Discurso durante a 154ª Sessão Não Deliberativa, no Senado Federal

Análise do pleito eleitoral no Piauí, com críticas ao candidato ao Senado Ciro Nogueira.

Autor
Heráclito Fortes (DEM - Democratas/PI)
Nome completo: Heráclito de Sousa Fortes
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
ELEIÇÕES. ESTADO DO PIAUI (PI), GOVERNO ESTADUAL.:
  • Análise do pleito eleitoral no Piauí, com críticas ao candidato ao Senado Ciro Nogueira.
Aparteantes
Fátima Cleide, Mozarildo Cavalcanti, Roberto Cavalcanti.
Publicação
Publicação no DSF de 03/09/2010 - Página 44623
Assunto
Outros > ELEIÇÕES. ESTADO DO PIAUI (PI), GOVERNO ESTADUAL.
Indexação
  • CRITICA, CANDIDATO, ESTADO DO PIAUI (PI), ADVERSARIO, ORADOR, CARGO ELETIVO, SENADO, MANIPULAÇÃO, INFORMAÇÃO, INCOMPETENCIA, ATUAÇÃO PARLAMENTAR, AUSENCIA, DECLARAÇÃO, DIVERSIDADE, BENS, RECEITA FEDERAL, REALIZAÇÃO, ACORDO, PREFEITO, MUNICIPIOS, GARANTIA, VERBA, TROCA, APOIO, CANDIDATURA, UTILIZAÇÃO, POLITICA, ATENDIMENTO, INTERESSE PARTICULAR, DETALHAMENTO, POLITICA PARTIDARIA, AMBITO ESTADUAL.
  • REPUDIO, TENTATIVA, PENALIDADE, ORADOR, LEGISLAÇÃO, INELEGIBILIDADE, REU, CORRUPÇÃO, JUSTIFICAÇÃO, VIDA PUBLICA.
  • NECESSIDADE, POPULAÇÃO, CONHECIMENTO, FUNÇÃO, CONGRESSISTA, IMPORTANCIA, ATUAÇÃO, SENADO, DISCORDANCIA, PROPOSTA, EXTINÇÃO.
  • FRUSTRAÇÃO, CANCELAMENTO, CANDIDATURA, REELEIÇÃO, AUGUSTO BOTELHO, SENADOR, ESTADO DE RORAIMA (RR).
  • CRITICA, ATUAÇÃO, EX GOVERNADOR, ESTADO DO PIAUI (PI), PARTIDO POLITICO, PARTIDO DOS TRABALHADORES (PT), DESCUMPRIMENTO, COMPROMISSO, CONCLUSÃO, CONSTRUÇÃO, OBRAS, ESPECIFICAÇÃO, AEROPORTO INTERNACIONAL, RODOVIA, BARRAGEM, USINA HIDROELETRICA, FAVORECIMENTO, EMPRESA, NEGLIGENCIA, SAUDE PUBLICA, ANUNCIO, FALSIDADE, INVESTIMENTO, INICIATIVA PRIVADA, REGIÃO.
  • REGISTRO, DECISÃO, PRESIDENTE DA REPUBLICA, VETO (VET), PARTE, RECURSOS ORÇAMENTARIOS, ESTADO DO PIAUI (PI), AUSENCIA, CONTESTAÇÃO, CANDIDATO, SENADO.

                          SENADO FEDERAL SF -

            SECRETARIA-GERAL DA MESA

            SUBSECRETARIA DE TAQUIGRAFIA 


            O SR. HERÁCLITO FORTES (DEM - PI. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, estamos a trinta dias do pleito, e o desespero de candidaturas, ou de aventureiros candidatos, faz com que eles assumam, Senador Mozarildo Cavalcanti, posturas cômicas, hilariantes e não tenham nenhuma noção do que seja o ridículo.

            No Piauí a coisa, Senador Roberto Cavalcanti, caminha para esse rumo. De repente, nada mais do que de repente, lançou-se um candidato a Senador com apoio do Palácio do Planalto; leia-se, mais precisamente, com apoio do Ministro Alexandre Padilha. E esse candidato foi ao Piauí. Chegou ao Piauí com a equipe do poderoso Duda Mendonça - pelo menos é o que os seus anunciam - a prometer fazer como senador o que não fez nos quatro mandatos como deputado, quando se consagrou como “o rei do baixo clero” na Câmara dos Deputados.

            Promete de tudo. Parece até, Senador Mozarildo, que o Senado é a solução de todos os problemas da Pátria e que vai resolver - porque está apoiando o esquema Dilma e o esquema Lula - os problemas do Piauí. Coisa que não fez, porque já vem nesse processo bajulatório ao Palácio há muito tempo, em nenhum desses momentos.

            É deputado votado pelo Município de Cocal. Cocal foi o palco da tragédia do Algodão II, aquela barragem que estourou matando 9 ou 11 pessoas e deixando vários desabrigados. E o candidato nada fez pelos que sofreram naquele Município, a não ser promover um carnaval fora de época, menos de um ano depois do fato, com bandas caríssimas, ao custo total de R$300 mil. Dinheiro esse que serviria, suficientemente, para minimizar a dor dos desabrigados.

            Vangloria-se de ser um dos mentores de um programa chamado Segundo Tempo, destinado à capacitação de jovens, que, por sinal, é um programa meritório quando ele é realizado. Mas, no Piauí, a grande curiosidade das pessoas é saber onde esse programa foi executado, as pessoas que foram capacitadas e quanto se gastou. Porque, na realidade, ele serviu para uma grande dobradinha entre o Secretário e Deputado Estadual e candidato à reeleição e o atual candidato ao Senado da República.

            Vangloria-se de liberação de recursos orçamentários, mas não diz e não esclarece ao povo do Piauí que, quando esses recursos são liberados, na maioria das vezes a construtora escolhida, curiosamente, pertence a seus familiares.

            Eu estou dizendo isso, Senador Mozarildo Cavalcanti, porque nós temos uma prática hoje na política que beira à hipocrisia. O candidato se mascara, protegido pelo marqueteiro, e aí se protege das suas deficiências. Esconde as suas limitações e fica protegido. Nos debates, quando faz pergunta aos concorrentes, recebe, geralmente da assessoria, a pergunta a fazer e não sabe sequer do que se trata.

            Eu mesmo, num debate realizado na televisão local, fui perguntado pelo noviço candidato sobre um projeto que corria na Câmara dos Deputados. Ele não sabia sequer que o projeto já tinha sido votado na comissão específica, cujo Relator era o Deputado Aldo Rebelo, e que as discussões geralmente são feitas na comissão, o plenário é apenas o local da sua aprovação.

            Mas o marqueteiro muda a camisa, bota o cabelo flocado, joga ali frase de efeito. Só que a realidade é bem diferente. O cidadão, quando vem para o Senado, Senador Botelho, e que vem para esta tribuna, não tem o marqueteiro por traz a lhe dar dicas e a lhe mostrar o que deve ser. O cidadão tem que ser realmente aquilo que é.

            Eu participei de várias CPIs nesta Casa, e é um dos motivos de o Governo não me querer aqui. O meu concorrente participou - aliás, às vezes, até atua mais nas sombras do que na... - daquela CPI do Sistema Elétrico. Pergunte às empresas envolvidas no setor o que acharam daquela Comissão, como aquela Comissão foi acabada na marra. E, aí, é muito fácil. Pergunte ao Deputado Aleluia, ao próprio Deputado Vaccarezza sobre os indícios de extorsão que se cometeram naquela Casa e quem são os personagens envolvidos. As coisas precisam de clareza.

            Estou ocupando a tribuna do Senado porque permanentemente tenho sido provocado. Deve ser ideia dos marqueteiros a provocação, porque o candidato não é dado a esse tipo de comportamento, o marqueteiro deve ter mandado fazer. Mas o marqueteiro nunca sabe do outro lado. É preciso que o marqueteiro também saiba das falhas, das limitações dos seus clientes. É preciso que o marqueteiro saiba como seu cliente procede na vida empresarial, examine as ações trabalhistas que envolvem piauienses que estão na Justiça do Trabalho, e que não são poucos, que se pratica caixa dois... É preciso que essas coisas venham à tona.

            Luto por uma vida de transparência. Tenho enfrentado, durante esses anos todos, adversários perigosos. Vários vasculharam a minha vida, mas, felizmente, nada encontraram e não vão encontrar. Se você examinar a minha declaração de renda, está lá exatamente tudo o que possuo. Se você encontrar a declaração de renda do meu concorrente, é um negócio misterioso. Tem uma paradisíaca ilha no litoral do Piauí, onde recebe a high society brasileira para finais de semana, e não consta, nem na dele, nem na da esposa; possui apartamentos em São Paulo, casas fantásticas em Brasília, uma casa em que recebe Ministros e autoridades, e não consta na sua declaração de bens, nem na da sua esposa, candidata a Deputada Federal. Vive nesse mistério. E, aí, vai o marqueteiro e manda dizer que ele é o novo, e que vai fazer o que é novo, e que vai fazer o que os outros Senadores não fizeram.

            Senador Mozarildo, fui, durante doze vezes, das quais oito no Senado, escolhido entre os cem melhores Parlamentares do Brasil. O noviço candidato não foi nenhuma. Não foi nenhuma. E até candidato à Presidência da Câmara, com o apoio do Severino, naquele período, foi. Aliás, uma das coisas que fiz na minha vida pública foi saber escolher as minhas companhias. A Casa me conhece. Minhas companhias foram ou são companhias que me orgulham muito: Tancredo, Ulysses,... Vários brasileiros, vou ficar nesses dois. Luiz Eduardo, Marco Maciel,... Eu não ando mal acompanhado. Eu não participo de baixo clero. Não tenho nada contra. Agora, ser líder de baixo clero, rei de baixo clero... Eu não participo e espero que essa moda não chegue ao Senado. Até agora, o Senado tem sido imune a isso.

            Mas estou tratando deste assunto porque achei algo muito engraçado hoje. Abro os jornais, e o noviço candidato ao Senado acusa o Governador do Estado, o Sr. Wilson Martins, de uso da máquina administrativa. Aí, o cinismo chega ao limite inaceitável, porque é o roto falando do esfarrapado. O noviço candidato percorre os Municípios e procura os Prefeitos, anunciando verbas extraorçamentárias em troca de adesão à sua candidatura, patrocinada pelo Sr. Alexandre Padilha. E esse levantamento está sendo feito Município por Município. Eu botei uma equipe de advogados vendo, Município por Município, onde esses convênios foram feitos. E aí vêm desde os carnavais fora de época a convênios que têm fins eleitoreiros, porque o Procurador da República, o Sr. Adão, vem dizendo, no Piauí, que está muito preocupado com indícios. Pois, se ele quer, vai receber. Vai receber.

            O Município de Bocaina está lá recebendo uma emenda de um milhão. Logo em seguida, seu Prefeito, que é o Presidente da APPM, declarou apoio ao novo candidato. Aliás, houve uma coincidência muito engraçada. Eu encontrei esse Prefeito na cidade de Bom Jesus. Ele tomou a iniciativa de me procurar para dizer que admirava meu trabalho no Senado e que queria votar em mim. E marcou um encontro. Nesse intervalo, apareceram os convênios misteriosos saindo do Palácio do Planalto.

            Eu estou contando fatos. Fatos deste mundo em que estamos vivendo hoje. Na região valenciana, há Prefeitos que foram cooptados pelos seus aloprados. Ele tem uma equipe de aloprados poderosa, que geralmente participa dos seus negócios e das suas sociedades. Aliás, negócios envolvendo o metrô do Rio de Janeiro... São negócios dignos de um empresário de grande coturno, não fossem as limitações da declaração de bens. É lamentável e é desigual uma luta como essa para quem tem os anos de mandato que eu possuo. De forma que o Piauí está vivendo uma guerra desigual.

            Agora, vir falar do uso da máquina do atual Governador é um erro. Ele deveria falar é do ex-Governador, que também concorre conosco ao Senado. Não o faz porque com ele produz algumas dobradinhas e não há interesse de acusar o ex-Governador. Aliás, todos esses convênios ilegais, todos esses desvios de recursos - eu quero ser justo - não foram praticados pelo atual Governador. O atual Governador recebeu a herança maldita. Seu erro foi o da omissão em ter assumido essa herança, sem ter dito a coragem de denunciar, a não ser o episódio dos carros alugados. E esses carros continuam rodando no Piauí por algum fato misterioso que ocorreu.

            Senador Roberto Cavalcanti, escuto V. Exª com muita honra.

            O Sr. Roberto Cavalcanti (Bloco/PRB - PB) - Senador Heráclito Fortes, iniciei meu pronunciamento, há minutos, e a minha primeira frase foi: na vida, normalmente se presta atenção àquilo de que se gosta. Há muitos anos, fui apresentado e passei a acompanhá-lo por um parente meu, Délio Lins e Silva, pessoa que tem por V. Exª extrema admiração e estima. Nós, automaticamente, quando admiramos uma pessoa, contaminamos as outras. Então, Délio Lins e Silva me contaminou com aquela referência sobre V. Exª; já o conhecia superficialmente por passagens pernambucanas, porém, na verdade, aprendi a prestar a atenção em V. Exª desde aquela apresentação por esse meu coparente. Tenho observado a trajetória, o comportamento e as avaliações feitas por V. Exª e me preocupa muito, no perfil do eleitorado brasileiro - e eu diria que o eleitorado piauiense pode ser bastante semelhante ao paraibano -, o problema do nível de esclarecimento, para poder se fazer uma boa análise. Na verdade, o eleitor é quem traz os Senadores a esta Casa, porém há uma lamentável deficiência histórica no aspecto da educação brasileira. O Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba fez uma divulgação do perfil do eleitor paraibano. O perfil do eleitor paraibano - pasme, Senador Heráclito Fortes! - mostra que 70% do eleitorado está na seguinte zona: entre o analfabeto total, o semianalfabeto e aquele que não completou o 1º Grau. Não tendo completado o 1º Grau, os semianalfabetos são aqueles cidadãos que têm o título, assinam, desenham o nome, mas são incapazes de ler ou fazer um bilhete. Tenho um profundo respeito para com esse eleitorado. Porém, temos a obrigação de fazer com que haja caminhos que possam dar a esse eleitor uma fiel realidade do que ocorre no Senado Federal. A TV Senado tem proporcionado um exemplo em termos de cobertura, a Rádio Senado também, porém eu diria que o guia eleitoral, os aspectos mercadológicos, o marketing montado em cima de candidatos muitas vezes induzem os eleitores a errarem nas suas avaliações; a que não tenham uma análise no momento da eleição, que é uma fração de segundo, ao digitarem na urna eletrônica, de forma que possam resgatar uma história como a de V. Exª. Quer dizer, a grande missão, talvez futura, dos que fazem o Congresso Nacional seja exatamente no caminho de proporcionar educação e, fundamentalmente, instrumentos outros, para que a avaliação eleitoral seja precisa e possa resgatar toda uma história, que é a trajetória política de cada um de nós, como é o caso da trajetória de V. Exª. Então, gostaria de fazer esse registro, que é um registro histórico, que vem de anos atrás, da atuação política de V. Exª no Piauí, a qual a mim chegou também naquele Estado do Nordeste, a Paraíba. E chegou com muita precisão, o que facilitou muito, por ocasião da minha passagem no Senado Federal, aproximar-me de V. Exª e ter de V. Exª toda a atenção - a atenção máxima para comigo em momentos em que, na verdade, muito precisei. Então, sou grato, fiel; sei como ser leal. Parabéns a V. Exª por ser fiel e solidário com os amigos. Parabéns.

            O SR. HERÁCLITO FORTES (DEM - PI) - Eu agradeço a V. Exª e quero dizer-lhe que na política se aprende convivendo com os melhores que a gente.

            Quando cheguei à Câmara dos Deputados, por sorte minha, fiz dois grandes amigos: Tancredo e Ulysses. Naquela época, eram os dois solitários que sonhavam em promover a abertura política do País.

            E houve uma empatia inicial, primeiro do Dr. Tancredo com relação a mim, porque já nos conhecíamos no período em que eu morava em Pernambuco, e, posteriormente, do Dr. Ulysses. Galguei a confiança daqueles dois homens, e era interessante.

            Os momentos difíceis, Senador Mozarildo, nunca esqueço. Quando da tentativa da fusão do Partido Popular com o MDB, que produziu o PMDB, os fracos que queriam inicialmente participar do projeto não aguentavam um puxão de orelha do Palácio do Planalto, naquela época governado por generais: iam recuando. E os dois não desanimavam.

            Vi cenas de homens públicos que vendiam a imagem de bravura e que, na realidade, diante da pressão, chegavam aos dois e pediam para retirar suas assinaturas. Há vários repórteres, vários jornalistas, que acompanharam esse episódio e que estão aí a testemunhar a fraqueza das pessoas.

            Senador Mozarildo, aqueles que fugiram de atitude covarde naquele episódio da resistência foram os primeiros que se aproximaram novamente e que correram, como se velhos amigos fossem, como se nada tivesse acontecido, quando Tancredo começou a percorrer o Brasil - e aí já com respaldo popular -, promovendo, em primeiro momento, a campanha pelas Diretas e, depois, aquela caminhada que o consagrou como último Presidente eleito pelo sistema indireto - e o destino não quis que ele fosse empossado.

            Acompanhei muita coisa neste País e vejo, Senador Roberto Cavalcanti... Eles tinham uma frase lapidar: “O benefício é a véspera da ingratidão”. Não tenha nenhuma dúvida disso.

            Hoje me choquei muito. Eu vinha do aeroporto para cá, não consegui entender direito e fui tomado pela maior surpresa dos últimos tempos. Foi quando o Senador Mozarildo dialogava com nosso querido Senador Augusto Botelho, e vi que o Senador Augusto Botelho não é candidato ao Senado por Roraima. Não é isso? Foi um choque para mim, porque aí se vê como os partidos usam as pessoas e as descartam num cinismo inaceitável!

            Ao chegar a esta Casa, comecei a ter uma admiração muito grande pelo nosso Botelho, por sua figura afável, sincera, franca e independente. Várias vezes, eu o procurei para assinar CPIs, e ele, de maneira independente, se concordava, assinava ou, se não concordava, não assinava. E eu sempre o tratava em tom de brincadeira, estando ele no PT, achando que ele estava desarrumado naquele armário. Aquele não era um armário bem próprio para ele. Ele não cabia ali, mas estava naquele armário. Eu o chamava de “meu mais jovem radical”. Mas é lamentável o que se faz com o homem público. A Senadora Serys é outra vítima. Na vida pública, há esse tipo de surpresa.

            No Piauí, o novo candidato ao Senado ofereceu-se a todos os candidatos e a todos os partidos. Senador Mozarildo, estou falando do Deputado Ciro Nogueira, para não dizer que não estou falando das pessoas. Estou sendo bem claro. Uma semana antes de ele tomar a decisão de ser candidato, ele foi ao meu gabinete às 9 horas. Achei muito esquisito ele acordar cedo, mas ele vinha com o cabelo penteado - já era o marqueteiro dando as primeiras lições - e com gravata. Disse ele: “Vim aqui para lhe dizer uma coisa. Estou sendo convidado para ser candidato ao Senado, mas não aceito, não irei concorrer de maneira nenhuma”. E aí me contou histórias, falou mal do atual colega dele de chapa ao governo, disse que era um homem fraco, com o que não concordo, até gosto muito do rapaz. Mas me disse uma coisa com muita sinceridade: “Só não posso ficar longe do poder. Não posso perder. Tenho de ir para uma chapa que acho que vai ganhar”. Mas, naquele momento, o José Serra estava em primeiro lugar. Pois bem! Saiu para São Paulo e levou a tiracolo uma figura extraordinária, que é o Prefeito atual de Teresina, Elmano Ferrer, para uma conversa com o Kassab. Trataram assuntos administrativos e, depois, assuntos políticos. Procurou o Serra, jurou amor. Foi ao meu colega de chapa Sílvio Mendes e ofereceu-se como candidato a Vice-Governador. Estou contando fatos em que há testemunhas. Depois, rodou a bolsinha para o Wilson Martins, o qual ele acusa hoje. E, de repente, de repente, em um passe misterioso, amanhece candidato a Senador, exigindo apenas que seu suplente fosse um dos homens mais ricos do Brasil, pai do candidato a governador, que é seu conterrâneo, meu querido amigo João Claudino Fernandes. E o Sr. João, homem que sempre militou, que sempre gostou de política, mas que nunca quis nela entrar, sob o princípio de que o pai faz sacrifício pelo filho e de que o filho, às vezes, não o faz pelo pai, aceitou e é o Vice.

            É com este cacife que ele percorre, desavergonhadamente, os colégios eleitorais do Piauí. “Sou candidato de um esquema, de uma chapa poderosa”. E, não satisfeito, trouxe sua esposa, uma pessoa extraordinária, distinta, mas sem experiência político-eleitoral, sendo - reconheço - de vivência de uma família de políticos sérios, honrados. O pai foi Governador; o tio, Senador e Ministro da Justiça. Lança-a candidata a Deputada Federal. Sempre aprendi que candidato majoritário tem de abrir espaço para os outros. Na minha casa, eu sempre disse: “No dia em que alguém quiser entrar na política, avise, que eu saio”. Sou daqueles, Senador Mozarildo Cavalcanti, que defendem que a política não é ato de família, que a política não é uma atividade, Senador Botelho, para convescotes familiares. A política é para ser disputada por quem gosta. Não podemos desestimular os vocacionados. Mas não! A coisa no Piauí está sendo feita desse jeito. Felizmente, o povo do Piauí tem lucidez.

            Fizeram aquela molecagem comigo. Colocaram-me no tal ficha suja sem que eu tivesse qualquer conexão. Meu caso estava prescrito. Mas ele tem uma turma de aloprados que frequentam os restaurantes da moda em Teresina, e os rapazes, em uma bebedeira de sexta-feira, cometeram a infelicidade de dizer que iam chacoalhar minha vida no Tribunal. Um garçom amigo, pela maneira como o trato ao longo dos anos, avisou-me do que tinha ouvido. Corri para Brasília e entrei com aquela liminar. Era a única maneira que eu tinha de não ser chacoalhado. A liminar caiu na mão do Ministro Gilmar, que não tinha outra saída a não ser concedê-la, porque ele era o Relator. Na Câmara em que ele era Relator, outro colega tinha pedido vista. Eu podia ser prejudicado por isso, já que, desde o ano 2000, estava pedindo para que o assunto fosse julgado? Aliás, sabe qual era o assunto? Placas de obras administrativas com os dizeres: “Unidos, seremos mais fortes”. Fizeram uma conexão do “unidos, seremos mais fortes” com uma propaganda pessoal. Quando notificado fui, imediatamente retirei isso das placas. Vejam quem fez a denúncia: um Vereador do PCdoB. Vejam como é o destino: durante todo esse período, o Vereador, que hoje é Deputado Federal e que faz uma das campanhas mais caras do Estado do Piauí, respaldado pelo Ministério dos Esportes... E aí o Ministério Público precisa apurar esse tal Segundo Tempo. Não sei se o Segundo Tempo atua em Roraima; não sei se atua na Paraíba; não sei se atua na terra de V. Exª, nobre Senadora, mas esse Segundo Tempo, onde atua, é um... Até contra o candidato a Governador do Distrito Federal que foi Ministro, há várias suspeitas, pelo mau uso desse tal Segundo Tempo. Pois bem, durante esses vinte anos, ele jamais pediu que o processo fosse apurado. Esqueceu-se disso.

            Senador Mozarildo, quando veio essa enxurrada, ele entrou com uma ação. Achei estranho, até porque ele já tinha mandado dizer a mim, por amigos comuns, que queria pagar aquilo, que não podia retirar porque ação popular era irreversível, e, aí depois, descobri: o PT não queria fazer aliança proporcional com os partidos, inclusive o dele, e a condição sine qua non foi a de ele entrar com essa ação contra mim.

            Felizmente, os fatos foram esclarecidos, mas digo isso para que V. Exª veja como as coisas estão ocorrendo no Estado do Piauí.

            Concedo o aparte a V. Exª.

            O Sr. Mozarildo Cavalcanti (PTB - RR) - Senador Heráclito, quero dizer a V. Exª que fiquei prestando bastante atenção a vários tópicos do pronunciamento de V. Exª. O que me chamou muito a atenção é realmente o que está sendo feito, e vejo que isto ocorre praticamente em todos os Estados: uma enganação com a população. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) está fazendo um trabalho de esclarecimento, divulgando qual a função de cada uma das figuras que vão ser eleitas agora: Deputados Estaduais, Governadores, Deputados Federais, Senadores, Presidente da República. Diz claramente que o Senador é aquela pessoa que fiscaliza o Presidente da República, que fiscaliza o bom uso do dinheiro público, que vota o Orçamento, que cuida das relações internacionais, aprovando os acordos etc. Lá não está escrito que Senador faz isso ou aquilo, que Senador - vamos dizer assim - é o fazedor das coisas em termos de obras etc. Mas, no meu Estado, por exemplo, um candidato que é Líder do Governo Lula tem até uma revista muito bem impressa em que se diz que praticamente tudo o que aconteceu em Roraima foi ele que fez. Ele é o pai de Roraima. Não interessa se a coisa foi feita por outro parlamentar, mas termina tendo sido feita por ele. Realmente, considerando o grande marketing que existe, o horário de televisão, as placas, essa é uma campanha multimilionária, casada com a do Governador, que ele, na campanha passada, chamou de foragido da Polícia. São interessantes essas voltas. Na eleição passada, em 2006, o atual Governador, que era Vice, foi chamado pelo Líder do Governo de foragido da Polícia, mas, agora, eles estão juntos. Parece-me que, como disse V. Exª, quem se acompanha de uma pessoa que é desse tipo é do mesmo tipo. Então, não sei quem é aí o foragido da Polícia. O certo é que precisamos efetivamente coibir, combater essa enganação de pessoas que vão para a campanha gastando fortunas e dizendo que vão resolver no Senado tudo o que está faltando resolver no Estado ou, então, dizendo que fizeram tudo até ali pelo Estado. Espero que a democracia brasileira se aperfeiçoe e que pessoas de bem, como V. Exª, um Senador atuante e corajoso, realmente possa ser reconhecido pelo eleitorado não como essa figura falsa, como dizem, do que seja um Senador no exercício do seu mandato. Quero cumprimentá-lo e dizer que é preciso efetivamente que os homens e as mulheres de bem deste País tenham a coragem de enfrentar essa situação do poder econômico que ainda domina muito, demais, as nossas campanhas. Tenho ouvido, nestes dias em que estou em Brasília, Senadores de todos os Estados praticamente reclamando do poderio da máquina administrativa, do poder econômico. Espero, portanto, que isso acabe e que V. Exª seja reconhecido pelo povo do Piauí e volte a esta Casa consagrado pelas urnas.

            O SR. HERÁCLITO FORTES (DEM - PI) - Agradeço a V. Exª.

            Olhe aqui: há quatro Senadores. Há algumas falhas - e é culpa nossa - nesse processo eleitoral. Se fosse possível, a gente ouviria até a opinião até de quem está aqui.

            Veja bem, Senadora Fátima Cleide, não sei se no seu Estado acontece isso. Lá há os cavaletes, aquele derrame de cavaletes, que é uma cosia incrível? Em todos os lugares, há isso.

            A Srª Fátima Cleide (Bloco/PT - RO. Fora do microfone.) - Mas não tenho nenhum.

            O SR. HERÁCLITO FORTES (DEM - PI) - Sim, mas veja bem: V. Exª vê cavaletes, que são uma poluição. Às vezes, há cavaletes de adversários, um enfrentando o outro que está ao lado. É uma poluição que não se justifica. Enquanto isso, a Justiça...

            O Sr. Mozarildo Cavalcanti (PTB - RR) - Quero só dizer que, nesse particular, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) de Roraima reuniu todos os partidos, e, consensualmente, foram retirados todos os cavaletes, o que deu limpeza ao visual da cidade.

            O SR. HERÁCLITO FORTES (DEM - PI) - Lá não existe cavalete.

            Mas veja bem, Senadora Fátima Cleide, aonde é que quero chegar: permite-se o uso de cavalete, e se proíbe o uso de camiseta. O preço da camiseta é metade do preço do cavalete, e a camiseta não polui, a camiseta dá emprego, a camiseta veste. Qual é a diferença, Senador Botelho, entre um e outra? O cavalete é mais caro, torna a cidade feia e não traz qualquer benefício social. O que se vê em vários Estados são as gangues, durante a noite, roubando os cavaletes para refazê-los e para, no dia seguinte, vender já com a cara do outro candidato. Mas esse é um erro, e a culpa é nossa. Estou citando apenas uma hipocrisia que, tenho a certeza, a Justiça Eleitoral haverá de corrigir.

            Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, eu queria fazer esse comentário, Senador Mozarildo Cavalcanti, e dizer que, felizmente, Teresina, minha capital, onde fui Prefeito, está atenta a isso. Lá se diz que, depois do Bolsa Família, há esse grupo que criou a bolsa Louis Vuitton: encheram as ruas de dondocas, com aquelas bolsas caras Louis Vuitton, que estão tentando enfrentar os bairros da periferia à noite, todas perfumadas de Chanel, tentando invadir a pobreza alheia, como se as pessoas fossem idiotas. É lamentável o que está acontecendo: Bolsa Família, bolsa Louis Vuitton. É uma tal de dondoca! Senador Botelho, é um caso! Não gosto nem de trazer isso aqui, mas é um fato: aqueles carros de luxo, aquelas coisas bonitas, aqueles carros importados, Mercedes Benz para cá, bolsa Louis Vuitton para lá, e cada um fazendo as promessas para quando estiver no Senado. Olha, se o Senado tiver realmente condições de fazer o que estão prometendo lá, sei não... Não é esse Senado que conheço, não é o Senado que V. Exª viveu.

            Aliás, outro dia, num debate na televisão, equivocadamente, um candidato a Senador pelo PSOL disse que um Parlamentar estava ganhando R$11 mil por minuto, o que é uma aberração! Eu disse: de imediato, você tem a procuração para receber - aliás, eram R$11,00 por minuto - o que não recebi ao longo desse tempo. Esse salário dava R$400 milhões ou coisa que o valha, um negócio totalmente fora de propósito.

            É a desinformação, infelizmente, da população brasileira da real função do Parlamento. É preciso que se saiba que a função do Parlamento, Senador Mozarildo, é dura, é espinhosa, é a de fiscalizar o Presidente da República. E, se não for assim, ai do País!

            Às vezes, parece-me que o que passa na cabeça dos que querem governar é extinguir o Senado. A extinção do Senado é falência da Federação e é a morte dos pequenos Estados. V. Exª é de Roraima, sou do Piauí, a Senadora Fátima Cleide é de Rondônia. Some nossas Bancadas! São trinta? Não são trinta, mas vamos dizer que sejam trinta. O Estado de São Paulo, sozinho, tem duas vezes e meia essa Bancada. Se se juntarem os Estados de São Paulo, do Rio e de Minas Gerais, faz-se o que quiser no processo legislativo, massacrando os pequenos. Portanto, é algo com que precisamos ter cuidado. E, se elegermos um Senado para dizer “amém”, estaremos perdidos. Aliás, Itamar Franco, com a experiência de quem foi Senador por duas vezes e de quem foi Presidente da República num momento difícil, alerta para isso mesmo. Há duas frases suas hoje na imprensa que são pontuais. Esta é uma Casa de responsabilidade, esta não é uma Casa de aventura, não é uma Casa de inexperiência.

            Portanto, Senador Botelho, vou sair daqui hoje entristecido, porque contava com sua presença aqui, como conto com a presença de Marco Maciel. O Senado brasileiro não pode perder determinadas figuras. O Senado não pode perder Tasso Jereissati, José Agripino, Arthur Virgílio, com sua irreverência e com sua firmeza. E estão na alça de mira deste Governo. V. Exª é diferente, mataram-no por antecipação. Paulo Paim, pelo que consta no Rio Grande do Sul, estão matando-o com fogo brando. Vi, agora, uma declaração deselegante de um colega dele, dizendo “bem feito” porque ele é o responsável pelo aumento de gastos do Erário nacional. Ah! O que o Paim fez aqui foi defender, por coerência, o que seu Partido sempre defendeu quando era oposição: um salário justo para os aposentados e a reposição real do salário mínimo. Não há um ato de incoerência do Paulo Paim nesta Casa! E ver seus próprios companheiros se mostrarem satisfeitos com a possibilidade, que não acredito, de ele não voltar para esta Casa? Isso mostra que não há boa intenção por parte dos que querem se perpetuar no poder.

            Há dois Piauís, o da realidade e o da televisão. O Estado do Piauí está quebrado. O ex-Governador, de maneira irresponsável, assumiu compromissos com obras que não podia pagar, que não podia honrar, e desviou rubricas, colocando dinheiro no caixa único. Desviou essas rubricas para pagamento de pessoal ou outros custeios que não estão claros ainda e deixou várias construtoras no Piauí sem pagamento, e elas paralisaram suas obras.

            Agora, lá está a maior confusão! O Estado é um canteiro de obras inacabadas. A rodoviária de Floriano foi prometida em duas campanhas pelo Governador, mas não foi terminada. O aeroporto de Floriano existe desde a década de 40. Ele trouxe uma empresa de Goiás. Aliás, é preciso que se examinem várias empresas, uma do Rio Grande do Norte, outra de Goiás, outra não sei de onde, que o PT levou de paraquedas para o Piauí e que assumiram algumas obras, em detrimento das empresas locais, sem concorrências claras.

            Esses fatos precisam, de maneira séria, de apuração, porque todos eles são crimes eleitorais. Esses contratos e essas obras foram assinadas às vésperas de eleições com promessa em praça pública. Não há novidade. E aí querem que eu não fale essas coisas, dizem que sou pessimista. Não sou pessimista, não! Não sou é idiota de ver minha gente sendo enganada dia a dia com promessas que não se realizam. A educação, sob a responsabilidade do Estado, está no fundo do poço. A saúde está acabada.

            Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, o Piauí teve uma oportunidade de ouro: o Governador e o Presidente da República são do mesmo Partido. No primeiro mandato, era o único Governador do Nordeste que era do Partido dos Trabalhadores. E nada ganhamos.

            E são ditas mentiras! Anunciam, por exemplo, que a empresa OGK, ligada ao Eike Batista, tem projeto no Piauí, mas, hoje, ela vem com uma nota e desmente. Foi feito o anúncio de investimentos no setor de hotelaria por parte de espanhóis, mas, se vamos atrás disso, vemos que os fatos não são verdadeiros. Não quero que o Piauí volte para o anedotário. Os aeroportos internacionais prometidos não são verdadeiros. A estrada Transcerrado, fundamental para o escoamento da nossa produção, está só na promessa. A BR-020, única obra de Juscelino Kubitschek iniciada, até hoje, cinquenta anos depois, não foi concluída. Seis barragens hidroelétricas foram prometidas, mas nenhuma foi realizada. Quanto à barragem do Castelo, que servirá para a contenção das enchentes no Estado, é só quimera, só promessa.

            E, agora, para completar, nessa última Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), o Presidente da República vetou 75% dos recursos destinados ao Piauí. E os entusiasmados candidatos ao Senado não fazem um pronunciamento de protesto. Aliás, para falar a verdade, nem fizeram sequer uma emenda, o que mostra, por si só, o interesse que têm pelo Estado do Piauí. Imaginem a omissão no Senado da República se não será fatal!

            Faço essas considerações, Sr. Presidente, na certeza de que, queiram ou não, estou cumprindo aqui com meu dever.

            Muito obrigado.


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Este texto não substitui o publicado no DSF de 03/09/2010 - Página 44623