possibilidades de ações, e a gente sempre traz com isso a responsabilidade, a importância dessa responsabilidade. Os métodos têm este poder: a metáfora fala o indizível. Quando você olha para um ícone que tem essa questão muito mais do social, você consegue integrar a cognição, a imaginação, e isso vai lhe criando marcas de referência. Então, a gente consegue corporificar uma imagem, e isso antecipa, em muito, reflexões que muitas vezes durariam horas para a gente fazer com as crianças e com a gente, adultos, também. Eles também têm uma função muito clara: eles têm uma função também de desenvolver aquelas funções executivas que a gente falou lá na frente. Eles trabalham com a motivação, eles trabalham com o planejamento, eles lhe ajudam persistir nas metas, lhe ajudam a iniciar tarefas e no gerenciamento de tempo. E aí entra a mediação, a mediação da aprendizagem. Hoje a gente tem ouvido muito se falar de mediação. E aí nós queremos fazer uma marca: que a mediação, na nossa visão, e no programa, para nós da Mind Lab, é a mediação da aprendizagem. Nesse sentido, o professor, que é esse sujeito que está ali com a criança, assume esse papel de protagonista. A gente sabe que existem muitas teorias provando que a gente, seres humanos, aprende muito mais eficientemente quando a gente tem uma mediação. A gente tem um sujeito preocupado com a intenção, para que a gente aprenda. Com isso ganhamos velocidade nos processos nossos de aprendizagem. É dessa aprendizagem que a gente fala. E aí a esperança que eu trouxe no começo: esse é o Prof. Reuven Feuerstein. Eu tive o privilégio de conhecê-lo lá em Israel, sou uma estudiosa dele há muitos anos, e uma das coisas dele que sempre me encantaram foi que ele teve um neto com síndrome de Down, e quando alguém perguntou para ele o que o neto dele seria, ele afirmou que seguramente seria um professor. Ele também era professor, e nós professores, nós que estamos na educação, nós temos esta esperança de que nós possamos mudar. E aí a gente tem ações intencionais planejadas para fazer essas intervenções com esses jogos e usando esses métodos metacognitivos. Daí a gente cria e desenvolve critérios de como você ser um bom mediador, que nada mais é do que uma organização de atitudes intencionais para quem, de verdade, deseja que o outro aprenda, trabalhando com a intencionalidade, trazendo significado, trabalhando sempre o "para quê", considerando o sentimento de competência do outro, pensando no compartilhar, na importância de você ter mais pessoas dentro do seu processo. Enfim, tudo isso para que a gente construa esse vínculo. O que é essa construção de vínculo? É você, na verdade, ter essa proximidade, e a gente viu que isso é uma busca contínua do ser humano. |
| R | Ontem, eu fiquei bastante impressionada quando alguém perguntou:"Com esse avanço da tecnologia como é que fica essa questão do olho no olho, essa proximidade?". Eu brinco até: quem nunca teve uma DR por WhatsApp? Então, você escreve um monte de coisa e, quando vai ler depois que passa, você fala: "Nossa, eu não sei como eu consegui fazer tudo isso por meio da tecnologia". Porque, no olho no olho, você não tem limite, você vai invadindo. Como funciona isso na sala de aula e também hoje num contexto de uma outra área em que nós estamos entrando, que é na dependência química e com jovens com vulnerabilidade? Há uma contextualização, a gente sempre gosta de uma história para trazer o vínculo com aquilo que você tem ainda para fazer. Então, cada jogo tem um contexto para já te inserir e, nesse contexto, ele trabalha com um histórico. Há o jogo em si, e aí você tem regras, a gente trabalha com limites, trabalha com colocação de saber ouvir, respeitar o outro. A emoção vem à tona durante o jogo. Não dá para a gente falar de emoção quando a gente precisa trabalhar. A gente precisa viver e saber como eu vivo essa emoção, com mediação, claro, por essa pessoa que foi preparada, que passou por uma formação. E aí há o "para quê", que é uma das coisas que a gente prioriza. Claro que, na educação e em todos os lugares, a gente precisa de evidências. Então, as pessoas sempre perguntam: "E aí, mas isso funciona?". A gente tem, sim, muitas evidências, a gente tem muitos estudos com várias crianças de vários perfis. Enfim, hoje a gente está numa quantidade muito grande... Eu sempre gosto de falar de quantos professores estão em torno de nós. Hoje há mais de 5 mil professores, muitas lideranças, muitas crianças tanto da área pública quanto da área privada. E eu fico feliz, porque a gente tem, sim, atingido... Às vezes, a gente tem essa sensação de ser uma gota, mas isso vai reverberando. Se a gente conclui que razão e emoção caminham juntas, a gente imediatamente tem que trazer a base. E eu vou trazer a base aqui para trazer um olhar que nos inquieta muito o coração: olhar para a base e, de novo, ficar pensando e buscando uma série de atividades para fazer, para achar que nós estamos de verdade desenvolvendo as habilidades sociais, emocionais e éticas. A gente fez uma releitura com bastante cuidado dessa base, trazendo o "o quê". Eu acho que isso... Eu sou muito da prática, muito da ação e de levar para o chão da sala de aula o quê? Dessas dez competências, qual é a essência dela, o que ela traz? Para que ela traz isso? E, na verdade, qual é o objetivo macro? A gente não pode perder isso. Eu acho que a gente tem... (Soa a campainha.) A SRA. SANDRA REGINA REZENDE GARCIA - ... um cuidado muito grande em trazer sempre o que é para a construção de uma sociedade justa, democrática, inclusiva; quando a gente fala de um pensamento crítico, é para resolver problemas e criar soluções; se a gente fala da cultura digital, é para exercer o protagonismo, a autoria; as múltiplas linguagens são para a gente ter o entendimento mútuo; ter um repertório cultural é para a gente também ter essa consciência de construir uma sociedade, ter essa consciência planetária; quando a gente evolui para o mundo do trabalho, o projeto de vida é para esse sujeito, para essa criança exercer a cidadania, elaborar o seu projeto de vida. |
| R | Por que a gente pensa em desenvolver essa argumentação? É para ele cuidar de si mesmo, dos outros, do Planeta, enfim, para pensar numa construção de uma sociedade mais justa. Para cada uma dessas competências a gente traz sempre o "para quê?", para a gente não perder de vista esse autoconhecimento, essa ética, que é essa formação pessoal com base nesses princípios éticos e democráticos. Quase finalizando, nós contribuímos, hoje, então... E eu gosto de contar isso, a gente conta isso com bastante orgulho e com muita alegria, né? E, pensando nesses sujeitos, o projeto também vê esse desenvolvendo desses sujeitos por meio dos jogos. Então, a gente prepara os professores também para trabalhar com tomada de decisões, resoluções de conflitos, lideranças das escolas, dentro do desenvolvimento socioemocional dessas lideranças para que isso seja implementado, na verdade, nos currículos das nossas escolas. Nós estamos trabalhando com isso já, dentro de um outro contexto, da vulnerabilidade social. Eu sempre fico bastante emocionada, quando eu penso quantas crianças a gente tem nas ruas que vão para esses centros de recuperação e que, muitas vezes, não têm família, mas a gente tem feito um trabalho muito focado, primeiro, na área da saúde. Em se falando de dependência química, é muito triste a gente saber que está dentro de hospitais onde há crianças com nove anos de idade já dependentes químicos. E a gente leva o lúdico, o jogo para dentro desse contexto extrafamília, e eu acredito muito nisso. A gente falou bastante aqui sobre essa questão de quanto a família é importante nesse sentido da consciência, nesse sentido de essas crianças se aceitarem, ou seja, é o seu pai possível. A gente tem muitos autores que discutem isso. E, dentro desses centros de recuperação esses jovens, me dá muita tristeza de ver aquelas carinhas lindas, 13, 14 anos, que cometeram delitos e estão lá presos. E aí a gente fica pensando nas palavras do Dr. Joshua, quando ele pergunta o que a gente pretende com esses sistemas prisionais. Esse menino está lá, está internado, foi o primeiro ato infracional dele, mas ele tem que sair de lá. Ele vai sair, ele vai voltar para a rua, e o que a gente faz com isso se a gente não fortalece esse jovem para não cometer mais infração? Então, é para isso que a gente sempre luta, é sobre como você pode ter árvore de pensamento. Você tem possibilidade de escolhas, mas a gente entende que todos os seres humanos têm direito de ter acesso a esse desenvolvimento. Aproveito que estou aqui e quero fazer uma chamada para todos nós, para todos que estamos aqui. Na verdade, quem são os responsáveis pela cultura, pela paz, pela violência? Todos nós. Eu trago aqui: é o Poder Público? Somos nós que estamos aqui? É a escola? É a família? É o professor? É a criança? De quem é essa responsabilidade? É de todos nós. Eu trago sempre esse movimento dialético. A escola e todos os lugares onde há seres humanos são territórios de afetos, como, por exemplo, aqui, hoje. Nós estamos aqui, e são muitas emoções, muitas reflexões... |
| R | E a gente precisa cuidar desse ser humano. A gente precisa entender quando a gente vê os testes e os resultados da educação - e a gente sabe que o trabalho colaborativo, por exemplo, no Pisa, traz aquele resultado horrível dos nossos estudantes -, como é que nós estamos trabalhando entre nós; como é que o trabalho em equipe, a resolução de problemas, enfim, se isso é uma coisa de todos nós. Eu queria deixar um recado para vocês, como toda boa educadora, que a nossa missão é contribuir nesse processo de desenvolvimento dos nossos estudantes, dos nossos professores, das pessoas. Para quê? Para que nós possamos ser pessoas felizes, autônomas, críticas, conscientes e que possamos promover essa paz todos juntos. Queremos, sim, seres geradores de conhecimento, criadores da sua própria história. Obrigada, gente. Um bom-dia para todos nós. (Palmas.) O SR. PRESIDENTE (Pedro Chaves. Bloco Moderador/PRB - MS) - Queremos agradecer à Profa. Sandra Regina Rezende Garcia a sua excelente exposição, ao mesmo tempo em que eu chamo a Profa. Maria Clara Nassif, formada em Serviço Social pela Faculdade Paulista de Serviço Social; graduada em Psicologia pelo Instituto Metodista de Ensino Superior; Especialista nos métodos Ramain e Dia-log e Terapia de Troca e Desenvolvimento. A SRA. MARIA CLARA NASSIF - Bom dia a todos. Eu estou muito honrada de poder partilhar com todos aqui, de alguma maneira, uma perspectiva, uma abertura, para que a gente possa, de alguma maneira, pouco a pouco e indo por diferentes interfaces, atingir a primeira infância, desde as mães do período pré-natal e perinatal, até o pós-natal. Agradeço à Mesa, agradeço às três conferencistas que me antecederam, das quais compartilho muitos aspectos que vão me ajudar muito no que eu tenho a expor hoje. Eu tenho uma experiência profunda, posso dizer, porque eu trabalho há quase 50 anos com os métodos Ramain e Dia-log, que são metodologias que têm como centro, como foco principal, a evolução pessoal, a evolução da pessoa, para que uma pessoa possa ter consciência de si mesma, de seus atos e das consequências de seus atos. E a gente sabe, quando nós tratamos da questão da violência, que uma das grandes questões vai justamente além dos contextos, vamos dizer, culturais, sociais, econômicos, onde essas famílias estão inseridas - por isso eu vou fazer um recorte muito fino, para falar que uma das grandes questões é: qual é a consciência que eu tenho das repercussões das minhas ações. Nós tivemos um caso que emocionou São Paulo essa semana: um médico que fazia um trabalho benemérito de primeiríssima linha, que projetou carretas para atendimento assistencial móvel, foi cruelmente assassinado porque dois rapazes queriam levar o carro dele. Então, a violência está, assim, aos nossos pés, ao nosso lado o tempo todo. |
| R | E essa Semana de Valorização da Vida me mobilizou muito, eu refleti muito, sobre como, a partir das minhas experiências pessoais, profissionais e de formação nesses métodos, a gente poderia conjugar algo mais consistente, vamos dizer assim, numa perspectiva mais global, para poder encontrar um caminho efetivo através das políticas públicas para, se não resolver problemas estruturais do nosso País, que são bastante graves, achar caminhos individualizados que seriam socializados através de recursos da saúde e da educação. Eu tenho uma experiência com um programa já abrangente, que envolve três elementos que estão em jogo continuamente em nossas vidas que são: a questão biológica, aquilo que nós trazemos como herança; a questão psicológica, quer dizer, como é que nosso cérebro e nossa mente podem organizar inclusive os sinais vindos dos organismos; e a nossa inserção social. Esse programa que a gente tem organizado vai desde a intervenção precoce até a idade adulta, abrangendo setores bem específicos de inclusão e adaptabilidade social e inclusão no mercado de trabalho. E refletindo, então, sobre a questão da violência e com a minha experiência pessoal, eu imaginei poder propor para vocês um programa estruturado levando em conta muitos artigos, muitas experiências mundiais, muitas das quais foram citadas pela Profa. Jaqueline, pelo Prof. Joshua ou ontem pelo Prof. Rodrigo, para poder pensar numa ação que não é de uma pessoa só, não é um trabalho para uma pessoa e talvez nem sequer para uma única equipe. É um trabalho de conjunto, amplo. E por isso que eu disse que talvez precisasse, vamos dizer, da sustentação sem dúvida de políticas públicas. É um programa que faz uma interface entre saúde e educação. Então, eu vou passar aqui o primeiro eslaide. Só para alinhavar, eu vou passar muito rápido nisso, porque todos os autores aqui dos trabalhos já falaram nesse sentido. Nós, como homens, o Damásio neste último livro dele, A estranha ordem das coisas, diz que, pela biologia, é natural que o ser humano manifeste sentimentos como ódio, que levam a conflitos danosos. O que somos não depende exclusivamente da genética, nós sabemos disso. Os primeiros anos de vida, mais particularmente o primeiro ano, são fundamentais para o desenvolvimento do cérebro e para o equilíbrio emocional na infância. Se nesse período houver condição de privação materna, de abuso físico e sexual, de pobreza, desnutrição e outros traumas, temos alimentadas as raízes da violência. Algumas áreas específicas do cérebro ligadas à violência são diretamente atingidas por essas condições sociais: o córtex orbitofrontal medial, o córtex pré-frontal, a amídala, o hipocampo e o córtex temporal. Essas são estruturas cerebrais que estão distribuídas, vamos dizer, por todo o nosso sistema, envolve sistema límbico, sistema temporal, como está aí, e sistema motor, que não está aí, mas faz parte de uma dessas estruturas quando a gente fala em córtex pré-frontal. Vou para a prancha seguinte. Eu me baseei em vários aspectos para poder imaginar esse modelo, partindo do modelo biossocial da violência. O psicólogo britânico Adrian Raine, que trabalha hoje nos Estados Unidos, explica como os fatores de risco biológicos e sociais estão associados a fatores de risco cerebrais, que atingem processos cognitivos, emocionais e motores que podem dar origem diretamente ao transtorno de conduta e à violência na idade adulta. |
| R | Se ser vítima da violência cria as raízes do ser violento, uma das responsabilidades sociais dos sistemas de educação e saúde seria o de cortar o fluxo dessa corrente danosa, promovendo programas de proteção à infância, com modelos abrangentes biopsicossociais de prevenção e intervenção. Eu quero apenas destacar, porque isso foi bastante tratado aqui, quatro pontos: a interação entre fatores biológicos, afetivos e sociais no início da vida predispõe à violência na vida adulta. Experiências afetivas e sociais mudam o cérebro provavelmente em todos os grupos étnicos e gêneros. A violência é uma construção extremamente complexa e multifacetada. Um entendimento completo de sua base neural envolve vários processos cerebrais que, por sua vez, dão origem a vários processos sociais e psicológicos, que predispõem alguém à violência. Esses métodos eu tomei como base para formar, vamos dizer assim, o coração deste programa que vou apresentar inteiro mais ao final. Por quê? Porque eles abrangem um conjunto de estruturas emocionais, neuropsicológicas, motoras e sociais na expressão de um indivíduo. Então, eu usei esses dois métodos e as experiências que foram descritas pelo Prof. Adrian Raine, especialmente nas Ilhas Maurício, onde eles trabalharam com programa de enriquecimento ambiental, com crianças de três a seis anos, o que redundou futuramente numa redução importante do nível de violência na ilha. Esse modelo foi replicado para todo o sistema educacional das Ilhas Maurício. Então, por que eu usei esses dois modelos? Porque existem experiências que mostram que eles, integrados, poderiam trazer um resultado muito interessante, porque as funções neuropsicológicas mobilizadas pelos exercícios dos métodos Ramain e Dia-log - são situações de exercícios que nós propomos - são de natureza cognitiva e socioemocional e favorecem uma estruturação mental harmoniosa, pois os diferentes segmentos da atividade mental são continuamente solicitados a se colocarem em jogo. Às funções executivas de que minha colega falou eu dei um destaque especial, porque as funções executivas representam o maestro da nossa vida mental. Nós podemos ter um cérebro íntegro, mas, se houver alterações no córtex pré-frontal, nós vamos ter alterações comportamentais muito importantes. Então, sem essa regência, nós temos assim uma orquestra extremamente desafinada e que pode cometer situações muito danosas se pudermos pensar no ser humano. |
| R | Então, essas situações de funções executivas abrangem toda nossa capacidade de estar em um ambiente, quer dizer, elas são cognitivas e afetivas. Dentre as afetivas, eu vou dar um destaque a três que, acho, estão muito ligadas à violência, que são o controle inibitório - aquela brincadeira da estátua em que, quando alguém fala "para", a gente para -, uma função neuropsicológica muito importante que é muito utilizada na educação pelos pais; a questão do comportamento adaptativo - que é eu ter a noção do que, estando nesse espaço, me compete como cidadão dentro dele, o que eu devo fazer, o que eu posso fazer por essa situação -; e a sensibilidade social, que são estruturas ligadas à empatia, à capacidade de compaixão, de possibilidade de compreender o que se passa com o outro. Então, esse conjunto das funções executivas é o que traz o que se chama de cérebro social, nossa capacidade de estar presente num contexto de modo adaptado, adequado e realizador. A grande questão é estabelecer o diálogo entre razão e emoção, e, justamente, as funções executivas são, vamos dizer assim, o toque que vai poder fazer essa integração. A razão e a emoção, segundo Damásio e muitos autores - ali tem um economista também no meio, psicólogo, Kahneman -, eles colocam que é o guia orientador para integrar emoção e razão. Então, o desenvolvimento da inteligência emocional mobiliza as diferentes funções cerebrais, sobretudo aquelas ligadas ao controle executivo, em que a inibição dos comportamentos impulsivos e indesejáveis pode dar lugar a atitudes mais flexíveis e elaboradas, próprias das capacidades de perceber e compreender os contextos, compreender a própria posição e a do outro nesse mesmo contexto. Incluem-se aqui a percepção dos sentimentos do outro, a empatia e a compaixão. Eu acho que a compaixão é um sentimento do qual a nossa sociedade precisa se reapropriar. A abrangência desses modelos que consideram os métodos Ramain e Dia-log não envolve apenas o sentido resolutivo de problemas emocionais; eles estendem-se ao despertar do interesse por si e por suas próprias ações na construção de seu percurso de vida. Emerge, assim, a possibilidade do sujeito autor de seus atos. A consciência de si, que, nos casos... Vamos dizer, se a gente for citar as questões de violência, essa consciência de si e do outro está bastante prejudicada. Eu tenho alguém me avisando que eu preciso ir rápido. Bom, eu trago dois destaques desses métodos. São metodologias de base relacional, abertas à manifestação dos diferentes aspectos de cada um dentro de um grupo, porque o trabalho se passa dentro de um grupo, e o campo de experiência aberto à liberdade de percepção de expressão de si mesmo e do outro. O animador, que ela chamou de mediador, está atento a todas as expressões que emergem do grupo pela qualidade da sua disponibilidade emocional ao que ele está realizando. Perceber-se e perceber o outro através de si mesmo já pressupõe um possível caminho de prevenção e redução à violência, porque, se o outro, anteriormente, poderia representar um inimigo, através das relações que são trabalhadas e estabelecidas no grupo, elas tomam o valor de uma realidade atual, e essa representação se atualiza na medida em que esse outro é meu companheiro de grupo, é meu par, meu parceiro, e, nessa medida, eu não o atacarei previamente. |
| R | Nesse sentido, essa reação corresponderia, lenta e progressivamente, a um redesenho de circuitos cerebrais, quebras de um ciclo em que dominava a repetição de modelos apreendidos, neste caso específico ligados à violência. Eu vou só pôr isso aqui, para vocês terem uma ideia da estrutura dos processos Ramain e Dia-log. O Dia-log se baseia em exercícios linguísticos e o método Ramain, em exercícios cognitivos e corporais. Eles abrangem, diretamente, o Dia-log, comunicação, expressão e criatividade; e os exercícios do método Ramain, inteligência, motricidade global e fina; tudo isso, vamos dizer, regado num molho, digamos assim, emocional e social, com programas específicos ligados para cada etapa do neurodesenvolvimento. Esses programas apresentam um diferencial no campo neuroeducativo, por serem estruturados e organizados; o segundo diferencial é considerar a atividade cerebral como referência para a estrutura da proposta, pois Ramain e Dia-log se passam através da ativação dos múltiplos sistemas do cérebro e do corpo, integrando ato cognitivo e emoção. Por abranger a unidade indissolúvel da pessoa, o terceiro diferencial emerge dos processos de percepção de si e do outro em uma nova dinâmica relacional. O quarto diferencial, por potencializar a autonomia pessoal e social, envolve o desenvolvimento da inteligência emocional, que se traduz na adaptabilidade de um sujeito ativo aos diferentes contextos de vida. Há bons exemplos desse trabalho, especialmente um que nós fizemos aqui no Brasil, na Prefeitura do Recife, e atualmente está sendo desenvolvido um muito interessante também no Peru, numa zona portuária, onde o nível de violência, de filhos de pais encarcerados, de abandono e abusos familiares é enorme. Só para citar, nesses dois trabalhos nós tivemos uma mudança na estrutura das relações, quer dizer, o trabalho possibilitou uma relação cada vez mais rica dos seus participantes - porque o do Recife eram adultos, não eram crianças -, com o mundo e consigo mesmas, a saída da passividade, adotando uma postura mais atenta ao que é proposto e a passagem de relações baseadas na agressividade e violência para novas relações, mais tranquilas e cuidadosas. Faltou o eslaide que eu quero mostrar, é a segunda vez que acontece isso. Eu vou explicar, porque o modelo biopsicossocial do plano envolve três polos - eu tinha um triângulo desenhado: um polo bio, outro polo psico e outro social. Vou pedir que vocês façam um exercício de representação mental, uma imagem mental: então, no polo bio - eu estava até conversando com a Profa. Jaqueline, eu disse: "Esse polo é seu", no nosso programa global; porque é um polo que envolve todos os cuidados com a parentalidade, com os cuidados, vamos dizer, a saúde materna, durante a gestação, parto, perinatal e pós-natal. |
| R | Esse trabalho é fundamental para esse equilíbrio da relação mãe e filho - de um trabalho preventivo nós estamos falando. Outro aspecto importante desse trabalho é o seguimento com os próprios pais ao longo de todo o programa. Então, vamos dizer, nós damos um destaque -, vejam que eu estou começando pelos pais - à família muito importante, porque além da genética, como eu disse, está dentro do eixo bio, nós vamos ter as questões da parentalidade, que podem fazer com que esse eixo, com aquilo que nós herdamos, se manifeste de um modo mais construtivo no desenvolvimento dessa criança ou que a própria genética venha a ser capitalizada de um modo destrutivo ao neurodesenvolvimento dessa criança. Então, esse polo bio eu considero importantíssimo - e convido a Prof. Jaqueline para... (Soa a campainha.) A SRA. MARIA CLARA NASSIF - ... uma parte desse programa. O polo psíquico é o que envolve as intervenções apropriadas. Numa primeira etapa de intervenção precoce toda a metodologia própria de uma terapia, mas que não seria terapia, que é a terapia de troca e desenvolvimento, que é de base relacional, quer dizer, de um approach, com a criança, holding, acolhimento. Isso seria feito através dos formadores das creches, dos cuidadores, um cuidado muito importante. E o terceiro eixo seria ligado - aí nós já estamos pensando num ambiente tipo uma creche, uma escola - aos cuidados, em primeiro lugar, nutricionais, quer dizer, uma boa alimentação, com uma boa programação de nutrientes próprios ao desenvolvimento, - o Dr. Laurista está aqui e pode colaborar com isso -, a parte de meditação... (Soa a campainha.) A SRA. MARIA CLARA NASSIF - ... para as crianças um pouco maiores, os aspectos de educação física e jogos lúdicos ao ar livre. Isso é fundamental para o desenvolvimento do cérebro, inclusive o Prof. Rodrigo confirmou. Então, em que nós estamos pensando? Num programa biopsicossocial integrado entre a saúde e a educação, com um privilégio das crianças de zero a seis, estimulando essas crianças para os seus cérebros funcionarem melhor. E os cérebros funcionando melhor, com o acolhimento afetivo que é dado - nós vamos obter isso com essas metodologias -, teremos oportunidade de cidadãos futuros donos de si mesmo, autores dos seus atos, pensando seus atos consequentemente e não de um modo irrefletido, impulsivo, como ocorre nos casos de violência. Eu falei brevemente. Meu tempo terminou. Estou às ordens para quaisquer questões. Muito obrigada a vocês pela atenção. (Palmas.) A SRA. PRESIDENTE (Marta Suplicy. Bloco Maioria/MDB - SP) - Obrigada. Infelizmente, peço desculpas por não ter podido escutá-la, pois tinha uma votação, mas estou feliz por dar continuidade. O Senador Pedro Chaves tem que se retirar. Foram muito interessantes as apresentações, e nós tivemos aqui a participação do e-Cidadania, que é a nossa relação com as pessoas que estão nos escutando. Então, vamos fazer algumas das perguntas que chegaram a nós. Do Wanderson Lucas, de Goiás: "É de extrema importância esse tema dentro da nossa sociedade, mas, infelizmente, essa responsabilidade tem sido passada para a escola. Já em países vizinhos são os pais que educam e têm uma sociedade em paz". Essa aí eu vou até comentar. Aliás, todas as que vou ler estarão abertas a comentários dos palestrantes. |
| R | Julio Correia é de Alagoas: "Eu estava lendo algo a respeito do e-governo, sobretudo na perspectiva educacional e percebo que esta temática será uma forte aliada para as intervenções futuras que irão ocorrer na educação". Elielson Leite de Lima, da Bahia: "É possível termos educação de qualidade quando o educador for valorizado e trabalhar com prazer pelo que faz, dessa forma vamos melhorar bastante". Jeyson Lucena da Silva, de Sergipe: "Considerando o cenário econômico que estimula a competitividade, como trabalhar a educação para a paz quando questões sociais são resolvidas com propostas que atendem apenas a determinados grupos?". Rodrigo de Sousa Leitão, do Distrito Federal: "Como seria possível implementar as ideias sul-coreanas e finlandesas no que diz respeito à educação num país sabidamente semianalfabeto como o Brasil?". Adriany Gonçalves Nunes, de São Paulo: "Eu apoio a Educação Moral e Cívica de volta ao currículo escolar. Esta matéria por si só buscaria a educação pela paz, além de trazer o sentimento patriótico abandonado pelas escolas". Denise de Azevedo, de São Paulo: "A cultura de paz deve ter base no ambiente familiar. A escola reforça o processo. A criança aprende com exemplos, portanto, mostremos a elas que violência e desrespeito devem ser combatidos sempre". Lorena Cacia, do Pará: "Sou professora, e digo não temos mais autoridade em sala, o aluno não respeita o professor, faz o que bem entender e diz isso na sua cara! Acabar com ideologia marxista nas escolas e amar o Brasil". (Manifestação da plateia.) A SRA. PRESIDENTE (Marta Suplicy. Bloco Maioria/MDB - SP) - Edson Timóteo Monteiro, da Paraíba: "A educação é a base. Porém na escola é uma educação cível, para construção do alicerce do País. Para a paz, os bons costumes e o respeito aos outros. Somos nós que devemos ensinar". Rodrigo de Sousa Leitão, também do DF: "Escolas com grades, muros com cercas, trancas, fechaduras, alarmes, vigias e outros insumos desta natureza não é uma dicotomia quando se fala em educar para a paz?". Bom, foram essas selecionadas. Há muito mais. Acho que eles selecionaram também pela representatividade dos Estados que mais enviaram perguntas. Gostaria de saber se algum dos palestrantes gostaria de se manifestar sobre o que foi aqui falado. (Pausa.) (Intervenções fora do microfone.) A SRA. SANDRA REGINA REZENDE GARCIA - Se você me permite, eu vi uma questão de um professor, quando traz essa questão de estarmos passando a responsabilidade da educação para a escola. Acho que é Rodrigo o nome dele, se não me engano. A SRA. PRESIDENTE (Marta Suplicy. Bloco Maioria/MDB - SP) - Eu me lembro da questão. A SRA. SANDRA REGINA REZENDE GARCIA - Eu tenho algo a dizer para o Rodrigo. Acho que ele tem razão quando... É Rodrigo, é Vanderson? Não sei... Não importa. Eu queria dizer que, como educadora... A SRA. PRESIDENTE (Marta Suplicy. Bloco Maioria/MDB - SP) - Edson, da Paraíba. A SRA. SANDRA REGINA REZENDE GARCIA - É Edson? A SRA. MARTA SUPLICY (Bloco Maioria/MDB - SP) - Sim. A SRA. SANDRA REGINA REZENDE GARCIA - Eu gostaria de dizer para todos os educadores que eu estudei em escola pública, trabalhei, escolhi ser professora, e o que eu sinto é que há, sim, questões políticas, e a gente não vai entrar nessa seara, mas, sempre que posso, digo aos professores: "Você escolheu ser professor, e, dentro de uma sala de aula, você tem 40 crianças olhando para você, com uma expectativa grande, porque você é o modelo". |
| R | Como é que você lida com essas questões que estão fora da questão política e cumpre aquela tua missão de ser humano que está ali a serviço da educação. Eu, de verdade, tenho... Claro que a gente não pode, mas eu acho que há coisas que a gente pode trazer para o Brasil... Se vocês me permitem dizer, eu acabei de voltar da Finlândia, onde fiquei imersa dez dias. Eu queria entender o que acontece de diferente com os resultados para os meninos do ensino médio. Aí, eu fui fazer um mergulho na primeira infância e fazer um mergulho nas escolas e na formação dos professores. Se eu puder deixar uma mensagem para nós, eu acho que, primeiro, há uma dissociação entre educação e política. Eu acho que esse é um primeiro caminho. As coisas lá são processuais, não pessoais. A segunda coisa é que há uma união dos diferentes responsáveis pela educação. É a saúde, é a segurança, todos os setores em prol da mesma necessidade. E, quando a gente fala de professor, eu fico impressionada: eles escolheram ser professores, e gostam, e estudam... Então, é uma sociedade, é um país, paga taxas, paga juros e uma série de outras coisas, mas eu não vou entrar aqui nessa questão política, mas eu ainda acredito que a educação é feita de pessoas, e nós precisamos de seres humanos motivados e apaixonados pelo que fazem para a gente continuar sendo aquilo que a gente escolheu ser: professores. Eu acho que essa é a minha mensagem para o Edson. A SRA. PRESIDENTE (Marta Suplicy. Bloco Maioria/MDB - SP) - Obrigada, Dra. Sandra. Eu gostaria também de comentar... É que a situação no Brasil não está perto da Finlândia, e eu também tenho muito interesse em saber o que ocorre lá, como eles conseguiram, assim como a Coreia do Sul, mas são investimentos de muitos anos, com outra perspectiva, que é, principalmente, a formação de professor e a valorização do professor. Aqui, por exemplo, a Denise, de São Paulo, diz que a cultura da paz deve ter base no ambiente familiar, a escola reforça o processo, e a criança aprende com exemplos, e que, portanto, devemos mostrar a elas que a violência e o desrespeito devem ser combatidos. O que nós escutamos aqui do Dr. Sparrow e da Dra. Jaqueline, nós estamos falando de violência, e, no Brasil, hoje, a violência é muito forte, é muito presente. Temos aqui um cidadão que se manifestou dizendo que não consegue dar aula porque apanha. Agora, o que foi colocado aqui nos painéis exemplifica muito bem. Por que essas crianças são violentas? No mundo ideal, claro que o ambiente familiar formaria as crianças e a escola complementaria. Nós não vivemos no mundo ideal. O mundo aqui é real, não ideal, e trágico para a maioria da nossa população. Então, eu também penso muito em como vamos resolver esse problema. Tem muito a ver com a desestruturação social em que nós vivemos, e, cada vez que aumenta o desemprego, aumentam as dificuldades, a agressividade familiar aumenta, e é muito difícil o Estado ter uma intercessão na família. A família é a família, mas a escola pode... Foi bem lembrado por um dos painelistas aqui o papel da escola com a família. A escola pode chegar, sim, à família. |
| R | Muitas vezes é difícil, porque a família não tem tempo, a família não se interessa, a família só tem um pai, ou só tem uma mãe, o que também não é valorizado no contexto da escola. Então, a primeira coisa é que essa família seja acolhida pela escola e participe de todo o projeto, como foi muito bem colocado aqui nesse painel por todos. Depois, dentro da própria escola, alguns exemplos que eu vi - e eu fui a uma Comissão que estava exatamente discutindo agora isso também, sobre o papel: se deveria haver psicólogo na escola; quem deveria, na escola, ajudar essa criança; aliás, não é nem ajudar, é perceber qual é a criança: às vezes se percebe muito fácil, porque é a que mais apronta na sala de aula, a que mais zoa, a que mais atrapalha, então todo mundo sabe qual é a criança. Agora, ela tem que ter uma acolhida de alguém da escola que seja treinado para acolher, acompanhar essa criança, ver de onde vem. Outro dia, faz um tempo, eu acompanhei um estudo, uma situação dessas: a criança vinha à escola, aprontava muito, e quando tiveram a ideia de ver como é que era o lar dessa criança, ela não tinha lar; não, ela morava onde dava, vinha muito esfarrapada, também não comia... Era isso. Então, nós temos que ter na escola essa pessoa, para fazer essa percepção também dos que vão mal na lição, mas não aprontam nada, só simplesmente vão mal - às vezes é um caso de abuso sexual, às vezes é um caso de abandono total, então tem que ter isso, quer dizer, a escola tem que estar preparada. Aí, chega-se ao outro ponto, que eu gostaria até - porque eu fiquei muito curiosa quando foi falado do treinamento, então eu gostaria de saber um pouco como é feito o treinamento do que o Dr. Sparrow mencionou; como é que se treinam os professores lá, para que esses casos de violência... Há um concurso específico? Porque eu não vejo outra possibilidade a não ser que a gente capacite o professor, e aí não é uma capacitação só para aluno violento, é uma capacitação para acolher, que eu acho que aqui a Dra. Sandra e a senhora colocou... (Intervenção fora do microfone.) A SRA. PRESIDENTE (Marta Suplicy. Bloco Maioria/MDB - SP) - É, e aqui nós estamos anos-luz de capacitar professor. Inclusive, numa audiência pública que fizemos agora sobre questão do ensino médio e da revolução que está sendo a nova diretriz do ensino médio, as faculdades têm que mudar os seus currículos, e aí o diretor de todas as faculdades brasileiras, universidades, disse que isso poderia ser muito complicado, uma revolução. Eu não entendo, é essa revolução que se precisa. Se não se fizer essa revolução, nós não vamos mudar, porque quem é o grande instrumento que nós temos? É o professor. Só que aqui o professor vem das camadas mais marginalizadas da sociedade. Ninguém quer ser professor, porque ganha pouco, não é valorizado e ainda pode apanhar na sala de aula. Então, enquanto isso não for mudado... Quando nós vemos países desenvolvidos, o melhor aluno da turma quer ser professor, e aqui ninguém quer. Então, nós temos um professor - e eu vi muitas vezes quando fui Prefeita de São Paulo, o professor da creche não ter ensino fundamental. Como é que ele vai... Ele pode, talvez, ser uma pessoa acolhedora; ele vai desempenhar um papel razoável por essa função inerente a sua personalidade, mas não é assim. |
| R | Então, a primeira coisa é valorizar em termos de salário e ter uma formação que permita à pessoa entender o que se passa; por exemplo, uma palestra como essa daqui é anos-luz para as pessoas que trabalham em sala de aula e que nunca tiveram uma palestra que pudesse melhorar a percepção delas. Então, não é culpa também delas. É culpa de quem não tem formação de nada. Então, nós temos aqui um trabalho gigantesco na área de educação. Nós não tivemos ainda a nomeação do futuro ministro da Educação. Espero que seja uma pessoa que tenha sensibilidade, principalmente para a formação de professores, porque de lá, até onde consigo entender, é onde nós teremos alguma coisa. Mas eu gostaria de dar a palavra para o Dr. Sparrow e depois para a Dra. Sandra, para ela nos dizer como é que se entra dentro do que a senhora apresento. Eu ouvi que a senhora falou que a gente entra em alguns lugares de formação. Então, eu queria saber como é que se entra, como é que entrou, se é difícil entrar, se é escola pública, se é faculdade pública, se é faculdade privada e se já há resultados. E para o Dr. Sparrow, como é que é feito o treinamento dos seus professores? Com a palavra o Dr. Sparrow; depois, a Dra. Sandra. O SR. JOSHUA SPARROW (Tradução simultânea.) - Eu não vou fingir que tenho respostas, mas eu vou oferecer alguns exemplos e uma maneira de pensar a respeito desse desafio. A primeira maneira é dizer que é um problema apontar o dedo para os professores ou para os educadores ou para o sistema educacional como os únicos poderes que você tem para quebrar esse ciclo de violência. Isso porque a violência não é criada apenas dentro da classe da sala de aula, e o cérebro humano não é construído apenas dentro da sala de aula. Então, eu acho que a primeira coisa a ser feita é voltar um pouco dessa visão de que é tudo papel da escola e dos professores e dizer: o que mais pode ser feito? Como nós podemos contribuir para a saúde e a capacidade de aprender das crianças para que os professores e as escolas possam fazer o seu trabalho de fato? Então, você precisa de um atendimento sistêmico amplo de como o cérebro humano se desenvolve. Nós Estados Unidos, nós ainda temos pesticidas com fosfato orgânico sendo usados e isso reduz o QI por 5,17 pontos. Eu não sei se vocês usam isso no Brasil. Vocês usam. Bom, eu acho ilógico pedir aos professores ou ao sistema educacional que consertem isso. O problema é que nós temos uma separação de todos esses departamentos responsáveis pelas suas próprias coisinhas, sem fazer as conexões que, juntas, podem somar a violência que nós experimentamos na sociedade. Um outro exemplo que nós temos nos Estados Unidos é o chumbo nas tintas, nas paredes. E o chumbo é conhecido por ser uma neurotoxina que diminui o QI das crianças, interfere com as suas capacidades de atenção e aprendizado. |
| R | Eu poderia continuar, mas quero dizer que a saúde mental das crianças, o ambiente das crianças, essas exposições a essas coisas contribuem para o cérebro que eles vão trazer para a escola e os cérebros com os quais os professores vão ter que trabalhar. E se você olhar por um momento para o cérebro de uma criança antes de ela nascer... Sabemos que, quando as mães são expostas a quantidades grandes de estresse ou trauma durante a gravidez, seja por não terem um lugar para morar, ou por fome, ou por violência, esses bebês nascem com o Hipocampo menor em volume do que deveria ser, e o Hipocampo é um dos locais no cérebro... De novo, eu poderia contestar essa localização das coisas no cérebro - acho que está tudo conectado -, mas o Hipocampo é em parte responsável pela contextualização das memórias. Então, esse é mais um exemplo. E, também, nós sabemos que má nutrição durante a gravidez, um cuidado pré-natal pobre durante a gravidez leva a um cérebro impedido do feto e leva também ao risco de nascimento prematuro. Nós sabemos, de fato, que nascimento prematuro com baixo peso vai ter um efeito em termos de alto risco e vulnerabilidades. Esses são exemplos que eu poderia continuar dando sobre coisas que os professores não podem mudar ou consertar. Isso cai em outros departamentos. Então, não podemos simplesmente apontar o dedo para os professores e para o sistema escolar. Nós temos que prover professores com os melhores cérebros possíveis no primeiro dia da escola. Depois, nós sabemos que, quando as crianças chegam à escola, elas trazem com elas toda a gama de experiências que elas têm e, se elas sabem que não têm uma casa para onde voltar, ou sabem que a mãe talvez vá apanhar gravemente em casa ou que, às vezes, elas vão ser agredidas nas ruas depois da escola - isso acontece em muitas cidades nos Estados Unidos -, vocês acham que essas crianças podem se concentrar em qualquer coisa que o professor pode oferecer para elas na escola? É claro que as crianças têm muita ansiedade, estresse pós-traumático e são muito menos hábeis a aprender. Então, de novo, não olhar para as soluções apenas com os professores ou apenas com a educação, mas dentro do ecossistema no qual as crianças estão se desenvolvendo. As crianças aprendem com elas mesmas, com seus próprios corpos. Se eles chegam à escola com fome, as barrigas deles doem. Então, eles não podem aprender. O cérebro não vai ter os nutrientes de que precisam para aprender. Por isso, existem programas escolares que dão lanches gratuitos, começando desde o início da vida. E, também, as crianças são muito antenadas para o que os pais e outros cuidadores de outras famílias fazem, pensam e acreditam. Então, existem pesquisas que mostram que, quando os pais não se sentem bem-vindos à escola, e aí você vem para o papel dos professores e dos pais, quando os pais não são bem-vindos, quando eles não confiam no professor e quando eles pensam que os professores não se sentem confortáveis com eles, como você acha que a criança vai se sentir a respeito do professor? Poderia uma criança abrir sua mente para o que o professor tem para oferecer para ele ou para ela, se os pais têm boas razões para se sentirem desconfortáveis com a escola ou desconfortáveis com o professor, porque não existe respeito mútuo? |
| R | Alguém disse que a mente é como um paraquedas: não funciona se não estiver aberta. Então, o trabalho dos parceiros com os professores e as famílias, que é o trabalho que nós fazemos no nosso centro através do programa de iniciação nacional e dos serviços de cuidado nacional - é que nós temos 13 milhões de crianças e bebês nos Estados Unidos -, o programa dá o treinamento de que os professores precisam e que não têm na sua preparação profissional para aprender a lidar com as tendências que eles têm, os preconceitos que eles têm sobre crianças e famílias, e para lidar quando essas situações já estão entrando no meio do caminho do trabalho deles, para que eles possam construir mutuamente um respeito forte, uma confiança e uma relação segura tanto com os pais quanto com as crianças, para que todos eles possam se sentir à vontade e abrir a mente para ser receptiva para o aprendizado. E existem programas mais específicos, para desafios mais específicos. Numa comunidade nativa do Havaí onde existe muita pobreza, analfabetismo e violência existe um programa maravilhoso de uma escola onde nós damos as avaliações de pesquisa, e nós achamos muitos resultados maravilhosos. Os pais dessas crianças muito novas vão para a escola o dia inteiro, quatro dias por semana, com as crianças. Então, os pais aprendem junto com as crianças sobre o que as crianças estão aprendendo. Eles aprendem com os professores sobre como ensinar às crianças e eles criam um grupo de avaliação de pais coeso, um grupo junto. Então, outro exemplo é que existem diferentes modelos nos Estados Unidos para consultas de saúde mental da primeira infância. Então, um especialista, como um psiquiatra, não vai à sala de aula para fazer uma terapia com uma criança de cada vez; ele vai dentro da sala para ver como toda a classe pode se beneficiar de uma terapia, e ele pode explicar para os professores para que os professores mudem a maneira como eles ensinam para o trauma e para os atrasos de neurodesenvolvimento dentro da classe. Alguns programas até mudam com pouco dinheiro o ambiente físico, sensorial. Eles acabam com as luzes fluorescentes, que são demais para as crianças, e colocam luzes incandescentes; tiram as tintas azuis, verdes e vermelhas e colocam tons terrosos; põem pedras e galhos para que as crianças tenham contato com a natureza, porque as crianças que foram traumatizadas e as crianças que sofreram danos cerebrais durante a gravidez por causa de toxinas que nós colocamos na água, na alimentação ou no ar ou por causa de drogas têm problemas em lidar com superestímulos sensoriais. Então, nós podemos usar todo o ambiente da sala de aula para todas as crianças para abrir a mente delas, para que elas possam receber a informação sensorial com a qual elas vão aprender. Eu acho que a última coisa que eu vou dizer vai ser um exemplo que também entra na sua pergunta. |
| R | Existem pesquisas importantes que foram feitas em Raudenbush, em Earls, em 1997, em Chicago. Em todos os códigos postais da cidade de Chicago eles olharam as taxas de homicídio e descobriram que nas comunidades pobres e negras com as menores taxas de homicídio existia uma medida de comunidade de eficácia coletiva que era correlata com o baixo índice de homicídios. Essa eficácia é basicamente uma medida de até onde os membros de uma comunidade acreditam que "dentro da minha comunidade, eu posso contar com outros membros da comunidade para cuidar das minhas crianças, para proteger todas as nossas crianças e disciplinar as crianças, para que elas possam crescer e se tornar adultos com os mesmos objetivos que todos nós compartilhamos". Então, parte do que nós estamos vendo com essa erupção de violência é a disrupção da fábrica que cria, do tecido que tem a eficácia e a coesão da sociedade, e eu acho que isso pode ser reconstruído, eu sei que isso pode ser reconstruído, e essa é a importância dessas intervenções baseadas nas localidades e nas comunidades. Então, eu vou falar da zona de Harlem, das crianças, onde havia 34 blocos quadrados, e está muito maior hoje em dia. E a ideia era que, se você tratar apenas de um problema como, por exemplo, o que os professores precisam saber, ou o que tem que acontecer nas salas de aula, mas se não tratar das armas nas ruas ou da falta de acesso a cuidados mentais, ou das casas que estão caindo aos pedaços dentro daquele ambiente poluído, se você só pensar em um problema, adivinha o que acontece? Todo o resto vai trabalhar contra o progresso que você está fazendo e vai trazer isso para trás. Então, você tem que ter uma abordagem sistêmica e compreensível de todos os fatores que afetam os resultados. Mas você não pode fazer isso só com profissionais. Você tem que dar suporte para a capacidade das crianças, dos avós, dos pais e da polícia, dos oficiais; você tem que criar uma coesão não apenas dos profissionais, porque não existem suficientes de nós, mas de toda a comunidade. Então, para a zona de Harlem, nós ensinamos sobre desenvolvimento de crianças com três anos de idade. Eu e o Dr. Brazelton falamos: "Nós não vamos ensinar para as crianças de três anos sobre desenvolvimento, porque nós acreditamos que nessas comunidades os pais sabem muito sobre o que precisam fazer com as suas crianças, e é um insulto, é abusivo que nós possamos, da nossa parte, chegar ensinando o que eles já sabem melhor do que nós". Então nós chegamos a uma classe com pais e crianças de três anos e nós dissemos: "Bom, nós sabemos, ouvimos falar que vocês sabem muito sobre desenvolvimento de pessoas de três anos". Eles disseram: "Bom, nós? O que é que nós sabemos?" - porque eles assumiram que era isso que nós pensávamos. Então nós dissemos: "Bom, sua criança de três anos não sabe muito sobre você?" Aí eles disseram: "Sim, eles sabem muito sobre nós". E nós pedimos que eles falassem o que as crianças sabem sobre os pais e o que os pais sabem sobre as crianças. Então nós ficamos calados e nós simplesmente escrevemos tudo o que eles disseram, e, em 45 minutos, com os pais corajosos indo primeiro e depois os envergonhados, eles escreveram o melhor capítulo de livro sobre desenvolvimento infantil que você vai ler. E eles sabiam disso porque as crianças ensinaram para eles, mas o que eles descobriram é que, com esse grupo, com essa coesão de grupo, eles tinham a capacidade de ensinar uns aos outros. A SRA. PRESIDENTE (Marta Suplicy. Bloco Maioria/MDB - SP) - Muito obrigada e muito lindo! (Palmas.) |
| R | A SRA. PRESIDENTE (Marta Suplicy. Bloco Maioria/MDB - SP) - Eu esqueci de mencionar e, com o senhor mencionando os exemplos todos: nós temos uma experiência muito interessante, muito forte, na cidade de São Paulo, onde construímos centros escolares chamados Centros Educacionais Unificados - em português, a sigla é CEU. E o que significava isso? Eles foram selecionados para serem construídos nas regiões do mapa de exclusão social, que era o local onde existia o maior índice de desemprego, de homicídio, de violência, e eram regiões extremamente perigosas. Primeiro, construímos 21; depois 26, gigantescos no sentido de que tinham três piscinas e um foco muito intenso no esporte e na cultura. E os centros culturais tinham teatro e cinema para uma população que nunca tinha entrado num cinema e muito menos num teatro. O resultado foi fabuloso. Depois de um tempo, nós tivemos uma diminuição no número - eu não lembro exatamente o número - de evasão escolar muito significativo, e na região toda uma diminuição da violência. E sobre a última coisa que o senhor mencionou da cooperação da polícia, nós também tivemos um fortalecimento da presença da polícia na região, e uma capacitação um pouco diferente para os diretores dessas escolas, não para os professores, porque não tínhamos condição, mas para os diretores. E o resultado foi bastante interessante, porque durante o fim de semana, ou mesmo durante a semana, quando havia apresentação de teatro, as famílias iam. E durante o fim de semana as famílias frequentavam as piscinas, as famílias participavam da cultura. E o resultado foi realmente muito diferente. Nós esquecemos de mencionar, o senhor não mencionou, não sei se isso não é mais importante, eu também não vejo mais programa infantil hoje em dia, mas a TV é um instrumento muito importante também. Eu lembro da televisão na época em que eu tinha filho pequeno e era um horror porque as crianças viam filmes muito violentos. Então, a resolução de conflito não era pela intermediação. Era assim: eu dou um murro, explode o outro, e está resolvido o conflito. Então, se continua assim, essa é uma das questões mais importantes para serem atacadas. Eu realmente agradeço as suas considerações, que nos ajudaram a pensar, ou seja, não é só a formação de professores. Isso está certíssimo. Muito obrigada. Com a palavra a Dra. Sandra. A SRA. SANDRA REGINA REZENDE GARCIA - Eu vou tentar ser breve. Se na minha fala inicial eu responsabilizei demais o professor, eu peço perdão. Mas, realmente, eu acho que a gente vive um tempo de cada um assumir a sua parte. Eu quero de novo trazer essa reflexão. Quando a gente vê depoimentos de outros países, a gente sabe que as localidades são pequenas. De novo, eu quero trazer a experiência que eu vivi e que foi muito forte, na Finlândia, de coisas que dá para a gente trazer para cá. A Maria Clara falou assim: "Sandra, eles ganham muito?". Eu falei: "Não, pelo contrário". Eu acho que esse não é o grande ponto. Eu acho que o ponto principal é que a educação deles tem uma pirâmide de base, que é a confiança, que foi um pouco o que o doutor trouxe. Os setores, Marta, todos os departamentos trabalham com essa mesma visão: é a saúde, é a segurança, é a educação. Para você ter uma ideia, a criança, quando ela tem alguma dificuldade, os vários departamentos se sentam juntos para conversar com a família. A família é parte da escola. A escola respira a educação da família. Então, o pai é chamado na escola para tratar de temas que ele desconhece. Hoje em dia, infelizmente, muitas vezes os pais vão para a escola para terem orientações que são coisas muito mais operacionais, não para discutir temas. É assim: "É o horário do lanche, então, eu preciso saber disso?". Não. |
| R | Eu estou trazendo aqui um cenário não só da área pública, com que tenho tido muito contato, mas também da área privada. Acho que a gente precisa olhar, porque essa criança fica um tempo muito restrito dentro da escola. Se ela fica quatro, agora, com essa proposta do tempo integral, de seis horas, mas ela volta para um outro contexto. Então, se ela volta para esse outro contexto, que é a família, fica um ciclo vicioso. Se nós queremos uma mudança na educação, nós temos de entender que essa criança vai voltar para a família, e, se a família é alguém que não está contribuindo, então, que tal a gente trazer a família para juntos refletirmos? Isso porque, afinal de contas, a responsabilidade daquela criança é de todos. Então, uma família mais atuante, mais presente... E, aí, a gente teria milhões de questões que não daria para abordar agora, mas, se a gente desistir de ter pequenos gestos... Então, outra coisa que você trouxe que acho bárbara e superimportante é a comunidade. A escola pública hoje muitas vezes é vista assim: como é pública, não é de ninguém. E não é assim. Ela é pública: ela é de todos. Então, uma comunidade em que entra aí a segurança. Lá, eu fiquei impressionada quando fui conversar... Não é a assembleia, o lugar que... (Intervenção fora do microfone.) A SRA. SANDRA REGINA REZENDE GARCIA - No Parlamento, na secretaria de educação, eles me falaram que a polícia também faz parte quando a gente vai conversar sobre a criança. Eu falei: "A polícia?". "Sim". Então, é uma polícia que participa também com ações, e o Dr. Joshua também trouxe isso. Se a gente olhar nos eslaides dele: são todos os departamentos voltados para a mesma questão. Agora, claro que, quando a gente fala de um lugar pequeno, é muito mais tranquilo. Se a gente for olhar quantos milhões de habitantes, a gente fala: "Nossa, isso é tranquilo". Mas acho que não dá para a gente ficar de braços cruzados. Dá para a gente pensar nas comunidades próximas. Então, a questão da escola... Eu acho que é sempre um movimento. Agora, só para concluir: acho que a base piramidal deles lá é a confiança. Quando a gente tem a confiança nos diferentes sujeitos do processo, a gente ganha tempo, a gente não perde tempo, porque a mãe, a família confia no professor, o diretor confia no professor, e não fica essa cobrança, porque às vezes a gente gasta muito tempo desconfiando. Então, é uma relação que já é violenta, porque eu queria falar assim, só para ir tentando fechar... Na integração desses diferentes setores, eu acho que o professor tem, sim, um papel extremamente importante na vida dessa criança, lembrando que às vezes ele é a única referência para essa criança que vem de uma estrutura muito fragmentada. Então, ele tem, sim, uma responsabilidade grande como modelo. |
| R | Agora, claro que você trouxe um ponto nevrálgico: a formação do professor. Como esse professor está sendo formado nas universidades, porque lá, nesses lugares onde a gente sabe que há muito sucesso, a escolha da carreira de ser professor é muito disputada, é mais do que outras, e aí ele vai com desejo, com vontade e tem uma formação eclética. O professor especialista lá primeiro tem que fazer a pedagogia e entender um pouco mais do desenvolvimento da criança, do psicológico. Enfim, eu acho que há desafios, mas eu acho que são desafios possíveis porque eu ainda acredito que é pela educação. Você me perguntou como a gente entra, nós estamos em algumas escolas. Claro que tem um investimento, um investimento da escola, e aí eu começo a falar do investimento "para que, porque e como", esses diferentes sujeitos que você envolve. Então, há um investimento com laboratório, esses jogos, a formação dos professores. Isso faz parte desse contexto. No outro universo que nós estamos hoje, ainda na área social e da saúde, a gente está fazendo um trabalho voluntário nesse sentido, até que a gente tenha evidências. Eu acho que é tudo uma questão de tempo. Eu ainda tenho duas netas e eu quero vê-las muito felizes, tendo ainda vontade de que sejam professoras, porque eu acho que a gente não desiste. A SRA. PRESIDENTE (Marta Suplicy. Bloco Maioria/MDB - SP) - Muito obrigada. Eu gostaria de agradecer aos painelistas Jaqueline Wendland, Maria Clara Nassif, Joshua Sparrow e Sandra Regina Garcia pela cooperação que deram com todos nós. Convoco para o dia 27 de novembro, terça-feira, às 11h30, reunião extraordinária da Comissão de Educação, Cultura e Esporte, em forma de audiência pública, destinada a instruir o Projeto de Lei do Senado 337, de 2016, que dispõe sobre o instrumento de cooperação federativa para transferência à União de competências educacionais de Estados, Distrito Federal e Municípios, em atendimento ao Requerimento nº 44, de 2017, de autoria do Senador Chaves. Nada mais havendo a tratar, declaro encerrada a presente reunião. Obrigada a todos. (Iniciada às 10 horas e 22 minutos, a reunião é encerrada às 12 horas e 46 minutos.) |
