Discurso durante a 212ª Sessão Especial, no Senado Federal

Homenagem à memória do Professor Hélio Gracie.

Autor
Magno Malta (PR - Partido Liberal/ES)
Nome completo: Magno Pereira Malta
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
HOMENAGEM. ESPORTE.:
  • Homenagem à memória do Professor Hélio Gracie.
Publicação
Publicação no DSF de 18/11/2009 - Página 59526
Assunto
Outros > HOMENAGEM. ESPORTE.
Indexação
  • HOMENAGEM POSTUMA, ATLETA PROFISSIONAL, PROFESSOR, DIVULGAÇÃO, ESPORTE, LUTA, BRASIL, DEFESA, INVESTIMENTO, PRATICA ESPORTIVA, INCENTIVO, JUVENTUDE, COMBATE, DROGA.
  • SUGESTÃO, MINISTERIO DA EDUCAÇÃO (MEC), CONTRATAÇÃO, PROFESSOR, LUTA, BRASIL, ENSINO, JUVENTUDE, ESCOLA PUBLICA.

                          SENADO FEDERAL SF -

            SECRETARIA-GERAL DA MESA

            SUBSECRETARIA DE TAQUIGRAFIA 


            O SR. MAGNO MALTA (Bloco/PR - ES. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Quero saudar todos: a Mesa; o Senador Arthur Virgílio, que preside esta sessão absolutamente importante; as figuras todas, que já foram devidamente apresentadas; o Brasil; os que nos veem ao vivo pela TV Senado e os que nos ouvem pela Rádio Senado ao vivo.

            Esta sessão se reveste de uma importância muito grande para a vida brasileira. Eu vinha no corredor, Arthur, e vi um cidadão parado em frente ao telão, dizendo: “Isso aqui virou brincadeira! Sessão até de jiu-jitsu, de luta!”

            Eu não respondi. Espero que ele esteja parado em frente ao telão para me ouvir agora.

            Mas eu estou tão emocionado que não estou conseguindo articular as minhas palavras. Se o maior orador da Casa chorou... Porque ele, além de ser bom no jiu-jitsu - eu nunca vi, mas acredito nele, Arthur -, orador eu sei que ele é. Mas, hoje, acho que a força da emoção o deixou fazer só relato. Ele só fez relato. Ele se bloqueou totalmente.

            A minha mãe, Arthur, era analfabeta profissional. E minha mãe dizia que quem não chora não tem capacidade de amar. E, na verdade, nós somos levados pela cultura - algumas pessoas - de que homem não chora. Homem chora.

            O choro de Arthur representa, neste momento, o lamento de uma Nação absolutamente tomada e assaltada pela violência - drogas, pedofilia, abuso de criança, famílias sofridas, angustiadas, dilaceradas, mortas no meio do caminho. E hoje eu vejo, nas avenidas do Brasil, Senador Arthur, meu amigo Wallid, profissionais das drogas. Em alguns viadutos, nas pequenas e nas grandes cidades, estão sobrevivendo lixos humanos. Gente de tenra idade, que nem começou a viver ainda e já morreu. Sabem quem são eles? São nadadores que não conseguiram dar a última braçada; são corredores sem a última passada; são lutadores sem fôlego para o último round. Eles largaram as medalhas pelo meio do caminho, cinturões ficaram perdidos debaixo das avenidas, porque as drogas lhes tiraram o direito ou mataram a sua infância, ou o abuso, porque o Brasil não tem a visão de que o esporte... Nós fomos aculturados para o futebol, que é absolutamente importante para nós, mas o Brasil tem uma vocação para vencer que não dá para escrever em nenhum livro.

            Num País com tanta violência, onde as escolas são quebradas, professores são agredidos, portões são pichados, eu fico pensando: toda vez que estou na frente da televisão, porque sou um compulsivo, Wallid, só vejo Première Combate. Quando chego em casa, estou desligado, sei tudo o que você falou. Arthur, você pensa que fala muito? Quando vê Wallid dando entrevista, não fica com inveja, não? Wallid quer tomar o microfone do cara, bicho, mas ele é seu conterrâneo, tem escola, né?

            Eu sei tudo, conheço todo mundo e, para entrar onde quero, Arthur Virgílio, discordando de você pela primeira vez quando disse que o Brasil não tem vocação para o boxe, quem tem é Cuba. Olha, não se esqueça de que os nossos campeões de MMA são preparados pelo Dória, o boxe deles é do Dória, que é o melhor do mundo e é um baiano. (Palmas)

            Temos, sim: Popó é tetra campeão do mundo. Popó é tetra do mundo. O que este País não tem é vocação para assistir a outros esportes, e os homens públicos deste País acham que nós só temos futebol. (Palmas)

             Quando eu assisto ao Première Combate, eu vejo o Octogon, eu vejo os ringues, eu fico pensando por que o Ministro da Educação, que é um jovem, não despertou ainda. Porque, se nós tivéssemos uma escola de jiu-jitsu, uma escola de MMA, de muay thai, de junção de lutas, sejam quais forem, nas escolas do Brasil, modalidades como matérias, escolas em tempo integral... Nós não brigamos para ter as crianças na escola? Mas para dar que tipo de atividade? Só para dar comida? Ontem, o Brasil jogou futebol de areia nos Emirados Árabes. Eles criaram um banco para poder patrocinar o futebol de areia!

            O vôlei de praia, que são dois, são patrocinados pelo Banco do Brasil. A Caixa patrocina o que quer. Eu levei o Popó ao Lula. Eu uso essa figura porque ele é meu irmão mais próximo. Se esse cara não fosse tomar porrada na cabeça lá fora... Ah, por que Popó parou tão cedo? Ele sabe por que ele parou. Já tem do que sobreviver, por que ficar tomando porrada na cabeça? Se ele já conseguiu dar a casa da mãe dele, a casa dos irmãos? Se não fosse lá fora, se ele fosse esperar um patrocínio do nosso País - isso é triste, Senador Arthur Virgílio! -, o Popó nunca teria sido Popó.

            E eu vejo esse meninos do MMA e vejo como o Première Combate - eu preciso me render a esse canal que cobre tudo, escolinha de favela -, e vejam esses meninos que começaram ontem, venceram três campeonatos de Fight no Brasil. Venceram o Jungle Fight. Sabem o que eles fazem? Eles já se animam e criam uma obra social na comunidade. Aí você só vê os caras dando entrevista. “Ganhei duas lutas, mas já tenho uma obra social.” Ele nem chegou ainda, ele nem tem nem patrocínio ainda, mas está reclamando patrocínio para as crianças da comunidade.

            Não nos falta vocação para o boxe nem para o muay thai. O que falta ao Brasil é visão.

            Senador Arthur Virgílio, com todo respeito, nós tínhamos de marcar uma audiência pública na Comissão de Direitos Humanos, sei lá, e convidar os Presidentes do Banco do Brasil e da Caixa.

            Quando vejo os promotores desses eventos no Brasil, como o Wallid, que, de todos, acho que foi o que mais conseguiu sensibilizar a classe mandatária do País no seu Estado e vira referência, vira exemplo, para os outros Estados, para os Prefeitos, para os outros Governadores.

            É verdade que chegou alguém ao meu gabinete quando eu estava ouvindo o seu discurso, Arthur, porque escuto todos os discursos de Arthur, eu sou fã de Arthur. Eu já disse aqui que, se o espiritismo estiver certo - eu sou cristão, não sou espírita -, mas, se esse negócio de reencarnação é verdade - eu sou cristão, não é nisso em que creio -, mas, se é verdade e se um dia a retórica, a oratória viveu e foi gente, morreu e encarnou em Arthur. (Palmas.)

            Mas não ouvi essa parte, Arthur, quando você falava que ainda não é hora de o jiu-jitsu ser um esporte olímpico, mas acho que, pelo menos, esta Casa poderia fazer um ofício ao comitê organizador para convidar o jiu-jitsu para, pelo menos, fazer uma demonstração, porque, de todos, é o mais bonito. (Palmas) De todos, é o mais bonito e trata com inteligência.

            Arthur, minha mulher estava dormindo, mas ela já se acostumou, enquanto eu estava vendo Minotauro e Bob Sapp. Eu falava para minha mulher: “Minotauro aceitou essa luta.” E ela: “Vai dormir, homem. Quem é esse Minotauro?” Eu dizia: “Então, acorde só um pouquinho e vire ali. Veja o tamanho do homem com quem ele vai lutar.” Ela virou, olhou para a televisão, acertou o olho e falou: “Misericórdia!” Virou e dormiu.

            E Bob Sapp partiu. Aquela montanha caiu em cima de Minotauro e parecia um adulto de 160 quilos em cima de uma criança de oito anos desnutrida. Em alguns momentos, eu procurava Minotauro debaixo de Bob Sapp e não achava. Ele só colocava o nariz para fora para respirar. Vai e vai, vai e vai, o homem com aquela força toda. Minotauro pegou o braço do gigante. O gigante levantou e ele, com o braço, deu um bate-estaca e meteu as costas dele no chão. Soltou e foi para cima de novo. No segundo round, começou ofegante; e Minotauro pegou o braço. Então, doutor, o gigante veio ao chão. Golias colocou o gigante para chorar. O braço dele é maior do que Minotauro.

            Então, o jiu-jitsu, de todas as lutas, é a mais bonita, é a mais charmosa (Palmas). Embora eu faça boxe há oito anos. O campeão brasileiro, o Luciano, é da minha instituição de recuperação de drogados. Há 30 anos, eu tiro drogados da rua. (Palmas) Tem um belo de um ringue lá, ele é o campeão latino também, o Luciano Olho de Tigre. E, no outro galpão, eu tenho um tatame, onde os meninos ficam se jogando, juntam dinheiro, os que estão internados pedem à mãe para comprar quimono. Você precisa fazer uma visita lá, Wallid. Aliás, precisamos levar o Jungle Fight ao Espírito Santo, meu Estado, na cidade de Vila Velha, e fazer um grande evento lá para o Brasil.

            Por isso, rendo-me aqui e acho que temos professores os mais contundentes e preparados no Brasil, para serem chamados pelo Ministério da Educação a se inscreverem nos seus Estados e Municípios e se tornarem professores da rede pública, se é que o País tem um programa de combate à violência.

            Comprometo-me a fazer o ofício e assinar com V. Exª para convidar os presidentes do Banco do Brasil e da Caixa. Fico pensando por que a Nestlé, por quem tenho muito respeito, porque a Garoto é do meu Município, que vende leite para criança, a Estrela, que faz brinquedo, quem lida com criança tinha que estar patrocinando essa safra maravilhosa de lutadores que o Brasil tem. Porque se, já somos hegemonia do mundo sem patrocínio, com patrocínio não sei se produziríamos uma humilhação. E quando falo do Lyoto... não vou falar; do próprio Anderson Silva, do meu amigo Vítor Belfort, acho que o dono do MMA até casou uma coisa errada, Vítor com Anderson.

            O Arthur fazia aqui uma referência e até fiquei meio chocado, porque tenho no Anderson uma figura, é meu ídolo como lutador, o Mike Tyson do MMA, é um brasileiro. Se errou, quem fala com o cotovelo é obrigado a desmentir com a boca. Se ele falou, vai ter que desmentir, mas acho que os Gracie passaram mesmo. Eu acho. Passaram a informação, passaram os dados mais importantes, passaram o pulo do gato, foram eles mesmo. Então, quem sabe ele nem errou, Arthur. Eles passaram tudo que temos hoje. Daí você vê um cara lá do Cafundó do Judas, vai lutar com um brasileiro e diz: “Vou manter a luta em pé, vou tentar segurar em pé porque se eu for para o chão, eu tenho um chão razoável, mas ele é muito bom, mas ele é muito bom”. Então, os Gracie passaram e passaram tudo e viraram essa referência mundial e, para nós, além de referência, reverência no Brasil pelo que eles passaram de informação que nos orgulha muito.

            Ali está um filho com a cara de lutador, ele não ri nunca. Você não vai enfrentar ninguém agora. Não está olhando no olho de ninguém. Esse momento é de vocês, esse momento é da sua família, porque todos aqui são filhotes dessas informações.

            No dia da homenagem em que o Sport TV fez ao patriarca da família, eu assisti a tudo, a determinação e a filosofia de vida desse homem e você ouviu o comentário das pessoas que conviveram, dos que começaram lá do nada, meninos de 18, 17 anos como você e o que eles falavam desse homem, uma coisa de dar inveja e de querer ter convivido naqueles dias. Por isso, eles passaram mesmo, mas passaram tudo que o Brasil tem hoje.

            A minha alegria de poder me pronunciar nesta sessão. Eu dizia ao Vítor Belfort, antes de viajar, acho que o cara casou errado, porque são dois ícones brasileiros já com a idade que têm, e acho que não era hora de cruzar. Eu não gostaria de ver. De um eu sou fã e o outro é meu amigo, até meu irmão de fé. Um tem tudo a perder, o outro não tem nada a perder. Se o Vitor ganhar, ganhou do Anderson. Encerra-se um ciclo de vitórias seguidas. Se o Vítor perder está voltando, está retomando, quer dizer, não tem nada a perder, tem tudo a ganhar. E, se ganhar, ganhou do Anderson, vira uma referência acima do próprio Anderson.

            E fico muito feliz, Senador Arthur, porque o senhor proporcionou a mim e a tantos outros este momento. Fico mais feliz porque não é sessão solene comum. De vez em quando a gente vem aqui fala de uma assunto da sessão solene que a gente nem sabe o que é, foi convocado por outro Senador. Só assisti a sessão solene do Exército, a Marinha e da Aeronáutica, que enche aqui porque o efetivo vem porque tem que vir. Mas sessão solene vem muito pouca gente, e hoje vejo o plenário lotado, uma sessão bonita. E espero que, no próximo ano, V. Exª peça outra para gente comemorar os patrocínios do Banco do Brasil, da Caixa Econômica. Fico pensando por que a Petrobras patrocina corredor da Fórmula 1, que não é filho desta terra, o carro não é nosso, o piloto não é nosso. (Palmas)

            Hoje, patrocina até forró. E nós temos um time de campeões neste País e que poderia fazer a diferença no combate à violência. Eu não gostaria de ver o pré-sal discutindo só... E queria chamar V. Exª para me ajudar. O pré-sal vai servir ao saneamento básico e à saúde. Isso é importante demais! Mas pré-sal tem de financiar a segurança pública. E não se fará segurança pública fora da família e, no segundo momento, da escola. E a escola vai ter de inserir, sim, a atividade esportiva que, no Brasil não é só escolinha de futebol... Aliás, escolinha de futebol também não recebe patrocínio. Mas o time de futebol de areia, o futevôlei, o vôlei de praia, o vôlei de quadra, tudo está. Eu quero conclamar a Nestlé, Grupo Gerdau, o Itaú e o Bradesco que, no ano passado, faturaram mais que o Produto Interno do Brasil. Vocês que assistem luta e acham bonito, senhores empresários que veem e ficam grudados no Sport TV... Até a Rede TV está transmitindo agora. Parabéns ao Amílcar, da Rede TV, e parabéns para o Première Combate. Saiba que para o sujeito entrar ali, chegar naquele momento de uma competição importante ao ponto de vir à televisão, o esforço é absolutamente grande, sacrifícios foram feitos. Ora, nós precisamos mudar essa cultura. Eu aqui, publicamente, me comprometo, até porque sou fã incondicional, sou combatente da violência, sou combatente do abuso de crianças neste País e há 30 anos tiro drogados da rua. E o esporte, sem dúvida alguma, é o viés absolutamente mais importante tanto para prevenir como também para curar.

            De maneira que conclamo as autoridades e conclamo a nós aqui do Senado para que rapidamente nos articulemos nesse sentido para não esfriar o sangue. Porque tem esta história também, não é? Passou a dor de dente, ninguém liga mais. Que façamos esse ofício hoje, que assinemos hoje, que chamemos o Senador Paulo Paim, a Comissão de Direitos Humanos, que os convidemos.

            O Ministro do Meio Ambiente sai pelo meio da rua pedindo a legalização das drogas. É o fim do mundo, é uma piada isso! Meu Deus! Tanta violência, tanta família chorando, e um Ministro fazendo apologia às drogas na rua. A saída não é essa, Ministro. A saída é o esporte. (Palmas.)

            A saída é o esporte, Ministro Minc, não a legalização de droga!

            Senador Arthur Virgílio, V. Exª está representando o jiu-jitsu, assim como Marco Maciel é representante da CNBB aqui. O Senador Marco Maciel não está aqui porque ele não é da luta, ele é da educação. Até porque, se ele fosse lutador, qual seria o peso dele? Peso sombra.

            Você terminou seu discurso chorando, vou terminar o meu sorrindo. E, em nome do meu amigo Popó, corroborado pelo sobrenome Gracie, Popó, filho de D. Zuleica, lá da Baixa de Quinta, cria de Dória. Aquela penúltima luta de Minotauro, em que ele foi nocauteado, entrou um jab de Frank Mir e em seguida entrou um direto. Ele caminhou para cima de Frank Mir com a guarda aberta. Eu falei para a minha mulher: “Será que Dória não falou nada?” A guarda aberta... E, na última hora, ele lutou com a guarda em cima o tempo inteiro. Aquilo foi papel de Dória. E aí o nosso querido Randy Couture, reverenciado pelos americanos e respeitado por nós, dormiu, beijou a lona, na frente do menino lá de Vitória da Conquista, cria do jiu-jitsu, Minotauro.

            O Lyoto também está vivendo em outro Estado, mas é da Bahia também. Eu, que sou ali de Itapetinga, filho de uma faxineira chamada D. Dadá, cheguei aqui nesta Casa sem padrinho, sem grupo, sem ninguém, porque Deus quis. Certamente, Senador Arthur, uma das missões mais bonitas, minha e sua, aqui e que tenho certeza todos os Senadores vão encampar, aliás, todos os que vão subir aqui para discursar vão ser obrigados a falar a mesma coisa, porque senão o discurso não vale: nós vamos tomar esta providência de discutir com as autoridades do Brasil. Olha, a Eletrobrás está patrocinando o Vasco. Nada de errado. Mas a Eletrobrás pode patrocinar também o jiu-jitsu. Por que não? Agora nós vamos esperar que os árabes façam tudo que nós não fizemos?

            Obrigado. (Palmas.)


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Este texto não substitui o publicado no DSF de 18/11/2009 - Página 59526