Discurso durante a 12ª Sessão Deliberativa Ordinária, no Senado Federal

Reflexão sobre a crescente exportação de matéria-prima do couro em prejuízo a indústria de calçados.

Autor
Paulo Paim (PT - Partido dos Trabalhadores/RS)
Nome completo: Paulo Renato Paim
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
COMERCIO EXTERIOR. POLITICA INDUSTRIAL.:
  • Reflexão sobre a crescente exportação de matéria-prima do couro em prejuízo a indústria de calçados.
Publicação
Publicação no DSF de 04/02/2004 - Página 2552
Assunto
Outros > COMERCIO EXTERIOR. POLITICA INDUSTRIAL.
Indexação
  • COMENTARIO, DADOS, MINISTERIO DO DESENVOLVIMENTO DA INDUSTRIA E DO COMERCIO EXTERIOR (MDIC), BALANÇA COMERCIAL, SUPERAVIT, EXPORTAÇÃO, IMPORTAÇÃO, CRESCIMENTO, VENDA, CARNE BOVINA, AUMENTO, OFERTA, COURO, MERCADO INTERNO, DECISÃO, CAMARA DE COMERCIO, REDUÇÃO, IMPOSTO DE EXPORTAÇÃO, ANALISE, EFEITO, SETOR, PRODUÇÃO, CURTUME, INDUSTRIA, CALÇADO, OFENSA, NORMAS, ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO COMERCIO (OMC), RESERVA, MERCADO.
  • DEFESA, COMBATE, DESEQUILIBRIO, COMPARAÇÃO, EXPORTAÇÃO, MATERIA-PRIMA, COURO, INDUSTRIA, CALÇADO, PROTEÇÃO, EMPREGO, SETOR.

O SR. PAULO PAIM (Bloco/PT - RS. Para uma comunicação inadiável. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, farei um pronunciamento rápido. Preocupo-me com as exportações brasileiras tanto na área do calçado quanto na do couro.

A balança comercial fechou o mês de janeiro com recorde de exportação de US$5,8 bilhões, um crescimento de 26,5% em relação ao mesmo mês do ano passado, de acordo com a média diária. As importações no período foram de US$4,212 bilhões, totalizando um superávit de US$1,588 bilhão. Em 2003, o saldo foi de US$1,155 bilhão.

Segundo dados divulgados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, em 21 dias úteis, a média exportada diariamente foi de US$276,2 milhões, fortalecida principalmente pelo bom desempenho das vendas na quarta semana do mês. Já nas importações, a média registrada foi de US$200,6 milhões, 20,9% superior à obtida em janeiro de 2003.

No acumulado de doze meses, as exportações totalizam US$74,079 bilhões, e as importações, US$48,822 bilhões, resultando um saldo positivo de US$25,257 bilhões.

Esses números, Sr. Presidente, dão uma clara demonstração do excelente desempenho do mercado externo brasileiro, que está vinculado ao aumento das vendas de três categorias de produtos: manufaturados (22%), semimanufaturados (9%) e básicos (50%).

No caso dos produtos básicos, destacamos aqui, para entrar na linha do meu pronunciamento, que está vinculado à questão do emprego, o aumento de 30% nas exportações da carne bovina, que contribuiu para o aumento geral do volume das exportações.

O crescimento das exportações da carne bovina trouxe em seu bojo um aumento substancial da oferta de couro, deprimindo o seu preço no mercado interno.

A situação levou a Camex - Câmara de Comércio Exterior - a determinar uma redução gradual do Imposto de Exportação incidente sobre os couros e peles curtidos de bovinos, estimulando dessa forma o aumento das exportações da produção excedente.

Desde maio de 2001, o couro brasileiro estava sujeito a uma alíquota de 9% do Imposto de Importação para aumentar a disponibilidade interna da matéria-prima e, com isso, possibilitar o aumento da competição externa das indústrias calçadistas.

No entanto, essa medida trouxe alguns efeitos colaterais que contribuíram para a sua revisão. A alíquota de 9% provocou a transferência de renda na cadeia (da pecuária e dos frigoríficos para os curtunistas e calçadistas); provocou, com isso, a redução do couro brasileiro e reduziu a sua competitividade com o aumento da oferta resultante do aumento da produção da carne.

Outro efeito colateral especialmente danoso que afeta diretamente a economia doméstica é a compensação que produtores e frigoríficos buscam para suas perdas, com a transferência para o preço da carne consumida nos lares brasileiros, da queda das receitas provocada pela redução do preço do couro.

Além disso, Sr. Presidente, a taxação sobre o couro pode ser vista junto à Organização Mundial do Comércio como reserva de mercado de matéria-prima a ser encarada como sendo uma concorrência desleal, abrindo a possibilidade de processo contra o Brasil.

Com a nova resolução da Camex, que procura corrigir aqueles efeitos colaterais, a alíquota foi reduzida para 7% até o dia 31 de dezembro de 2004 e cairá para 4% durante todo o ano de 2005, sendo zerada a partir de janeiro de 2006.

Mas se por um lado existe hoje uma oferta de couro no mercado interno, com situação desfavorável para os produtores que amargam a queda dos preços, também se faz necessário evitar que a redução da alíquota do Imposto de Exportação, ainda que progressiva e com prazo de dois anos para ser extinta, seja usada para um debate indevido. Sr. Presidente, isso levaria a uma inversão do processo dos custos, com pressão sobre as indústrias calçadistas, que, por sua vez, também precisariam aumentar o preço dos calçados tanto no mercado interno como nos destinados à exportação, comprometendo assim a sua competição dentro e fora da nossas fronteiras. 

Sr. Presidente, como pretendo utilizar apenas os cinco minutos para fazer o meu pronunciamento - que espero seja publicado na íntegra -, o que faço aqui é uma reflexão sobre a exportação do couro, como matéria-prima, e da exportação de alçados. É preciso que se construa um meio termo, no sentido de que essa situação não gere mais desemprego no território nacional, o que é hoje a nossa grande preocupação.

Com isso, Sr. Presidente, concluo dizendo que esse equilíbrio é o grande desafio que se coloca para o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, que cuida da produção, e para o do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Vamos espremer o limão e fazer a nossa limonada, mas sem prejudicar quem produz ou quem processa, principalmente o emprego, que é a nossa maior preocupação neste momento.

Era o que tinha a dizer.

Muito obrigado, Sr. Presidente.

 

************************************************************************************************

SEGUE, NA ÍNTEGRA, PRONUNCIAMENTO DO SR. SENADOR PAULO PAIM.

************************************************************************************************

O SR. PAULO PAIM (Bloco/PT - RS) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores. a balança comercial brasileira fechou o mês de janeiro com recorde de exportações de US$ 5,8 bilhões, um crescimento de 26,5% em relação ao mesmo mês do ano passado, de acordo com a média diária. As importações no período foram de US$ 4,212 bilhões, totalizando um superávit de US$ 1,588 bilhão. Em 2003 o saldo foi de US$ 1,155 bilhão.

Segundo dados divulgados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), em 21 dias úteis, a média exportada diariamente foi de US$ 276,2 milhões, fortalecida principalmente pelo bom desempenho das vendas na quarta semana do mês. Já nas importações, a média registrada foi de US$ 200,6 milhões, 20,9% superior à obtida em janeiro de 2003.

No acumulado de doze meses, as exportações totalizam US$ 74,079 bilhões e as importações, US$ 48,822 bilhões, resultando em um saldo positivo de US$ 25,257 bilhões.

Esses números dão uma clara demonstração do excelente desempenho do mercado externo brasileiro, que está vinculado ao aumento das vendas das três categorias de produtos: manufaturados (22%); semimanufaturados (9%) e básicos (50%).

No caso dos produtos básicos, destacamos aqui, para entrar na linha do meu pronunciamento, o aumento de 30% nas exportações da carne bovina, que contribuiu substancialmente para o aumento geral do volume das exportações.

O crescimento das exportações de carne bovina trouxe em seu bojo um aumento substancial da oferta de couro, deprimindo seu preço no mercado interno.

A situação levou a CAMEX - Câmara de Comércio Exterior a determinar uma redução gradual do Imposto de Exportação incidente sobre os couros e peles curtidos de bovinos, estimulando desta forma o aumento das exportações da produção excedente.

Desde de maio de 2001, o couro brasileiro estava sujeito a uma alíquota de 9% de Imposto de Importação para aumentar a disponibilidade interna da matéria prima e com isso possibilitar o aumento da competitividade externa das indústrias calçadistas.

No entanto, essa medida trouxe alguns efeitos colaterais que contribuíram para a sua revisão. A alíquota de 9% provocou a transferência de renda na cadeia (da pecuária e dos frigoríficos para os curtunistas e calçadistas); provocou a redução do perco do couro brasileiro; e reduziu a sua competitividade com o aumento da oferta resultante do aumento da produção de carne.

Outro efeito colateral especialmente danoso, que afeta diretamente a economia doméstica, é a compensação que produtores e frigoríficos buscam para suas perdas, com a transferência para o preço da carne consumida nos lares brasileiros, da queda das receitas provocada pela redução do preço do couro.

Além disso, a taxação sobre o couro pode ser vista na Organização Mundial do Comércio como reserva de mercado de matéria prima e ser encarada como sendo uma concorrência desleal, abrindo a possibilidade de processos contra o Brasil.

Com a nova resolução da CAMEX, que procura corrigir aqueles efeitos colaterais, a alíquota foi reduzida para 7% até o dia 31 de dezembro de 2004 e cairá para 4% durante todo o ano de 2005, sendo zerada a partir de janeiro de 2006.

Mas se por um lado existe hoje uma oferta de couro no mercado interno, com situação desfavorável para os produtores que amargam a queda dos preços, também se faz necessário evitar que a redução da alíquota do Imposto de Exportação, ainda que progressiva e com prazo de dois anos para ser extinta, venha provocar aumento nos preços ou mesmo escassez da matéria prima para a produção dos calçados pela indústria nacional.

Isso levaria a uma inversão no processo de custos, com pressão sobre as indústrias calçadistas que por sua vez também precisariam aumentar os preços dos calçados tanto no mercado interno como os destinados à exportação, comprometendo assim a sua competitividade dentro e fora de nossas fronteiras.

A produção brasileira de couros é da ordem de 35,5 milhões de peles por ano, ficando atrás apenas da China (36 milhões) e dos Estados Unidos (38 milhões). Com o aumento crescente da produção de carne, em breve o Brasil será o primeiro produtor mundial de couros.

Das 35,5 milhões de peles produzidas anualmente pelo Brasil, a indústria calçadista nacional consome 15 milhões. Poderia consumir muito mais, pois sua capacidade instalada permite o processamento de 40 milhões de peles.

Atingir esse patamar, porém, depende de algumas medidas que precisam ser adotadas imediatamente. Em primeiro lugar, é preciso melhorar a qualidade do couro nacional, onde apenas 15% são de primeira qualidade, 40% de segunda, 30% de terceira e 15% são refugo.

Outra medida importante é desonerar as exportações de alto valor agregado, com a criação de mecanismos de restituição instantânea dos créditos tributários no ato da exportação.

Se a indústria calçadista nacional passar a processar todo o couro produzido no Brasil, ela poderá gerar 350 mil novos postos de trabalho e aumentar em US$ 5 bilhões de dólares as nossas exportações.

            Esse equilíbrio é o grande desafio que se coloca para os Ministérios da Agricultura e Abastecimento, que cuida da produção, e o do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Vamos espremer o limão e fazer a nossa limonada, mas sem prejudicar quem produz ou quem processa.

Era o que tinha a dizer.


Este texto não substitui o publicado no DSF de 04/02/2004 - Página 2552