Discurso no Senado Federal

CRISE ESTRUTURAL DA SAUDE PUBLICA NO BRASIL, DESTACANDO O PAPEL QUE CABE AO CONGRESSO NACIONAL NA BUSCA DE NOVAS E CRIATIVAS ESTRATEGIAS PARA A SUPERAÇÃO DO ESTRANGULAMENTO DO SISTEMA. NECESSIDADE DE CAUTELA COM A PROPOSTA DO GOVERNO DE CRIAÇÃO DE UM IMPOSTO DEFINITIVO PARA FINANCIAR A SAUDE, EM SUBSTITUIÇÃO AO CPMF.

Autor
Casildo Maldaner (PMDB - Movimento Democrático Brasileiro/SC)
Nome completo: Casildo João Maldaner
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
SAUDE.:
  • CRISE ESTRUTURAL DA SAUDE PUBLICA NO BRASIL, DESTACANDO O PAPEL QUE CABE AO CONGRESSO NACIONAL NA BUSCA DE NOVAS E CRIATIVAS ESTRATEGIAS PARA A SUPERAÇÃO DO ESTRANGULAMENTO DO SISTEMA. NECESSIDADE DE CAUTELA COM A PROPOSTA DO GOVERNO DE CRIAÇÃO DE UM IMPOSTO DEFINITIVO PARA FINANCIAR A SAUDE, EM SUBSTITUIÇÃO AO CPMF.
Publicação
Publicação no DSF de 27/03/1998 - Página 5230
Assunto
Outros > SAUDE.
Indexação
  • ANALISE, SITUAÇÃO, CRISE, SAUDE PUBLICA, BRASIL, INEFICACIA, SISTEMA UNICO DE SAUDE (SUS), ATENDIMENTO, ASSISTENCIA MEDICO-HOSPITALAR, POPULAÇÃO, COMBATE, EPIDEMIA, DOENÇA TRANSMISSIVEL.
  • IMPORTANCIA, ATUAÇÃO, CONGRESSO NACIONAL, DEBATE, BUSCA, SOLUÇÃO, PROBLEMA, SAUDE PUBLICA, BRASIL, REFORMULAÇÃO, SISTEMA UNICO DE SAUDE (SUS), MELHORIA, NIVEL, QUALIDADE, ATENDIMENTO, ASSISTENCIA MEDICO-HOSPITALAR, POPULAÇÃO.
  • NECESSIDADE, ATENÇÃO, GOVERNO FEDERAL, ESTUDO, PROPOSIÇÃO, CRIAÇÃO, IMPOSTOS, SAUDE, MOTIVO, INEFICACIA, COMPOSIÇÃO, CONTRIBUIÇÃO PROVISORIA SOBRE A MOVIMENTAÇÃO FINANCEIRA (CPMF), FINANCIAMENTO, SAUDE PUBLICA, EFEITO, DESVIO, VERBA, INSUFICIENCIA, ARRECADAÇÃO, RECURSOS FINANCEIROS, APLICAÇÃO, SISTEMA UNICO DE SAUDE (SUS).

           O SR. CASILDO MALDANER (PMDB-SC. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Srªs. e Srs. Senadores, a crise da saúde pública no Brasil, às vezes apresentada na forma dramática do atendimento improvisado em corredores superlotados de hospitais, é, na verdade, uma crise estrutural mais profunda e abrangente do que pode fazer supor a ocorrência sistemática de episódios degradantes.

           A partir da tragédia de Caruaru, do escândalo dantesco das clínicas geriátricas e das monstruosas mortes de recém-nascidos, a saúde tem sido objeto de constantes denúncias por parte do Congresso Nacional e da sociedade brasileira. Lamentavelmente, a despeito da insatisfação generalizada e da ampla discussão que se vem desenrolando, os problemas de saúde evoluíram de forma a atingir uma situação extrema que ameaça comprometer, de modo irremediável, a cidadania e a dignidade da vida humana.

           Diante da magnitude e gravidade do problema, cabe ao Congresso Nacional recolocar o debate nos termos de sua complexidade, a fim de buscar soluções duradouras que, na área da saúde, atendam aos anseios e às necessidades da população brasileira.

           Na tentativa de resgatar, ao menos em parte, a trajetória da questão da Saúde ,é preciso recorrer à história recente para que se possa identificar, se não a causa, os componentes do agravamento da crise que atingiu esse setor da vida brasileira.

           As diretrizes fundamentais do atual sistema de saúde brasileiro, o Sistema Único de Saúde - SUS, com seus princípios de descentralização, universalidade e igualdade, foram erigidas a partir de uma intensa mobilização de nossa sociedade.

           Nesse processo, coube à Constituição de 88 acolher e desenvolver, nos artigos constitucionais, o reconhecimento da saúde como um direito de todos e do compromisso do Estado no seu provimento à população.

           Mas, convenhamos, Srªs. e Srs. Senadores, passados já dez anos, é forçoso reconhecer a imperiosa necessidade de promover uma avaliação ampla do sistema e, se necessário, uma reformulação que seja capaz de recuperar e implementar, de fato, essa proposta, que é a mais abrangente e generosa já formulada para a área de saúde em nosso País.

           É evidente, contudo, que essa medida não nos exime da colocação de uma premissa inevitável: o Brasil gasta pouco e mal com a assistência à saúde, e o atual Governo não tem dado prioridade aos gastos e investimentos na área social, o que, todos sabemos, gera uma demanda adicional de serviços.

           O emblema mais significativo da crise que ora enfrentamos, embora a falta de atendimento hospitalar tenha um maior impacto na sociedade, é o avanço alarmante de doenças até agora tidas como controladas, o que vem caracterizar a falta de uma ação preventiva no País.

           O sistema de saúde, no Brasil, é eficaz para uma campanha de vacinação em massa, mas nas ações prolongadas, de combate às várias doenças ou de redução da morte materna, ele fracassa. Uma campanha de massa é um esforço concentrado num certo dia, vacinando-se crianças até no meio da rua, se for preciso. Já um programa continuado requer a existência e funcionamento de uma infra-estrutura mínima.

           Assim, epidemias de dengue e malária estão presentes em grande parte do território brasileiro, além de outras doenças endêmicas, como a leishmaniose, a febre amarela, a tuberculose e outras.

           Os Estados do Amazonas e Amapá tiveram 118 mil pessoas infectadas pela malária em 1977. No Amazonas, de 70 mil casos em 96, a malária passou para 93,1 mil casos no ano passado, com perspectiva de esse índice dobrar até o final deste ano, segundo a previsão das autoridades estaduais de saúde.

           No Amapá, os casos evoluíram de 19 mil, em 1996, para 24,6 mil casos em 1997.

           A dengue - há pouco o Senador Carlos Wilson sobre ela discursava desta tribuna - atingiu 240 mil pessoas em 1997, 35% a mais do que em 1996. Segundo o Ministério da Saúde, os casos de dengue registrados, até o mês de março deste ano, somam 60.980. A epidemia está mais acentuada na Região Sudeste. No Estado de São Paulo, foram registrados 931 casos; no Rio de Janeiro, 3.014; e, no Espírito Santo, as notificações chegaram a 20 mil.

           O mesmo crescimento foi verificado em outras doenças dadas como controladas. O sarampo apresentou, em 1997, 26 mil 328 casos; a tuberculose, 90 mil; a hanseníase, 45 mil; e a cólera, 2 mil 884.

           Além da expansão das doenças endêmicas, outras ocorrências atestam a falta de um trabalho de prevenção junto à população brasileira. É o caso da mortalidade materna, cujo coeficiente é de 148 por 100 mil crianças nascidas vivas, segundo dados do Ministério da Saúde.

           Para a Organização Mundial de Saúde - OMS, o coeficiente de 10 a 49 mortes por 100 mil nascidos vivos é considerado médio, de 50 a 149 é alto e 150 mortes ou mais é muito alto.

           As principais causas de morte materna são síndromes hipertensivas, hemorragia e infecção. Estudos desenvolvidos no PIS mostram que 80% dessas mortes poderiam ser evitadas com um bom pré-natal e uma assistência adequada ao parto.

           Noto que o eminente Senador que preside esta sessão, Senador Carlos Patrocínio, que é médico, acompanha este meu pronunciamento e há pouco aparteava o Senador Carlos Wilson em seu discurso sobre a saúde. Trata-se de assunto que a todos nós comove, chama a atenção de todos nós.

           É necessário que se enfatize, Srªs. e Srs. Senadores, que os exemplos aqui mencionados comprovam o afastamento do SUS do seu princípio doutrinário mais central, que é a integralidade - isto é, a indissociabilidade entre prevenção e atenção curativa. Hoje, a prioridade orçamentária federal é nitidamente representada pela assistência médico-hospitalar, em detrimento criminoso das ações de promoção e proteção da saúde.

           Dessa forma, o orçamento da saúde ficou restrito ao pagamento de contas de hospitais. O dinheiro faz falta. A Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira - CPMF, criada exclusivamente para garantir que a saúde dispusesse de um financiamento estável, não atingiu seus objetivos.

           Seriam R$ 6,9 bilhões a mais em 1997, planejados para serem investidos no pagamento das ações de prevenção do SUS e de modificações na estrutura do Ministério da Saúde. Essa proposta não se efetivou. Por outro lado, parte do dinheiro que vinha de outras fontes, como a Contribuição para Financiamento da Seguridade Social (Cofins), nunca chegou aos cofres da saúde.

           Por essas razões, Srªs. e Srs. Senadores, é preciso cautela com a proposta do Governo de criação de um imposto definitivo para financiar a saúde, em substituição à CPMF, pois se constata que o problema não reside, exatamente, na falta de mecanismos de captação de recursos. A escassez de dinheiro para a saúde está associada à falta de definição de prioridades para o setor social.

           Espera-se que a recente mudança no Ministério da Saúde seja indício de uma disposição efetiva do Governo para reverter o curso histórico dos fatos.

           Ainda há pouco ouvíamos o eminente Senador Sebastião Rocha pronunciar-se sobre o novo Ministro da Saúde, que em alguns dias assumirá a Pasta, o Senador José Serra. Analisou essa questão, recebeu apartes do eminente Senador Jefferson Péres, que somou votos para que se encontrasse uma solução duradoura para a saúde no País.

           Se a sociedade acredita na solidariedade como valor e tem como objetivo acabar com a exclusão e diminuir as diferenças sociais, conferindo ao Estado um papel central na condução das políticas sociais, é essencial que se faça convergir esforços no sentido de pressionar o Governo para viabilizar condições dignas de saúde para uma população tão sofrida. Nessa missão, Srªs. e Srs. Senadores, caberá ao Congresso Nacional um papel fundamental na busca de novas e criativas estratégias para a superação dos atuais pontos de estrangulamento do sistema e consolidação de uma verdadeira política de universalização do acesso à saúde.

           Eram essas as considerações, Sr. Presidente e nobres colegas, que eu gostaria de deixar registradas na Casa em relação a esse quadro que estamos a enfrentar. Alguns casos que poderiam estar sendo superados estão, na realidade, transformando-se em epidemia. Estamos a enfrentar, em todos os quadrantes do Brasil, quer no Norte, quer no Nordeste, no Centro-Sul ou no Sudeste, problemas de toda a ordem. A saúde, como já tenho dito em outras oportunidades, encontra-se na UTI. Por essa razão, temos de realizar todos os esforços no sentido de resolver esse problema.

           O Senador Sebastião Rocha e o Senador Carlos Wilson, analisando as premissas do novo Ministro da Saúde, fizeram apelos com os quais me associo: precisamos estar enfronhados nesse assunto, para que, de uma vez por todas, possamos ter uma política de saúde bem traçada no Brasil. A doença nunca avisa quando chega; pega muitas vezes de surpresa, seja o pai, seja a mãe ou alguém da família. Ela não comunica quando vai chegar. Por isso, precisamos estar prevenidos, estar de atalaia, de prontidão para enfrentar esse problema.

           Muito obrigado.


Este texto não substitui o publicado no DSF de 27/03/1998 - Página 5230