Discurso no Senado Federal

DESTACANDO A ATUAÇÃO DOS ATLETAS BRASILEIROS NAS OLIMPIADAS. CANDIDATURA DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO PARA SEDIAR AS OLIMPIADAS DE 2004.

Autor
Benedita da Silva (PT - Partido dos Trabalhadores/RJ)
Nome completo: Benedita Souza da Silva Sampaio
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
ESPORTE.:
  • DESTACANDO A ATUAÇÃO DOS ATLETAS BRASILEIROS NAS OLIMPIADAS. CANDIDATURA DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO PARA SEDIAR AS OLIMPIADAS DE 2004.
Aparteantes
Romero Jucá.
Publicação
Publicação no DSF de 27/07/1996 - Página 13297
Assunto
Outros > ESPORTE.
Indexação
  • ELOGIO, ATUAÇÃO, ATLETA PROFISSIONAL, BRASIL, OLIMPIADAS.
  • TRANSCRIÇÃO, ANAIS DO SENADO, PROJETO, AUTORIA, ORADOR, DEFESA, ESCOLHA, MUNICIPIO, RIO DE JANEIRO (RJ), ESTADO DO RIO DE JANEIRO (RJ), SEDE, OLIMPIADAS.

A SRª BENEDITA DA SILVA (PT-RJ. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão da oradora.) - Sr. Presidente, Srªs. e Srs. Senadores, vou abordar um tema da atualidade da vida brasileira: as Olimpíadas. Faço-o, porque desejo aqui destacar a atuação dos atletas brasileiros.

As Olimpíadas têm origem na Grécia antiga, mas os jogos olímpicos modernos, disputados de quatro em quatro anos, ressurgiram em 1894, também na Grécia, com a participação de 13 países e um total de 311 atletas, todos homens.

Já nos II Jogos, realizados em 1900, na França, 22 países participaram, com um total de 1.330 atletas, competindo, na oportunidade, as 11 primeiras mulheres atletas da história. Foi durante esse período que se formou o Comitê Olímpico Internacional, com sede em Lausanne, na Suíça, com o objetivo de organizar e administrar os Jogos.

A partir daí, ainda que muitas vezes improvisadamente, os Jogos foram acontecendo. Em 1908, em Londres, o evento realizava-se num nível um pouco mais profissional, e a sua organização e sucesso renovaram as esperanças e as expectativas com o futuro das competições.

O número de atletas participantes se manteve sempre crescente, assim como a participação das mulheres, que, a cada Olimpíada, se fazia mais expressiva. Em 1912, na Suécia, participaram 57 mulheres; em 1920, na Bélgica, 64 mulheres (foi quando, pela primeira vez, o Brasil participou das Olimpíadas); em 1924, na França, 136 mulheres; em 1928, na Holanda, 290 mulheres, e assim por diante, até os dias de hoje, quando milhares de atletas femininas participam ativamente das competições.

Quero aqui destacar que nós investimos muito pouco no esporte e, sem dúvida nenhuma, se temos algo para festejar, além das medalhas, é o fato de termos as nossas atletas colocando o Brasil em destaque com a sua atuação.

Sem querer aqui estabelecer um "Clube da Luluzinha", desejo registrar também que as nossas atletas não recebem nem mesmo o pequeno apoio dado aos atletas masculinos. No entanto, até mesmo atletas assalariadas, que percebem salário mínimo, estão conseguindo reverter a imagem do Brasil com a sua atuação. Não quero ser radical e severa, porque estou torcendo integralmente pelo sucesso do Brasil, do contrário de nada valerá a pressão que estaremos fazendo para que as Olimpíadas de 2004 aconteçam no Brasil.

O Sr. Romero Jucá - V. Exª me permite um aparte?

A SRª BENEDITA DA SILVA - Concedo o aparte a V. Exª.

O Sr. Romero Jucá - Senadora Benedita da Silva, o discurso de V. Exª é muito pertinente, porque, a par de todas as vitórias decorrentes do esforço empreendido pelos atletas nos Jogos Olímpicos, é importante também registrar - e não se pode esconder isso - que não há, efetivamente, uma política sistematizada e direcionada para a formação de atletas, incentivo ao esporte, enfim, de tudo aquilo por que V. Exª está pugnando da tribuna. Gostaria de registrar que as vitórias eventuais que estamos tendo são fruto ou de um esforço pessoal de atletas abnegadas e dedicadas, que, muitas vezes, sacrificam o próprio estilo de vida no sentido de buscar uma vitória - é o caso da maioria dos nossos atletas -; ou simplesmente é o esforço isolado de determinada empresa ou de determinado órgão público, que apóia ou patrocina determinado atleta. Penso que isso precisa mudar, precisa ficar claro que o Brasil tem que ter uma política de desportos voltada para a massificação, para a formação dos jovens, a fim de que não recorram às drogas, ao crime e não se deparem com todas as circunstâncias ruins que, como sabemos, a juventude é exposta. Eu gostaria de parabenizá-la, como também de parabenizar e registrar a grande participação da bancada feminina nessas Olimpíadas. Sem dúvida nenhuma, são as mulheres brasileiras que nos estão deixando mais alegres, que estão lavando a nossa alma, que estão demonstrando efetivamente que o brasileiro pode disputar essa competição mundial de igual para igual. Meus parabéns às atletas brasileiras. Minha recomendação e meu apoio ao discurso de V. Exª, no sentido de que o Governo brasileiro, um dia, tenha uma política de esportes voltada para a formação efetiva e apoio aos jovens desportistas brasileiros.

A SRª BENEDITA DA SILVA - Agradeço o aparte de V. Exª, que muito acrescenta ao meu discurso.

Parece-me que o assunto reflete apenas momentos de lazer. Todavia, sabemos do espírito das Olimpíadas, do sonho realizado pelo Barão de Coubertin, uma vez que o surgimento da Vila Olímpica foi uma forma de incentivar o espírito esportivo e a aproximação dos povos. Não é algo banal. Sabemos que alguns avanços tecnológicos surgiram nessa ocasião, como os cronômetros automáticos e as câmeras para auxiliarem na precisão dos resultados. Parece que não estamos acompanhando os avanços tecnológicos que precedem a preparação dos atletas. É para isso que eu gostaria de chamar a atenção do Plenário.

Durante a Segunda Guerra Mundial, os Jogos estiveram parados. Mas, em 1948, Londres, em meio aos escombros da guerra, aceitou sediar os XIV Jogos, quando surgiu o prazo de duração inferior a um mês para a sua realização, adotado a partir de então. Foi a primeira Olimpíada com a presença de atletas comunistas, devido à nova ordem política mundial.

Chamo a atenção para esses dados, a fim de que possamos entender a questão dos povos.

Estamos vendo hoje, por exemplo, Cuba e Estados Unidos nas Olimpíadas. É evidente que ali não há apenas uma competição de jogo, há também uma questão política com relação ao embargo que se faz a Cuba, que, por sua vez, demonstra, através de seus atletas, por que quer continuar sendo um país independente. É por isso que hoje entendemos a importância das Olimpíadas. Não significam apenas um momento de entretenimento, mas também uma demonstração política da potência que os países exercem no momento da disputa dos jogos.

Portanto, temos de dar ao Brasil o mesmo tratamento.

Foi nos jogos realizados em Los Angeles que o brasileiro Joaquim Cruz estabeleceu o recorde olímpico nos 800 metros rasos: 1 minuto e 43 segundos. E nos jogos de Barcelona, em 1992, os últimos realizados antes dos atuais, em Atlanta, as novas tecnologias a serviço do esporte ajudaram a estabelecer 16 novos recordes mundiais e 30 olímpicos.

É preciso que haja reflexão e perspectiva dessa situação.

A história dos Jogos Olímpicos se confunde com a própria história da humanidade. Através dos tempos, os níveis de complexidade atingidos pelas sociedades ocidentais e orientais estão retratados de múltiplas formas. Na cultura, nas artes, na ciência, na tecnologia, nos esportes, o ser humano vem desenhando uma espiral ascendente, rumo a um desenvolvimento cada vez mais pleno de suas inúmeras potencialidades.

Comemorando os 100 anos dos Jogos Olímpicos, sediados este ano em Atlanta, palco de discórdias e conquistas, berço do imortal líder pacifista Martin Luther King, seria interessante refletirmos a que nível de importância chegou esse evento, que mobiliza, de quatro em quatro anos, praticamente o mundo inteiro.

Àqueles que não conseguem dimensionar verdadeiramente a importância e o universo em que se inserem os Jogos Olímpicos, atualmente faz-se necessário relembrar que existem milhares de pessoas envolvidas direta e indiretamente na sua preparação e execução; milhares de atletas dos quatro cantos do Planeta treinam exaustivamente, dando seu suor e seu sangue para poderem bem representar seus países, para superarem recordes, para se colocarem como verdadeiros heróis. Isso sem contar a projeção que as cidades-sede das Olimpíadas alcançam a partir da realização desse evento colossal e sem contar as somas gigantescas que atingem a casa dos milhões de dólares a título de investimentos e lucros.

Nesse sentido, basta assinalar que, em Atlanta, os direitos exclusivos de transmissão pela televisão para os Estados Unidos, através da NBC, foram vendidos por US$435 milhões. Para as Olimpíadas de 2004, mesmo antes de escolhida a cidade, a transmissão já foi vendida, em concorrência pública, por US$793 milhões.

Os jogos de 1984, para os quais Los Angeles foi a única candidata, foram uma espécie de divisor de águas no que se refere ao interesse em sediar Olimpíadas. Desde então, a disputa tem sido cada vez mais acirrada: duas candidaturas para os Jogos de 1988; seis para os de 1992 e 1996; oito para os do ano 2000 e onze para os de 2004.

Como não poderia deixar de ser, as razões para isso devem ser buscadas menos no espírito esportivo e mais no campo econômico. Sediar uma Olimpíada é cada vez mais um excelente negócio, capaz de trazer enormes benefícios não apenas às pessoas e entidades diretamente ligadas à sua organização, mas a toda a população da cidade escolhida. Para se ter uma idéia do retorno potencial dos Jogos, basta examinarmos alguns números. As Olimpíadas de Atlanta estão reunindo cerca de 15 mil atletas e dirigentes de 197 países, distribuídos em 28 modalidades esportivas, mais 150 mil profissionais envolvidos - é a chamada família olímpica - para um público direto de 3 milhões de pessoas e mais 2 bilhões de telespectadores, diariamente, durante o evento.

Embora os custos dessa promoção sejam cada vez mais elevados, o Comitê Rio 2004 calcula que se obteria aqui uma receita da ordem de 1 bilhão, 575 milhões de reais contra gastos de 1 bilhão, 560 milhões de reais - um lucro, portanto, de 15 milhões de reais.

O Projeto Rio 2004 é um sonho possível.

Uma decisão de capital importância para governos e habitantes de onze cidades do mundo será tomada na cidade suíça de Lausanne, dentro de pouco mais de um ano: um grupo de dirigentes do esporte vai escolher, em setembro de 97, qual será a cidade-sede das Olimpíadas de 2004. Atenas, Buenos Aires, Cidade do Cabo, Estocolmo, Istambul, Lille, San Juan de Porto Rico, São Petesburgo e Sevilha concorrem com o nosso Rio de Janeiro pelo privilégio de abrigar um evento cuja significação ultrapassa em muito os limites do esporte.

O Projeto Rio 2004 aspira a tornar vitoriosa a candidatura do Rio de Janeiro para sediar os Jogos Olímpicos que serão realizados no ano de 2004 e atrair, assim, para a cidade, o maior acontecimento desportivo mundial. Os Jogos Olímpicos possibilitarão, de forma concreta, a melhoria da qualidade de vida da população do Rio de Janeiro.

É importante ressaltar que, desde Barcelona, palco dos Jogos de 1992, o Comitê Olímpico Internacional vem utilizando o evento como forma de revitalizar as cidades que os sediam.

Programados para o período de 17 de julho a 03 de agosto, os Jogos ganharão ressonância especial se forem realizados no Rio de Janeiro - porta internacional de entrada para o Brasil. Durante oito anos, pelo menos, e em função das obras necessárias, vai-se desenvolver um potencial de empregos para cerca de oitenta a cem mil pessoas.

Com uma única exceção, todas as competições serão realizadas numa mesma cidade. Isso favorece não só o deslocamento dos atletas, mas também o do público, dado que todas as provas irão acontecer a uma distância que chegará no máximo a 20 km entre uma e outra. Corresponde, portanto, aos Jogos das distâncias curtas. A única prova mais afastada, a de canoagem em águas revoltas, se realizará no interior do Estado.

O clima do Rio é outro aspecto importante. Nessa época do ano chove pouco e a umidade relativa do ar é perfeita para competições desse nível. A temperatura varia em torno de 23º C, o que favorece a quebra de recordes. Outro fator relevante é que o nosso Continente, assim como o Africano, nunca sediou os Jogos Olímpicos. País sul-americano de maior área e população o Brasil participa, desde 1920, de atividades desportivas internacionais.

Quem apóia a idéia.

Em maio de 1995, a Rio 2004 foi constituída e teve a aprovação do Comitê Olímpico Brasileiro para representar junto ao COI a candidatura do Rio de Janeiro. O Presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman; o Presidente da Rio 2004, Ronaldo César Coelho, Governos federal, estadual e municipal, políticos, ONGs, empresas e entidades, estão envolvidos direta ou indiretamente no projeto e alimentam grandes esperanças na vitória da candidatura da cidade.

O Rio de Janeiro possui uma infra-estrutura esportiva de excelente categoria: 60% das instalações de treinamento e de competições já existem, afirma João Havelange, Presidente da FIFA e membro do COI, grande entusiasta do projeto.

Situação econômica:

A organização dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro custará cerca de 1 bilhão e 600 milhões de dólares. Já existe um plano de receita para cobrir esse montante: todos os recursos são provenientes da iniciativa privada e mais de 70% do exterior, através da venda de direitos para televisão, participação na receita dos patrocínios internacionais, venda de licenciamentos, etc.

Vantagens para a cidade:

O Projeto Rio 2004 prevê a criação de seis áreas destinadas às instalações esportivas: Fundão, Maracanã, Flamengo, Lagoa, Copacabana, Barra da Tijuca e Vila Militar.

As seis áreas ficarão interligadas basicamente por duas vias principais de transporte. Uma será a Linha Vermelha, que conecta quatro dessas áreas; a outra, a Linha Amarela, que será concluída este ano. Portanto, a infra-estrutura do transporte básico da família olímpica estará garantida, incrementando, também, o setor de transporte público.

Outro fator a destacar é que todos esses projetos estão sendo concebidos levando-se em conta o uso posterior das instalações. Quando não houver garantia de seu uso, as construções terão caráter temporário e a organização dos Jogos arcará com os custos. Por exemplo, na área do Fundão, no centro nervoso dos Jogos, ficarão a Vila Olímpica, o Comitê Organizador, a Vila da Mídia e o Hospital Olímpico. No decorrer de um evento da magnitude de uma Olimpíada é importante que estejam à disposição de todos que dela participam (atletas, dirigentes e público) recursos médicos capazes de atender às necessidades de uma clientela de ambos os sexos e de idades variáveis.

Eu poderia discorrer aqui sobre as vantagens de os Jogos Olímpicos no Brasil serem sediados na cidade do Rio de Janeiro, mas o tempo não me permite. Por isso, Sr. Presidente, peço que o meu pronunciamento seja registrado na íntegra, para que possamos, depois da sua leitura e análise, destacar as razões pelas quais desejamos que a cidade do Rio de Janeiro seja escolhida para sede dos Jogos de 2004. Queremos, evidentemente, contar com o apoio do Senado Federal.

Há grande interesse, de nossa parte, em que o Rio de Janeiro seja privilegiado e possa sediar as Olimpíadas de 2004. Isso justifica perfeitamente a pressão que o nosso Estado e a nossa cidade estão fazendo, assim como o convite aceito pelos Parlamentares da Bancada do Rio de Janeiro para a ir à Atlanta. Isso se justifica pelo fato de que temos interesse em revitalizar a cidade do Rio de Janeiro, tão sofrida e difamada, projetada como a mais violenta e desestruturada cidade do País. Temos nessa oportunidade a perspectiva de revitalizá-la, pois já temos 32 empresas da iniciativa privada, organizações não-governamentais além dos Governos federal, estadual e municipal apoiando essa iniciativa.

O Comitê Rio 2004 convidou-nos para participar desse movimento, razão pela qual nos fazemos presentes nessa oportunidade, colaborando com a iniciativa perfeitamente legítima em defesa não só da cidade do Rio de Janeiro, mas do Brasil.

Muito obrigada, Sr. Presidente.


Este texto não substitui o publicado no DSF de 27/07/1996 - Página 13297