Discurso durante a Sessão Deliberativa Ordinária, no Senado Federal

REPUDIO A AFIRMAÇÃO DO SENADOR ANTONIO CARLOS MAGALHÃES A REVISTA ISTOE, REFERENTE A SEU VOTO NO PROCESSO DE CASSAÇÃO DO SENADOR LUIZ ESTEVÃO.

Autor
Heloísa Helena (PT - Partido dos Trabalhadores/AL)
Nome completo: Heloísa Helena Lima de Moraes Carvalho
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
SENADO.:
  • REPUDIO A AFIRMAÇÃO DO SENADOR ANTONIO CARLOS MAGALHÃES A REVISTA ISTOE, REFERENTE A SEU VOTO NO PROCESSO DE CASSAÇÃO DO SENADOR LUIZ ESTEVÃO.
Publicação
Publicação no DSF de 08/03/2001 - Página 2589
Assunto
Outros > SENADO.
Indexação
  • CRITICA, DEPOIMENTO, ANTONIO CARLOS MAGALHÃES, SENADOR, REUNIÃO, PROCURADOR DA REPUBLICA, REFERENCIA, COMENTARIO, EXISTENCIA, RELAÇÃO, COMPROVAÇÃO, VOTO CONTRARIO, ORADOR, CASSAÇÃO, MANDATO, LUIZ ESTEVÃO, EX SENADOR.
  • DEFESA, NECESSIDADE, INVESTIGAÇÃO, DENUNCIA, ANTONIO CARLOS MAGALHÃES, SENADOR, REFERENCIA, FRAUDE, SISTEMA, VOTAÇÃO ELETRONICA, SENADO.

A SRª HELOÍSA HELENA (Bloco/PT - AL. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão da oradora.) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, neste final de tarde, farei algumas considerações. Embora não goste de ler pronunciamentos, para evitar a excessiva adjetivação que gosto de fazer, hoje farei uma exceção.

Existem muitas publicações espalhadas pelo mundo sobre um conjunto de antigos tratados chineses. É um volume de oráculos chamados Estratagemas. Geralmente, tais estratagemas são exemplificados com publicações, fatos da história, da literatura, da tradição militar. Um dos mais comentados tem como título “Criar Algo a Partir do Nada”. Entre muitos exemplos, há um que se passa na época dos estados guerreiros, que vou citar.

Certa vez, o conselheiro mais próximo e de mais confiança do rei, chamado Pang Cong, foi designado para assumir uma tarefa importantíssima, que era acompanhar e proteger um príncipe no cumprimento de um tratado entre dois Estados que estavam em guerra. Como Pang Cong, que era o conselheiro mais estimado pelo rei, sabia que, na sua ausência, certos cortesãos iriam difamá-lo diante do monarca, resolveu fazer algumas perguntas ao rei: “Majestade, se alguém vos contasse que um tigre está vagando pelas ruas da capital, acreditarias nele?” Ao que o rei respondeu de pronto: “Claro que não. Como tal coisa seria possível?” “Mas”, continuou Pang Cong, “se uma segunda pessoa trouxesse a mesma notícia, Vossa Majestade dar-lhe-ia crédito?” Após refletir um momento, o monarca respondeu: “Não. Mesmo duas pessoas não me convenceriam.” “Mas”, continuou Pang Cong, “se uma terceira pessoa viesse e dissesse que viu um tigre na capital,...

Vossa Majestade acreditaria nisso?

- Acreditaria - respondeu o Monarca. Se três pessoas dizem a mesma coisa, deve ser verdade.

Ao que o conselheiro respondeu:

- Majestade, partirei em breve em direção ao distante Estado de Zhao para acompanhar o vosso filho, o nosso Príncipe. Durante a minha ausência, certamente mais de três pessoas virão aqui caluniar-me. Espero que Vossa Majestade pense duas vezes antes de chegar a quaisquer conclusões.

O rei anuiu com a cabeça e disse:

- Entendo perfeitamente o que dizes. Vai sossegado.

De fato, muitos cortesãos solicitaram audiência ao rei e caluniaram Pang Cong. De início, o Rei não deu ouvidos, mas com o aumento do fluxo de vozes em condenação a Pang Cong, o Monarca foi ficando desconfiado, até acabar se convencendo do suposto mau caráter do seu principal Conselheiro. Após seu retorno, mesmo tendo Pang Cong cumprido sua tarefa com perfeição, trazendo o Príncipe a salvo, percebeu que já não tinha a confiança do Monarca, simplesmente porque rumores, repetidos com certa freqüência, passam a ser encarados como verdade. Do mesmo jeito que três pessoas podem criar um tigre do nada!

           No capítulo desse estratagema “criar algo a partir do nada”, há uma passagem muito interessante que diz assim: “Os rumores estão entre as coisas mais temíveis. Umas poucas palavras podem levar um herói a depor suas armas ou um homem a subtrair sua própria vida. O tempo que um rumor está em circulação não é importante, pois, depois que sua exatidão foi apropriadamente verificada, seus efeitos normalmente já se tornaram irreversíveis!”

Imaginem, Sras e Srs. Senadores, uma notícia que não é dada somente por três pessoas, mas por milhares de estruturas de comunicação deste País, espalhadas por todo o seu território, atravessando mentes e corações, dizendo: “O Senador Antonio Carlos Magalhães, ex-Presidente do Congresso Nacional, disse em uma reunião com três Procuradores da República, no Ministério Público Federal, que a Senadora Heloísa Helena votou contra a cassação do ex-Senador Luiz Estevão”.

Antes de falar o que se faz necessário sobre o fato, quero agradecer profundamente a todas as pessoas que pensaram duas vezes, a todas as pessoas que foram solidárias comigo, na minha querida Alagoas, onde as pessoas me conhecem profundamente, onde nem os meus mais ferozes adversários foram capazes de manipular politicamente esse tipo de calúnia. Agradeço a todos do Parlamento e de vários lugares do Brasil que, mesmo não conhecendo a minha história, foram capazes de pensar duas vezes.

Confúcio, certa vez, ao ser indagado sobre o que ele considerava a “essência da clareza de visão”, respondeu: “Aquele que não se deixa impressionar por uma longa e constante barragem de calúnias pode ser considerado clarividente!”

Pensei muito durante todos esses dias sobre como alguém, em sã consciência, poderia acreditar num fato de tal natureza. Por que minha palavra, minha vida de absoluta honestidade, de rigor ético - à custa de tantas privações e de tantos enfrentamentos -, poderia ser colocada num mesmo patamar de legitimidade da palavra do Senador Antonio Carlos Magalhães, sem qualquer prova? Por isso, Sras e Srs. Senadores, é de fundamental importância que a listagem com os votos apareça com meu voto “Sim” pela cassação do então Senador Luiz Estevão.

Quando chegamos a esta Casa, como Senadores recém-eleitos, recebemos um envelope com uma senha. Alguém designa um número, não somos nós que o escolhemos privativamente como uma senha de banco. Alguém colocou a senha num papel e depois num envelope e entregou-nos. Prefiro pensar, sinceramente, que nesta Casa não há Senadores que furtam senhas, que são capazes de fraudar uma eleição. Portanto, a listagem com meu voto “Sim” tem de aparecer.

Agora vamos ao mais doloroso, ao pérfido, ao que se comenta por esses corredores azuis. Se levantarmos o tapete azul, a lama sobe. Vamos ao que se comenta pelos corredores para argumentar o meu “tal voto contra a cassação”. Vamos ao que há de pior na calúnia, ao mais asqueroso.

Dizem: “A Senadora poderia ter recebido dinheiro do vigarista”! Essa afirmação me faz reviver tudo o que já passei na vida, lutando contra gentinha suja como essa. Não passei minha vida enfrentando metralhadora giratória, passei minha vida enfrentando metralhadora de verdade, para lutar contra os que saqueiam os cofres públicos, contra um dinheiro sujo que jamais poderia ter recebido.

Falam ainda que “a Senadora poderia ter tido um caso com o vigarista”! Este é o argumento machista, típico de uma sociedade impregnada do costume nojento de colocar as mulheres subservientes a homenzinhos riquinhos e ordinários como ele, homenzinhos ordinários sobre os quais eu não cuspo, mas vomito sobre esse e sobre qualquer outro, quer seja Deputado ou Senador, que tenha a ousadia de falar sobre isso.

Dizem também que “a Senadora atendeu a um pedido do Senador Renan Calheiros, por acordos políticos regionais”. Deus certamente fez-me com muitos defeitos, mas me concedeu algumas compensações. Não permitiu que a pobreza fosse suficiente para degenerar os meus neurônios a ponto de fazer um acordo eleitoral com dois anos de antecedência. Deus deu-me também um temperamento insuportável, uma intolerância crônica com acordos espúrios, que os dois Senadores pelo Estado de Alagoas, Senador Teotônio Vilela e Senador Renan Calheiros - especialmente - conhecem muito bem. Os dois sabem que ainda está para nascer o homem - o que podia me calar morreu quando eu tinha três meses de idade, o meu pai - que me faça, efetivamente, fazer algo que eu não queira.

É exatamente por isso, Senador Antonio Carlos Magalhães, que, quando chamei V. Exª de canalha e usei palavras supostamente grosseiras, distantes do tempero de civilidade reivindicado por V. Exª, o fiz porque essa é a única forma de V. Exª entender e ouvir. V. Exª foi muito mal acostumado neste País, tendo assustado muitas pessoas com a síndrome do capitão-do-mato, que, no grito e com o chicote, arrasta as pessoas pela orelha para a senzala.

Nasci negrinha neste mundo para não me dobrar para absolutamente ninguém. Vim negrinha para este mundo com a força que Deus me deu para arrombar porta de senzala se preciso fosse e para jamais ser arrastada para ela.

Solicito muito a V. Exª que não fale da minha família. Ela tem tudo que o falso moralismo que uma sociedade cínica e dissimulada apresenta como escória. A elite também os tem, só que esconde os seus embaixo do tapete persa. O meu, não. Todos os que são classificados como escória eu os trago no meu coração e por eles sou capaz de fazer qualquer coisa para protegê-los, porque, Senador, fizemos uma opção na vida, embora o mundo seja preparado para os corruptos, para os dissimulados, o covil dos ladrões tolerados. Esses é que levam vantagem no mundo. Nós fizemos outra opção: pelo Natal no quartinho de empregada, pela fome, pela miséria, pelo sofrimento e pelo cabo da enxada. Não fizemos a opção para aquilo que o mundo espera.

V. Exª deve entender que fui educada, não domesticada para servir aos grandes como V. Exª. Fui educada até para lamber escara de pobre, se preciso for, para salvar-lhe a vida. Jamais seria domesticada para servir aos grandes e aos poderosos.

V. Exª tenha absoluta certeza de que as minhas palavras foram insignificantes diante do que posso fazer para defender a honra dos meus filhos, da minha família, a minha dignidade.

Para terminar, pois eu realmente não gostaria mais de tocar neste assunto no plenário, embora volte a fazê-lo se preciso for e se eu quiser, quero dizer que nós, Senadores da Oposição, queremos aprofundar todas as investigações dessas denúncias feitas agora pelo Senador, como sempre fizemos em todas as áreas. Faremos isso cumprindo nossa obrigação constitucional quanto aos casos Eduardo Jorge, Banco do Pará, aeroporto da Bahia, privatizações, Cayman, pasta rosa, tudo que possa significar crimes contra a Administração Pública, tráfico de influências, exploração de prestígio e intermediação de interesses privados. Muitos aliados de hoje e muitos ex-aliados participaram da operação “abafa” e esconderam tudo mesmo quando a Oposição queria investigar. É exatamente por isso que continuamos lutando pela Comissão Parlamentar de Inquérito.

Eu não poderia deixar de vir a esta tribuna para deixar bem claro para todos, especialmente para o Senador Antonio Carlos Magalhães, que não me dobro, não me curvo; fui educada numa família pobre, não fui domesticada para servir aos grandes. (Palmas.)


Este texto não substitui o publicado no DSF de 08/03/2001 - Página 2589