Discurso durante a 1ª Sessão Não Deliberativa, no Senado Federal

Expectativas em relação à atuação da mulher brasileira na vida pública e no Parlamento.

Autor
Ideli Salvatti (PT - Partido dos Trabalhadores/SC)
Nome completo: Ideli Salvatti
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
FEMINISMO. HOMENAGEM.:
  • Expectativas em relação à atuação da mulher brasileira na vida pública e no Parlamento.
Aparteantes
Ana Júlia Carepa.
Publicação
Publicação no DSF de 19/02/2003 - Página 579
Assunto
Outros > FEMINISMO. HOMENAGEM.
Indexação
  • COMENTARIO, EVOLUÇÃO, ATUAÇÃO, PARTICIPAÇÃO, MULHER, VIDA PUBLICA, LEGISLATIVO, PAIS.
  • REGISTRO, VOTO, ORADOR, RECUPERAÇÃO, LEONEL PAVAN, SENADOR, ESTADO DE SANTA CATARINA (SC), VITIMA, ACIDENTE MARITIMO.

A SRª IDELI SALVATTI (Bloco/PT - SC. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão da oradora.) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, em primeiro lugar, deixo registrados os meus votos de melhoras para o Senador Leonel Pavan, do PSDB de Santa Catarina. S. Exª está internado desde ontem no Hospital Sarah Kubitschek, depois de ter sofrido, em Santa Catarina, um acidente, ao mergulhar de um barco numa superfície não muito adequada para mergulho. Acabou sofrendo a fratura da sétima vértebra e está hospitalizado, com uma perspectiva de ficar no mínimo trinta dias no Hospital Sarah Kubitschek. Que S. Exª possa restabelecer-se para estar conosco o mais breve possível, a fim de representar o Estado que o elegeu e que também é o meu, Santa Catarina.

Sr. Presidente, chego ao Senado como a primeira mulher eleita pelo meu Estado, Santa Catarina, com a maior votação da história catarinense, o que se deve, indiscutivelmente, aos ventos da mudança que passaram por todo o País e permitiram que pessoas não vinculadas às oligarquias e aos sobrenomes importantes - filhos, netos, bisnetos e tataranetos - pudessem ocupar, de forma majoritária, os espaços políticos.

Neste primeiro pronunciamento, ressalto que chegamos também na condição de maior bancada feminina da História do Senado, com um crescimento de cem por cento. A bancada, na última Legislatura, contava com apenas cinco Senadoras. Iniciamos a atual Legislatura com dez Senadoras eleitas. Apenas nove estão presentes porque uma ocupa o cargo de Ministra do Meio Ambiente, que é a Senadora Marina Silva. A presença feminina também é muito forte no Governo de Luiz Inácio Lula da Silva, talvez não tanto em quantidade, mas, indiscutivelmente, em qualidade. Contamos com a Senadora Marina Silva como Ministra do Meio Ambiente; contamos com a ex-Senadora e ex-Governadora do Rio de Janeiro Benedita da Silva, como Ministra de Assistência e Promoção Social, como Ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff, e, como Secretária Especial de Política para as Mulheres, a ex-Senadora Emilia Fernandes. Então, é nessa condição de visibilidade e de presença das mulheres no Governo Federal que chegamos ao Senado para cumprir este mandato.

Na sessão de ontem do Congresso, tínhamos uma mulher à Mesa, a nossa companheira Serys - cujo sobrenome ainda não sei pronunciar -, a única mulher a participar da Mesa do Congresso nesta Legislatura.

Chegamos a este mandato sabendo da ansiedade, da necessidade das mulheres, como um todo, de merecidas oportunidades. As mulheres do meu Estado - também sei que o Pará comemora a eleição de sua primeira Senadora, a nossa companheira Ana Júlia, como também da companheira Fátima Cleide - sentem-se felizes e representadas neste espaço legislativo. Queremos ter oportunidade de mostrar nossa capacidade, nossa competência. Também queremos dividir as responsabilidades, porque não haverá solução para nenhum problema, seja econômico, social, político, de qualquer ordem, sem a inclusão das mulheres. Somos mais da metade da população. Portanto, não existe solução para nada se não for levado em consideração a questão de gênero, as mulheres.

Mas temos confiança no programa do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, porque este viés está presente, perpassa toda a sua ação de Governo, toda a sua proposta. Sua Excelência, quando pede a presença da ex-Senadora Emilia Fernandes articulando, integrando todas as políticas voltadas para as mulheres, numa Secretaria Especial, dá a demonstração inequívoca de que teremos espaço.

            Também faço questão de focar o meu primeiro pronunciamento sob a ótica do gênero, a questão das mulheres, porque venho de um Estado que tem marca feminina. A começar pelo nome, que é de mulher: Santa Catarina. Tem uma marca heróica feminina, porque a Ana de Jesus Ribeiro - quem está assistindo à “Casa das Sete Mulheres” sabe -, a figura heróica, maravilhosa da Anita Garibaldi, catarinense, simboliza aquilo que as mulheres, na sua grande maioria, dão conta de fazer, pois as mulheres têm a capacidade peculiar de conciliação, de fazer várias coisas ao mesmo tempo, junto, uma capacidade socialmente construída.

Uma frase de Anita dá a dimensão exata da integração das diversas facetas do comportamento e da tarefa do ser humano, qual seja: “Um filho no colo, um fuzil no outro”. Um filho num braço e um fuzil no outro. Para uma mulher criar um filho e participar de uma luta revolucionária é uma só tarefa, não está dividida, não está separada.

Venho de um Estado que tem também a marca da rebeldia e da contestação em uma figura feminina: Maria Rosa. Uma liderança inconteste na Guerra do Contestado, talvez uma das primeiras e mais importantes lutas antiimperialistas deste nosso País, uma das primeiras lutas pela garantia da terra para quem nela vive e trabalha, e não como aconteceu com a Brasil Highway, que acabou tomando a terra, expulsando os caboclos da sua fonte de sobrevivência, de forma cruel, policial, autoritária, violenta. Maria Rosa era a figura feminina que animava os caboclos, que lhes dava sustentação, inclusive espiritual, para continuarem a luta.

            Santa Catarina, meu Estado, também tem a marca da santidade, porque é mulher e, também, a primeira santa brasileira, Amábile Visintainer, a famosa Madre Paulina, que agora é Santa Paulina. Santa Paulina, além de sua prática misericordiosa, tinha uma tenacidade inconteste. Uma grande frase de seu legado: “Não desanimeis, mesmo que todos os ventos soprem ao contrário”.

            “Um filho num braço, um fuzil no outro. Não desanimeis, mesmo que todos os ventos soprem ao contrário”, duas frases marcantes de mulheres de meu Estado.

            É também de Santa Catarina a primeira mulher agricultora, do cabo da enxada, a chegar ao Congresso Nacional, a nossa Deputada Luci Choinacki, eleita em 1990. Essa foi a primeira vez que o Congresso Nacional teve uma agricultora falando com os erres atrapalhados, como se fala no oeste de Santa Catarina, fruto, exatamente, da miscigenação de muitas culturas: poloneses, italianos, alemães.

            Também é de Santa Catarina a primeira Parlamentar negra eleita no Brasil. Antonieta de Barros, eleita Deputada Estadual em 1934, era filha de lavadeira, professora e negra. Há 70 anos, quando foi assinado o decreto que dava o direito de voto às mulheres, Antonieta pronunciou o texto absolutamente atual:

            “As feministas brasileiras estão vencendo a última etapa, na campanha por que tanto se bateram: a conquista dos direitos políticos (...)

Não fazemos coro com a legião dos conservadores, os quais, diante de quaisquer inovações de idéias e costumes que trazem à monotonia dos dias alguma coisa de novo, rebelam-se e, frios, imóveis, tentam resistir à vida, que é movimento, evolução, progresso.

Não compreendemos mesmo a grita levantada contra a porta aberta ao sexo fraco pelo direito do voto. Isso porque - diga-se entre parêntesis - mulheres na política em nosso País sempre as houve. Não há novidade, pois, a não ser que abandonaram os bastidores para se apresentar em público”.

Aqui estou em público.

A Srª Ana Júlia Carepa (Bloco/PT - PA) - Senadora Ideli Salvatti, permite-me V. Exª um aparte?

A SRª IDELI SALVATTI (Bloco/PT - SC) - Ouço o aparte de V. Exª, Senadora Ana Júlia.

A Srª Ana Júlia Carepa (Bloco/PT - PA) - Obrigada, Senadora Adeli Salvatti. Quero parabenizar V. Exª no momento de seu primeiro pronunciamento destacando o papel da mulher. Representamos aqui as mulheres deste Brasil inteiro. Hoje estamos à frente de várias questões, exercendo vários cargos e funções. Somos maioria nesta Nação. Portanto, é nossa preocupação atuarmos neste Senado, na Câmara dos Deputados, no Executivo, nos sindicatos e associações. As donas-de-casa, as profissionais liberais, as executivas, as funcionárias públicas, as mulheres não querem estar apenas nos bastidores ou nas residências, cuidando da família. Também queremos ajudar e contribuir na decisão dos destinos do País, dos Estados e dos Municípios, incluindo o futuro das nossas famílias. Parabéns pelo seu enfoque. Esta Casa é majoritariamente masculina, mas, com certeza, com Senadores que sabem e saberão sempre respeitar nossa presença e nossa contribuição não só para o futuro do País, mas para o presente, com o olhar feminino e a sensibilidade, talvez adquirida em tanto tempo de cuidados. Com certeza não podemos abrir mão disso. Parabéns, Senadora Ideli Salvatti.

A SRª IDELI SALVATTI (Bloco/PT - SC) - Senadora Ana Júlia Carepa, agradeço a V. Exª.

Encerro dizendo que aqui estou, em público, como Senadora por Santa Catarina. Sinto o peso da responsabilidade de estar nessa condição porque sou Senadora do Estado das anitas, das marias rosas, das paulinas, das lucis e das antonietas. Que Deus e os orixás me iluminem para que eu possa representar e defender os interesses do povo brasileiro e também do meu Estado. Muito agradecida.

 


Este texto não substitui o publicado no DSF de 19/02/2003 - Página 579