Discurso durante a 44ª Sessão Deliberativa Ordinária, no Senado Federal

Comentários sobre palavras de Dora Kramer, analista de política do jornal O Estado de S.Paulo. Reflexões sobre a frase do Governador José Serra em seu discurso de despedida "O Brasil pode mais", acrescentando que o Brasil também "pede mais".

Autor
Arthur Virgílio (PSDB - Partido da Social Democracia Brasileira/AM)
Nome completo: Arthur Virgílio do Carmo Ribeiro Neto
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
ELEIÇÕES. POLITICA ENERGETICA.:
  • Comentários sobre palavras de Dora Kramer, analista de política do jornal O Estado de S.Paulo. Reflexões sobre a frase do Governador José Serra em seu discurso de despedida "O Brasil pode mais", acrescentando que o Brasil também "pede mais".
Publicação
Publicação no DSF de 07/04/2010 - Página 12478
Assunto
Outros > ELEIÇÕES. POLITICA ENERGETICA.
Indexação
  • COMENTARIO, ARTIGO DE IMPRENSA, JORNAL, O ESTADO DE S.PAULO, ESTADO DE SÃO PAULO (SP), ANALISE, CONDUTA, CANDIDATO, PRESIDENCIA DA REPUBLICA, CRITICA, DISCURSO, EX MINISTRO DE ESTADO, CHEFE, CASA CIVIL, AUSENCIA, VERDADE.
  • ELOGIO, DISCURSO, DESPEDIDA, CARGO PUBLICO, GOVERNADOR, ESTADO DE SÃO PAULO (SP), IMPORTANCIA, POSSIBILIDADE, AUMENTO, DESENVOLVIMENTO, BRASIL, ATENDIMENTO, SUPERIORIDADE, CARENCIA, POPULAÇÃO, AMPLIAÇÃO, INVESTIMENTO, SAUDE, EDUCAÇÃO.
  • LEITURA, TRECHO, ARTIGO DE IMPRENSA, JORNAL, PAIS ESTRANGEIRO, ESTADOS UNIDOS DA AMERICA (EUA), ANALISE, PROBLEMAS BRASILEIROS, EXCESSO, BUROCRACIA, IMPEDIMENTO, DESENVOLVIMENTO, PEQUENA EMPRESA, QUESTIONAMENTO, CLASSE POLITICA, ALTERAÇÃO, NORMAS, EXPLORAÇÃO, PETROLEO, DESCOBERTA, RESERVATORIO, SAL, OBJETIVO, FAVORECIMENTO, CARATER PESSOAL.

O SR. ARTHUR VIRGÍLIO (PSDB - AM. Sem apanhamento taquigráfico.) - Senhor Presidente, Senhoras e Senhores Senadores; No dizer de Dora Kramer, analista de política do

jornal O Estado de S. Paulo, a partir do momento em que deixam seus cargos e voltam à planície, os pre-candidatos vão ter que produzir um show diário para garantir audiência.

Dora tem toda a razão, embora a planície, para a pré-candidata petista se pareça muito com planiço: está no alto, ali no Planalto, com P maiúsculo e tudo mais, com o céu por limite.

Até agosto, quando começa o calendário da propaganda partidária, a cena vai ser esta. Com a voz do planiço (ou do Planalto) às escondidas, as manguinhas são colocadas de fora e tome fraseado!

Uma versão é dizer coisa com coisa. Outra, é dizer nada com nada. Inventa-se uma frase de efeito, pouco importando se é verdadeiro o que se diz e pronto, a seleção se põe em campo.

O que é dizer nada com nada? Algo como a tentativa de dizer que os tucanos seriam lobos em pele de cordeiro. É jogar palavras ao vento, formando frases ao léu e que se perdem, como escreveu Mario Palmério em Chapadão do Bugre, para definir ilações improvisadas:

“Ribeirãozinho à-toa, corguinho de nada que mal escorria por causa dos plainos sem mudança do chapadão”(p.291).

Deixem-na falar, mesmo que suas frases sejam sobretudo ditos sem comicidade.

No mesmo local em que deu asas as frases que construíram para dizer ali, a pré do Planalto recheou de mentiras o auditório arranjado, com aplausos do tipo palmômetro, aquelas risadas enlatadas tão ao gosto de programas humorísticos da TV. O chiste do dia: não queremos nenhum pé-frio nem azarado dirigindo o Brasil.

Frases ao vento. Seria o caso de indagar: quem é pé-frio e por quê? Pé-frio é pessoa sem sorte, fortemente contagiante. Terá sido ação de pé-frio o bom estado do País, entregue ao atual Presidente por Fernando Henrique Cardoso? Não. Não é. Está, pois, na hora de mudar o significado do substantivo, a julgar pelo que disse a précandidata do Planalto.

Não creio ser necessário ir além. A essa altura, o palavreado usado pela pré já não existe. E, ademais, não devo perder o tempo com avaliações além dessas que acabo de fazer, para mostrar a inconsistência da plataforma de propaganda da candidata.

Era o que tinha a dizer.

Senhor Presidente, Senhoras e Senhores Senadores, Ao despedir-se do Palácio dos Bandeirantes, o Governador José Serra cunhou a frase “O Brasil pode mais!” Seu significado é o oposto a uma simples continuidade, que, sendo natural, sugere no entanto avanços modernizadores.

Está certo o então Governador e agora pré-candidato ao Planalto. Mais do que certo. Acho

até, em complemento que o Brasil pode mais, sim, como também pede mais!

Pedir mais não é, de forma alguma acomodar-se. Continuidade de algo que é pouco não convém ao que a população anseia. O futuro governante do Brasil está no dever de melhorar as coisas. Como lembrou o ex-Presidente Fernando Henrique, é pouco contentar- se com notícias de eventual crescimento do PIB.

Lembro aqui o que disse o ex-chefe da Nação.

Como observador da cena brasileira e com sua autoridade de governante que deixou o País devidamente arrumado para crescer, Fernando Henrique lamenta o marasmo do atual Governo, que, tendo tudo para vôos maiores, não decola, permanece patinando.

Mais aspas para FHC, que dá ao País uma nova definição para “Política”, que, antes, diziam ser a arte do possível. Para ele, Política é a arte de tornar possível o necessário, o desejável. Ao País, naturalmente.

Houve um tempo - eram os anos 60 - em que se dizia que “Política é a arte de combinar o bem com a rigidez da economia. Nem tanto ao céu nem tanto ao mar.

Na política - ou na administração - contemporânea, essa definição de FHC é o oposto do que ocorre no País, no atual Governo, em que se vão perpetuando práticas que, devendo ser provisórias, parecem fadadas a ser eternas, como a ajuda ao povo com programas do tipo “Bolsa Família”.

A ajuda é, sim, necessária, o programa é correto e, aliás, nasceu no Governo tucano, aquele mesmo que o atual Presidente chamava no começo de herança maldita.

Hoje, volto ao que propõe José Serra, é necessário dar condições a todos para, a própria ascensão social. E mais, o País necessita de mais seriedade.

Precisa afastar a roubalheira. Precisa melhorar a Saúde. Precisa melhorar a Educação. Resta agora saber como é que vamos ter realmente, no Brasil, uma sociedade decente? Como vamos fazer para dar uma educação que permita ao Brasil avançar mais?

FHC ilustra essa proposição, afirmando que, “no dia em que o Brasil tiver telefonista ou empregada do méstica capazes de anotar um recado, então o País terá se desenvolvido.”

De novo, palavras lúcidas de FHC, como base:

(...) Aqueles que vão liderar o Brasil daqui para frente terão que colocar ênfase na busca da redução das desigualdades, em tornar o País justo.

Mas isso não se alcança com políticas que apenas mitiguem, isto é, que meramente suavizem as desigualdades com esquemas provisórios.

Às vezes com segundas intenções. Segundas intenções significam até a busca do voto. De maneira insana, porém.

O voto, por essa via, pode até, sim, ser alcançado.

Mas não se duvide: entre os que cedem já começam a se alargar horizontes. Sem dúvida, seriam melhores, mais amplos, se a essas populações puder ser levada Educação. Na dimensão exigida, necessária. Com ela, criam-se condições para o pleno exercício de cidadania, que repele ações urdidas por aproveitadores.

Camões, em seus “Os Lusíadas” (v.57) produz essa frase, de alguma forma assemelhada ao que

pode vicejar entre as populações oprimidas:

“Daqui me parto, irado e quase insano Da mágoa e da desonra ali passada.!

Valer-se da fragilidade das massas equivale a torná-las ou a pretender que elas permaneçam submissas e atuem apenas diante de batuta que compõe ritmo de políticos meramente partidárias de que não se beneficiam as populações. Estas, assim, passam a uma postura de rejeição de Messias insanos, travestidos em figuras de políticos. Do mal. E isso vai se cristalizando na mesma velocidade com que, pelo saber, as populações, hoje marginalizadas, um dia poderão

rezar pela cartilha lembrada no épico “Os Sertões”.

Nele, Euclides, nosso talvez maior literato, lembra cenas de sofrimento de pobres cidadãos submetidos aos desejos de políticos.

O povo, valendo-se de cidadania, à medida em que se educam ou quando os filhos passam a adquirir saber, começaria a mostrar repúdio,:

“a todas as profecias(ou promessas?) de Messias insanos!

Promessas que, talvez, então, nesse futuro não encontrariam acolhida massiva. Esse amanhã a que me refiro depende - e aí volto a Serra - da implantação de um novo figurino, sério, respeitável, coerente com as necessidades reais do Brasil. Nada de política destinada a beneficiar afilhados do partidarismo caolho.

O Brasil - como observa FH -já dispõe, em sua economia, de motores muito potentes. Vamos levantar vôo. Quanto ao desenvolvimento da população, aí há dúvidas.

Vejam: aprendemos a voar como aprendemos a fazer avião (aliás, o Brasil inventou o avião).

- Mas como é difícil desembarcar no Brasil!

Como é difícil chegar à porta do avião...

O Brasil, na visão de FHC, já deixou de ser um País subdesenvolvido. Continua, no entanto, a ser um País injusto.

A força para crescer, que não falta na economia, iniciada no governo passado, está rateando.

Vamos à realidade, que recolho no noticiário de hoje:

(...) Após publicar um caderno inteiro defendendo a tese de que o Brasil tem força para se tornar uma potência mundial, o diário norte-americano The Wall Street Journal traz nesta segunda-feira um editorial com o titulo “Freie seu entusiasmo com o Brasil”.

Em matéria de hoje, o jornal critica a burocracia no Brasil e a proposta de mudar o modelo de exploração do petróleo.

Eis a conclusão do importante jornal norte- americano: “O presidente Lula da Silva ganha elogios de empresários como Eike Batista, mas uma retrospectiva desde a sua posse mostra que o melhor que ele fez como executivo-chefe do País foi não fazer nada”, diz o texto. “Quer dizer, ele não desfez as conquistas monetárias e fiscais de [Fernando Henrique Cardoso.”

A autora da matéria, Mary Anastasia O’Grady, disse que escreveu o artigo após ter se encontrado com o bilionário brasileiro Eike Batista em Nova York, durante o seminário “Invest in Rio”, promovido pelo próprio Wall Street Journal.

O editorial diz que “desde que o Brasil descobriu abundante quantidade de petróleo em sua costa em 2007, parece ter abandonado até as mais modestas reformas”. O texto diz que no País a estrutura de taxas e regulações do mercado é “tão sufocante que negócios pequenos e médios têm que ir para a informalidade para sobreviver”.

A autora duvida da afirmação feita a ela por Eike de que a informalidade está diminuindo no Brasil. “É difícil provar, mas mesmo que seja verdade, parece se dever mais à repressão por parte das autoridades do que a reformas”, diz O’Grady, citando que o País está em 129° lugar no ranking “Facilidade para fazer negócios”, do Banco Mundial.

O’Grady reclama que Eike (descrito como “um barão do petróleo”) comemora o “aumento do protecionismo” com o projeto de mudar a forma de exploração do pré-sal. Na conclusão, o jornal norte-americano diz que “com amplas descobertas de petróleo no mar e com o aumento de receita do governo que isso implica, políticos brasileiros agora esperam rolar no dinheiro”.

Eis, portanto, mais um ponto que deve merecer as atenções dos futuros dirigentes do Brasil: mais ação, menos propaganda, menos burocracia também.

A visão do Wall Street foi divulgada hoje pelo noticiário online e amanhã deve aparecer na edição impressa de O Estado de S.Paulo.

Quando nada, é mais um alerta, muito útil nessa fase que caminha para a inauguração de um novo Governo no Brasil.

Era o que tinha a dizer.


Este texto não substitui o publicado no DSF de 07/04/2010 - Página 12478