Discurso durante a 139ª Sessão Não Deliberativa, no Senado Federal

Lembrança pelo transcurso dos 55 anos da morte de Getúlio Vargas. Homenagem à memória de Euclides da Cunha, no transcurso dos 100 anos de sua morte.

Autor
José Sarney (PMDB - Movimento Democrático Brasileiro/AP)
Nome completo: José Sarney
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
HOMENAGEM.:
  • Lembrança pelo transcurso dos 55 anos da morte de Getúlio Vargas. Homenagem à memória de Euclides da Cunha, no transcurso dos 100 anos de sua morte.
Aparteantes
Eduardo Suplicy, Geraldo Mesquita Júnior, Mozarildo Cavalcanti.
Publicação
Publicação no DSF de 25/08/2009 - Página 38366
Assunto
Outros > HOMENAGEM.
Indexação
  • HOMENAGEM, ANIVERSARIO DE MORTE, GETULIO VARGAS, EX PRESIDENTE DA REPUBLICA, EX-DEPUTADO, EX GOVERNADOR, ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL (RS), EX SENADOR, ELOGIO, VIDA PUBLICA.
  • HOMENAGEM, CENTENARIO, MORTE, EUCLIDES DA CUNHA (BA), ESCRITOR, MEMBROS, ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS (ABL), JORNALISTA, MILITAR, ENGENHEIRO, AUTORIA, LIVRO, DEPOIMENTO, REVOLTA, MUNICIPIO, CANUDOS (BA), ESTADO DA BAHIA (BA), DESCRIÇÃO, VIAGEM, REGIÃO AMAZONICA, ESTADO DO ACRE (AC), LIMITE GEOGRAFICO, BRASIL, PAIS ESTRANGEIRO, PERU, ELOGIO, UNIÃO, OBRA LITERARIA, OBRA CIENTIFICA.
  • COMENTARIO, PUBLICAÇÃO, SENADO, LIVRO, REUNIÃO, TEXTO, AUTORIA, EUCLIDES DA CUNHA (BA), ESCRITOR, REFERENCIA, RELATORIO, VIAGEM, REGIÃO AMAZONICA, LEITURA, TRECHO.

                          SENADO FEDERAL SF -

            SECRETARIA-GERAL DA MESA

            SUBSECRETARIA DE TAQUIGRAFIA 


            O SR. JOSÉ SARNEY (PMDB - AP. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, no dia em que o Senado comemorou os 100 anos da morte de Euclides da Cunha, não pude participar daquela sessão, mas fiquei profundamente devedor de algumas palavras, nesta Casa, sobre Euclides da Cunha.

            No centenário do seu grande livro Os Sertões, tive a oportunidade de escrever, para a edição que se fazia comemorativa, o prefácio. E tive a bondade de V. Exª, que leu, neste Plenário, esse prefácio, naturalmente acrescido de algumas palavras de V. Exª que só fizeram enriquecer as minhas. Portanto, vou falar sobre Euclides da Cunha.

            Mas acabo de ouvir o Senador Mozarildo Cavalcanti, recordando que hoje temos que rememorar a data do suicídio do Presidente Vargas. Então, estou no dever de congratular-me com V. Exª e, ao mesmo tempo, de dizer que é de justiça lembrar sempre essa data, porque Vargas foi um grande brasileiro e está na história do Brasil profundamente marcado por tudo que fez. E me recordo daqueles dias, eu vivi aqueles dias. Eu era jovem, pertencendo à UDN e, do Rio de Janeiro, acompanhei aqueles acontecimentos.

            Nós da UDN só não esperávamos que Getúlio se suicidasse, e foi o que aconteceu.

            E, assim, o seu suicídio também foi um grande golpe político que ele aplicou na UDN. Afonso Arinos teve a oportunidade de dizer que a bala que atravessou o coração do Getúlio tinha atingido a União Democrática Nacional. E Tancredo Neves, numa visão mais otimista, dizia que a bala que atravessou o peito do Getúlio elegeu Juscelino Kubitscheck de Oliveira.

            Getúlio talvez tenha sido uma das figuras mais meteóricas da política brasileira. No Rio Grande do Sul, ele, de São Borja, era tido como um político bisonho, amigo de Borges de Medeiros; tinha sido Deputado Estadual, um homem muito fechado, vamos dizer assim, muito simplório e, por isso mesmo, tido como um político que não se destinava a ter um grande futuro. De repente, ele vem e se elege Deputado Federal. Aqui, na República Velha, havia um pacto pelo qual cabia ao Rio Grande do Sul a Comissão de Finanças, que, naquela época, era uma comissão importantíssima; a São Paulo, a Presidência, e, quando se fazia a Vice, era de Minas. Tinham suas regras. Vem Getúlio, vem a bancada do Rio Grande do Sul, e o Líder dessa bancada era Lindolfo Collor, avô do Presidente Collor.

            Então, Collor - Lindolfo Collor - devia ser o Presidente da Comissão de Finanças. Mas ele era inimigo do Governador de São Paulo; os dois tinham sido Deputados em determinada época e tiveram uma grande... uma certa briga no Plenário da Câmara - briga essa que marcou profundamente os dois, porque chegaram a ir às vias de fato. Então, ficou queimada a candidatura de Lindolfo Collor. Quem escolher? A bancada do Rio Grande do Sul disse: “Vamos escolher o Dr. Getúlio, porque ele não pertence a nenhuma das facções da bancada, é um homem muito sério, um homem muito calado, um homem muito equilibrado...” E escolheram Getúlio por essas virtudes.

            Depois, vaga o Ministério da Fazenda, que, pelas mesmas regras, devia pertencer ao Rio Grande do Sul. Então, a escolha foi feita pelo Presidente da Comissão de Finanças, que era Getúlio Vargas. Até se conta que a Washington Luís foi dito: “Getúlio não entende de finanças!” E Washington Luís, então, disse: “Isso é muito bom, porque de finanças entendo eu”. Essa era a característica de Washington Luís. Ele tinha feito, em São Paulo, um governo muito baseado no equilíbrio monetário e era muito arraigado a essas teorias do equilíbrio orçamentário. Então, ele disse: “De economia entendo eu”.

            Pois bem, aí começa a ascensão de Getúlio rapidamente, porque depois vem a eleição para Presidente da Província do Rio Grande do Sul e acaba com aquela coisa de o Borges de Medeiros eleger-se indefinidamente, sucedendo na mesma tradição do Castilhos. E o que ocorre é que o Getúlio vai ser presidente da Província do Rio Grande do Sul.

         E ali, depois de muitas juras com Getúlio..., com o Washington Luiz - são cartas que a gente lê de profunda lealdade -, ele começou a conspirar contra o candidato do Getúlio, já querendo ser candidato à Presidência da República, mas dizendo a Washington Luiz que jamais seria candidato à Presidência da República.

         A verdade é que, feitas as eleições com Júlio Prestes, ele perde as eleições, e, então, de repente, ele sai como o chefe da Revolução vitoriosa de 1930. Oswaldo Aranha chama os tenentes e é ele que faz as negociações com os tenentes. E os tenentes tinham um programa de Governo, porque os tenentes, desde 1922, depois da Revolução de 1924 em São Paulo, na qual morreu Joaquim Távora, irmão do nosso candidato a Presidente da República, uma figura que viveu muitos anos, tinham um ideário, e nesse ideário constava, em primeiro lugar, a criação do Ministério do Trabalho.

         Os tenentes, na realidade, eram socialistas. Socialista era Siqueira Campos, socialista era o próprio Joaquim Távora, era o Mário Carpenter, socialista era o Prestes, que depois se separou. E eles tinham um programa meio socialista, que era a criação do Ministério do Trabalho, e as questões sociais.

            Vem o Getúlio, aceita ser candidato, e com apoio deles, e se compromete a realizar o programa dos tenentes. Daí vem, na realidade, a vocação de Getúlio. Chegando no âmbito federal, transforma sua personalidade: aquele homem bisonho do Rio Grande do Sul transforma-se nacionalmente num homem esperto, um homem que passava a rasteira em todo mundo. Era o “retrato do velhinho”, que se falava. Getúlio passa a executar um governo que tinha o social como prioridade.

            Portanto, ele teve um período brilhante. Ele marcou a vida brasileira durante aquele tempo e, envolvido nos problemas que chegaram em 1954, ele encontrou essa solução política de entregar sua própria vida, no meio de uma grande crise política.

            Eu quero dizer que vivi aqueles momentos, e nós, da UDN, que estávamos envolvidos naquela movimentação que via a saída do Getúlio, de repente, todos nós estávamos profundamente comovidos. E o Afonso Arinos, que tinha feito discurso alguns dias antes - e se julgava que aquele discurso tinha precipitado a crise -, o Afonso derramava-se em lágrimas, porque se achava um pouco culpado pela tragédia ocorrida.

            Portanto, é muito justo que V. Exª relembre a morte de Vargas nesta tarde.

            Infelizmente, eu tenho que falar de um homem como Euclides da Cunha, que também...

            O Sr. Mozarildo Cavalcanti (PTB - RR) - Senador Sarney, permita-me...

            O SR. JOSÉ SARNEY (PMDB - AP) - Pois não.

            O Sr. Mozarildo Cavalcanti (PTB - RR) - Permita-me um agradecimento até a V. Exª, porque essa parte V. Exª nem ia abordar, porque ia abordar Euclides da Cunha, mas abordou e deu uma verdadeira aula da realidade da vida e da obra de Getúlio Vargas. Então, quero agradecer porque o pronunciamento de V. Exª, realmente, só faz ressaltar a importância de Vargas para o Brasil. Muito obrigado.

            O SR. JOSÉ SARNEY (PMDB - AP) - Agradeço a V. Exª o seu aparte generoso. E, por essas coisas que acontecem, eu também tenho de falar de um homem que viveu, teve a sua vida envolvida sempre por uma grande tragédia. Uma tragédia heróica que Euclides da Cunha teve. E é um personagem, que ele mesmo viveu profundamente a tragédia e o heroísmo de sua vida pessoal, que é a marca e a determinação dela.

            O Euclides distingue-se na literatura brasileira pelo seu estilo inconfundível. É um estilo forte, diferente de todos aqueles que nós tínhamos, até então, tido na literatura brasileira, de frases profundas. Ao mesmo tempo, ele era um homem que gostava de carregar tudo o que ele dizia com uma grande base de conhecimentos, que ele colocava como conhecimentos científicos. Ele foi um talento prematuro, porque, desde os 19 anos, Euclides já escrevia no jornal O Democrata.

            E, nesse seu texto, a gente já sente o seu estilo, quando ele diz - eu vou repetir um pequeno trecho:

...triste nubla-me este quadro grandioso - lançando para a frente o olhar, avisto ali, curva sinistra, entre o claro azul da floresta, a linha da locomotiva, como uma ruga fatal na fronte da natureza...

            Então, era esse estilo que, aos 19 anos, ele vem desenvolver no seu livro, que é um livro fundamental na literatura brasileira. Muitos dizem que é o maior livro da literatura brasileira. Eu diria que ele está entre os dez maiores da literatura brasileira, porque aí nós teríamos que falar do Grande Sertão: Veredas, teríamos que falar do livro do Joaquim Nabuco, Um Estadista do Império, teríamos que falar também nos livros do nosso Machado; enfim, não vamos entrar nessa discussão.

            A verdade é que, desde moço, ele teve um temperamento muito forte. Ele foi um jovem muito pobre. Ele nasceu no Estado do Rio de Janeiro e foi cadete da Escola Militar. Começou seus estudos na Escola Politécnica, mas, como ele não teve recursos para continuar na Escola Politécnica, ele voltou à Praia Vermelha. E lá na Escola Militar da Praia Vermelha, um dia, pouco antes de a República ser proclamada, vai o Ministro do Exército fazer uma visita àquela Escola. Pouco antes, os cadetes já tinham se mostrado como insubmissos: revoltaram-se contra a transferência do Deodoro para Mato Grosso, de onde ele ficou com ressentimentos e, talvez, daí tenha sido levado a ser o chefe da proclamação da República. E, durante a visita do Ministro do Exército, para acalmar os cadetes, faz-se um desfile marcial - quer dizer, dos cadetes prestando continência ao Ministro do Exército. Euclides da Cunha, quando o Ministro se aproxima dele, tira sua espada, tenta quebrá-la e a joga aos pés do Ministro, num gesto de revolta.

         Foi submetido ali, levado para a enfermaria, e a versão que se deu, para não toldar a visita do Ministro, era que tinha sido um ataque de loucura. Mas ele, então, permaneceu em pé, durante uma hora, dizendo que não, que ele recusava esse laudo, porque era um protesto que ele estava fazendo por causa da visita do Ministro à Escola de Cadetes, que estava totalmente envolvida pela ideia republicana - justamente e também pela promoção do Benjamin Constant.

            Nós sabemos perfeitamente que Benjamim Constant era positivista e foi ele quem colocou as ideias positivistas dentro das classes militares. A gente estudando um pouco, lendo a história da literatura brasileira e do pensamento brasileiro, nós verificamos que os grandes pensadores europeus não atravessaram o Atlântico, quer dizer aqueles grandes filósofos que eram motivo de discussão na Europa naquele tempo... como Kant, Heidegger e Schopenhauer, não chegaram ao Brasil. Mas Augusto Comte chegou ao Brasil e chegou ao continente americano. Ele teve maior repercussão aqui do que na Europa, embora lá, sendo considerado hoje, como foi no passado, um filósofo que não era dos grandes, que não era dos melhores e maiores, tenha tido, contudo, a capacidade de ser um grande divulgador, um grande sistematizador e, por isso, teve uma penetração e uma divulgação muito grandes.

            Sabemos que Augusto Comte foi muito influenciado pelas ideias de Saint-Simon e de Condorcet, que relacionavam à humanidade, ao pensamento humano, três fases: a primeira, teológica; a segunda, metafísica, a parte abstrata; a terceira parte, que eles chamaram de positiva, era o positivismo, uma parte científica. Quer dizer, a palavra “positivismo”, na realidade, estava associada à ciência, quer dizer, tratava-se de colocar a ciência como uma coisa racional na discussão da religião.

            Então, em uma época em que o Cristianismo começava a ser contestado e negado pelos grandes filósofos, pelos grandes pensadores, Augusto Comte resolve fazer uma religião secular, uma religião que fosse criada pela própria humanidade e que vivesse da própria humanidade, quase que uma religião agnóstica e, da mesma maneira, sem Deus.

            Havia, portanto, também esse dado teológico que ele colocava em suas idéias.

            Foi assim que as ideias positivistas marcaram a sua introdução aqui no Brasil, quando Benjamim as incutiu na Escola Militar - ele incutia aquilo que a juventude gostava. Na realidade, no âmbito da religião, começava a decadência do Cristianismo - naquele tempo achavam que estava decadente - e a busca de uma religião secular, que Comte pregava que fosse racional e baseada na ciência.

            Embora Comte não tenha sido, como disse, um grande pensador e não seja colocado no rol dos grandes filósofos, influenciou grandes homens. Marx, por exemplo, por ele foi influenciado, louvava-o muito, lia-o e citava-o muito, assim também Elliot.

            Pois bem, foi colega de Euclides da Cunha, na Escola Militar, o Marechal Rondon. Nessa cena que contei aqui, Rondon descreve, em uma página, a visita do Ministro à Escola Militar, quando ele pratica aquele ato de revolta. Depois, então, ele mesmo dizendo que tinha sido um ato de revolta e não uma crise de nervos, ele é expulso da Escola Militar e vai para A Província de São Paulo, onde o acolhe Júlio de Mesquita, que era o diretor de A Província de São Paulo.

            Ele, então, começa a escrever como repórter e prepara-se para voltar à Escola Politécnica, onde ele faz os exames preparatórios - ele mesmo sempre disse que tinha uma grande vocação pela Engenharia. Segue o seu curso e, ao mesmo tempo, como repórter, vai para A Província de São Paulo, onde ele teve a grande oportunidade de sair para cobrir a Guerra de Canudos, o que lhe tornou possível, baseado nas reportagens que fez, escrever Os Sertões.

            Mas, imediatamente, a República é proclamada e, no dia 19, Euclides, com os colegas todos dele, é reintegrado às Forças Armadas e ao seu lugar de cadete.

            Um encontro nessa fase de sua vida marca profundamente tudo o que vai acontecer depois em sua vida. Ele vai visitar o tenente-coronel Sólon Ribeiro - Sólon Ribeiro também era um republicano exaltado das Forças Armadas e era um dos chefes-cabeças, vamos dizer assim, do grupo que influenciava Deodoro da Fonseca para que ele aderisse e comandasse a rebelião mexicana. Nessa visita que ele faz ao Sólon, que depois viria a ser general, ele diz o seguinte: “Cheguei aqui para ver a República e vi você”. Quem era “você”? Era a filha de Sólon Ribeiro, chamada Anna, com quem, oito meses depois, ele se casava.

            Houve muitas missões em sua vida. Ele vai ao Nordeste, cumpre muitas missões. Cumpriu uma missão também na Amazônia.

            E eu devo aqui, com a presença do nosso Geraldo Mesquita, louvar o trabalho que ele fez de lembrar a demarcação dos nossos limites com o Peru - Euclides da Cunha foi o encarregado da missão. Rio Branco deu a ele essa missão porque ele estava quase que desempregado, sem condições de vida. Rio Branco, então, nomeou-o para essa missão. O nosso Senador Geraldo Mesquita teve oportunidade de falar aqui sobre isso, e agora nós, o Conselho Editorial, editamos pelo Senado o livro da demarcação dos limites com o Peru.

            São páginas também que eu tive oportunidade de ler há algum tempo. São páginas belíssimas que Euclides escreve sobre as viagens que fez pelo rio Purus, sobre as viagens que fez por aqueles rios... Ele fala que os rios começam - eu me recordo - como uma pequena corrente e depois eles se tornam rasos e, quando passam nos despenhadeiros, desencadeiam-se como se fossem uma tempestade de água.

            Nesse tempo, Euclides pensou, mas não conseguiu realizar, em escrever um livro que também se chamaria Paraíso Perdido - ele mesmo deu o nome -, que seria o livro no qual falaria sobre a Amazônia. Ele queria escrever um livro sobre a Amazônia que fosse maior e mais forte do que Os Sertões.

            Tivemos oportunidade também - aí me incluo porque participei do Conselho Editorial - de editar aqui o Paraíso Perdido. Não era o Paraíso Perdido do Euclides, mas juntamos vários textos do Euclides sobre a Amazônia e transformamos textos, artigos e algumas dessas anotações dele na viagem sobre o Purus para fizer um livro que tem o título, também, de Paraíso Perdido e que foi publicado pelo Senado.

            Eu estava falando no encontro dele com Anna.

            Ele vai morar numa pensão com sua mulher, pensão onde ele tinha dois colegas, que era o Dilermando de Assis e o irmão do Dilermando, que era o também cadete Dinorah.

            Por causa das inconstantes viagens, ele começou a ficar com muito ciúme da mulher, inclusive porque ele desconfiava que um dos seus cinco filhos não era dele e, sim, do Dilermando - o Dilermando era louro e o menino era louro. Aí começou a sua amargura.

            Ele se separa da mulher, comunica ao filho Quidinho que vai separar-se. Já tuberculoso, ele vive um estado meio febril: pede aos seus primos um revólver, vai para o subúrbio da Piedade, onde moram seus irmãos, e começa a perguntar onde é a casa em que está o Dilermando. Encontra finalmente a casa, mas é o irmão dele quem o recebe, o Dinorah. Ele, então, atira e fere o Dinorah, e trava um tiroteio com o Dilermando. Mas é uma cena de certo modo obscura, pois, no processo que é feito sobre esse flagrante, uma versão diz que Dilermando, que era campeão de tiro, na hora em que Euclides saiu ferido na mão, chama Euclides e, quando o Euclides volta, atira em Euclides; a outra já diz que ele atirou em Euclides quando este fugia. Foi absolvido em legítima defesa.

            Comemoramos... Lembramos o nome dos santos... Os santos são comemorados pelo dia da sua morte. Os grandes escritores também são lembrados mais pelo dia de sua morte, que é quando eles entram definitivamente para a história. Neste ano, no dia 15 deste mês, lembramos os 100 anos da morte de Euclides.

            Anna, a mulher, casa-se com Dilermando. Com ele vive sete anos, tem filhos, e se separa. Dilermando casa-se de novo, tem filhos, e uma delas até escreve a história do pai recentemente. Muitos e muitos livros foram escritos sobre esse episódio.

            Mas a tragédia persegue a vida de Euclides da Cunha, porque o seu filho Quidinho, alguns anos depois, vai vingar a morte do pai. Encontra-se em uma passagem com o Dilermando, saca também de um revólver e tenta matar Dilermando, ferindo-o, mas Dilermando, que é marido de sua mãe, atira de volta e mata o segundo filho de Euclides. Quase ao mesmo tempo, o filho mais velho, o Sólon, era delegado no interior do Acre e lá também, numa rixa que tem na prisão de um criminoso, é assassinado.

            Assim, a tragédia marca a vida desse grande homem. E a tragédia desses episódios do começo da sua vida e da morte de Euclides se apequena, torna-se menor diante do imenso espaço de compreensão do Brasil e do domínio formal que o escritor passa a ter na literatura brasileira. Ninguém poderá ultrapassar a obra que define a nacionalidade brasileira, que é, por excelência, como eu disse, Os Sertões. Especula-se, com razão, sobre o que haveria de ser, se fosse, a grande saga amazônica com que ele sonhava no fim da vida.

            Mas as páginas que ele escreveu, por exemplo, sobre a foz do Amazonas são páginas fantásticas, são páginas que constituem quase que uma obra-prima.

            O Senado Federal, como eu disse, publicou o livro Um Paraíso Perdido e procurou reunir aqui e ali alguns textos do livro de Euclides, que era Contrastes e Confrontos. Ele fez o reconhecimento do Alto Purus, no rio Purus. A missão tinha para Euclides um caráter de salvação das incertezas de sua vida de engenheiro errante, empregado em missões temporárias aqui e ali, incertezas que eram exacerbadas pelo conflito doméstico. Foi levado à glória pelo sucesso explosivo de Os Sertões.

         Ele não tinha muito esperança sobre Os Sertões. Quando o escreveu e entregou aos editores, ficou muito agoniado sobre o que iria acontecer com o livro. De repente, quando sai o livro, em uma edição pequena, o editor manda dizer que quase todo ele havia se esgotado em uma semana.

            Ele foi muito amigo de Machado de Assis, que, imediatamente, tudo fez para levá-lo à Academia, onde ele foi eleito por unanimidade. Ele entrava na Casa de Machado de Assis pela mão do próprio Machado de Assis.

            Vou repetir aquilo que tentei dizer no princípio, quando ele via um ribeirão. Ele estava falando, e eu tinha escrito aqui, lá na missão da delimitação dos limites:

O pequeno ribeirão tem a feição característica de todos os cursos de água de cabeceira. É uma torrente. Desce, tortuoso, com 2m, de largura média, de S.O., procurando a pouco e pouco o rumo de E. em que aflui no Cavaljani. As árvores trançam-lhe por cima dando-lhe por vezes, em largos traços, a obscuridade de um túnel, e a travessia faz-se obrigatoriamente acompanhando-lhe o eixo, e dentro d'água, rasa de 0,20m, exceto em quatro ou cinco pontos em que ele de chofre se aprofunda, ganglionando em poços invadeáveis, que se evitam por meio de atalhos laterais pelo alto das barrancas.

            É quase o mesmo estilo que vemos do princípio ao fim em que ele escreve Os Sertões.

            Euclides tem uma fé inabalável no Brasil. O final de seu Relatório, esse que acabamos de publicar sobre o rio Purus, é um apelo:

Não precisamos prosseguir, demonstrando a necessidade, a urgência imperiosa e a vantagem, sob todas as formas incalculáveis, de uma navegação que em breve há de transfigurar as paragens por onde se alonga a mais dilatada diretiva da expansão do nosso território.

            O livro que não foi tem trechos magníficos - porque ele não escreveu: “Desaparecem as formas topográficas mais associadas à existência humana.”

            Mas não seria Euclides sem o aspecto social. Faz a denúncia da “mais criminosa organização de trabalho que ainda engenhou o desaçamado egoísmo.” São palavras de Euclides: “De feitio, o seringueiro, e não designamos o patrão opulento, se não o freguês jungido à gleba das “estradas”, o seringueiro realiza uma tremenda anomalia: é o homem que trabalha para escravizar-se”. É uma grande definição: é o homem que trabalha para escravizar-se. E Euclides faz o chama “a conta de venda de um homem”. Ao fim de um ano, afirma “é ainda devedor e raramente deixa de ser”. É como ele define a figura do seringueiro nessa viagem da demarcação de limites do Alto Purus.

            Sr. Presidente, vou pedir a publicação, na íntegra, depois do discurso e vou prorrogar um pouco. Recordo-me também que, quando li esse Relatório de Euclides pela primeira vez, aprendi o que era o caucho e o que era a borracha. Nessa área do Alto Purus, onde existe muito caucho, eles têm de cortar a árvore para retirar o leite, que se transforma, depois, em borracha. A seringueira, não; ela permanece. Daí a diferença. Com a exploração dos cauchos, eles quase acabaram com eles, permanecendo a seringueira como produtora de borracha.

            Quando ele vai para Canudos, então, presencia aquela guerra cruel, na qual teve oportunidade de escrever o livro, dividindo-o em três partes. Em uma parte, ele fala da terra; em outra parte, fala da raça, onde escreve algumas coisas sobre a raça que ali se forma e de onde saiu a frase “o sertanejo é, sobretudo, um forte”.

            Antônio Conselheiro, que era aquela figura pequena, é descrito por ele, depois de ele ter tido também um insucesso conjugal... Ele sai para se tornar, então, aquele místico que percorre os sertões, que o têm como visionário. Aí, tem aquele equívoco que é o de considerá-lo como um homem que desejava restaurar a monarquia no Brasil e se trucida, de uma maneira brutal, aquela gente toda. Matam-se todos aqueles que o acompanhavam, os fanáticos, os religiosos. Euclides presencia tudo aqui, faz uma reportagem e, depois disso, escreve Os Sertões.

            Guilherme de Almeida foi o primeiro a assinalar que também há, dentro de Os Sertões, além da grandeza de todo o livro, sem dúvida alguma, uma veia poética. E foi Guilherme de Almeida quem disse que há, em Os Sertões, não só a sabedoria da construção metafórica, como o verso puro que, a todo instante, é assinalado em decassílabos, em alexandrinos perfeitos.

            Ao mesmo tempo, Euclides pretende ter a distância, a frieza do cientista, aplicar o método científico, que era um resquício de suas ideias positivistas. Descreve o cenário: “A Terra”. E, longamente, o personagem: “O Homem”. Só depois passa aos fatos circunstanciados, à história da campanha, da morte: “A Luta”. Este é o cerne do livro, lago encarnado em que tentamos chegar, atônitos, à superfície.

            Mas é o próprio Euclides quem nos explica, em sua nota preliminar: a Campanha de Canudos, a história da Campanha, não tem mais interesse: sim o tem o traço das subraças sertanejas. Quer dizer, ele queria esquecer a luta de Canudos para se debruçar sobre aquela coisa que ele achava mais profunda: o estudo da terra, o estudo do homem, a quem ele estava dedicado.

            Isso é um pouco também da ideia positivista, porque foi Auguste Comte quem, pela primeira vez, usou a palavra sociologia. A palavra sociologia, pela primeira vez, aparece por Auguste Comte. Por isso, muitos sociólogos dizem que ele foi o pai da Sociologia. E é ele que, ainda influenciando Euclides, consegue colocar dentro de Os Sertões, a procura do fato histórico, a visão científica que ele tinha. Ele prevê - quanto ele estava errado, para o bem e para o mal - que estavam “destinadas a próximo desaparecimento [o que ele achava da raça sertaneja] ante as exigências crescentes da civilização e a concorrência material intensiva das correntes migratórias que começam a invadir profundamente a nossa terra”.

            E afirma: O jagunço destemeroso, o tabaréu ingênuo e o caipira simplório serão em breve tipos relegados às tradições evanescentes ou extintas.

            Mas lembra em tempo: “A campanha de Canudos tem por isso a significação inegável de um primeiro assalto, em luta talvez longa”.

            Ele, então, interpreta que a própria campanha iria destruir esse traço característico do nosso sertanejo: Foi, na significação integral da palavra [- ele diz -], um crime”.

     Os Sertões não tem a força da acusação, tem a força dos fatos. Não é um processo como o J'Accuse, não pretende reverter a história e nem derrubar o sistema político: ele é o legista, que descreve o cadáver, mexe nas vísceras, identifica os ferimentos, determina a causa mortis. Expõe o crime.

     E ressalta:

Este livro não é um livro de defesa; é, infelizmente, de ataque. Ataque franco e, devo dizê-lo, involuntário. Nesse investir, aparentemente desafiador, com os singularíssimos civilizados que nos sertões, diante dos semi-bárbaros, estadearam tão lastimáveis selvatiquezas, obedeci ao rigor incoercível da verdade. Ninguém o negará.

            Os Sertões foi escrito entre 1898 e 1901, em São José do Rio Pardo, interior de São Paulo, onde trabalhava, nos seus trinta anos, como engenheiro civil. Em Rio Preto, até hoje, dizem-me que há um pequeno Memorial Euclides da Cunha, e há também um pequeno barraco de zinco onde ele trabalhava e onde escreveu parte de Os Sertões. Até hoje, há uma grande romaria na cidade para visitar o Museu Euclides da Cunha e o lugar onde ele escreveu Os Sertões.

            Possivelmente, a primeira ideia do livro, e o seu título mesmo, abandonado e retomado - porque ele botou o título, tirou o título, voltou o título -, tenha nascido de uma crônica de Machado de Assis, comentando, em 1897, O Sertão, de Coelho Neto - também tem o livro O Sertão; o de Euclides é Os Sertões -, e lembrando que ninguém chegará “ao poder daquele homenzinho, que passeia pelo sertão uma vila, uma pequena cidade...”.

            E continuava Machado:

Ora bem, quando acabar esta seita dos canudos, talvez haja nela um livro sobre o fanatismo sertanejo e a figura do Messias. [Ele então já profetizava o livro que Euclides iria escrever.] Outro Coelho Neto, se tiver igual talento, pode dar-nos, daqui a um século, um capítulo interessante, estudando o fervor dos bárbaros e a preguiça dos civilizados, que os deixaram crescer tanto quando era mais fácil tê-los dissolvido com uma patrulha, desde que o simples frade não fez nada. Quem sabe?

            Era a anunciação do livro Os Sertões, ele previa um futuro Coelho Neto dali a cem anos. E foi logo em seguida.

            Talvez o próprio empenho de Machado para que Euclides entrasse para a Academia, e até mesmo, num movimento excepcional em sua parcimônia, para conseguir de Rio Branco acolhê-lo em seu gabinete, responda por essa profecia.

            O livro foi lido e relido entre amigos e colaboradores, entusiasmos e medos. A insegurança não quando vê num trem um exemplar em mão de um leitor, logo após ter decidido retomar os originais deixados com a editora Laemmert. Ela só aparece quando, em dezembro de 1902, recebe a notícia do grande e imediato sucesso, passado pouco depois de outro, lido em seguida, em que Laemmert comunica o fracasso total.

         Apesar do entusiasmo concordante de Araripe Júnior, José Veríssimo e Sílvio Romero, então trilogia reinante e desarmônica de nossa crítica, Euclides responde na 2ª edição às poucas dúvidas levantadas. E é na 4ª edição que os editores da Laemmert dizem: essa é a edição definitiva, corrigida pelo próprio Euclides. Realmente transformou-se em edição definitiva, porque ele vai morrer logo depois.

            Assim, quero, Sr. Presidente, marcar esse centenário de Euclides da Cunha e me desculpar por não ter participado da sessão. Aqui, hoje, alinhavei algumas poucas palavras...

            O SR. PRESIDENTE (Mão Santa. PMDB - PI) - Permita-me adverti-lo, Presidente, que o Senador Geraldo Mesquita foi quem inspirou a homenagem na sessão especial a Euclides da Cunha, como da mesma maneira foi inspirado a trazer à tona a memória de Getúlio Vargas. Então, um já aparteou, agora é o Senador Geraldo Mesquita.

            O SR. JOSÉ SARNEY (PMDB - AP) - Com muito prazer.

            O Sr. Geraldo Mesquita Júnior (PMDB - AC) - Senador Sarney, V. Exª resgata aqui a lembrança de dois grandes brasileiros, eu diria até três, porque V. Exª se referiu a Rondon também: Getúlio, Rondon e Euclides da Cunha. O Senador Mozarildo está coberto de razão, quando registra o fato de que, de alguma maneira, a imprensa brasileira olvidou o que representa a data de hoje. Em 1954, Getúlio se suicidava, deixando um manifesto ao País, e V. Exª, secundando o Senador Mozarildo, que puxou as homenagens àquele grande brasileiro, traz ao nosso conhecimento fatos que V. Exª tenha, talvez, acompanhado. Em seguida, V. Exª se fixou no registro dos cem anos da morte de Euclides da Cunha. Nós tivemos, de fato, terça-feira passada, oportunidade de realizarmos, no Período do Expediente, uma homenagem a esse grande brasileiro. E há fatos relacionados a essa homenagem, Senador Sarney, que eu devo aqui revelar. A minha assessoria, meus auxiliares trabalharam mais de um ano e meio na busca de documentos na Câmara e no Senado, que traduzissem a participação no Congresso Nacional na aprovação do tratado de limites assinado entre o Brasil e o Peru; obra, por sinal, que teve a participação decisiva e efetiva de Euclides da Cunha, que chefiou, de parte do Brasil, a missão Brasil-Peru, encarregada de fixar os limites dos dois países. Subiu até as cabeceiras do Purus, sofreu doenças, enfim, mas cumpriu a sua missão e apresentou ao Barão do Rio Branco, que o designou para aquela missão, um relatório sobre o qual o Barão do Rio Branco propôs a assinatura do Tratado de Limites. Como eu disse, a minha assessoria passou mais de um ano e meio, Senador Sarney, garimpando esses documentos, reunindo, trabalhando, atualizando a linguagem. E nos demos conta, no início deste ano, que aquela obra não cabia, digamos assim, na minha cota pessoal de publicações a que fazemos jus no Senado Federal. No início do ano - o senhor já tinha sido eleito -, eu fui ao seu Gabinete e lhe pedi, encarecidamente, que examinasse a possibilidade de, digamos, assumir aquela obra na cota da Presidência do Senado Federal. Enfim, o que restou de concreto, Senador Sarney, é que, de fato, V. Exª encaminhou a obra para o Conselho Editorial do Senado. A obra foi considerada de qualidade, foi editada, impressa na gráfica do Senado. Aí alguém pode perguntar: Geraldo, por que você não se referiu a esse fato quando da homenagem a Euclides da Cunha na sessão de terça-feira? Aqui, eu quero revelar um fato: quarta-feira, ou seja, o dia seguinte, era o dia em que o Conselho de Ética ia se reunir para apreciar matérias relativas a V. Exª e ao Senador Arthur Virgílio. O clima aqui, Senador, como todos podem testemunhar, era muito pesado, muito difícil. E eu, deliberadamente, fiz referência à publicação da obra, que, hoje, é um volume da coleção Edições do Senado, graças à intervenção de V. Exª. Mas eu fiquei preocupado em oferecer à Casa esses detalhes, para preservar V. Exª, no meu entendimento, porque eu temi que um fato desse... Como eu disse, a coisa estava tão tumultuada aqui na Casa, Senador, que eu temi, por exemplo, que alguém pudesse aproveitar o ensejo e protocolar mais uma representação contra V. Exª, quem sabe, alegando tráfico de influência ou favorecimento a um colega, e omiti esse fato. V. Exª hoje me dá a oportunidade - claro, hoje, as coisas mais serenadas...

            O SR. JOSÉ SARNEY (PMDB - AP) - Ou participando da morte do Euclides.

            O Sr. Geraldo Mesquita Júnior (PMDB - AC) - Verdade, não é? (Risos.) Então, eu pensei: é melhor preservar o Senador Sarney porque esse fato poderá sofrer interpretações que não corresponderiam à realidade dos fatos. Hoje, no entanto, V. Exª me dá a oportunidade de agradecer publicamente a acolhida que teve da obra, o encaminhamento que fez. Não fosse isso, essa obra não teria vindo à luz porque, repito, não cabia na minha cota, era muito maior do que a minha cota pessoal de publicações. Portanto, com essa pequena revelação aqui, de público, agradeço a V. Exª a sensibilidade que teve com relação a tudo isso. Esse trabalho, Senador, vinha sendo preparado, assim como disse, há um ano e meio. Eu me vi na iminência de chegar na realização da sessão em homenagem a Euclides e não ter a obra pela qual a gente tanto ansiava, tanto esperava que se concretizasse um dia. Parabéns pelo registro oportuno, detalhado, da vida e da morte de pessoas que tiveram tanta importância neste País: Getúlio, Euclides da Cunha e o próprio Rondon, a quem V. Exª também teve a oportunidade de referir-se.

            O SR. JOSÉ SARNEY (PMDB - AP) - Agradeço a V. Exª.

            Quero dizer-lhe que me recordo bem do dia em que V. Exª esteve em meu gabinete, e tive a oportunidade de falar da importância da publicação da memória sobre o tratado dos nossos limites com o Peru. Dizia mesmo que tinha lido, através do Leandro Tocantins, que aborda isso no seu livro sobre o Acre, e depois, no Venâncio - que se diz que foi o maior estudioso de Euclides e que fundou um clube, Os Amigos do Euclides, já depois deste morto. Eles contam realmente o que foi a saga do Euclides da Cunha naquela subida pelos rios, onde ele teve por alguns dias de esperar a missão peruana, que não chegava, para que as duas se juntassem e procurassem, então, estabelecer e plantar, naquelas áreas, naquela selva, onde realmente os limites estabelecidos pela lei seriam marcados. E, também, o Leandro Tocantins tem a oportunidade de citar a luta do Euclides da Cunha e o quanto ele saiu debilitado, depois da visita ao Acre.

            Senador Eduardo Suplicy.

            O Sr. Eduardo Suplicy (Bloco/PT - SP) - Senador José Sarney, V. Exª traz à memória, hoje, e com profundo conhecimento, a vida de Euclides da Cunha, de Os Sertões, com passagem de extraordinário significado para a nossa história.

            O SR. JOSÉ SARNEY (PMDB - AP) - Quero recordar que V. Exª fez um discurso aqui, no centenário de Os Sertões, e tive a oportunidade de apartear V. Exª.

            O Sr. Eduardo Suplicy (Bloco/PT - SP) - Obrigado. E V. Exª, inclusive, como membro da Academia Brasileira de Letras, enriquece esta tarde ao recordar a obra tão fantástica Os Sertões, que é a obra brasileira mais traduzida, em termos de línguas, no mundo inteiro. V. Exª lembrou Auguste Comte, que influenciou Euclides da Cunha. Há uma passagem de Os Sertões, inserida na peça montada pela direção de José Celso Martinez Corrêa, no Teatro Oficina, em que, a certa altura, há uma faixa em que se propõe “amor, ordem e progresso”, que era a inscrição original que se imaginava ter. E algumas pessoas avaliaram que não seria o caso de colocar a palavra “amor”, mas isso está lá como algo que levou muitas pessoas como, por exemplo, o próprio Deputado Chico Alencar, e volta e meia, muitos brasileiros ilustres, como Carlito Maia, a proporem que tivéssemos “amor, ordem e progresso”. Mas eu gostaria de trazer uma reflexão - V. Exª nos fala aqui de algumas das tragédias vividas por Euclides da Cunha, inclusive seus filhos e aquilo que o levou à morte - sobre a importância do seu livro, que retratou situações dramáticas da história do Brasil. V. Exª traz a vida de Os Sertões num momento em que o Senado Federal vive momentos de extraordinária tensão, como poucas vezes aconteceu em nossa história. Eu gostaria de lhe dizer, com franqueza, que quando V. Exª, há pouco, mencionou que um personagem transmitiu a palavra j'accuse... Eu queria lhe contar uma passagem, aliás, diversas passagens, Senador José Sarney. Mais e mais, nestes últimos dias, por onde eu tenho andado no Brasil, aqui no aeroporto de Brasília, ou quando viajo para outro Estado para realizar alguma palestra, ou no interior de São Paulo, ou se vou ao cinema - como neste final de semana -, ou se vou à Fundação Getúlio Vargas, onde encontro colegas professores, ou, quando andei no Parque Ibirapuera para fazer um exercício e caminhada, como normalmente eu faço; enfim, por toda parte as pessoas vêm a mim e cobram: “Senador Suplicy, não vai dizer das coisas que precisam ser ditas ali no Senado?”. Quando terminei de almoçar às três e meia da tarde, na última sexta-feira, após dar uma aula na Escola de Administração de Empresas, eis que se senta ao meu lado o mais veterano professor, aos 87 anos, Claude Machline - ele tem origem francesa. Ele senta-se ao meu lado - eu já tinha acabado de almoçar no restaurante - e diz: “Eduardo, você precisa ir a Senado e dizer j´accuse.” Por isso, essa palavra me veio à mente quando V. Exª a citou. Porque você precisa e essa é a voz que ouço de toda parte e nas centenas de e-mails que tenho recebido. As coisas não podem ficar como estavam. Na última sexta-feira, nosso Líder Aloizio Mercadante, de uma maneira dramática, mostrou como ele, como era o desejo da maioria da nossa bancada, recomendava a V. Exª que se afastasse da Presidência para poder explicar os fatos, as dúvidas que tiveram os Senadores e a opinião pública tem sobre o conteúdo das representações. Entretanto, a nossa voz, a dele própria acabou não sendo ouvida e, por uma ação da PRESIDÊNCIA do Partido dos Trabalhadores e do Palácio do Planalto, do próprio Presidente Lula, ainda que em minoria, os Senadores do PT arquivaram as representações junto com outros, em uma maioria não tão significativa. O Senador Aloizio Mercadante citou Joyce para dizer: “Os erros dos homens podem ser portas de novas descobertas. Esta Casa errou, o meu Governo errou, o meu Partido errou, nós erramos, eu errei, porque essa não é a solução que o Brasil espera e precisa.” Senador José Sarney, a situação do Senado Federal não está tranquila, não está resolvida. As pessoas desejam o esclarecimento mais cabal, que as dúvidas sobre o conteúdo das representações sejam, efetivamente, dirimidas. Eu ouvi, com atenção, o discurso de V. Exª sobre os diversos fatos. Eu fiquei com muitas dúvidas, gostaria de vê-las esclarecidas. O povo brasileiro deseja vê-las esclarecidas. Quando V. Exª me... Eu tenho tido, desde que nos conhecemos mais proximamente, aqui no Senado, uma relação de respeito, posso dizer de amizade. Inclusive, eu não o encontrei, mas fiz questão de visitar a Srª Marly, quando estava hospitalizada na minha cidade, por um gesto que considerei importante.

            O SR. PRESIDENTE (Mão Santa. PMDB - PI) - Senador Eduardo Suplicy, V. Exª está há quantos anos na Casa?

            O Sr. Eduardo Suplicy (Bloco/PT - SP) - Estou desde...

            O SR. PRESIDENTE (Mão Santa. PMDB - PI) - Um aparte é de dois minutos, regimentalmente.

            O Sr. Eduardo Suplicy (Bloco/PT - SP) - Certo. E o discurso do Presidente Sarney seria, regimentalmente, de dez minutos mais... Vinte minutos.

            O SR. PRESIDENTE (Mão Santa. PMDB - PI) - Vinte minutos.

            O Sr. Eduardo Suplicy (Bloco/PT - SP) - Mas V. Exª sabe ser generoso e eu vou concluir, atendendo a sugestão de V. Exª, a quem respeito muito. Mas eu quero transmitir, Senador José Sarney, que, realmente, vim hoje a Brasília para fazer um pronunciamento que acabo aqui fazendo, neste aparte, com um sentimento... Inclusive, transmiti ao Senador Aloizio Mercadante, e ele ponderou que será melhor refletirmos amanhã, na reunião da bancada, que eu acho que a solução não está bem resolvida. O arquivamento das representações não significou que nós tenhamos resolvido os problemas do Senado, para já começarmos as votações. Estamos, desde o início de agosto, sem votar uma matéria importante sequer. Então, quero aqui lhe dizer que eu acho que nós não tivemos a solução do Senado suficientemente resolvida. Vou concluir agora, mas quero lhe dizer, com o sentimento de quem tem por V. Exª o maior respeito, que esse respeito implica poder dizer aquilo que nós percebemos como a verdade. V. Exª, na entrevista de sexta-feira, na Globo News, comentou algo como: “Não cometi qualquer falta, não sinto culpa de coisa alguma”. Ora, Sr. Presidente José Sarney, há certas ocasiões em que, se erros cometemos, é importante nós reconhecermos. Se V. Exª não se deu conta de que alguns dos procedimentos não foram os mais adequados, então, seria importante que ouvisse os seus companheiros do Senado sobre algumas coisas que muitos de nós não consideramos as mais adequadas. Gostaríamos de transmitir isso a V. Exª para que V. Exª... V. Exª, com a Mesa, com o Senador Mão Santa, tem procurado dizer: “Vamos corrigir as falhas tão graves”. Não apenas um Senador, mas muitos, senão todos os Senadores fomos responsáveis. Nesse sentido, V. Exª tem toda a razão, mas o reconhecimento dos próprios erros também é importante. Isso tudo foi, inclusive, a homenagem a Euclides da Cunha, uma pessoa formidável. Eu gostaria de cumprimentar o jornal O Estado de S. Paulo, porque V. Exª mencionou a atitude de Júlio Mesquita de convidar Euclides da Cunha para se tornar o extraordinário repórter exemplar que foi. Quero cumprimentar o Estado de S. Paulo pelo extraordinário suplemento publicado, ontem, em memória de Euclides da Cunha, e todos que ali colaboraram, como Valnice Nogueira Galvão, José Celso Martinez Corrêa e todos os demais. Também quero dizer que estive, recentemente, na Faculdade Euclides da Cunha e visitei o lugar que V. Exª mencionou. Felizmente, a Faculdade Euclides da Cunha preserva a casa onde morou Euclides da Cunha, e isso é muito importante. Então, o estímulo para que mais e mais brasileiros leiam Euclides da Cunha e, no Brasil inteiro, se conheça sua obra é muito importante, inclusive nesse sentido. O discurso de V. Exª tem o grande mérito de recordar aos brasileiros a importância de ler Os Sertões.

            O SR. JOSÉ SARNEY (PMDB - AP) - Senador Eduardo Suplicy, eu acho que V. Exª não foi indelicado comigo. V. Exª, que é um homem tão educado, neste momento podia bem, como disse, proferir o discurso que vinha pronto para fazê-lo, mas V. Exª feriu uma regra, o que acho que não é do estilo de V. Exª: a memória do Euclides da Cunha.

            Eu, como membro da Academia Brasileira de Letras, não fiz a minha homenagem no dia da sessão do Senado e resolvi fazê-la agora. V. Exª coloca, nesse momento, nesse gesto, algo que não é da personalidade de V. Exª, a não ser que V. Exª esteja tomado por tamanha paixão política que deixe de respeitar as regras mais comezinhas da educação e da convivência parlamentar. Eu aqui tive a oportunidade, nesta mesma tribuna, com um quadro aqui exposto com todas as acusações que foram feitas à minha Presidência no Senado, de respondê-las todas, sem exceção. Se V. Exª tiver alguma que tenha que levantar, me diga se é da minha primeira Presidência, se é da segunda vez em que estive como Presidente. Se, naquela época, V. Exª não protestou e se, na segunda, também não protestou, quais foram aquelas que tomamos ultimamente, nesses cinco meses, se não procurando corrigir o Senado...

            Mas não quero fazer como V. Exª: toldar a memória de Euclides da Cunha. O que eu quero dizer, terminando isso, é que não há nenhum livro no Brasil que tenha sido tão estudado, tão comentado, tão louvado e, às vezes, até mesmo criticado quanto Os Sertões, de Euclides da Cunha. Eu conheci o tradutor para o inglês de Os Sertões. Foi o Rabaça, que é o tradutor também de Garcia Márquez. Tive a honra de ter meu livro O dono do mar - Master of the sea - traduzido por ele para o inglês. Ele foi o tradutor de Euclides. Ele me disse o quanto foi difícil a tradução de Euclides da Cunha, pela beleza do livro, para traduzir para o inglês aquilo que, na língua portuguesa, era o sentimento dele ao escrever Os Sertões.

            De tal modo que Vargas Llosa se saiu como grande escritor para se dedicar ao estudo de Euclides da Cunha e escrever um livro sobre a saga de Canudos: A Guerra do Fim do Mundo (que ele escreveu).

            Sr. Presidente, muito obrigado. E muito obrigado aos Srs. Senadores que me ouviram.

 

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            SEGUE, NA ÍNTEGRA, O DISCURSO DO SENADOR JOSÉ SARNEY

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     O SR. JOSÉ SARNEY (PMDB - AP. Sem apanhamento taquigráfico.) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, narrador de uma tragédia heróica, Euclides da Cunha é um personagem que viveu profundamente a tragédia e o heroísmo em sua vida pessoal. Mas a grande marca de sua vida é a da determinação, da decisão tomada ainda jovem de escrever uma obra imortal.

     Seu talento é prematuro. Num jornal estudantil, O Democrata, aos dezoito anos, escreve: “… a natureza ergue-se brilhante e sonora numa expressão sublime de canções, auroras e perfumes [--] contudo uma idéia triste nubla-me este quadro grandioso, -- lançando para a frente o olhar, avisto ali, curva sinistra, entre o claro azul da floresta --, a linha da locomotiva, como uma ruga fatal na fronte da natureza!… Uma ruga, sim!… ah! Tachem-me muito embora de antiprogressista e anticivilizador; mas clamarei sempre e sempre: o progresso envelhece a natureza, cada linha do trem de ferro é uma ruga e longe não vem o tempo em que ela, sem seiva, minada, morrerá!!! E a humanidade não vive sem ela…”

     Euclides foi um jovem pobre que seguiu a formação de cadete na Escola Militar. Começara os estudos na Escola Politécnica, mas não tivera condições financeiras de segui-la. A Escola da Praia Vermelha, por seus professores e estudantes, formava a vanguarda do republicanismo. Entre os cadetes Euclides era dos mais exaltados. Logo, entretanto, um episódio complica-lhe a vida: o gabinete conservador, o último governo do Império, promove visita do Ministro da Guerra, em 1888, para dar uma demonstração de autoridade junto à rebeldia da Escola, que se manifestara na volta de Deodoro ao Rio de Janeiro e na promoção de Benjamin Constant a tenente-coronel.

     Um colega de Euclides, o futuro Marechal Rondon, descreve a cena: “De repente, um frisson imenso, de espanto, pelo imprevisto e inesperado do ato, correu de um extremo a outro das colunas que estavam gozando o aspecto marcial que o plácido conselheiro se esforçava por imprimir àquela cena militar. […] Havia sido Euclides que não se pudera conter diante daquela encenação da revista passada pelo conselheiro, e que, tomando-a muito a sério, resolvera lavrar o seu protesto contra o que interpretou como um propósito de humilhação à face da escola. O protesto é conhecido: uma espada que se devia abater em continência é atirada aos pés da pacífica autoridade, depois de vergada num esforço nervoso que a tentara em vão quebrar!”

     Enviado à enfermaria, Euclides se recusa a ser tratado como vítima de um acesso nervoso. Fica longas horas em pé para mostrar estar em perfeito estado de saúde e lucidez. A versão que o governo tenta passar, assim, não se sustenta, e ele é submetido a Conselho Disciplinar e expulso da Escola Militar.

     Logo parte para São Paulo, onde é acolhido pelo republicano Júlio Mesquita, e estréia como colaborador da Província de S. Paulo. Prepara-se para voltar à Escola Politécnica, faz mesmo alguns exames preparatórios, convencido de sua vocação para a engenharia. Mas logo é proclamada a República. No dia 16 de novembro, Euclides vai à casa de um professor, o Major Sólon Ribeiro, e reencontra seus colegas cadetes, que iniciam o movimento que o reincorporará ao Exército por um ato de 19 de novembro.

     Mas outro encontro marca esta visita com o destino: a de Ana, filha de Sólon Ribeiro. Escreve-lhe: “Entrei aqui com a imagem da República e parto com a sua imagem…” Dez meses depois estão casados. Têm cinco filhos. Passam muito tempo afastados, ele em missões que o levam ao Nordeste e à Amazônia. Ana mantém, na pensão onde mora, um relacionamento próximo com o cadete Dilermando de Assis e seu irmão Dinorah. Euclides se deixa roer pelo ciúme e mesmo duvida da paternidade de um dos filhos, Luís, louro como Dilermando.

     Um dia Ana não dorme em casa. Euclides decide a separação, comunica ao filho Quidinho. Abatido pela tuberculose, vive um estado febril. Consegue, com primos, um revólver. Vai para o subúrbio da Piedade, onde moram os irmãos, e sai perguntando pelos cadetes. Encontra finalmente a casa. É Dinorah quem atende. Ana está lá, com o filho mais velho, Sólon. Atira em Dinorah. Dilermando chega e travam um tiroteio. Euclides fere os dois, é ferido várias vezes, inclusive no punho direito, e, impossibilitado de continuar a luta, sai para o jardim. É onde Dilermando, campeão de tiro, o chama e mata. Era o dia 25 de julho de 1908. Fazem cem anos. Mas a tragédia não acaba ali. Ana casa-se com Dilermando, e, sete anos depois, repete a cena com Quidinho, o segundo filho de Euclides, que tenta vingar o pai. No mesmo ano o filho mais velho, Sólon, comissionado delegado no interior do Acre, é assassinado numa diligência policial.

     Sr. Presidente.

     A tragédia destes episódios do começo da vida e da morte de Euclides se apequena diante do imenso espaço de compreensão do Brasil e do domínio formal do escritor. Ninguém poderá nunca ultrapassar a obra que define a nacionalidade brasileira, que é, por excelência, Os Sertões. Especula-se, com razão, sobre o que haveria de ser, se fosse, a grande saga amazônica com que sonhava no fim da vida.

     O Senado Federal publicou, com o título mesmo que pensara para sua obra, Um Paraíso Perdido, um volume de ensaios amazônicos, reunindo vários textos e documentos, alguns já reunidos em Contrastes e Confrontos, outros diretamente ligados à motivação de sua viagem à Amazônia: a chefia da Comissão Mista Brasileiro-Peruana de Reconhecimento do Alto Purus. Relatórios, artigos de jornal, correspondência são apenas a sombra do que seria um “livro vingador” da ignorância nacional sobre a região, o equivalente em revelação ao que fora Os Sertões.

     A missão tinha para Euclides um caráter de salvação das incertezas de sua vida de engenheiro errante, empregado em missões temporárias aqui e ali, incertezas que eram exacerbadas pelo conflito doméstico. Levado à glória pelo sucesso explosivo de Os Sertões, fora eleito para a Academia Brasileira, candidato de Machado e levado pela unanimidade do reconhecimento literário.

     A tarefa árdua é cumprida a risca, conforme consta do Relatório da Missão e da correspondência com Rio Branco. As dificuldades de navegação vão num crescendo que fazem dos trechos finais passagens de heroísmo, diante dos obstáculos de dezenas de cachoeiras e corredeiras. Demos a palavra ao próprio Euclides, descrevendo “o Pucani, a origem mais meridional do Purus”:

     “O pequeno ribeirão tem a feição característica de todos os cursos de água da cabeceira. É uma torrente. Desce, tortuoso, com 2m, de largura média, de S. O., procurando a pouco e pouco o rumo de E. em que aflui no Cavaljani. As árvores trançam-lhe por cima dando-lhe por vezes, em largos tratos, a obscuridade de um túnel, e a travessia faz-se obrigatoriamente acompanhando-lhe o eixo, por dentro d'água, rasa de 0,20m, exceto em quatro ou cinco pontos em que ele de chofre se aprofunda, ganglionando em poços invadeáveis, que se evitam por meio de atalhos laterais pelo alto das barrancas.”

     Euclides tem uma fé inabalável no Brasil. O final de seu Relatório, escrito em 1906, é um hino ao Purus e um apelo: “Não precisamos prosseguir, demonstrando a necessidade, a urgência imperiosa e a vantagem, sob todas as formas incalculáveis, de uma navegação que em breve há de transfigurar as paragens por onde se alonga a mais dilatada diretiva da expansão do nosso território.”

     O livro que não foi tem trechos magníficos: “Ali, não. Desaparecem as formas topográficas mais associadas à existência humana. Há alguma coisa extraterrestre naquela natureza anfíbia, misto de águas e de terras, que se oculta, completamente nivelada, na sua própria grandeza. […] As gentes que as povoam talham-se pela braveza. Não a cultivam, aformoseando-a: domam-na. O cearense, o paraibano, os sertanejos nortistas, em geral, ali estacionam, cumprindo, sem o saberem, uma das maiores empresas destes tempos. Estão amansando o deserto.”

     Mas não seria Euclides sem o aspecto social. Faz a denúncia da “mais criminosa organização do trabalho que ainda engenhou o desaçamado egoísmo.” São palavras de Euclides, que continua: “De feito, o seringueiro, e não designamos o patrão opulento, se não o freguês jungido à gleba das 'estradas', o seringueiro realiza uma tremenda anomalia: é o homem que trabalha para escravizar-se.” E Euclides faz o chama “a conta de venda de um homem”. Ao fim de um ano, afirma “é ainda devedor e raramente deixa de o ser”.

     Poderíamos citar passagens magníficas, com o ritmo e a construção de frase que nos acostumamos em Os Sertões, mas já me alongo. A glória de Euclides consuma-se e basta-se nesta obra única entre toda a literatura, obra de exceção e leitura obrigatória de todo que quer compreender o Brasil.

     Os Sertões não fica na promessa de uma obra, num filho em gestação, mas, com seu volume que pesa em nossas mãos, é, e é para sempre, um livro eterno.

     O que acontece a quem o aborda? Prepara-se o leitor, com temor, para as sessenta páginas de descrição da terra, para as 150 que falam do homem. Não sabe que o medo é infundado, que o fôlego que precisa tomar é para domar a vertigem do mergulho sem volta. A frase de Euclides rola numa pororoca, com forças superficiais que contrariam a grande corrente. A um só tempo Euclides é capaz de descer ao detalhe e se manter no vôo alto.

     Ainda hoje quem abrir este livro logo sentirá a atração do vórtice que nos arrasta ao desespero das páginas finais, o coração se acelerando até se dilacerar.

     “O planalto central do Brasil desce, nos litorais do Sul, em escarpas inteiriças, altas e abruptas. Assoberba os mares; e desata-se em chapadões…”

     As três partes mantém um ritmo de desenvolvimento de temas, que vão se sucedendo como numa sinfonia, voltando a uma frase, a reabrindo, a reacendendo, ampliando e refazendo sua construção, explicando esta naquela, o novo fenômeno no acontecimento, o embate multimilenar da rocha viva na luta incessante do sertanejo com a morte. E ao mesmo tempo expondo os fatos, os fardos, os destinos, os juizes e o juízo, o fazer e o desfazer, o ser e o não ser.

     Guilherme de Almeida foi o primeiro a assinalar a expressão poética levantada por Euclides a mares nunca dantes navegados. Há em Os Sertões não só a sabedoria da construção metafórica, como o verso puro, a todo instante assinalado em decassílabos e alexandrinos perfeitos ou em linhas brancas encadeadas.

     Ao mesmo tempo Euclides pretende ter a distância, a frieza do cientista, aplicar o método científico. Descreve então o cenário: “A Terra”. E, longamente, o personagem: “O Homem”. Só depois passa aos fatos circunstanciados, à história da campanha, da morte: “A Luta”. Este o cerne do livro, lago encarnado em que tentamos chegar, atônitos, à superfície.

     Mas é o próprio Euclides quem nos explica em sua nota preliminar: a Campanha de Canudos, a história da Campanha, não tem mais interesse: sim o tem o traço das sub-raças sertanejas.

     Prevê -- quanto ele estava errado, para o bem e para o mal -- que estavam “destinadas a próximo desaparecimento ante as exigências crescentes da civilização e a concorrência material intensiva das correntes migratórias que começam a invadir profundamente a nossa terra”.

     E afirma: “o jagunço destemeroso, o tabaréu ingênuo e o caipira simplório serão em breve tipos relegados às tradições evanescentes, ou extintas”.

     Mas lembra em tempo:

     “A Campanha de Canudos tem por isto a significação inegável de um primeiro assalto, em luta talvez longa.”

     “Foi, na significação integral da palavra, um crime.”

     “Denunciemo-lo.”

     Os Sertões não tem a força da acusação, tem a força dos fatos. Não é um processo como o J'Accuse, não pretende reverter a História, derrubar o sistema político: ele é o legista, que descreve o cadáver, mexe nas vísceras, identifica os ferimentos, determina a causa mortis. Expõe o crime.

     Ressalta: “este livro não é um livro de defesa; é, infelizmente, de ataque. Ataque franco e, devo dizê-lo, involuntário. Nesse investir, aparentemente desafiador, com os singularíssimos civilizados que nos sertões, diante de semi-bárbaros, estadearam tão lastimáveis selvatiquezas, obedeci ao rigor incoercível da verdade. Ninguém o negará”.

     Os Sertões foi escrito entre 1898 e 1901 em São José do Rio Pardo, interior de São Paulo, onde trabalhava, nos seus trinta anos, como engenheiro civil. De sua inquieta formação militar ficara o travo da insubmissão aos valores convencionais, a instabilidade profissional que era também um conflito interior, a falta de confiança logo superada pelo lançar o desafio.

     Possivelmente a primeira idéia do livro, e o seu título mesmo, abandonado e retomado, tenha nascido de uma crônica de Machado de Assis comentando, em 1897, O Sertão, de Coelho Neto, e lembrando que ninguém chegará “ao poder daquele homenzinho, que passeia pelo sertão uma vila, uma pequena cidade…”.

     E continuava Machado: “Ora bem, quando acabar esta seita dos canudos, talvez haja nela um livro sobre o fanatismo sertanejo e a figura do Messias. Outro Coelho Neto, se tiver igual talento, pode dar-nos daqui a um século um capítulo interessante, estudando o fervor dos bárbaros e a preguiça dos civilizados, que os deixaram crescer tanto, quando era mais fácil tê-los dissolvido com uma patrulha, desde que o simples frade não fez nada. Quem sabe?”

     Talvez o próprio empenho de Machado para que Euclides entrasse na Academia, e até mesmo, num movimento excepcional em sua parcimônia, para conseguir de Rio Branco acolhê-lo em seu gabinete, responda a esta breve profecia.

     O livro foi lido e relido entre amigos e colaboradores, entusiasmos e medos. A insegurança não quando vê num trem um exemplar em mão de um leitor, logo após ter decidido retomar os originais deixados com a editora Laemmert. Ela só desaparece quando, em dezembro de 1902, recebe a notícia do grande e imediato sucesso, passado pouco depois de outro, lido em seguida, em que Laemmert comunica o fracasso total. Era realmente o acolhimento, raramente visto entre nós, incompreensível ante a vastidão do livro, o insólito dos pontos de vista, o desafio da leitura.

     Apesar do entusiasmo concordante de Araripe Júnior, José Veríssimo, Sílvio Romero, então trilogia reinante e desarmônica de nossa crítica, Euclides responde na 2ª edição às poucas dúvidas levantadas. A que primeiro o toca: o de não saber o que fala, e falar difícil, nas ciências, responde: a chuva ácida -- que hoje conhecem as crianças -- causa, sim, erosão; os desertos do semi-árido, sim, violam as leis gerais do clima; caatanduva é, sim, diferente mas compatível com a caatinga. E se detém no centro de seu próprio argumento, o problema da raça.

     A raça ainda era uma verdade científica. Charles Darwin, em A Descendência do Homem, já tinha mostrado as contradições insolúveis do argumento “científico” do termo, mas seu desmantelamento ainda não terminara, ainda não terminou. O nome de maior repercussão ainda era o de Louis Agassiz, o fundador do naturalismo americano, o primeiro catedrático de biologia de Harvard, o amigo de Pedro II, o último bastião contra a teoria da evolução. Ainda passaria um século antes que Stephen J. Gould expusesse, sentado na mesma cátedra, as contradições disfarçadas por sua pretensa objetividade científica. Estava também o nosso Nina Rodrigues -- tão dedicado ao estudo dos negros -- convencido da existência das raças. Mais que uma verdade científica, era uma escala de valores sociais. A raça era a razão da supremacia, e a pureza da raça -- sobretudo da raça ariana -- a medida de valor.

     Dizia Euclides:

     “… Neste composto indefinível -- o brasileiro -- encontrei alguma coisa que é estável, um ponto de resistência recordando a molécula integrante das cristalizações iniciadas. E era natural que, admitida a arrojada e animadora conjetura de que estamos destinados à integridade nacional, eu visse naqueles rijos caboclos o núcleo de força de nossa constituição futura, a rocha viva da nossa raça.”

     E, indicando o caminho do mar para o sertão:

     “A princípio uma dispersão estonteadora de atributos, que vão de todas as nuanças da cor a todos os aspectos do caráter: não há distinguir-se o brasileiro no intricado misto de brancos, negros e mulatos de todos os sangues e matizes… A mestiçagem generalizada produz, entretanto, ainda todas as variedades das dosagens díspares do cruzamento. Mas à medida que prosseguimos estas últimas se atenuam.”

     “Vai-se notando maior uniformidade de caracteres físicos e morais. Por fim, a rocha viva -- o sertanejo.”

     O Conselheiro é o sertanejo:

     “… a sua figura de pequeno grande homem se explica precisamente pela circunstância rara de sintetizar de uma maneira empolgante e sugestiva todos os erros, todas as crendices e superstições, que são o lastro do nosso temperamento.”

     Despojemos este texto da idéia de raça biológica -- que era a idéia e a convicção de Euclides, insisto, não nos enganemos -- e subsiste integra a análise do fato, o conhecimento da gente brasileira, do fenômeno antropológico.

     E então este livro, trágico e profundo, rio caudaloso lançado sobre o abismo, visão profética e testemunho desmedido, corpo e alma do Brasil na cruz do Conselheiro, este livro é um grito, o grito alto do sertanejo, a resistência indormida vencendo -- por terra, homem e luta --, o tempo e a desesperança.

     Depois da morte de Euclides, a partir de 1911, a Francisco Alves toma em suas mãos a edição de Os Sertões. Depois da 4ª edição, encontra-se o exemplar anotado pela mão do autor como o “Livro que deve servir para a edição definitiva (4ª)”. À Francisco Alves devemos portanto a versão definitiva. Nestes cem anos, muitas edições surgiram, um imenso aparato crítico reviu a obra de Euclides e revirou de todas as maneiras o episódio de Canudos.

     Creio que nenhum livro em nossa língua tenha sido tão estudado. Mário Vargas Llosa replicou-o em A guerra do fim do mundo.

     O sertão virou mar. Os Sertões permanece. E Euclides não morreu, Euclides vive.


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Este texto não substitui o publicado no DSF de 25/08/2009 - Página 38366