Discurso durante a 102ª Sessão Deliberativa Ordinária, no Senado Federal

Críticas ao Presidente Fernando Henrique Cardoso na condução dos problemas nacionais.

Autor
Carlos Wilson (PTB - Partido Trabalhista Brasileiro/PE)
Nome completo: Carlos Wilson Rocha de Queiroz Campos
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
PRESIDENTE DA REPUBLICA, ATUAÇÃO.:
  • Críticas ao Presidente Fernando Henrique Cardoso na condução dos problemas nacionais.
Publicação
Publicação no DSF de 07/08/2002 - Página 15252
Assunto
Outros > PRESIDENTE DA REPUBLICA, ATUAÇÃO.
Indexação
  • CRITICA, GOVERNO, FERNANDO HENRIQUE CARDOSO, PRESIDENTE DA REPUBLICA, INCAPACIDADE, PROTEÇÃO, ECONOMIA NACIONAL, CRISE, ECONOMIA, PAIS ESTRANGEIRO, ARGENTINA.
  • COMENTARIO, EXCESSO, ESPECULAÇÃO, VARIAÇÃO, ECONOMIA NACIONAL, CRITICA, GOVERNO FEDERAL, AUMENTO, DIVIDA INTERNA, DIVIDA EXTERNA, REPUDIO, ATUAÇÃO, PRESIDENTE DA REPUBLICA, BLOQUEIO, TENTATIVA, REALIZAÇÃO, COMISSÃO PARLAMENTAR DE INQUERITO (CPI), CORRUPÇÃO, GOVERNO.

  SENADO FEDERAL SF -

SECRETARIA-GERAL DA MESA

SUBSECRETARIA DE TAQUIGRAFIA 


O SR. CARLOS WILSON (PTB - PE. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, ainda me lembro do triunfalismo da Equipe Econômica do Presidente Fernando Henrique quando as panelas vazias e os saques que tomaram conta de Buenos Aires, na Argentina.

Naquele momento, ouvimos, repetidas vezes, elogios rasgados à capacidade brasileira de administrar a crise. A competência com que, por exemplo, o Ministro Pedro Malan e o Presidente do Banco Central, Armínio Fraga, conseguiram a proeza de colocar o Brasil a salvo da derrocada da Argentina foi saudada por vários analistas da mídia. Alguns diziam, por exemplo: “Os nossos pressupostos macroeconômicos não são os da Argentina”...

O SR. PRESIDENTE (Adir Gentil) - Peço licença ao Senador Carlos Wilson para interrompê-lo, anunciando a prorrogação da sessão por cinco minutos, já que o tempo está esgotado. Assim V. Exª poderá terminar o seu pronunciamento.

O SR. CARLOS WILSON (PTB - PE) - Muito obrigado pela atenção, Sr. Presidente.

Outros analistas diziam: “O Brasil está a salvo do contágio da Argentina”.

Essas e outras bravatas repetiram-se à exaustão. Até o nosso Colega Senador José Serra, cuja formação acadêmica e experiência econômica admiro, caiu no equívoco de defender a sua candidatura como o antídoto natural ao descalabro e à insegurança que aportaram na Argentina.

Pois bem, Sr. Presidente, descobrimos agora que a imunização não funcionou. A nossa economia está tão doente quanto ou mais que a de nossos vizinhos. Até porque, se somos maiores, se a nossa economia é também maior, nossos indicadores também são maiores.

Sempre considerei insólito o fato de comentarmos os efeitos da corrupção na Argentina como se, no Brasil, estivéssemos livres desse mal. Falávamos do fim da classe média argentina, da fome e do desemprego naquele país, como se aqui não tivéssemos também esse mesmo cenário assustador.

Se eles superaram os 30% na taxa de desemprego, nós sabíamos - e sempre fiz questão de ressaltar - que os brasileiros miseráveis superam 56 milhões.

Isso corresponde a uma Argentina e meia.

O Governo, Sr. Presidente, Srªs e Srs Senadores, abusou do terrorismo econômico. Mostrava o fantasma da crise Argentina e se qualificava como o único timoneiro capaz de conduzir a nau em meio à tempestade.

E ainda não satisfeitos, os setores do Governo deram crédito a declarações do megainvestidor ou megaespeculador George Soros, de quem o Presidente do Banco Central Armínio Fraga, até há pouco tempo, já foi executivo, segundo as quais o “fator” Lula seria intolerável para o mercado.

Em outras palavras, o mercado, e não os eleitores brasileiros, é que deveria escolher o novo Presidente.

Juntamente com o “fator” Lula, vinham outros fatores como o “fator” Garotinho e o “fator” Ciro. Esses seriam os grandes responsáveis pela insegurança dos investidores internacionais, coluna mestra desse monstro internacional chamado mercado. Qual um leviatã moderno, ele teria poderes para liquidar, inclusive, a autonomia política dos brasileiros.

O mercado, entretanto, engoliu seu próprio candidato.

Declarações do Secretário do Tesouro Americano, Paul O’Neill, elevaram às alturas o chamado risco-país Brasil e culminaram por derrubar a pretensão governista de que reinava notável estabilidade econômica em nosso País.

Recentemente, li um artigo do Presidente José Sarney no qual S. Exª define com precisão, de forma brilhante, a síntese da ação de um governo moderno, contemporâneo com esses tempos de globalização: “Governar é construir confiança”.

Então, devemos admitir que o Brasil perdeu a confiança. Não em função de um “fator” Lula, de um “fator” Ciro ou Garotinho, mas devido aos péssimos números macroeconômicos que começaram a aflorar.

Essa crise, com certeza, não nasceu agora, não é responsabilidade do Presidente Fernando Henrique Cardoso. No entanto, a administração equivocada da crise é da responsabilidade de Sua Excelência, sim.

Há oito anos, acumulamos um déficit em conta corrente de US$200 bilhões. Todo o patrimônio nacional, construído em mais de 50 anos com o suor do trabalhador brasileiro, foi vendido, e ninguém sabe o que foi feito dos US$70 bilhões de dólares arrecadados. Paralelamente, aumentamos o nosso endividamento de US$108 bilhões de dólares para mais de US$700 bilhões. Mesmo assim, experimentamos o maior índice de desemprego de nossa histórica, a maior concentração de renda desde o tempo do Brasil Colônia. Nossos Indicadores de Desenvolvimento Humano despencam.

Nunca me canso de repetir que 16 milhões de brasileiros dormem todos os dias sem ter feito uma única refeição e sem perspectivas de se alimentar na manhã seguinte. Mais de 56 milhões de brasileiros encontram-se abaixo da linha da pobreza e da miséria.

Não temos mais estradas, nossos portos estão sucateados, nossa indústria superada, nossa universidade quebrada, e este Governo vai se extinguir melancolicamente, sem deixar sequer uma única obra de grande porte, sem nada que justifique sua existência por longos oito anos.

Com o chapéu na mão, o Governo implora novamente por ajuda do FMI. Quer, pelo menos, US$20 bilhões, mas esse dinheiro servirá apenas como lastro para a liquidez dos investimentos estrangeiros. Nem um mísero dólar será aplicado em uma única caixa de remédio ou em uma vacina.

O Presidente Sarney - e novamente me reporto ao seu artigo com muita satisfação - tem razão. Devíamos ter pedido explicações do Secretário O’Neill e não exigir desculpas.

Não é possível que tenhamos um amor próprio tão exacerbado, nos levemos tão a sério e fiquemos ofendidos com a informação de que os juros altos no Brasil se devem à corrupção, como O’Neill disse no Fórum de Davos ou quando diz agora que o FMI deve cuidar para que o dinheiro da instituição não vá para a Suíça.

A corrupção e as histórias mal contadas foram uma tônica neste Governo. Aqui mesmo, Sr. Presidente, tentamos aprovar várias comissões parlamentares de inquérito relativas à corrupção, sempre bloqueadas pelo Governo do Presidente Fernando Henrique. A disposição para impedir que se investigasse qualquer denúncia sobre esse assunto nesta Casa era muito grande. Não permitiram várias vezes até que fossem aprovadas comissões mistas no Congresso.

Sabemos agora que a tão falada credibilidade deste Governo não existe. O controle das contas públicas é uma conversa fiada. Estamos bem próximos da bancarrota.

            Srªs e Srs. Senadores, no último domingo, durante o primeiro debate dos presidenciáveis, duas afirmações, entretanto, encheram-me de esperança: a afirmação serena de Luís Inácio Lula da Silva, o candidato do PT, de que o Brasil não vai quebrar, de que a capacidade da nossa gente é maior que a crise - sempre o foi - e de que saberemos como dar a volta e reconstruir o Brasil; e a de Ciro Gomes, nosso candidato da Frente Trabalhista, quando disse que se prepara para governar com um pacto nacional, afirmando, inclusive, que pretende inaugurar o seu governo sob à égide da conciliação, com a ajuda de toda a sociedade.

Por isso, Sr. Presidente, não poderia deixar de registrar minha indignação com o quadro a que estamos sendo levados pelo Governo do Presidente Fernando Henrique.

Era o que eu tinha a dizer, Sr. Presidente. Muito obrigado.


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Este texto não substitui o publicado no DSF de 07/08/2002 - Página 15252