Discurso no Senado Federal

HOMENAGEM DE PESAR PELO FALECIMENTO DO SENADOR HUMBERTO LUCENA.

Autor
Benedita da Silva (PT - Partido dos Trabalhadores/RJ)
Nome completo: Benedita Souza da Silva Sampaio
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
HOMENAGEM.:
  • HOMENAGEM DE PESAR PELO FALECIMENTO DO SENADOR HUMBERTO LUCENA.
Publicação
Publicação no DSF de 15/04/1998 - Página 6422
Assunto
Outros > HOMENAGEM.
Indexação
  • HOMENAGEM POSTUMA, HUMBERTO LUCENA, SENADOR, ESTADO DA PARAIBA (PB), EX PRESIDENTE, CONGRESSO NACIONAL.

A SRª BENEDITA DA SILVA (Bloco/PT-RJ. Para encaminhar a votação. Sem revisão da oradora.) - Sr. Presidente, Srªs. e Srs. Senadores, quem de nós, num momento como este, não sente dor e, ao mesmo tempo, emoção muito forte pela perda irreversível? Essa dicotomia radical que a morte traz a qualquer ser humano, independentemente de sua origem, dá-nos também a oportunidade de refletirmos sobre o valor da vida, o tempo perdido e muitas vezes o sobre o carinho que deixamos de dar e receber. 

Ao encaminhar o requerimento, presto uma pequena homenagem ao Senador Humberto Lucena, como lembrança dos mais de 12 anos em que tive oportunidade de conviver e dialogar com S. Exª. As palavras do Senador Ronaldo Cunha Lima tocaram-me profundamente, pois S. Exª as proferiu com saudade, com emoção, com companheirismo. Quando se vai um amigo, um companheiro, vai com ele um pouco de nós. O Senador Ronaldo Cunha Lima nos fez sentir isso quando transmitiu suas palavras.

Lembrei-me de um momento em que o Senador Humberto Lucena presidia os trabalhos na Assembléia Nacional Constituinte. Havia uma questão em relação à qual éramos - nós, Parlamentares da Oposição - minoria. Estávamos num processo ininterrupto de intervenções, e S. Exª não se irritou em momento algum; muitos outros Parlamentares se irritaram, porque a nossa constância e o revezamento na tribuna se davam com muita veemência.

Lembro-me de um gesto muito sereno do Senador Humberto Lucena. Num determinado momento acalorado da discussão, chegamos à Mesa. S. Exª nos contemplou e disse calmamente: “Está encerrada a sessão”. Naquele momento, talvez tenha nascido em alguns de nós um desejo enorme de sacudir o Senador Humberto Lucena, tal a nossa irritação pelo fato de S. Exª ter encerrado a sessão. Com seu gesto - nos irritava pela sua serenidade, mesmo quando queríamos provocá-lo -, S. Exª cumpria o Regimento. Costumávamos dizer que o Senador Humberto Lucena fazia uma leitura fria do Regimento; S. Exª o lia, não se irritava e não se incompatibilizava, pois estava cumprindo os termos regimentais.

Essa serenidade do Senador Humberto Lucena no exercício de suas funções também foi realçada no discurso do nobre Senador Ronaldo Cunha Lima como um exemplo que, às vezes, falta em nossas discussões acaloradas. Soubemos, por intermédio dos amigos, que S. Exª também utilizava essa serenidade nos seus relacionamentos mais particulares.

Ao encaminhar esse requerimento, quero guardar a última lembrança que tenho de S. Exª neste plenário. Durante o pronunciamento do Senador Ronaldo Cunha Lima, eu olhava, de vez em quando, para aquele canto; era como se S. Exª ali estivesse sentado, aguardando o seu momento de falar. Algumas vezes, dirigi-me ao Senador Humberto Lucena - como é de hábito e de costume, falo quase todos os dias - e lhe perguntei: “Senador, o senhor vai falar?”. E S. Exª me disse: “Vou, mas se você quiser, posso lhe ceder o lugar”. Eu disse: “Senador, apenas quero saber se o seu discurso será muito longo”. Ele me disse: ”Não, vou dizer apenas umas palavrinhas; não será longo o meu discurso, mas, se você quiser, deixarei que você fale antes de mim”. Quantas e quantas vezes, daquele canto, S. Exª me aparteou, principalmente nos meus primeiros dias de mandato nesta Casa! Esse era um gesto de solidariedade; S. Exª me estimulava para que eu falasse, para que eu continuasse trilhando aquele caminho.

Guardo a lembrança daquela que, talvez, tenha sido a sua última intervenção neste plenário. Discutíamos uma matéria, e S. Exª disse que estaria votando em obediência à Liderança do PMDB, que estaria votando como alguém que, mais uma vez, dava crédito ao Governo, mas entendia que, sem uma reforma fiscal e tributária, seria humanamente impossível dar continuidade a uma reforma que dava sustentação econômica a um processo de mudança nas relações políticas no País, mas que não atendia àquilo que mais estava preocupando cada um de nós: a questão do emprego. S. Exª falava do Contrato Temporário de Trabalho e das questões sociais gritantes deste País. 

Sr. Presidente, Srªs. e Srs. Senadores, essa é a lembrança que guardei do Senador Humberto Lucena. Não me lembro de tê-lo visto fazer outra intervenção posteriormente.

Espero que seus familiares, que o acompanharam durante todo esse tempo e dividiram com S. Exª seus momentos de alegria, de satisfação e de tristeza, possam estar, pelo Espírito Santo de Deus, consolados neste momento.

Este momento não deve estar sendo fácil para as pessoas que trabalharam durante todos esses anos com S. Exª, para seus amigos mais íntimos e, sobretudo, para o Estado da Paraíba, que perde o seu representante, e para o PMDB, que perde um de seus grandes quadros. Mesmo em momentos de divergência, vimos em S. Exª aquele que soube defender as bandeiras do PMDB.

Tenho certeza de que esse homem que hoje jaz, além da saudade, deixa um exemplo de coragem. S. Exª passou por momentos difíceis, os quais tivemos oportunidade de presenciar, conforme mencionou o Senador Ronaldo Cunha Lima. Mas S. Exª soube superá-los durante o tempo em que prestou serviços ao seu Estado e ao seu partido, dando um grande exemplo de como enfrentar as adversidades.

Espero que S. Exª descanse em paz e que seus familiares encontrem conforto e consolo. Estaremos pedindo a Deus que possamos cumprir nossos mandatos e, como disse o Senador Ronaldo Cunha Lima, sair daqui como chegamos, sem que nos tenhamos beneficiado absolutamente de nada, como assim o fez o Senador Humberto Lucena.


Este texto não substitui o publicado no DSF de 15/04/1998 - Página 6422