Discurso durante a 157ª Sessão Deliberativa Extraordinária, no Senado Federal

Refutação à matéria publicada pelo jornal Correio Braziliense sobre movimentação financeira realizada por S.Exa.

Autor
Ney Suassuna (PMDB - Movimento Democrático Brasileiro/PB)
Nome completo: Ney Robinson Suassuna
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
EXPLICAÇÃO PESSOAL. IMPRENSA.:
  • Refutação à matéria publicada pelo jornal Correio Braziliense sobre movimentação financeira realizada por S.Exa.
Aparteantes
Heráclito Fortes, Pedro Simon, Renan Calheiros.
Publicação
Publicação no DSF de 12/11/2004 - Página 36113
Assunto
Outros > EXPLICAÇÃO PESSOAL. IMPRENSA.
Indexação
  • COMENTARIO, LEITURA, TRECHO, NOTICIARIO, IMPRENSA, CALUNIA, ACUSAÇÃO, ORADOR, IRREGULARIDADE, OPERAÇÃO FINANCEIRA, EXTERIOR, MANIPULAÇÃO, INFORMAÇÃO, MOVIMENTAÇÃO, ESCOLA PARTICULAR, EDUCAÇÃO, DISTANCIA, PAIS ESTRANGEIRO.
  • SUSPEIÇÃO, TENTATIVA, MANIPULAÇÃO, COMISSÃO PARLAMENTAR DE INQUERITO (CPI), BANCO DO ESTADO DO PARANA S/A (BANESTADO), POLITICA PARTIDARIA, QUESTIONAMENTO, ATUAÇÃO, IMPRENSA, QUEBRA, SIGILO.
  • REITERAÇÃO, IDONEIDADE, ORADOR, QUALIDADE, EMPRESARIO, POLITICO, VITIMA, REPETIÇÃO, CALUNIA, CORRUPÇÃO.

O SR. NEY SUASSUNA (PMDB-PB. Para uma explicação pessoal. Sem revisão do orador.) - Muito obrigado, nobre Presidente.

Srªs e Srs. Senadores, quem decide fazer vida pública sabe que viverá numa vidraça e que encontrará boas e más notícias, muitas vezes construídas exatamente para tentar desmoralizar, para tentar denegrir a sua imagem.

Estou no meu segundo mandato nesta Casa e sou empresário. Tenho algumas empresas, uma delas, o Colégio Anglo-Americano, tem alunos, por um sistema de ensino a distância, espalhados por 48 países.

Hoje, surpreendi-me ao ler num jornal a seguinte manchete: “PMDB pressiona Lula”, e logo abaixo, “Os dólares ocultos do Senador”.

Primeiramente, não existe jabuti em cima de árvore na política. Com certeza, alguma coisa aconteceu. Há uma correlação entre os dois temas.

Quando a reportagem se refere a dólares ocultos do Senador, há fatos interessantes:

Abandonada numa sala secreta no subsolo do Senado, uma pasta sanfonada marrom guarda um segredo de Estado que o relator e representante do Governo na CPI do Banestado, deputado José Mentor (PT-SP),[observem a maldade, pois, ao que me consta, o Deputado representa o Congresso] esforça-se desde março para esconder.

(...) a pasta contém cerca de cem documentos que comprovam que o vice-líder do Governo no Congresso, Senador Ney Suasssuna (PMDB-PB), movimentou no período de 1998 a 2003 pelo menos cerca de US$3 milhões em sua conta particular Key West (nome de uma localidade na Flórida) no Delta Bank de Miami.

A segunda maldade aqui existente é a confusão feita entre saldo e movimentação. Imaginem V. Exªs, se R$50 mil são movimentados, sendo essa quantia sacada e depositada diversas vezes, diz-se que foram movimentados R$10 milhões. Mas são os mesmos R$50 mil. Essa é a segunda maldade.

Mas vai muito adiante: diz que eu enviei depósitos de um US$1 milhão por intermédio de uma rede de doleiros.

Há oito anos, não estou na gerência da minha empresa, mas vou trazer para o Senado a comprovação do que é verdade e do que não é, porque nada temo, pois a minha vida é muito transparente.

Diz mais: toda vez que eu precisava de dinheiro, um doleiro me entregava dólares em espécie. Fico impressionado com esse jornalista, que deve ter acompanhado a minha vida por todo o tempo, pois viu uma pessoa me entregando dólares, porque ele disse que eram dólares, que não eram reais nem ordem. E vai por aí afora.

Mais adiante, diz:

Movimentações como essas comprometem a estratégia do governo e do relator da CPI, José Mentor, de excluir do relatório final da CPI o nome de políticos da lista de pessoas que enviaram recursos ilegais para o exterior. O governo pretende, com a medida, evitar uma nova crise no Congresso, especialmente com o PMDB, que ameaça abandonar a aliança com o PT.

Em função disso, até terça-feira Mentor não tinha oficializado na CPI o montante de 32 caixas marrons cheias de documentos que detalham as contas de brasileiros no exterior. Desse montante, seis caixas reúnem exclusivamente as contas de cerca de cem brasileiros no Delta Miami Bank. Os documentos da conta de Suassuna estão na caixa número 1. Todo esse material, entregue pelo promotor...

E vai por aí afora.

Mais adiante, há a parte em que esse jornalista, ao me procurar, pergunta se podia gravar, ao que consenti e perguntei: O que o senhor quer saber? Ele me disse que se tratava de uma acusação grave. Então, ele me pergunta:

Na papelada reunida pela CPI do Banestado descobriu-se que o senhor é dono da conta Key West em Miami. Os valores movimentados por essas contas estão declarados ao Banco Central?

Respondi que, por dever de ofício, já faz mais de 20 anos que tenho um apartamento em Miami. E já tive colégio lá, inclusive. Não há nada escondido. As contas estão declaradas ao Banco Central e toda a minha movimentação empresarial tem sido informada.

Ele perguntou:

E por que a Key West é alimentada por uma rede de doleiros?

Aí eu disse:

Isso não existe. Não tem nada de rede de doleiros. Às vezes têm pais que pagam em vários locais as mensalidades aos nossos colégios, com depósitos diretos em nossas contas.

E continuo dizendo que eles enviam de 48 países diferentes para a conta e que eu não sei por onde vem esse dinheiro.

Mas o indivíduo muda a frase. Ele retira a que disse e coloca “de onde vem o dinheiro eu não sei”.

Estou falando de mensalidade de colégio, mas a maldade é mais uma vez estampada.

Aí pergunta sobre a minha conta particular. E eu digo que tenho conta no Banco do Brasil - se alguém quiser esconder, vai fazê-lo no Banco do Brasil? - e no Delta. Ao que ele disse: “Mas essas contas estão na CPI”. E respondi: “Olha, pelo que sei, minhas contas não têm nada a ver com a CPI”.

Srªs e Srs. Senadores, fui um dos Senadores que assinaram o pedido de prorrogação dessa CPI, porque quero clareza. Estou inteiramente à disposição da CPI. Faz oito anos, como disse, que não estou à frente da minha empresa.

Fico impressionado com a descrição que o repórter faz da sala secreta onde estão guardadas as pastas e como elas são. Eu que estou todo esse tempo na CPI nunca entrei lá. A sala é secreta e por isso nunca lá entrei; nunca tomei conhecimento do seu conteúdo. Mas o repórter a descreveu muito bem, o que mostra que ela não é tão secreta como deveria ser. Para a imprensa, não há nenhum segredo. E mais ainda: são tão evidentes as colocações de quem as deu, que começamos a duvidar se realmente o fez.

Estou à disposição da CPI. No entanto, isso é crime de violação de sigilo fiscal, previsto em lei, e quero saber por que um Senador como eu, que faço parte da CPI, não tenho esses mesmos direitos que os repórteres têm.

Portanto, estou à disposição. Nesse banco, tenho um empréstimo de US$2 milhões, que tenho renovado. A cada renovação, entra novamente o recurso. O dinheiro enviado para lá tem sido para amortização desse empréstimo. Mas estarei à disposição.

Durante todo o ano passado, fui fiscalizado pelo Imposto de Renda por conta de uma denúncia de Cacoal e Ji-Paraná. Como Ministro, nunca coloquei um centavo ali, mas disseram que tinha havido corrupção. E eu disse: “Mas como, se nem sequer empenhei um centavo para essas duas cidades?”

Mas a vida de homem público tem dessas.

O Sr. Pedro Simon (PMDB - RS) - Permite-me V. Exª um aparte?

O SR. NEY SUASSUNA (PMDB - PB) - Pois não, nobre Senador Pedro Simon.

O SR. PRESIDENTE (Eduardo Siqueira Campos. PSDB - TO) - Senador Pedro Simon, a Presidência não iria impedir V. Exª de apartear o Senador Ney Suassuna. Apenas devo esclarecer ao Plenário que, em se tratando de uma explicação pessoal, prevista no art. 14, não há aparte. Porém, como o orador já anunciou à Mesa que está encerrando, o Senador Pedro Simon tem a palavra, para que depois o Senador Ney Suassuna conclua.

O Sr. Pedro Simon (PMDB - RS) - Senador Ney Suassuna, V. Exª faz muito bem em ir à tribuna, pois essa é a arma que possui. V. Exª fala, expõe suas idéias, e eu o felicito por isso. Lamento pela CPI, porque a matéria a respeito dela é muito séria. Diz que toda a documentação da CPI está nos porões, fechada a sete chaves, mas vemos isso e nada é feito. Isso é muito sério! Os Presidentes do Senado e da Câmara têm a obrigação de manifestarem-se. Essa é uma acusação que passa da CPI e atinge o Congresso todo. Lá está escrito que existem gavetas e gavetas que foram enviadas pela promotoria dos Estados Unidos e recebidas pelo Relator, e que o Relator deixa na gaveta, não faz nada, não toma conhecimento, e está tudo lá fechado a sete chaves. Isso é grave. O Presidente Sarney tem a obrigação de tomar providências. Quanto ao que foi publicado no Correio Braziliense, creio que V. Exª faz muito bem. Sua resposta está correta, e não tenho nada a opor. No entanto, quanto ao resto da matéria, sobre a gaveta fechada a sete chaves há um ano, na qual estão pacotes e mais pacotes, um em cima do outro, envolvendo cem pessoas, não seria o caso de os Presidentes do Senado e da Câmara chamarem os Presidentes das comissões e dizerem que têm que fazer alguma coisa? Não é para intervir? É para intervir. As comissões de CPI perderam autoridade. É para intervir. A responsabilidade está com os Presidentes do Senado e da Câmara.

O SR. NEY SUASSUNA (PMDB - PB) - Muito obrigado, nobre Senador.

O Sr. Heráclito Fortes (PFL - PI) - Permite-me V. Exª um aparte?

O SR. NEY SUASSUNA (PMDB - PB) - A Mesa pediu-me para não conceder, porque só disponho de cinco minutos.

O Sr. Heráclito Fortes (PFL - PI) - Sr. Presidente, é para evitar uma questão de ordem.

O SR. NEY SUASSUNA (PMDB - PB) - Pois não. Se o nobre Presidente concordar. (Pausa.)

O Sr. Heráclito Fortes (PFL - PI) - Senador Ney Suassuna, quero parabenizá-lo pela coragem de vir à tribuna trazer esse assunto, como também quero parabenizar o Correio Braziliense. Não há que se culpar o jornal por ter recebido uma matéria e tê-la publicado. O errado está exatamente em como essa matéria chegou ao Correio Braziliense pinçada, conforme disse o Senador Pedro Simon. Tivemos uma reunião reservada em que se aventou a possibilidade de políticos brasileiros envolvidos em remessas dessa natureza. E solicitei aos que prestaram depoimento naquela data que apresentassem a lista de todos aos membros da CPI. Isso, Senador Simon, já se passou há mais de um ano, e nada foi feito. O dever dos que tiveram acesso a esse tipo de informação era comunicar imediatamente ao Presidente da Casa para que acompanhasse o caso e tomasse providências. A CPI, misteriosamente, foi paralisada, e ficamos com a sensação de frustração por não termos levado a questão à frente. Essa CPI iniciou-se com o objetivo de atingir o meu Partido. Depois, o foco foi sendo mudado, de acordo com os interesses de momento, e o Congresso é que está pagando o preço, sendo enlameado por causa disso. Apelo, concordando em número, gênero e grau com o que disse o Senador Pedro Simon, para que se tome uma providência - já que a CPI está paralisada - com o fim de esclarecer esse assunto, porque é revoltante para um membro assíduo da Comissão tomar conhecimento de denúncias envolvendo nomes de pessoas e não ter sequer o acesso a informações dessa natureza. Era o que tinha a dizer.

O SR. NEY SUASSUNA (PMDB - PB) - Obrigado, nobre Senador.

O Sr. Renan Calheiros (PMDB - AL) - Senador Ney Suassuna, permite-me V. Exª um aparte?

O Sr. José Jorge (PFL - PE) - Permite-me V. Exª um aparte?

O SR. NEY SUASSUNA (PMDB - PB) - Sr. Presidente, peço permissão para conceder o último aparte.

Pois não, nobre Líder.

O Sr. Renan Calheiros (PMDB - AL) - Senador Ney Suassuna, quero parabenizá-lo pela sua coragem e sobretudo pela sua transparência. V. Exª tem o apoio incondicional e a solidariedade de todos os companheiros do PMDB. Institucionalmente, como Líder, quero expressar isso neste momento. Confiamos em tudo o que V. Exª está dizendo na tribuna. Fazemos coro com V. Exª e com o Senador Heráclito Fortes para que esses fatos todos se esclareçam. A sociedade quer respostas. Não é possível que continue ocorrendo, por exemplo, o que aconteceu hoje. Essas informações chegam aos jornais, muitas vezes sem refletir absolutamente nada da verdade, como nesse caso. V. Exª é um homem correto, transparente, um empresário cuja vida todos conhecemos, e esses fatos não podem ficar como estão. Portanto, conte conosco. Faremos o que for necessário para repor a verdade acima de qualquer questão.

O SR. NEY SUASSUNA (PMDB - PB) - Muito obrigado, nobre Senador.

Para encerrar, Sr. Presidente, quero dizer que sou empresário; que não estou à frente de minha empresa há oito anos, quando assinei um documento e passei a gerência para o meu filho; que, em relação a esse banco, temos empréstimos; que, em relação à movimentação, esse não é um item em que possa se fazer mensuração - ao se depositar e retirar o valor de 50 mil repetidas vezes, parece que se movimentou uma fortuna, mas se trata dos mesmos 50 mil; e, mais ainda, que me causou profunda espécie ver a descrição completa de todas as salas onde são guardadas essas informações, a que nunca tive acesso, como membro que, inclusive, assinou o pedido para prorrogar o funcionamento da comissão. Considero isso incrível!

Além disso, quando conversei com o repórter, ele disse: “O senhor sabe, Senador, que sequer as cópias xerográficas, no valor de R$15 mil, foram pagas? Estão devendo em Nova York até hoje”.

Fico impressionado como minúcias como essa, de que os membros da CPI não têm informação, podem ser passadas aos jornais.

Não quero nada escondido. Estou à disposição da CPI. No ano passado, como disse, foi esmiuçado o meu Imposto de Renda particular, assim como o das minhas empresas todas. Nenhuma das minhas empresas ficou sem ser avaliada. Houve atuação dura do Imposto de Renda. E isso é normal, pois sou um cidadão comum. Tem que ser assim mesmo.

Entretanto, o que me impressiona e surpreende é saber que existem dossiês guardados em um canto e que de lá só saem em certas ocasiões. E fico mais impressionado ainda de ver, Sr. Presidente, que são tantos os indícios de onde partem as informações que duvido que seja essa a origem. Cego desconfia quando recebe doação muito grande. Está muito claro aqui.

Portanto, quero dizer, com toda a tranqüilidade, que estarei à disposição da CPI e que esclarecerei tudo, porque não tenho nada escondido, quero tudo transparente.

Fico triste com essa CPI, que realmente não está prestando um serviço ao Congresso. Pelo contrário, está enodoando o nome do Congresso Nacional.

Muito obrigado.


Este texto não substitui o publicado no DSF de 12/11/2004 - Página 36113