Discurso no Senado Federal

HOMENAGEM A MEMORIA DO EX-SENADOR TEOTONIO VILELA.

Autor
Pedro Simon (PMDB - Movimento Democrático Brasileiro/RS)
Nome completo: Pedro Jorge Simon
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
HOMENAGEM.:
  • HOMENAGEM A MEMORIA DO EX-SENADOR TEOTONIO VILELA.
Aparteantes
Eduardo Suplicy, Ramez Tebet.
Publicação
Publicação no DSF de 14/12/1996 - Página 20630
Assunto
Outros > HOMENAGEM.
Indexação
  • HOMENAGEM POSTUMA, TEOTONIO VILELA (AL), EX SENADOR, ESTADO DE ALAGOAS (AL).
  • COMENTARIO, LANÇAMENTO, SENADO, LIVRO, ATUAÇÃO, TEOTONIO VILELA (AL), EX SENADOR, REUNIÃO, HOMENAGEM.

O SR. PEDRO SIMON (PMDB-RS. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, emocionante reunião foi realizada pelo Senado Federal, ontem, no Salão Negro, em homenagem à figura de Teotônio Vilela.

Foi um dos dias mais bonitos e mais festivos que este Senado viveu. Superlotado de senadores, deputados, parlamentares, governadores, jornalistas, intelectuais, figuras as mais variadas da vida brasileira, com a presença do Presidente Fernando Henrique Cardoso, que inclusive fez um pronunciamento, o Senado homenageou Teotônio Vilela.

Sr. Presidente, quando apresentei uma proposta para que esta Casa, anualmente, escolhesse a obra de um Senador que tivesse se destacado e a publicasse, para que o Brasil a conhecesse, aprovado o meu projeto, por unanimidade, fiz questão de entrar com um outro requerimento, solicitando que, no primeiro volume da coleção "Grandes Vultos que Honraram o Senado", o primeiro nome fosse o de Teotônio Vilela. A Mesa e o Senado Federal aprovaram, por unanimidade, a minha sugestão, e ontem foi lançado o livro desse grande Senador.

Ainda não li o livro, mas parece ser muito importante, na opinião das pessoas que coordenaram a sua publicação. Fiquei muito satisfeito, porque o livro foi publicado com uma série de fotografias e com uma novidade: o lançamento de um CD-ROM. Ainda não o vi, mas acho altamente positivo que tenha sido lançado.

O coral do Senado Federal cantou a música que o Brasil todo aprendeu, composta por Milton Nascimento, O Menestrel das Alagoas. O Presidente Fernando Henrique Cardoso discursou, mas não fez um pronunciamento de Presidente. Chegamos até a comentar, depois, a sua coragem, pois, embora Presidente da República, Sua Excelência relembrou fatos da vida de Teotônio Vilela em que este se rebelava contra o Governo de então. Isso me emocionou muito.

É claro que hoje vivemos uma democracia, o que não acontecia naquela época. É claro que o Governo Fernando Henrique Cardoso dá a mais absoluta garantia aos direitos individuais, à imprensa e à sociedade, o que não existia naquela época. O Presidente da República chegou a contar, inclusive, a sua participação, junto com Teotônio, em greves; mas não contou a greve que Teotônio fez contra o Governador Montoro, que era do PMDB de São Paulo - eram eles fazendo greve contra um Governo deles. Houve, ainda, o belo ato de coragem de Teotônio na hora da prisão do Lula e a tomada de uma série de decisões.

Portanto, ontem, quem lembrou os aspectos importantes da biografia de Teotônio Vilela foi o Presidente Fernando Henrique Cardoso. Sua Excelência saiu da posição de Presidente da República - e fez questão de dizer isso - para vir, como cidadão, como amigo de Teotônio, depois daquelas homenagens genéricas e gerais, contar alguns momentos da vida de Teotônio Vilela.

É o que faço aqui. E o faço porque poderia parecer de certa forma estranho que, em uma homenagem como esta a Teotônio Vilela, tivesse faltado alguém que representasse os seus amigos de todas as horas. Sou uma pessoa muito simples, que geralmente fica nos últimos lugares. Tenho até uma certa timidez, que levo comigo e da qual não pretendo me desfazer. São tantas as vezes em que recuso convites para fazer conferências e pronunciamentos em solenidades oficiais, que isso já virou rotina.

Emocionou-me um pronunciamento que fui chamado a fazer, quando da morte do Dr. Ulysses Guimarães. E o fiz, em nome do Congresso.

Sinceramente, eu imaginava que falaria ontem, como autor da iniciativa e um dos velhos e mais tradicionais amigos de Teotônio. Mas isso não tem maior importância. O que é importante é que eu venha à tribuna e que fale com Teotônio, onde ele estiver - para mim ele está no seio do Senhor. Conversando com o seu irmão, príncipe da Igreja, disse-lhe que esse Teotônio que aqui está é um São Paulo que anda pelo Brasil. Só que São Paulo tinha sido perseguidor da Igreja de Cristo, até que Deus apareceu para ele, converteu-o e pediu-lhe que o ajudasse.

Teotônio nunca perseguiu ninguém, nem teve nenhum chamado de Deus nem de ninguém. A sua consciência o chamou. A sua alma o chamou. O seu sentimento cívico o chamou. E ele se transformou talvez em uma das figuras mais fantásticas, num mártir da história do Brasil. Por isso, dizia eu a seu irmão que Teotônio cumpriu todos os preceitos que Cristo espalhou pela Terra. Alguém amou mais os seus adversários, os seus inimigos, o seu próximo do que Teotônio? Alguém se sacrificou mais, renunciou mais do que Teotônio?

O Evangelho nos conta que um jovem veio a Cristo e lhe disse que fazia tudo certo, mas que queria fazer mais ainda para seguir a Deus. Cristo lhe respondeu: "Deixa tudo o que tens e acompanha-me." Como ele era muito rico, não deixou. Teotônio Vilela era muito rico e muito doente. Os médicos o aconselharam a ficar com a família, a viajar para a Europa, a se distrair, a descansar os últimos dias, mas ele não quis. Ele abandonou tudo o que tinha: o conforto, a tranqüilidade, o carinho e o afeto da família, e foi pregar pelo Brasil, foi conviver com a sociedade, principalmente com os mais humildes.

Esse foi Teotônio, e por isso eu digo, eu que sou espiritualista e cristão: Teotônio está no convívio de Deus, porque foi um mártir. Os mártires da Igreja foram sacrificados devido às suas idéias, pelos que odiavam o cristianismo. Teotônio não! Ninguém quis martirizá-lo; foi ele que escolheu, com os seus quatro cânceres e com suas duas bengalas, mesmo sofrendo e gemendo, tendo que ser carregado até de maca no avião, sair percorrendo o Brasil para divulgar as suas idéias.

Por isso eu digo que Teotônio está no convívio dos eleitos, e é a esse Teotônio que lá está que quero falar: - "Meu bravo Teotônio, sei que a homenagem de ontem não fazia o teu estilo. Sei, Teotônio, que tu deves estar contente não digo com o Governo, mas com o Fernando Henrique na Presidência da República. Sei, Teotônio, que tu deves ter te emocionado no dia de ontem. Mas sei, Teotônio, que tu ficaste a esperar uma palavra a mais dos seus amigos, talvez se perguntando: "E o Rafael? E o Márcio? E o Nísio Tostes? E aqueles que defenderam e que sabem o que penso e o que eu quero? O que foi feito das minhas idéias, do meu pensamento, do que eu preguei? Eu andei pelo Brasil afora pregando o manifesto do projeto Brasil das Quatro Dívidas, conclamando o Brasil a resistir. Não há mais isso?" Eu lhe respondo: "Não, meu irmão Teotônio, ainda existe, e como existe! Teus amigos continuam te adorando!"

Ainda ontem, depois da homenagem, almoçando com o José Richa, nós nos lembrávamos de todas as noites que tínhamos que jantar, porque tu tinhas o olho muito maior do que a barriga e comias pouquinho. Exigias jantar, enchias o prato e depois comias meia dúzia de coizinhas. Tu falavas até de madrugada. Contavas como era teu estilo. Como tu gostavas de beber! E bebias bastante, eras um grande beberrão! Mas, de uma hora para outra, disseste "chega" e nunca mais botaste uma gota de álcool na boca.

E ali, nos nossos jantares, dizíamos: toma um chopinho, Teotônio. Tu dizias: "Não. Eu sou de fazer as coisas totalmente: quando era para beber, ninguém bebeu mais do que eu; quando é para não beber, só bebo água; nem refrigerante! Antes eu era um homem de empresa, um homem de engenho, mas hoje deixei isso de lado; agora só tenho o Brasil em meu horizonte; a ele me dedico de corpo e alma e à sua gente mais simples".

Em me lembro desse Teotônio e do discurso que ele fez de despedida aqui, em que dizia que não poderia ser candidato porque não tinha saúde. Foi um discurso dramático de despedida. Mas foi despedida do Senado, deste plenário, não foi despedida da vida pública, não. Ele não pôde ser candidato, porque não tinha saúde; os médicos achavam que ele não tinha condições para isso, pois morreria logo.

Mas Teotônio ainda durou muito, muito, muito tempo. E eu tive a honra de recebê-lo em minha casa. Sim, porque Teotônio passou a morar comigo. Posso dizer que um deus morou lá em casa, que convivi com um deus em meu modesto apartamento. E ele passou a trabalhar em meu gabinete. Não era mais Senador, mas o Senado continuava a recebê-lo com dignidade. E ele trabalhou muito. Aquele talvez tenha sido o ano em que Teotônio mais trabalhou e mais divulgou suas idéias pelo Brasil afora.

O Sr. Ramez Tebet - V. Exª me permite um aparte?

O SR. PEDRO SIMON - Com o maior prazer, Senador Ramez Tebet.

O Sr. Ramez Tebet - Senador Pedro Simon, sinceramente, gosto de vê-lo na tribuna. Em todas as ocasiões, V. Exª é sempre uma figura marcante na tribuna, principalmente quando fala, como é o caso hoje, de um amigo, de alguém que V. Exª conheceu bem de perto e com quem conviveu. V. Exª, hoje, dessa tribuna, dá continuidade às homenagens que ontem foram prestadas a esse grande vulto da vida pública nacional que foi Teotônio Vilela. Não tive, como V. Exª, o privilégio de conviver tanto com ele. Só me lembro de que, quando era Vice-Governador do Estado, em 1983, num seminário do PMDB, em São Paulo, vi, pela primeira vez, em pessoa, esse homem que eu já admirava antes. Ali o vi já amparado pela bengala, sem nenhum fio de cabelo para cobrir aquela cabeça iluminada e idealista. Ali aprendi uma grande lição: quando uma pessoa tem um ideal no coração, um ideal de vida pública, um ideal da liberdade, de democracia, de decência, de honestidade; quando uma pessoa dá tudo de si para o seu país, para a sua gente, isso faz com que ela ultrapasse os limites que a natureza às vezes lhe impõe. Teotônio Vilela foi uma dessas pessoas. Ele sobrepôs-se a todas as suas limitações até onde pôde. E deixou para este País a sua grande marca, uma grande lição, a lição de um verdadeiro democrata. Fico muito contente de ver V. Exª nessa tribuna dando continuidade à homenagem de ontem. V. Exª pode até não achar, mas acho que V. Exª deveria ter falado ontem também. Hoje talvez V. Exª tenha falado aquilo que gostaria de ter dito ontem. E fê-lo com muita mestria, sobretudo porque V. Exª está falando como um verdadeiro democrata e está falando com o seu coração.

O SR. PEDRO SIMON - Muito obrigado pela gentileza das palavras de V. Exª. Estou realmente falando com o coração, não preparei nada. Tenho nas mãos o livro que foi distribuído ontem, mas ainda não o li. Quero deixar que as palavras venham como acho que devem vir.

Teotônio Vilela foi um usineiro bem sucedido; foi Vice-Governador e Deputado pela Arena e chegou a se envolver inclusive naquele célebre episódio do tiroteio da Assembléia Legislativa; lá estava Teotônio, Senador da Arena. Tinha tudo para ser a figura tradicional do político do Nordeste: usineiro, bem-sucedido.

Houve um momento em que Teotônio resolveu dizer basta. Aqui chegando, foi falar com o Presidente da República, que era do seu Partido: "Presidente, estou vendo o senhor falar que vai haver, ainda que lenta, uma abertura". "Vai haver", respondeu o Presidente."Quero dizer que vou me aprofundar nesse seu projeto e começar a debater essa matéria no Senado Federal."

Aí, começou Teotônio - na Arena -, e não parou mais. Foi avançando, debatendo, discutindo os problemas. Infelizmente, Teotônio não encontrou seguidores na Arena. Houve um momento em que Teotônio falava e a palavra de comando, a palavra de ordem da Arena era retirar os Senadores do plenário desta Casa. E a Arena se retirou, porque Teotônio falava coisas verdadeiras, mas que eles preferiam não ouvir. Poderiam debater, discutir e tentar influenciar Teotônio; poderiam tentar ver com Teotônio o que era, o que não era, e o que poderia ser alterado. Mas a orientação da Arena foi retirar a Bancada do plenário.

E o MDB, de repente, viu aquele homem de engenho, aquela figura da Arena que estava ali, começando a falar; e veio o primeiro pronunciamento, o segundo, o terceiro; logo, as cadeiras do MDB começaram a ser lotadas; e as cadeiras vazias da Arena passaram a ser ocupadas por Deputados, que vinham da Câmara para lotar o enorme espaço destinado à Bancada da Arena - vazia de seus integrantes, mas lotada de Parlamentares.

Teotônio foi crescendo, e crescendo. Quando cheguei aqui, em 1979, Teotônio já estava fazendo escola, mas dentro da Arena.

Lembro-me muito bem de nossas conversas: "Pena que o Teotônio não seja do MDB, porque o que ele diz ninguém diz melhor do que ele". Alguns falavam: "Mas por que não convidá-lo?"

Ficamos com medo de abordar esse assunto, até que foi criada a Comissão da Anistia; deveria ser instalada e levantou-se a seguinte questão: "Quem vai ser o presidente?" Alguém, se não me engano, o hoje Senador Roberto Freire, lembrou: "Por que não o Teotônio?". Foi uma unanimidade: "É, o Teotônio".

Fomos até ele, ainda Senador da Arena, e o convidamos para ser o Presidente da Comissão da Anistia; ele aceitou. Fez um trabalho fantástico, emocionante, monumental, percorrendo o Brasil, os presídios, andando por todos os cantos, para debater a Campanha da Anistia.

Pouco depois, convidávamos Teotônio e ele vinha para o MDB. Tínhamos a honra de tê-lo em nossos quadros.

Teotônio, na Anistia, foi o máximo!

O Presidente Fernando Henrique mencionou algumas lembranças em seu discurso de ontem, mas há muito mais que poderia ser lembrado.

Meu amigo, Senador Eduardo Suplicy, na greve do ABC, fez um fantástico trabalho. Lembro-me disso, porque eu estava ali. Era eu um acompanhante de S. Exª; só não carregava a sua mala porque ele não tinha, mas estava ao seu lado.

Lembro-me do momento em que, de repente, as ruas de São Bernardo começaram a lotar de gente, e mais gente, e mais gente; e militares começaram a chegar, militares e mais militares. A ordem era para que a praça fosse desocupada em duas horas. Lembro-me disso, porque estava ali. De repente, estavam misturados o povo e os militares: metade povo, metade militares. E o Teotônio disse ao Coronel: "Coronel, deixa isso aí. Deixa como está. Daqui a pouco, chega a hora da janta,..." - ou a hora do almoço, não me recordo - "... os militares vão almoçar e os operários também, e termina tudo. Porque, caso contrário, Coronel, não sei quantos vão morrer". O Teotônio conseguiu convencer o militar a não fazer nada, e aconteceu como o Teotônio disse.

Dali, saímos e fomos visitar o Lula na cadeia. Lá estava o Lula, grande líder sindical - claro que não havia nem PT. Ele era apenas uma figura que se destacava, a quem todos admiravam, pela sua competência, bravura, e porque não era apenas mais um líder sindical; tinha carisma e uma linha reta de ação. Nunca poderei esquecer as vezes em que assisti ao Lula falando - e não é o Lula de hoje, que está mais refinado, que já andou pelo mundo, estudou e leu muito. Era o Lula que tinha apenas a matéria-prima, apenas alma e sentimento. Mas a emoção, a comoção e a vibração que aquela gente sentia com os pronunciamentos de Lula era algo fantástico.

Lá, no quartel, Teotônio teve a mesma coragem, defendendo a soltura do Lula, mostrando aos militares que, naquela altura, seria ruim para todo mundo eles manterem o Lula preso; dizia ele - nunca me esqueço -: "O que vocês querem? O que vocês estão fazendo é até um favor para o Lula, que está na cadeia, transformando-se em herói; daqui a pouco, vão ter um herói, aí; soltem-no, deixem-no ir para a sua casa." Nunca me esqueço disso. O processo do Lula foi longe. Estávamos no Tribunal Superior Militar, Dr. Ulysses, eu, todo mundo, quando fizemos a última defesa do último recurso, e o Lula terminou ganhando.

O Sr. Eduardo Suplicy - Permite-me V. Exª um aparte?

O SR. PEDRO SIMON - Com o maior prazer.

O Sr. Eduardo Suplicy - Caro Senador Pedro Simon, V. Exª teve a oportunidade de sugerir ao Senado que prestasse uma homenagem aos seus grandes vultos e que começássemos por Teotônio Vilela, essa extraordinária figura. V. Exª está imaginando qual teria sido o sentimento de Teotônio Vilela nos dias de hoje. Na homenagem que lhe foi prestada ontem, estavam presentes toda a sua família, os seus filhos - o nosso Colega, Teotonio Vilela Filho -, e tantos que, sincera e corretamente, o homenagearam, inclusive pessoas que, em algumas ocasiões, tiveram diferenças de opinião com ele, como o Presidente José Sarney, porque, em algum momento, um era o Presidente da Arena e o outro havia deixado o Partido para abraçar o Partido em que se encontra hoje o próprio Presidente José Sarney. Ali estava também, homenageando o seu amigo, o Presidente Fernando Henrique Cardoso, que teve a sinceridade de dizer, em alguns momentos, que foi exatamente por causa do arrocho, da coragem e da assertividade de Teotônio Vilela que as pessoas caminharam na direção da abertura, da anistia, da democratização, da solidariedade aos trabalhadores metalúrgicos de São Paulo, aos metalúrgicos do ABC, na solidariedade a Lula e aos seus companheiros, naqueles momentos difíceis de 1979/80. Lembro-me de como em 1983 o Partido dos Trabalhadores convidou todos os demais Partidos para o primeiro comício das Diretas, em frente ao Estádio Municipal de Pacaembu, na Praça Charles Miller, e muitos hesitaram em ir. Sabíamos que Teotônio Vilela iria, mas, justamente na véspera do comício, ele faleceu. E naquele dia, foi homenageado, porque a sua memória foi uma das extraordinárias forças que levaram para Pacaembu, naquele primeiro comício, cerca de 30 mil pessoas, que depois se transformaram em milhões pelas praças e ruas do Brasil. Ontem, fiquei pensando, se vivesse, o que estaria hoje dizendo e falando aos seus amigos, aos seus companheiros, ao próprio Presidente da República sobre os temas do dia de hoje. Em que medida está o próprio Governo de seu companheiro Fernando Henrique Cardoso levando adiante a meta da justiça? Em que medida está levando à frente a erradicação da pobreza? Em que medida Teotônio Vilela hoje não estaria dizendo ao Presidente Fernando Henrique Cardoso e aos seus companheiros de Partido o que estaria pensando sobre a reeleição? Tenho a intuição de que Teotônio Vilela hoje estaria bravo. Estaria dizendo ao Presidente Fernando Henrique Cardoso e a todos aqueles que compõem a base de sustentação governamental que outra coisa deveria estar sendo prioritária que não essa obsessão pelo direito de reeleição. Seria muito mais adequado estarmos caminhando na direção do aperfeiçoamento das instituições democráticas, pensando nas questões mais relevantes, como a da reforma agrária, como trazer eqüidade, o mais rapidamente, para o Brasil.

O SR. PEDRO SIMON - Agradeço o seu aparte e, encaminhando-lhe uma resposta, digo o seguinte: Teotônio lançou dois documentos. Um, juntamente com Rafael de Almeida Magalhães, chamado "Projeto Brasil", onde apresentava uma proposta, um modelo para o Brasil. Aquilo que os Partidos políticos e as entidades ainda não apresentaram Teotônio apresentou.

Está chegando aqui, na tribuna, o Sr. Nísio, a quem me referi agora há pouco e que se lembra do "Projeto Brasil" que Teotônio apresentou, publicou e divulgou pelo Brasil afora. No final da sua vida, sabendo que não iria durar, pois o "Projeto Brasil" era para ser imposto, analisado e executado a médio prazo, lançou o "Projeto Emergência", onde falava das quatro dívidas que deveriam ter respostas imediatas: a dívida externa, a dívida interna, a dívida política e a dívida social.

Com relação à dívida política, S. Exª falava na anistia, na democracia, nas eleições diretas e tudo mais. Na dívida social, ele dizia, exatamente, o que agora passo a ler:

      "A dívida social era a dívida com o povo, dívida em emprego, escola, moradia, saúde, terra e alimentação. Como imperativos imediatos eram recomendadas a adoção de uma lei salarial justa que propicie um processo firme de distribuição de renda e a imediata revogação das medidas recessivas, mediante uma política de investimentos, planejada em função de duas prioridades: mercado interno e emprego de toda força de trabalho disponível."

Não tenho outra resposta a sua pergunta senão essa que aqui acabei de ler. Se Teotônio pudesse falar hoje, repetiria o que está registrado neste livro! Essa é a dívida social, a importância imediata, na opinião de Teotônio. Portanto, se vivesse, Teotônio repetiria o que está aqui registrado. Em sua opinião, os problemas básicos são a fome, o mercado interno e o desempregado.

Que coisa fantástica! O Teotônio usineiro, o Teotônio da burguesia de Alagoas, o Teotônio que nunca conviveu - porque não tinha por que não conviver - senão com a elite, tinha um sentimento da alma social que muita gente nascida em favela, em bairro pobre, gente simples, não tem. Esse era o Teotônio. O Nísio, que hoje é Chefe do meu Gabinete, é testemunha do que estou afirmando.

Na verdade, quando Teotônio veio morar comigo e ao utilizar o meu gabinete, o Nísio era o seu secretário, seu enfermeiro, ou seja, ele estava 24 horas com Teotônio. Era ele quem o levava ao médico, às aplicações de quimioterapia, aos exames, a São Paulo, quem pegava a cadeira de rodas e o levava ao aeroporto, comprava as passagens.

Quantas vezes lhe dizíamos que, no estado em que se encontrava, não dava para ele viajar. Não dava, mas ele ia assim mesmo. E lá se ia o Teotônio para Mato Grosso, para o Rio Grande do Sul, para a Amazônia, para a Bahia, para onde fosse preciso. Nós o carregávamos para o avião com cadeira de rodas e avisávamos, no lugar de destino, que o esperassem com cadeira de rodas e com ambulância, porque nunca sabíamos como ele iria chegar. E o Teotônio chegava lá e falava nas dívidas.

Olha, juro por Deus, nunca vi nada igual! Nunca vi uma platéia tão emocionada! Nunca vi, juro que nunca vi! Tenho 66 anos e nunca vi! Ele era um mensageiro, um místico, porque lotava onde ia falar. Falava um, depois falava outro, e o Teotônio sentado na cadeira, ali na mesa, quase dormindo, a rigor, de olhos fechados, curvo, completamente curvado, sem nenhum cabelo, com aquele seu chapéu, que ele só tirava quando era necessário. O sentimento que tínhamos era só de piedade.

Lembro-me que em uma dessas vezes que eu estava junto um companheiro, ele foi agressivo comigo, dizia: "É uma barbaridade o que vocês estão fazendo, vocês querem se promover à custa de Teotônio. É um crime o que estão fazendo. O Teotônio tinha que estar no hospital, em casa, isso é exploração, vocês deveriam ir para a cadeia." Mas era ele que queria. Não havia como amarrá-lo, porque ele fazia questão de vir. Mas o sentimento de todos era de piedade.

De repente, o Presidente anunciava: "Está com a palavra o Senador Teotônio Vilela". Era um esforço enorme para ampará-lo da mesa à tribuna, até que ele colocasse as bengalas em cima da mesa. Aí, ele começava a falar. Olha, meus amigos, de repente era outro Teotônio. Parece que Deus lhe dava vigor. Parece que Deus lhe dava seiva. De repente, ele começava a olhar, falar, gritar e empolgar.

Nunca esquecerei, na minha vida, o dia em que ele pegou as muletas e veio para trás e disse: "Estou aqui com meus quatro cânceres. Estou aqui com as aplicações de quimioterapia em meu cérebro. E, às vezes, não sei quando estou totalmente certo, quando estou sonhando ou delirando. Estou aqui arrastado, mas estou fazendo a minha parte. Chamam-me de "o louco manso". Meu médico diz que não adianta mais me dar determinação ou orientação, porque estou louco, "louco manso", porque eu deveria estar no hospital ou com a minha mulher e meus filhos na praia. Porque sou muito rico, tenho muito dinheiro. Ou pegar a minha mulher e viajar pelo exterior. Essa é a determinação dos meus médicos, mas não posso fazer isso, não me sentiria bem fazendo isso. Por isso, estou me arrastando, vindo até aqui, para dar, principalmente, o exemplo. Estou aqui, com quatro cânceres e duas bengalas, me arrastando, com a quimioterapia acabando com as forças que me sobraram, para fazer um apelo." E ele olhava para todo mundo, parado e dizia: "Você, meu jovem, que tem 23 anos, está na faculdade, tem a vida pela frente, tem saúde, tem dois olhos para ver, boca para falar, saúde plena, olha para a sua Pátria, meu irmão! Pensa em você, em estudar, em crescer, em ser gente, em constituir família, claro, mas olha também para o lado, para os seus irmãos, para a sua gente, dê a sua contribuição para mudar o destino desse País!" E era um choro só. Aquele era o Teotônio!

Tenho que citar algumas passagens, Sr. Presidente. Teotônio tinha um projeto de fazer uma nova usina ultramoderna, projeto do seu filho - não o Teo, que conheci muito pouco, poucas vezes apareceu aqui em Brasília, não tive maior relacionamento com ele, fui conhecê-lo, a rigor, quando Teotônio tinha morrido - que era quem cuidava dos negócios. O Teotônio não dava bola nenhuma para a usina. O companheiro Renan, que nos honra na Presidência dos trabalhos e por quem Teotônio tinha o maior carinho e respeito, sabe melhor que eu. O filho mais velho dele - o José Aprígio - tinha um grande projeto de uma moderna usina. Estava tudo pronto, dentro da lei, dentro dos direitos, dentro da normalidade. Ele entrou com um processo de pedido de empréstimo para construção. Todos os demais conseguiram e Teotônio não. Tentaram fazer chantagem com o filho de Teotônio: "Tudo bem, o dinheiro está aqui, não há nenhum problema, mas pede a seu pai para baixar a bola."

Teotônio veio à tribuna - o companheiro Renan deve saber disso -, mostrou como o processo estava totalmente regular, em dia, e mostrou os outros que tinham entrado com o pedido um ano depois e já haviam recebido o empréstimo. O que ele disse está nos Anais, referindo aonde os caras do banco deviam botar o dinheiro, porque a ele, Teotônio, eles não iam mudar.

Sofri muito na minha vida, Sr. Presidente. Perdi um filho num acidente e perdi minha mulher. A vida me reservou horas muito amargas, mas na vida política talvez o momento mais duro que vivi foi aquele em que o Nísio estava comigo. A empolgação em torno de Teotônio era tão fantástica, o nome de Teotônio e as suas idéias estavam empolgando tanto o Brasil que, lá pelas tantas, seus muitos amigos no PC do B resolvem lançá-lo candidato a Presidente da República. E Teotônio estava meio atrapalhado com aquilo. De repente vai ele e fala com o Nísio: "Nísio, todo mundo fala num nome para Presidente da República, fulano e sicrano, e o Pedro não me fala nada." Ia haver uma reunião de intelectuais e artistas em São Paulo para lançá-lo candidato à Presidência da República. Isso foi uma terça-feira e no sábado iam lançá-lo candidato. E ele só tinha uma exigência: queria que quem o lançasse fosse eu. Dizia:"Fica até mal para mim, quem tem que lançar meu nome é o Pedro e não o PC do B". O Nísio me falou.

Fomos para minha casa, jantamos, ele tomou banho, Nísio o ajudou e ele se deitou. Estávamos eu, Nísio e ele, deitado. E eu disse: "Teotônio, quero te dizer que o Nísio Tostes conversou comigo e que é verdade, tu tens razão, tenho muito carinho e respeito pelo Dr. Ulysses, mas hoje a figura que empolga o Brasil é a tua. Não tem padre, não tem bispo, não tem político, não tem jogador de futebol, não tem intelectual, não tem ninguém que empolgue mais o Brasil hoje do que tu, Teotônio. E se olharmos para trás, não teve ninguém como tu, porque tu és um apóstolo, uma figura diferente." Tivemos grandes líderes, grandes nomes - Dr. Ulysses empolgou, foi o homem da resistência, da luta, um homem espetacular -, mas um papel como o de Teotônio nenhum outro teve. "Teotônio, tu empolgastes o Brasil com duas coisas: primeiro, com o teu documento "As quatro dívidas"". Ele estava apaixonado pelo documento e houve um determinado momento em que eu tive a dureza de dizer para ele: "Claro, Teotônio, o teu documento é muito importante; a dívida externa, a dívida interna, a dívida social e a dívida política, tu estás resumindo em quatro pontos o óbvio. E tu estás empolgando, falando bem, isso é o correto. Mas, Teotônio, tu estás empolgando porque és tu que estás falando. Se tu sais e entra o Pedro Simon para falar das quatro dívidas, ninguém se lembrará mais de nada. Porque tu és um mártir, um herói, um deus, uma figura que está acima do bem e do mal. O que tu estás fazendo é chamar a alma das pessoas e acordando-as para a responsabilidade que têm perante o País. Tu és o sonho, a realidade, o altruísmo, a pureza, o máximo que todos vêem e que todos desejam. Mas tem uma coisa, Teotônio, quem saiu pelo Brasil dizendo que tem quatro cânceres foste tu; quem saiu pelo Brasil afora dizendo que está de bengala, e fazia questão de botar a bengala na mesa, foste tu; quem saiu pelo Brasil dizendo que vai morrer logo, mas que quer morrer lutando, foste tu. Teotônio, amanhã, em São Paulo, tu podes te lançar candidato à Presidência da República. Quero dizer-te que já houve duzentos candidatos à Presidência da República, e haverá mais duzentos. Em qualquer canto, encontramos candidato à Presidência da República, mas Teotônio é só Teotônio. Estás andando pelo Brasil, Teotônio! Tu estás fazendo uma pregação, que é a pregação mais linda, mais mística, mais bonita da história deste País. De repente, és candidato a Presidente da República, Teotônio. Baixa tudo. Vão dizer que estás fazendo isso, porque és candidato a Presidente. E para candidato a Presidente tu não serves, Teotônio, porque tu já disseste que tens quatro cânceres e vais morrer. Como é que vamos eleger Presidente da República uma pessoa nas tuas condições?

Eu chorava como criança. O Nísio chorava como criança. Ele chorava como criança. "Boa-noite", disse ele com a cara fechada, rústica, braba. Disse: "Chega, boa-noite". Boa-noite, respondi.

Nunca mais ele falou em Presidência da República. Não foi a São Paulo e nunca mais admitiu que o pessoal do PC do B falasse na sua candidatura à Presidência da República. Depois ele disse ao Nísio: "Parece mentira, mas esse Pedro - pensei que só eu dava aula para ele - dessa vez ele me chamou a atenção. Que bobagem eu ia fazer indo na trela desse pessoal do PC do B".

Imaginem como isso me doeu. Imaginem o meu sofrimento naquele momento em que tive de dizer aquilo. E ele continuou - isso é muito importante para mim - muito mais tempo e mais empolgado. Continuou com o pessoal do PC do B, mas já não era só o pessoal do PC do B. Vieram os outros, e ele levou muito mais tempo com mais entusiasmo, com mais garra do que quando se falava na candidatura dele a Presidente da República.

Sr. Presidente, permita-me contar outro episódio. A extinção do MDB foi uma luta dramática. O Brasil tem dessas coisas, e ontem, o Senado viveu uma das noites mais negras da sua história. Está provado que o Parlamento do Collor não abriu mão de tratarmos da questão da Vale. Estávamos enganados. Fui verificar a lei, pois não a tinha lido - ninguém havia lido - e percebi isso, e o Senado ontem não quis olhar para isso. Foi um dia negro, e vivi esse dia. Graças a Deus, falei.

O grande dia negro que vivi no Congresso Nacional foi quando, pela lei, foram extintos a Arena e o MDB. Dr. José Sarney, Presidente da Arena foi o último orador que falou e defendeu a extinção em nome da Arena. Eu, vice-Presidente do MDB, fui o último orador que falou em nome do MDB, defendendo-o. Lembro que eu dizia: Presidente, o senhor está enganado. Em primeiro lugar, não adianta mudar. Estão querendo extinguir o MDB e a Arena porque o MDB cresceu demais e a Arena se desmoralizou demais. Então, querem criar um novo Partido para tentar começar de novo, mas querem mudar apenas o rótulo. Será o mesmo conteúdo com novo rótulo, só que se o rótulo "Arena" levou tanto tempo para ser o maior Partido do Ocidente e teve de ser extinto, esse novo Partido que será fundado levará muito menos tempo para ser extinto, porque o conteúdo é o mesmo.

Querem extinguir o nosso MDB! Então, deixem-nos liberdade para extingui-lo. Extinguiram o nosso Partido, que foi ruim, foi um Partido criado para coonestar a ditadura, mas que se transformou, que mudou e hoje está a caminho de ser um grande partido? Por que extingui-lo? Mas o extinguiram numa quinta-feira, à meia-noite, na última sessão do Congresso Nacional - não sei em que dia de dezembro, sei apenas que no dia seguinte começou o recesso.

Dr. Ulysses lutou como um leão em defesa do MDB, mas lutou tanto que não passou pela sua cabeça que o MDB seria extinto, tal a certeza que tinha de que isso não aconteceria. Nosso partido foi extinto.

Fui ao gabinete do presidente do MDB, que ficava no porão. Lá estava o Dr. Ulysses sentado naquela mesa de reunião. Foi a primeira vez que vi o sintoma da doença que, depois, ele teria várias vezes: a depressão.

Ele estava arrasado, machucado. Ele estava, realmente, numa situação horrível. Terminou para ele. Deveriam ser quatro ou cinco horas da tarde, e o Congresso encerrara os seus trabalhos à meia-noite. Saí arrasado e fui para o meu gabinete. Lá estava o Teotônio. "Oh, Pedro, isso não pode ficar assim! Toda essa gente aí vai agora para os seus Estados e só volta em março, e o Partido está extinto? Cada um vai seguir os seus rumos e vamos desaparecer da forma mais ridícula e estúpida?"

Foi no meu gabinete, com o Teotônio, e o Nísio se lembra disso, que nasceu a idéia de lançar, antes do irmos para o recesso, as bases de um novo Partido. Teotônio estava ali, no meu gabinete, e convocamos toda a imprensa - rádio, jornal, televisão - para ir às 17 horas, ao Salão Verde da Câmara, porque iríamos lançar um novo Partido. Os jornalistas indagavam: "Mas que é isso? Acabou tudo ontem! Ninguém sabia de nada."

Deus me perdoe. Teotônio não vai gostar do que vou dizer. Mas tenho de dizer: tu eras ótimo, mas não eras santo. Teotônio nunca me perdoou. Saímos do meu gabinete e lá estava aquele montão de jornalistas. "O que vai acontecer?" perguntavam. Eu disse ao Teotônio: espere um pouco. Fui lá em baixo e trouxe o Dr. Ulysses. Teotônio nunca me perdoou. Na verdade, Dr. Ulysses não queria ir. "Se não quer, fique lá! Ele não quer, que fique lá", dizia Teotônio. Ele queria que nós - ele e eu - lançássemos o novo Partido. Entre nós dois, ele era a grande vedete. Pensei, com toda a sinceridade, que, para o futuro do Partido, era importante que o Dr. Ulysses também participasse do seu lançamento.

Então, lançamos o novo Partido. Mas que novo Partido, se não tem nome, não tem nada? Sabem V. Exªs qual foi o nome que lhe demos na ocasião? O Sucedâneo. Pedimos que ninguém, até março, antes de vir aqui, se comprometesse com nenhum Partido que não fosse o Sucedâneo.

Marcamos uma data para a reunião: dia 15, ou 16, de janeiro. Tínhamos marcado uma reunião com todos para lançar a plataforma do Partido. Ainda não sabíamos que plataforma era, que Partido era, nem mesmo sabíamos se íamos para o tal PT. Não sabíamos de nada. A única coisa que achávamos, Sr. Presidente, é que não podíamos ir para casa...Teotônio dizia que era uma maluquice toda essa história, porque todos iriam para a reunião sem saber de nada, sem nenhum referencial. A partir daí, foi um milagre. O Sucedâneo, em 15 de janeiro. E todos foram embora. Aí, vinham pessoas chamando os políticos para diversos Partidos. Eu participava de todas as reuniões, mas não tomava decisão nenhuma, esperando o que iria acontecer aqui em Brasília no dia 15 de janeiro.

Foi assim que nasceu o PMDB, ali no meu gabinete, que não era apenas meu, mas meu e de Teotônio. Teotônio não era Senador, mas ali era o gabinete dele. Eu até dizia "do Teotônio e meu", porque muita gente não sabia que eu estava ali, mas iam à procura de Teotônio. Foi assim que nasceu o PMDB.

Sr. Presidente, agradeço a tolerância, mas tenho certeza de que V. Exª haverá de compreender a emoção e o sentimento que eu tenho agora. Esse foi Teotônio. Eu olho, na vida, as figuras sob os mais variados ângulos. Tancredo Neves foi Presidente da República, Primeiro-Ministro. Foi um grande nome. Juscelino Kubitschek realizou obras extraordinárias. Foi um grande nome. Getúlio Vargas, 20 anos no poder, mudou a realidade deste País. Foi um grande nome. O Dr. Ulysses Guimarães, o homem da resistência, o homem da luta, o comandante que não se dobrava. Foi um grande nome. Alberto Pasqualini, com as suas idéias sociais, foi um grande nome brasileiro. Mas, como homem, é difícil encontra outro Teotônio Vilela.

Meu Presidente, estaremos a festejar, daqui a pouco tempo, o segundo milênio do nascimento de Cristo. E se no dia 25 de dezembro do ano 2.000 vamos festejar o segundo milênio, 33 anos depois festejaremos o segundo milênio da Paixão de Cristo, Filho de Deus, homem e Deus, que sofreu, foi torturado e morreu. Mas a tortura e a morte de Cristo levaram três dias. E Cristo foi levado preso e foi morto. Teotônio saía de casa para o sacrifício: ele saía de casa, pegava a bengala, sentava na cadeira de rodas gemendo, porque queria. Ele não era obrigado, mas ia porque queria.

É muito difícil encontrar um vulto como Teotônio. Por isso falo aqui: a homenagem de ontem foi linda. E felicito pela coragem, de modo especial, o Presidente Fernando Henrique Cardoso, porque, afinal, como Presidente da República, Sua Excelência não devia nem lembrar aqueles episódios em que Teotônio rebelou-se contra a autoridade pública. Mas o Presidente disse que falava como amigo e não como Presidente.

Falo aqui, Sr. Presidente, não apenas em nome dos amigos, mas em nome das viúvas de Teotônio, dos órfãos de Teotônio, dos milhões e milhões de pessoas que continuam venerando Teotônio, admirando Teotônio e continuam reconhecendo, no mártir Teotônio, a figura legendária mais linda em renúncia e em grandeza da história do Brasil.

Meu abraço, Teotônio; meu carinho, Teotônio. Estamos aqui para dizer que a tua caminhada continuou e que se tu gostastes da solenidade de ontem, tu estavas esperando a palavra de hoje, porque, na verdade, tu não poderias aceitar que esquecessem: Mas e o que eu fiz e o que eu semeei, já se esqueceram? Não! Não só não nos esquecemos como nos serve de paradigma, de orientação, de bússola, de guia na caminhada para que este Brasil, Teotônio, que já tem a democracia, graças a Deus, que já tem a liberdade, graças a Deus, no social seja o País pelo qual tu lutastes e pelo qual tu morrestes.

Muito obrigado, Sr. Presidente.


Este texto não substitui o publicado no DSF de 14/12/1996 - Página 20630