Discurso durante a 110ª Sessão Deliberativa Ordinária, no Senado Federal

Registro de crise nos Correios e Telégrafos, que atualmente estaria atrasando a entrega até de "Sedex". Voto de pesar pelo falecimento do jornalista e Deputado Federal Hermano Alves.

Autor
Arthur Virgílio (PSDB - Partido da Social Democracia Brasileira/AM)
Nome completo: Arthur Virgílio do Carmo Ribeiro Neto
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
TELECOMUNICAÇÃO. HOMENAGEM.:
  • Registro de crise nos Correios e Telégrafos, que atualmente estaria atrasando a entrega até de "Sedex". Voto de pesar pelo falecimento do jornalista e Deputado Federal Hermano Alves.
Publicação
Publicação no DSF de 02/07/2010 - Página 32314
Assunto
Outros > TELECOMUNICAÇÃO. HOMENAGEM.
Indexação
  • REGISTRO, CRISE, EFICACIA, CORREIO, RECEBIMENTO, MENSAGEM (MSG), INTERNET, AUTORIA, CIDADÃO, RECLAMAÇÃO, DEMORA, EMPRESA BRASILEIRA DE CORREIOS E TELEGRAFOS (ECT), ENTREGA, CORRESPONDENCIA, ENCOMENDA, COMENTARIO, PREJUIZO, POPULAÇÃO.
  • HOMENAGEM POSTUMA, JORNALISTA, EX-DEPUTADO, ESTADO DO AMAZONAS (AM), ELOGIO, VIDA PUBLICA, ATUAÇÃO, LUTA, OPOSIÇÃO, DITADURA, REGIME MILITAR, COMENTARIO, AMIZADE.

            O SR. ARTHUR VIRGÍLIO (PSDB - AM. Pela ordem. Sem revisão do oador.) - Sr. Presidente, eu volto ao plenário para fazer três ponderações. Uma é que não cessam os e-mails para o meu gabinete reclamando do que parece uma crise muito séria no funcionamento e na eficiência. É uma crise de eficiência e, portanto, exibindo ineficácia dos Correios e Telégrafos. As pessoas reclamam que, simplesmente, até o Sedex começou a atrasar. Isso é prejudicial ao emprego, porque é prejudicial ao trabalho, à economia e até à vida afetiva das pessoas.

            Em segundo lugar, Sr. Presidente, já havia falado sobre isso e encaminho à Mesa um pronunciamento mais alentado, que peço que seja recebido na íntegra, referindo-me ao falecimento, nesta madrugada, em Lisboa, do jornalista e ex-Deputado Federal Hermano Alves, que foi um dos baluartes na luta contra a ditadura e que teve o seu mandato cassado pelo Ato Institucional nº 5, no final de 1968, tendo sido exilado. Devo registrar que hoje saiu um texto assinado pelo veterano, sempre brilhante, sempre correto, jornalista Rubem Azevedo Lima, artigo que ele produziu para o Jornal da Associação Brasileira de Imprensa, ressaltando a biografia e o valor de Hermano Alves, meu querido amigo, que conseguiu unir duas gerações de minha família. Ele foi colega de meu pai de Congresso, porque meu pai era Senador e ele, Deputado; ele chegou a ser meu colega Deputado, quando aqui veio, se não me engano, como suplente. Ele foi colega no meu primeiro mandato: eu, um jovem Deputado, e ele, um veterano lutador. Lidei muito com ele também quando eu era militante estudantil no Rio de Janeiro. Sempre encontrei na sua tribuna e, antes, na sua coluna de jornalista um abrigo para as idéias dos que não se conformavam com a perda de liberdade no País.

            Finalmente, Sr. Presidente, encaminho à Mesa um voto de pesar pelo... (Pausa.) Peço a V. Exª que aguarde um minuto. (Pausa.) Isto é o mal do Brasil: tem papel demais. (Pausa.)

            Sr. Presidente, peço a minha... faleceu um pastor protestante, uma figura muito querida no Estado do Amazonas e enviaram-me o requerimento com repetindo o voto de pesar ao Deputado Hermano Alves. Espero que chegue aqui para que eu possa, então, anunciar o voto de pesar por figura tão ilustre da vida pública do meu Estado e da vida religiosa do meu Estado. Daqui a pouco eu conserto esse lapso, Sr. Presidente. Muito obrigado.

 

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         SEGUE, NA ÍNTEGRA, DISCURSO DO SR. SENADOR ARTHUR VIRGÍLIO.

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            O SR. ARTHUR VIRGÍLIO (PSDB - AM. Sem apanhamento taquigráfico.) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, estou encaminhando à Mesa requerimento de voto de pesar do Senado pelo falecimento, na madrugada de hoje, em Lisboa, do jornalista e ex-Deputado Federal Hermano Alves, que se destacou, na imprensa e aqui, no Congresso, por implacável luta contra a ditadura militar, tendo tido seu mandato cassado após a edição do AI-5, no final de 1968.

            Depois de ter tido o mandato cassado, Hermano, que fora eleito pelo antigo MDB, se viu obrigado a sair do País, pois, segundo seu colega e grande amigo Rubem Azevedo Lima, estava certo de que, com o recrudescimento da repressão, seria morto.

            Valho-me de informações contidas num texto que o veterano jornalista Rubem Azevedo Lima fez, ainda hoje de manhã, para o jornal da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Hermano foi um dos fundadores do jornal Tribuna de Imprensa, com Carlos Lacerda. Trabalhou no Correio da Manhã, Jornal do Brasil, Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, do qual foi correspondente em Londres, em parte do exílio. Antes disso, em Paris, para não morrer de fome, chegou a ser calceteiro de rua.

            Aprovada a anistia, Hermano voltou ao Brasil, em 1979, mas, por falta de trabalho na profissão, retornou a Portugal, com a mulher portuguesa, Maria Helena Alves, professora de Literatura da Universidade de Lisboa, só passando a ter renda própria, anos depois, graças à indenização decorrente da lei de anistia.

            Sua saida do Brasil deu-se em 1970, após esconder-se, em São Paulo, no apartamento de José Gregori, que foi ministro da Justiça de Fernando Henrique. Aliás, Gregori deu guarida também a outro perseguido político, o ex-deputado Márcio Moreira Alves, também caçado pelo regime.

            A fuga de Hermano - que deixou no Brasil a primeira mulher, Maria do Carmo Veloso Alves e quatro filhos - foi rocambolesca. Por não poder usar seus documentos, pois a cidade estava cercada por barreiras militares, ele pediu ajuda a Rubem Azevedo Lima, que, formado em Direito, mas sem exercer a profissão, emprestou-lhe a carteira da OAB. Numa das barreiras, a caminho de São Paulo, o ônibus em que Hermano se encontrava foi parado por militares, que pediram o documento. Por sorte, só olharam o nome. Não atentaram para a foto. 

            Rubem conta que a última vez que viu Hermano foi em 2008, em Lisboa, antes dos sinais do mal de Alzheimer - e ele mantinha o bom humor de sempre e a ironia rascante que o marcou no curso do mandato parlamentar.

            Rubem lembra episódio ocorrido na CPI criada para tratar da invasão da Universidade de Brasília, pelos militares, em 1968. O coronel de Exército, Alzir Nunes Gay, convocado, compareceu à CPI em uniforme de gala, pois dali a jantar, no Itamaraty, oferecido à rainha Elisabeth, da Inglaterra. Hermano disse ao coronel: “Serei breve, farei perguntas como nos processos militares” - numa evidente ironia. E assim ele fez, ditando cada resposta do depoente ao taquígrafo da CPI.

            Findo o registro rigoroso das respostas às 15 ou 20 perguntas, o coronel pensou que estava livre para ir ao Itamaraty, mas havia uma de interpelantes. O depoimento foi até a meia-noite. A certa altura, Hermano dele se despediu com um aceno e, com sorriso irônico, pediu ao Rubem que, em seu nome, desejasse ao coronel bom jantar com a Rainha. Pedido, claro, que era uma brincadeira.

            Nas sessões da Câmara, às quais sempre comparecia, Hermano, embora educadamente, era implacável com os representantes da ditadura. Às vésperas do Sete de Setembro de 1967, quando o deputado Benedito Ferreira, de Goiás, subiu à tribuna, para falar no Pinga-Fogo, enquanto o orador abria o discurso que leria, Hermano pediu-lhe aparte. “Eu nem comecei a falar...”, reclamou Benedito. “Mas eu sei - retrucou Hermano - o que o ilustre deputado vai dizer. Vai somar mais um puxa-saquismo aos tantos que a bancada governista faz aos militares, todos os dias”. A Mesa Diretora mandou tirar dos anais essa intervenção.

            De outra vez, quando José Bonifácio presidia a sessão e iria abri-la, Hermano, entrou em plenário esbaforido e pediu para fazer uma “comunicação urgente e grave”. Bonifácio deu-lhe a palavra.

            “Senhor Presidente - disse - acabo de presenciar um crime que esta Casa do povo comete contra as leis do País. Na rampa do Congresso, vi dois guardas desta Casa e um conduzia, sob o sovaco, a Bandeira Nacional, dobrada como se fosse toalha. Na condição de deputado e oficial da reserva do Exército, peço providências contra esse desrespeito ao símbolo da pátria”.

            Bonifácio espantou-se: “O que houve?”.

            “V.Exa., um “revolucionário” de 64, não sabe?” - disse Hermano. “A bandeira devia estar dobrada, numa salva de prata, como exige a lei.” Bonifácio agradeceu. Hermano, com sorriso, desceu da tribuna, postou-se diante de Bonifácio, que, desconfiado, comunicou: “De agora em diante, a Câmara imporá o respeito devido à nossa bandeira”.

            Hermano, democrata nacionalista, exerceu o mandato por pouco tempo. Assumiu-o em 1967 e foi cassado em dezembro de 1968, tendo perdido os direitos políticos em janeiro de 1969.

            Rubem Azevedo Lima, que foi padrinho de casamento de Hermano com a professa Maria Helena, assinala que os 21 anos de ditadura foram perdidos para a democracia, pelo obscurantismo e pela violência que destruíram muitas vidas, entre as quais a de Hermano Alves, um jornalista culto, inteligente, criativo e de visão acurada sobre a conturbada política brasileira, em especial na área militar. 

            Desencantado com o jornalismo, bom de desenho, como era, Hermano Alves dedicou-se, nos últimos anos, ao miniaturismo, produzindo trabalhos fantásticos, em seu apartamento e de Maria Helena, em Lisboa. Esse extraordinário jornalista, sem fazer o que gostaria de fazer, entregou-se, pois, à criação da beleza. Jornalista, bom assinalar, ele sempre enfrentou, sem ser entendido, o lado sujo e feio das políticas que obstaculizaram o desenvolvimento democrático do Brasil.

            Era o que eu tinha a dizer.


Este texto não substitui o publicado no DSF de 02/07/2010 - Página 32314