Discurso durante a 150ª Sessão Não Deliberativa, no Senado Federal

Defesa de que sejam repensados os conteúdos que são lecionados na educação básica brasileira, apontando algumas distorções e considerando que os exames vestibulares condicionam esses conteúdos.

Autor
Belini Meurer (PT - Partido dos Trabalhadores/SC)
Nome completo: Belini Meurer
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
EDUCAÇÃO.:
  • Defesa de que sejam repensados os conteúdos que são lecionados na educação básica brasileira, apontando algumas distorções e considerando que os exames vestibulares condicionam esses conteúdos.
Aparteantes
Eduardo Suplicy.
Publicação
Publicação no DSF de 27/08/2010 - Página 43261
Assunto
Outros > EDUCAÇÃO.
Indexação
  • DEFESA, REFORMULAÇÃO, CURRICULO, ENSINO MEDIO, NECESSIDADE, ATENÇÃO, CONTEUDO, FORMAÇÃO, CIDADANIA, REINCLUSÃO, DISCIPLINA ESCOLAR, ORGANIZAÇÃO SOCIAL E POLITICA BRASILEIRA (OSPB), EDUCAÇÃO MORAL E CIVICA, IMPORTANCIA, ESTUDANTE, CONHECIMENTO, CONSTITUIÇÃO FEDERAL, COBRANÇA, MINISTERIO DA EDUCAÇÃO (MEC), EFETIVAÇÃO, PROPOSTA.

                          SENADO FEDERAL SF -

            SECRETARIA-GERAL DA MESA

            SUBSECRETARIA DE TAQUIGRAFIA 


            O SR. BELINI MEURER (Bloco/PT - SC. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Boa-tarde a todos.

            Sr. Presidente, Srs. Senadores, Santa Catarina tem muito disso, esses sobrenomes italianos, japoneses, poloneses. É isso que faz a riqueza deste País, essa população que vem de fora e acaba contribuindo para a riqueza de nossa população.

            Sr. Presidente, venho a esta tribuna para falar, mais uma vez, sobre educação. Sei que o senhor também compartilha e se preocupa bastante com a temática da educação. Ontem, o Senador Cristovam Buarque disse que era uma única nota, porque ele circulava por vários outros pontos e depois voltava à educação. É verdade, Senador Suplicy, a educação para o nosso País é de extrema importância e nós temos de ficar batendo várias vezes, discutindo a importância da educação para a nossa sociedade, para o nosso País.

            Se nós queremos pensar em economia, se nós queremos pensar em exército, como foi falado aqui ontem, se nós queremos pensar em tecnologia, temos que pensar em educação, sim, e nós temos pensar que a educação precisa ser transformada. Falamos tanto em transformar a educação, em transformar a sociedade, falamos tanto em educação transformadora, mas eu fico preocupado, Srs. Senadores, com a transformação que queremos. Que transformação é essa que nós queremos? É claro que nós precisamos de investimentos físicos, estruturais, construções, mais universidades, sim, mas nós temos que começar a pensar também na educação com relação aos currículos, aos conteúdos que são lecionados na nossa educação de um modo geral.

            Quando pensamos em educação transformadora, eu pergunto: transformar o quê e em quê? Porque, dependendo do que nós queremos transformar, é melhor que nós nem transformemos, porque, muitas vezes, o antigo poderia ter sido melhor. Mas quando pensamos em educação, temos que pensar o seguinte: o que a nossa população está aprendendo? Eu acho isso de uma grandeza imensa, para o que precisamos atentar.

            Hoje, os alunos do ensino médio saem sabendo muito bem o que é mitose e meiose; o que é uma oração coordenada sindética aditiva; o que é uma equação de segundo grau e sabendo resolvê-la; a altura do pico do Himalaia; o nome de todos os faraós do Egito Antigo. E aí eu pergunto: e pessoalmente, o que ele recebe? Qual é a vida dele? Como vai ser a vida dele a partir dali? Esses nomes todos, o nome de todos os faraós do Egito antigo, isso vai implicar na vida dele? E eu pergunto então: o que ele sabe sobre economia? O que é um CDC, um crédito direto ao consumidor? Como é que se faz o cálculo de juros? Isso ele não sabe. Ele vai ser um profissional de qualquer área sem saber exatamente o que é isso. Não está formado adequadamente.

         Outra coisa, ele não sabe, ele nunca teve aulas de Direito. Ele não sabe o que é uma Constituição. Ele não sabe o que é um Código de Defesa do Consumidor. E com isso eu me preocupo bastante, Srs. Senadores. Isso é cidadania. Nós aprendemos conteúdos que ele nunca vai usar na vida e, de repente, deixamos de lado conteúdos extremamente importantes para a nossa vida, para o nosso dia a dia. A pessoa que decidir ser um engenheiro não teve esses conteúdos e não vai saber. Esse é um problema que nós temos que começar a discutir.

            Nós poderíamos pensar: há alguns conteúdos, por exemplo, as antigas disciplinas que existiram, como OSPB e Educação Moral e Cívica, que, como foi falado aqui nesta tribuna, seria interessante que retornassem, mas eu continuo com um certo medo, porque essas nomenclaturas vêm e voltam. Assim como foi criada - o que foi muito interessante -, ela também se acaba. O problema é esse. Como é que ficamos, então? Simplesmente alguém chega e termina? Eu tenho para mim, Srs. Senadores, Sr. Presidente, que nós deveríamos começar a pensar muito naquilo que é ensinado para os nossos jovens.

            Houve uma época que um professor de Matemática, lá da Univille, em Joinville, Santa Catarina, me disse, se queixando: “Puxa vida, os nossos alunos vêm fazer o curso de Matemática, mas eles não sabem resolver uma equação de segundo grau. Aí eu disse: “Pois é, os nossos estudantes vêm fazer Direito, mas nunca estudaram uma Constituição.” Aí ele disse: “Sim, mas a Constituição nunca foi ensinada”. E aí eu disse: “Mas quem disse que a equação de segundo grau é necessária e que a Constituição não é necessária?” Porque alguém um dia assim imaginou? Nós temos que começar a parar para pensar nesses conteúdos.

            Alguns falam assim: “Ah, isso é cidadania, isso pode ser colocado nos temas transversais.” Tema transversal significa um conteúdo que todos os professores vão trabalhar. Mas o professor de Matemática, que nunca teve outros conteúdos, vai ter condição de trabalhar essas propostas curriculares? Se ele nunca teve isso, como é que ele vai trabalhar?

            Eu tenho para mim, Sr. Presidente, que as grandes questões com relação a isso dizem respeito aos vestibulares. Os conteúdos são colocados nos vestibulares, e aí as escolas acabam correndo para se adequar e poder dar alguma condição melhor a seus alunos. Mas é um assunto que o Ministério da Educação precisa encarar com muita seriedade. Se não encarar com seriedade, com determinação, isso aí não vai chegar a um bom termo.

            Como falei ontem aqui: as grandes universidades, mais universidades, mais institutos de ensino superior, isso é bem-vindo, é necessário; é muito importante, Senador Suplicy, a criação de todos esses cursos que o Governo Lula está fazendo, e a gente tem que louvar, mas temos que começar a pensar nos conteúdos. O que é ensinado aos nossos alunos? Não é porque alguém um dia... Aliás, esses conteúdos que são colocados hoje são ainda do tempo dos jesuítas, que foram sendo repassados de um dia para outro. E chegamos aqui, séculos depois, repetindo, sem parar para pensar, se aquilo que está sendo ensinado é correto, é necessário, é importante para a vida desses jovens. Então, acho que é preciso um pouco de determinação. Mas tenho para mim que o Ministro Haddad tem essa preocupação e vai resolver isso a bom termo.

            Era isso que eu tinha a dizer, Sr. Presidente.

            O Sr. Eduardo Suplicy (Bloco/PT - SP) - V. Exª me permite um breve aparte?

            O SR. BELINI MEURER (Bloco/PT - SC) - Pois não, Senador.

            O Sr. Eduardo Suplicy (Bloco/PT - SP) - Prezado Senador Belini Meurer - pronuncia-se assim? -, V. Exª vem de um Estado, Santa Catarina, que obteve a melhor avaliação, do ponto de vista dos índices educacionais hoje no Brasil, e eu o cumprimento por esse exemplo. É muito importante que todos os Estados brasileiros tenham a preocupação de chegar aos níveis alcançados por Santa Catarina, do ponto de vista da alfabetização da sua população, dos avanços obtidos nos ensinos fundamentais, no ensino básico e também no ensino superior. V. Exª fala com muita autoridade e aqui menciona o empenho do Senador Cristovam Buarque como um dos baluartes na defesa da melhoria da educação no Brasil, e que é importante que haja aqui mais e mais vozes também defendendo a melhoria da educação. V. Exª faz inúmeras sugestões sobre como melhorar o conteúdo daquilo que é ensinado no Brasil e menciona - e eu aqui sou testemunho, é fato - que o Ministro da Educação, Fernando Haddad, e o Governo do Presidente Lula têm procurado examinar o assunto. Para isso o próprio Conselho Nacional de Educação tem responsabilidades, mas também nós, e V. Exª aqui hoje dá conteúdo à sua condição de Senador, propondo que o Ministério da Educação esteja sensível a todas as sugestões que signifiquem o aprimoramento daquilo que todos nós aprendemos nas escolas, desde o pré-primário, ensino de primeiro ciclo, de segundo ciclo, e que mais e mais, conforme V. Exª ponderou, é importante que esses ensinamentos sejam de grande relevância para o desenvolvimento das pessoas, ao longo das suas vidas de trabalho, de suas vidas profissionais; ensinamentos que possam ser úteis. É claro que os ensinamentos de história geral, de história da civilização são também importantes, mas precisamos aprender, com a história dos povos, sobretudo os exemplos de progresso. Aliás, é importante considerar que têm sido justamente aqueles países como a Coreia do Sul, o Chile, o Japão - este desde o final do século XIX, início do século XX, e mais e mais depois das duas grandes guerras mundiais - que conseguiram dar um grande salto de desenvolvimento graças à prioridade no esmero da educação de seu povo. Mas o Chile e a Coreia do Sul são dois exemplos notáveis de países que, nos últimos 40 anos, por exemplo, deram prioridade máxima à educação. E acredito que hoje, no Brasil, há esta consciência, que é suprapartidária; uma consciência de todos nós, mas à qual o Ministro Fernando Haddad, conforme V. Exª ressaltou, está muito sensível. Tenho certeza de que suas ponderações chegarão aos ouvidos dele. Meus cumprimentos.

            O SR. BELINI MEURER (Bloco/PT - SC) - Agradeço a V.Exª, Senador Suplicy, sempre com muitas ponderações e qualidade na fala, o que qualifica este meu pronunciamento neste momento.

            Como diz a música, a gente não quer só educação, nesse caso, a gente quer muita coisa. Quando não existia escola sistemática como temos hoje, havia pessoas felizes também, mas hoje nós temos. Temos uma sociedade civilizada. Hoje o Brasil é uma sociedade, um País bem visto e bem quisto pelo mundo inteiro.

            Fico muito feliz com o que o Senador Suplicy falou sobre a visão suprapartidária. Parece-me que a população brasileira acordou para a preocupação com a educação. Isso é muito bonito. A gente precisa estar louvando sempre. O que o Governo está querendo fazer, e está fazendo, o que a população está querendo fazer é muito importante.

            O que quero neste momento é chamar a atenção para os conteúdos. Parece-me que o Sr. Presidente também já fez alguma discussão nesse sentido. O que eu acho de extrema importância e nós precisamos bater bastante.

            O SR. PRESIDENTE (Acir Gurgacz. PDT - RO) - Se V.Exª me permite...

            O SR. BELINI MEURER (Bloco/PT - SC) - Por favor.

            O SR. PRESIDENTE (Acir Gurgacz. PDT - RO) - Nós precisamos realmente tratar a educação como prioridade no Brasil, e me parece que é chegado o momento. Estamos vendo todos os candidatos à Presidência da República tratar esse assunto com excelência, exatamente como deve ser. A educação é muito importante. Tudo converge, como V.Exª disse, para a educação: o trabalho, o desenvolvimento, o motorista, o engenheiro. Tudo converge para a educação. Mas o patriotismo é uma coisa que nós precisamos fazer voltar a acontecer...

            O SR. BELINI MEURER (Bloco/PT - SC) - Renascer.

            O SR. PRESIDENTE (Acir Gurgacz. PDT - RO) - ... através das salas de aula: a matéria de Educação e Cívica... 

            O SR. BELINI MEURER (Bloco/PT - SC) - Educação, Moral e Cívica.

            O SR. PRESIDENTE (Acir Gurgacz. PDT - RO) - ... Moral e Cívica e OSPB precisa voltar para a sala de aula, as nossas crianças precisam aprender desde cedo a importância do patriotismo, a importância da coletividade, a importância de estar realmente trabalhando em parceria com seus colegas. Isso se aprende na escola e desde cedo - quanto mais cedo, melhor. Por isso é importante, e nós colocamos isso ontem aqui. Eu o cumprimento pela sua posição hoje de falar da importância do conteúdo das escolas. Escolas são importantes, obras são muito importantes, mas o mais importante é o ensino e valorizarmos o ser humano.

            O SR. BELINI MEURER (Bloco/PT - SC) - Com certeza, Senador. Acredito que há uma diferença profunda no adulto que teve algum ensinamento nas áreas humanas e o que nunca teve ensinamento nas áreas humanas. São duas pessoas bastante diferentes.

            Obrigado, Srs. Senadores.

            Obrigado, Presidente.


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Este texto não substitui o publicado no DSF de 27/08/2010 - Página 43261