Discurso durante a 144ª Sessão Deliberativa Ordinária, no Senado Federal

Preocupação com a instabilidade que cerca o Brasil na América do Sul.

Autor
Fernando Collor (PTB - Partido Trabalhista Brasileiro/AL)
Nome completo: Fernando Affonso Collor de Mello
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
POLITICA INTERNACIONAL. POLITICA EXTERNA. :
  • Preocupação com a instabilidade que cerca o Brasil na América do Sul.
Aparteantes
Gerson Camata.
Publicação
Publicação no DSF de 14/08/2008 - Página 30393
Assunto
Outros > POLITICA INTERNACIONAL. POLITICA EXTERNA.
Indexação
  • APREENSÃO, SITUAÇÃO, PAIS ESTRANGEIRO, BOLIVIA, COMENTARIO, REALIZAÇÃO, REFERENDO, CONFIRMAÇÃO, MANDATO ELETIVO, DEMONSTRAÇÃO, DIVISÃO, OPINIÃO PUBLICA, ADVERTENCIA, RISCOS, DESMEMBRAMENTO, TERRITORIO.
  • COMENTARIO, CANCELAMENTO, VISITA, PAIS ESTRANGEIRO, BOLIVIA, PRESIDENTE DE REPUBLICA ESTRANGEIRA, VENEZUELA, ARGENTINA, PROXIMIDADE, REFERENDO, DEMONSTRAÇÃO, GRAVIDADE, SITUAÇÃO.
  • ADVERTENCIA, NECESSIDADE, ATENÇÃO, GOVERNO BRASILEIRO, SITUAÇÃO, PAIS ESTRANGEIRO, BOLIVIA, RISCOS, COMPROMETIMENTO, ABASTECIMENTO, ENERGIA ELETRICA, GARANTIA, SEGURANÇA, BRASILEIROS, RESIDENCIA, PAIS, CONSOLIDAÇÃO, ECONOMIA, DEMOCRACIA, MERCADO COMUM DO SUL (MERCOSUL), DEFESA, ATUAÇÃO, PREVENÇÃO, CONFLITO, INTERFERENCIA, DIPLOMACIA, BUSCA, PAZ, VALORIZAÇÃO, FORÇAS ARMADAS, BRASIL, REFORÇO, CONTINGENTE MILITAR, MATERIAL BELICO, EQUIPAMENTO MILITAR.
  • IMPORTANCIA, TRADIÇÃO, DIPLOMACIA, GOVERNO BRASILEIRO, NECESSIDADE, INICIATIVA, BUSCA, PAZ, SEGURANÇA EXTERNA, AMERICA DO SUL, COMENTARIO, OCORRENCIA, ACORDO, BRASIL, PAIS ESTRANGEIRO, ARGENTINA, PERIODO, GESTÃO, ORADOR, PRESIDENCIA DA REPUBLICA, IMPEDIMENTO, PRODUÇÃO, MATERIAL BELICO, ARMAMENTO NUCLEAR, REGIÃO.

O SR. FERNANDO COLLOR (PTB - AL. Pronuncia o seguinte discurso. Com revisão do orador.) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, tenho manifestado, nesta Casa, minha preocupação com o arco de instabilidade que cerca o Brasil na América do Sul, e com a manipulada disseminação de sentimentos antibrasileiros.

No entanto, minha maior preocupação, no momento atual, é com a Bolívia. Após a vitória autonomista nos referendos dos Departamentos da Media Luna, Santa Cruz, Beni, Pando e Tarija, a realização domingo, 10 de agosto, do referendo revocatório, longe de ser sinal de calmaria, mostra a profundidade dos sinais de divisão do país irmão. A vitória do presidente Evo Morales e a reafirmação de suas diretrizes políticas dificilmente levarão à diminuição dos antagonismos, muito enraizados.

Temos, na Bolívia, Senhor Presidente, a superposição de duas poderosas e perigosas clivagens. De um lado, a divisão regional, com a região mais rica da Media Luna em busca de autonomia e, de outro, a cisão étnico-social, de que se aproveitam forças políticas para acirrar a desconfiança entre compatriotas.

Existe, na Bolívia, até mesmo o perigo de desmembramento, de esfacelamento do país. A própria Organização dos Estados Americanos tem se manifestado sobre esse perigo. A gravidade da situação é atestada por fatos recentes. O Presidente da República não pode transitar livremente em seu próprio país. Já existem áreas que lhe são proibidas. Como fator que alimenta, e piora divisões internas, temos a interferência externa. A abortada viagem dos Presidentes da Venezuela e Argentina à Bolívia, para prestar apoio e solidariedade ao Governo Central Boliviano, às vésperas do referendo revocatório de domingo, mostra o explosivo potencial desta crise.

Não temo estar exagerando ao dizer que a conjunção de fragmentação étnica e territorial e a interferência externa são fatores que também estiveram presentes nos Bálcãs, no período que antecedeu a Primeira Guerra Mundial. Embora, felizmente, ainda estejamos longe daquele tipo de cenário, os fundamentos de instabilidade não podem ser ignorados.

Para o Brasil, temos três ordens de perigo na situação de crescente instabilidade da Bolívia: a ameaça ao fornecimento energético, a vulnerabilidade da população brasileira lá estabelecida, e que viria a refugiar-se em seu próprio país, e a consolidação econômica e democrática do Mercosul.

Reitero, Sr. Presidente, Senhoras e Senhores Senadores, que o Brasil deve estar preparado para enfrentar as vicissitudes que se avolumam em seu entorno. Devemos construir cenários que contemplem essas ameaças e nos anteciparmos aos fatos, procurando agir de forma preventiva. Devemos atuar com firmeza e determinação no repúdio às interferências indevidas, buscando sempre exercer nosso papel de promover a paz e a estabilidade.

No caso da Bolívia, o Brasil pode contribuir como elemento de aproximação entre as partes, desobstruindo canais de comunicação, em papel construtivo e não divisivo, em prol da paz e da estabilidade em nosso subcontinente. Para isso, contamos com a capacidade de nossa diplomacia e nossa dimensão geopolítica e econômica. Cumpre apoiar os países de menor desenvolvimento, mas com políticas compensatórias de Estado.

Outra vertente da preparação para a crescente instabilidade de nosso entorno incumbe às Forças Armadas. Seu adestramento e reequipamento são essenciais para nossa segurança. Saúdo a realização da operação Poraquê, na Amazônia, e da Operação Combinada Atlântico, em setembro, no litoral do Rio de Janeiro, São Paulo e Espírito Santo.

As recentes descobertas petrolíferas na costa brasileira são fatos auspiciosos para nossa economia, mas, ao mesmo tempo, abrem novo flanco a ser defendido. A revitalização da 4ª Frota dos Estados Unidos da América é, por si, sinalização da importância estratégica das descobertas energéticas em momento de escassez e altos preços do petróleo.

O Brasil, por sua tradição diplomática de conciliação, tem natural responsabilidade com a estabilidade, a paz e a segurança em seu entorno. Tenho a certeza de que nossos diplomatas possuem a condição, por sua vocação para o diálogo e negociação, reconhecida internacionalmente, de agir como catalisadores de um processo de desarmamento de espíritos e de promoção do entendimento no país irmão. É vital para o Brasil uma Bolívia sem impasses, estável e próspera.

O Sr. Gerson Camata (PMDB - ES) - Permite-me, Excelência?

O SR. FERNANDO COLLOR (PTB - AL) - Pois não, Senador Gerson Camata.

O Sr. Gerson Camata (PMDB - ES) - Ilustre ex-Presidente e Senador Fernando Collor, V. Exª toca num assunto que é exatamente uma das atribuições do Senado Federal, e o faz com o conhecimento que V. Exª tem, certamente mais do que nós, pelo fato de ser um ex-Presidente da República e conviver com os Chefes de Estado vizinhos e com os problemas dos nossos vizinhos. V. Exª põe o Brasil na posição que ele deve ficar: como uma força conciliadora que possa unir as partes divergentes, até para, depois, não sofrer as conseqüências das dissensões que estão a caminho no país vizinho. E é necessário que se registre que V. Exª deu, como Presidente, uma grande contribuição para esse papel que o Brasil deve exercer. Naquela época, preparava-se, nas divisas do Brasil com os nossos vizinhos, um aparelhamento para experiências atômicas. O Brasil estava na corrida armamentista em busca de artefatos nucleares explosivos, e V. Exª teve a coragem de ir lá desativar aquelas instalações e mandar fechar aquele - eu vou dizer o nome popular - buraco que estava lá, pronto para receber esses experimentos e prepará-lo para isso. De forma que V. Exª tem autoridade moral para pregar o que V. Exª prega, pelo gesto que V. Exª praticou, corajoso à época, em favor da paz e da pacificação e da boa convivência do Brasil com seus vizinhos sul-americanos. Cumprimento V. Exª pela oportunidade do seu pronunciamento.

O SR. FERNANDO COLLOR (PTB - AL) - Muito obrigado, Sr. Senador Gerson Camata. V. Exª cita uma passagem que realmente foi muito importante para a pacificação do nosso Cone Sul. E essa decisão tomada não foi somente graças ao Governo brasileiro, que tinha a minha pessoa à frente dos destinos do País, mas também ao Presidente Menem, da Argentina.

Havia uma corrida armamentista muito grande entre as nossas Forças Armadas e as Forças Armadas argentinas, e uma desconfiança mútua entre as nossas Forças Armadas e entre os nossos países. E foi numa conversa que tivemos em Buenos Aires que resolvemos pôr fim a essa corrida armamentista, ao mesmo tempo em que nós banimos do nosso subcontinente, banimos do nosso entorno todo e qualquer experimento em torno de armas biológicas e de armas químicas.

Foi um grande passo dado no sentido da busca da estabilidade nessa região, que devemos também à ampla compreensão que o Governo argentino teve à época, Senador Gerson Camata. Muito obrigado pela sua participação e pelo enriquecimento que V. Exª dá ao meu pronunciamento.

Finalizando, Sr. Presidente, é vital para o Brasil uma Bolívia sem impasses, estável e próspera. É isso que todos nós acreditamos ser possível realizar.

Era o que tinha a dizer, Sr. Presidente.

Muito obrigado, Srªs e Srs. Senadores.


Este texto não substitui o publicado no DSF de 14/08/2008 - Página 30393