Discurso durante a 133ª Sessão Não Deliberativa, no Senado Federal

Repúdio à matéria publicada pelo jornal O Estado de S.Paulo, atribuindo a uma empreiteira a compra de dois imóveis em favor da família de S.Exa.

Autor
José Sarney (PMDB - Movimento Democrático Brasileiro/AP)
Nome completo: José Sarney
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
IMPRENSA. ATUAÇÃO PARLAMENTAR.:
  • Repúdio à matéria publicada pelo jornal O Estado de S.Paulo, atribuindo a uma empreiteira a compra de dois imóveis em favor da família de S.Exa.
Publicação
Publicação no DSF de 18/08/2009 - Página 36588
Assunto
Outros > IMPRENSA. ATUAÇÃO PARLAMENTAR.
Indexação
  • QUESTIONAMENTO, TRANSFORMAÇÃO, JORNAL, O ESTADO DE S.PAULO, ESTADO DE SÃO PAULO (SP), BUSCA, AMPLIAÇÃO, DIVULGAÇÃO, ACUSAÇÃO, AUSENCIA, CONFIRMAÇÃO, VERACIDADE, AUMENTO, VENDA, DESRESPEITO, HONRA, DIGNIDADE, POLITICO.
  • CONTESTAÇÃO, AUSENCIA, VERDADE, ARTIGO DE IMPRENSA, JORNAL, O ESTADO DE S.PAULO, ESTADO DE SÃO PAULO (SP), ACUSAÇÃO, EMPREITEIRO, AQUISIÇÃO, IMOVEL, FAVORECIMENTO, FAMILIA, ORADOR.
  • CRITICA, CONDUTA, SENADOR, COBRANÇA, ESCLARECIMENTOS, INVESTIGAÇÃO, AQUISIÇÃO, ORADOR, BENS, DOMINIO PRIVADO, DESRESPEITO, ARTIGO, CONSTITUIÇÃO FEDERAL, GARANTIA, CIDADÃO, DIREITOS, PRIVACIDADE.

                          SENADO FEDERAL SF -

            SECRETARIA-GERAL DA MESA

            SUBSECRETARIA DE TAQUIGRAFIA 


      O SR. JOSÉ SARNEY (PMDB - AP. Pela ordem. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, é para uma breve comunicação e algumas considerações.

            Eu conheci o Estado de S. Paulo incluído entre os dez maiores jornais do mundo. Certa vez tive oportunidade de felicitar por esse fato o Dr. Júlio de Mesquita Filho, que era meu amigo.

            A última viagem que o Dr. Julio de Mesquita Filho fez, no Brasil, ao norte foi a meu convite, foi ao Maranhão onde fez uma frase generosa: “Passei a acreditar no Brasil depois que visitei o Maranhão”. Isso foi em 1967.

            Contudo, é com grande tristeza que eu vejo O Estado de S. Paulo hoje, depois de uma decadência financeira que o levou a terceirizar a sua administração, terceirizar a sua redação e terceirizar também a sua consciência e a sua respeitabilidade.

            Eu quero fazer uma ressalva: ainda hoje O Estado de S. Paulo mantém uma sequência no que ele foi. É o nome do Dr. Ruy Mesquita Filho, que é o símbolo da continuidade, da lembrança do que foi, no passado, O Estado de S. Paulo.

            O Estado de S. Paulo, hoje, transformou-se, Sr. Presidente, em um jornal, que , na verdade, em vez do jornal que era, lido, respeitado, passou a ser um tablóide londrino daqueles que buscam escândalos para vender.

            A minha impressão, quando vejo o jornal, é como se visse um velho de fraque e de brincos, aqueles brincos espanhóis compridos.

            Sr. Presidente, é uma irresponsabilidade de tamanha grandeza que eu não posso acreditar que um jornal publique isto: “Empreiteira pagou duas imóveis para a família Sarney em SP”, sem ter aqui, Sr. Presidente, nenhuma referência, nenhuma prova a esse respeito. Uma afirmação dessa natureza! E ele vem se empenhando numa campanha sistemática contra mim, ou adotando uma prática nazista, que era aquela que eles adotavam de acabar com as pessoas, denegrir a sua honra, a sua dignidade, até com os judeus levá-los à câmara de gás. Felizmente, no Brasil não temos câmara de gás. Esse tem sido o comportamento de O Estado de S. Paulo.

         Sr. Presidente, o prédio na Alameda Franca, modesto, quase saindo na Rebouças nº 1531, é um prédio de apartamentos de 85m². Eu comprei o primeiro apartamento ali em 1977, Sr. Presidente, ainda em construção. Para quê? Para ali morarem meus filhos que estudavam, um na Universidade de São Paulo, na Escola Politécnica, e outro na Faculdade Cristã, Católica.

            Agora, já na terceira geração, esse apartamento, quem vai lá, muitos colegas meus já foram, até se admira: “Como é que o Presidente Sarney mora num apartamento de uma sala muito pequena e dois quartos?” E eu quando vou a São Paulo me hospedo lá no apartamento, que depois eu dei para um dos filhos meus que estudava lá.

            Agora, Sr. Presidente, os meus netos estão estudando em São Paulo. E o meu filho Sarney Filho comprou um apartamento no mesmo edifício, porque era mais fácil onde já moravam os seus primos. Ele declara no seu Imposto de Renda que está pagando um contrato de compra e venda. Está lá no Imposto de Renda dele. A escritura não foi passada porque ainda não terminou seu pagamento, mas já constam no Imposto de Renda as prestações pagas.

            Não tenho nada. Meus filhos se defenderão por eles mesmos. Um tem 52 e o outro tem 56 anos e não podem mais... nenhum dos nossos filhos... nós somos responsáveis e eles terão condições de se defender. Mas é que me incluem aqui... E o que me traz à tribuna é que alguns colegas meus - e é isso que me faz vir à tribuna - foram muito apressados, Sr. Presidente. Não procuraram nem saber do que se tratava. Diz aqui: “Senadores pedem investigação sobre imóvel de Sarney”.

            Eu quero ler aqui o que disse o Senador Sérgio Guerra, meu colega, com quem tenho grande intimidade, posso dizer assim mesmo. Eu o conheço, sei das suas agruras no passado, também sujeito a muitas infâmias. Sei das suas agruras no presente, também sujeito a muitos ataques. Vejo o Senador Sérgio Guerra dizer: “O certo é que não deve pairar nenhuma dúvida sobre essa questão, sob pena de o processo de investigação se estender até o setor elétrico”.

         Quer dizer, de repente, basta uma notícia de jornal em relação a mim e todo mundo já transfere para o Senado e me fala de uma investigação a respeito disso. Não tem nada a ver com o Senado a esse respeito...

            O Presidente da Comissão de Constituição e Justiça, também meu colega, meu amigo, a primeira pessoa que ele visitou ao ser eleito em Brasília fui eu, isso me honra muito, foi a minha casa. Ele é categórico ao defender que “as evidências de troca de favores são motivo de sobra para instalar uma investigação”.

            Sr. Presidente, cabe na cabeça de alguém por uma notícia de jornal instaurar uma investigação? Se alguém comprasse algum imóvel, se houvesse algum pagamento de imposto que não tivesse sido feito, se soubesse você denunciaria à Receita Federal! Mas o que tem isso com o Senado?! Por isso a minha indignação.

            Eu li um dos livros mais célebres do mundo, do Kafka, O Processo, em que ele começa dizendo: “Por que fui condenado se não fiz nada?” Eu lembro Kafka. É um processo kafkiano esse!

            Mais ainda, o meu colega Valter Pereira, que é do meu Partido, e diz: “Sarney deve explicações sobre a compra ou o uso dos apartamentos em São Paulo.”

         Meu Deus, eu devo dar explicações sobre compra ou uso de qualquer coisa que eu use na vida aqui para o Senado? Os Srs. Senadores são obrigados a isso? O Sr. Senador Alvaro Dias é obrigado a dizer por que ele tem suas economias? Por que ele está construindo algumas casas? É sua vida. A Constituição, no art. 5º, diz que nós temos direito à privacidade. É uma das garantias constitucionais. E este País rasga a Constituição, porque nenhum de nós tem mais garantia à privacidade. Não temos lei de imprensa, não temos direito de resposta. O que devemos fazer? Submeter-nos a isso aqui que nós estamos vendo. Qualquer um faz. Com homens como eu, com a maior vida pública que tenho. Os jornais publicam relação de pessoas aqui do Congresso, e nunca o meu nome esteve envolvido em nada disso, neste Brasil.

            Então, cria-se uma coisa dessa natureza. E o meu colega diz o seguinte: “Por que ele preferiu o apartamento? Isso precisa ser esclarecido.” Onde me hospedar! Por que ele preferiu apartamento? Vou dizer. “O Senador Sarney lembrou que, como Presidente, tem verba de representação para se hospedar em hoteis em São Paulo. Por que ele preferiu apartamento? Isso precisa ser esclarecido.”

            Meu Deus! Devia ser louvado, porque estou economizando para o Estado. Estou morando em um apartamentozinho de 85m2. Há mais de trinta anos me hospedo lá e nunca mudei de fazer aquilo. E o meu colega me pede para dizer por que me hospedei lá. Então, pede uma investigação para isso e diz que me hospedei lá porque fui acompanhar a operação na minha filha Roseana para a correção de um aneurisma cerebral.

            Mas, Srs. Senadores, nem nessa...Essa foi uma das poucas vezes que eu não me hospedei lá. Eu me hospedei na Vila Alpina, uma hospedaria de aluguel que tem junto do Hospital Einstein - está lá a dona - porque eu queria ficar o mais perto da minha filha, num lugar de onde eu pudesse sair para ir para o hospital e voltar. E, aqui, o meu colega me cobra que eu explique por que me hospedei no apartamento onde eu estava e não fui para o hotel, já que eu tenho diárias do Senado.

            Assim, eu peço aos meus colegas, pelo menos, que reflitam sobre a sua responsabilidade e não procurem fazer isso. Porque isso é uma coisa que não só fere, como naturalmente não ficam bem para cada um de nós coisas dessa natureza. Então, eu só venho falar, nesta Casa, por causa disso. Senão quem responde isso é meu filho, que foi quem respondeu, ontem, sobre a compra, por que comprou, o seu Imposto de Renda. São eles que respondem. Mas eu tenho que vir aqui para dizer por que me hospedei no apartamento do meu filho, em São Paulo, e não fui pagar diária de hotel. Isso porque um colega meu disse que eu tenho que explicar porque isso é falta grave, isso é falta de decoro parlamentar.

            Sr. Presidente, perdoe-me a Casa a minha indignação. Eu tenho procurado durante esse tempo todo ficar calado. Sabe Deus o que eu tenho sofrido. Mas eu não posso deixar de ver uma coisa dessas - ontem e hoje, quando li - e ficar calado, não por mim, mas pelos nossos colegas, pelo Senado Federal.

            São essas as palavras que eu teria que dizer. E peço a todos que meditem um pouco sobre elas.


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Este texto não substitui o publicado no DSF de 18/08/2009 - Página 36588