Discurso durante a 113ª Sessão Não Deliberativa, no Senado Federal

Voto de pesar, minuto de silêncio e levantamento da Sessão pelo falecimento do Senador Itamar Franco.

Autor
Lídice da Mata (PSB - Partido Socialista Brasileiro/BA)
Nome completo: Lídice da Mata e Souza
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
HOMENAGEM.:
  • Voto de pesar, minuto de silêncio e levantamento da Sessão pelo falecimento do Senador Itamar Franco.
Publicação
Publicação no DSF de 05/07/2011 - Página 26856
Assunto
Outros > HOMENAGEM.
Indexação
  • HOMENAGEM POSTUMA, ITAMAR FRANCO, SENADOR, ESTADO DE MINAS GERAIS (MG), EX PRESIDENTE DA REPUBLICA, ELOGIO, VIDA PUBLICA, ESPECIFICAÇÃO, CONSOLIDAÇÃO, REDEMOCRATIZAÇÃO.

                          SENADO FEDERAL SF -

            SECRETARIA-GERAL DA MESA

            SUBSECRETARIA DE TAQUIGRAFIA 


            A SRª LÍDICE DA MATA (Bloco/PSB - BA. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão da oradora.) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, certamente assomo à tribuna para também, como os outros oradores, associar-me ao Senado Federal, que, através de nota, já expressou seu voto de pesar aos seus familiares e ao Brasil pela morte do Presidente Itamar Franco.

            Assistindo aos oradores que me antecederam, inclusive V. Exª, pude verificar que aqui já foi registrado muito da vida desse brasileiro, Presidente que nos honrou a todos com sua presença e sua convivência no Senado Federal.

            V. Exª destacou o Itamar constituinte, sempre na defesa dos interesses dos trabalhadores, compondo com os segmentos da esquerda democrática, com os interesses nacionais, porque acima de tudo o Presidente Itamar era um nacionalista, um homem calcado nas ideias de fazer um Brasil soberano.

            Pude ouvir o também brilhante Senador, seu companheiro do Rio Grande do Sul, Pedro Simon, seu líder, que aqui destacou o papel político do Presidente Itamar no processo da transição democrática, as suas convicções pessoais de Presidente, firmado no princípio da impessoalidade do poder; mais uma vez, da soberania nacional; mais uma vez, da honradez e da honestidade à frente do Poder Executivo e da ideia de rejeitar qualquer tipo de beneficiamento pessoal político para si ou para seus familiares.

            E fiquei pensando sobre os três Senadores que também falaram aqui sobre os diversos papéis que o Presidente Itamar desempenhou como político brasileiro e fiquei imaginando que eu teria muito pouco a dizer após as falas de todos os Srs. Senadores que aqui se pronunciaram. Então, resolvi fazer um testemunho pessoal, provinciano, da minha convivência com o Senador e Presidente Itamar Franco, a quem fui levada, no processo de eleição municipal de 1992, pelo Senador Jutahy Magalhães e pelo seu filho, Ministro àquela época, Deputado Jutahy Júnior, para convencer o Presidente Itamar de que, diante de um processo político que se desenvolvia na Bahia, a minha candidatura surgia como o que chamamos da zebra das eleições, com possibilidades de ganhar se conseguisse provar para o povo baiano, ou desconstruir na ideia do povo baiano, o pensamento já implantado durante tantos e tantos anos de que só se poderia governar aquela cidade ou qualquer outra do meu Estado se se estivesse debaixo das asas do poder do Governo Estadual e do Governo central.

            O Governador da Bahia já havia anunciado, e tinha isso como seu principal mote de campanha. E eu, representando as forças de oposição, naquele momento, precisava firmar para o povo baiano a ideia de que era possível sobreviver na Bahia sem estar por baixo, submetida às asas de um poder conservador e ditatorial. E o Presidente Itamar recebeu aquilo, para minha surpresa, com muita simpatia e me disse: “A senhora pode vir, porque eu sou um Presidente republicano e quero garantir que a senhora será recebida, no segundo turno eleitoral [momento em que ele assumia a Presidência da República], por todos os meus ministros; e lhe será garantido, para usar na televisão, que o meu Governo dará tratamento a cidade de Salvador, seja a senhora prefeita, seja o candidato do governador, com igual importância.”

            Essa decisão do Presidente Itamar, afirmada na televisão por diversos dos seus ministros, não tenho dúvida, Sr. Presidente, de que foi fundamental, essencial, para que pudéssemos vencer aquelas eleições. Mas, mais do que vencer aquelas eleições, foi com o Presidente Itamar, avalizando politicamente os embates que tivemos naqueles primeiros dois anos do meu governo, que consegui governar a cidade de Salvador, tendo liberadas as verbas necessárias, já previstas para realizar os investimentos na nossa cidade. Pude visitá-lo e solicitar que ele mantivesse o compromisso de realizar, em Salvador, a Conferência Ibero-Americana, mesmo tendo o governador como adversário do seu governo. E ele mais do que isso fez, apesar de o Ministro de Relações Internacionais, o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso, ser do meu partido e não ter me garantido essa possibilidade e ter dito ainda que o Itamaraty não ia permitir aquilo que eu queria, que era a minha presença, como Prefeita de Salvador, em todos os eventos oficiais do governo, com a participação do Presidente, com os Chefes de Estado de todo o mundo ibero-americano. Como Prefeita da cidade, junto com o governador, numa audiência com o Itamar, ele, de forma simples, como falava sempre, disse-me: “Prefeita, volte. A senhora está garantida, a senhora participará de todas, de absolutamente todas as cerimônias que o governo do Brasil realizar na cidade de Salvador.”

            O Itamaraty não queria. Alguns embaixadores se mostraram escandalizados com aquela decisão do Presidente Itamar, mas ele a manteve até o fim em todas as cerimônias, mesmo o governo do Estado tendo expressado, em todos os momentos, o seu desagrado. Só não podia expressar mais porque sabia que a minha articulação com o Presidente Itamar foi essencial para manter aquele evento em nosso Estado, em nossa cidade.

            Com essa mesma dimensão, o Presidente Itamar enfrentou as tentativas - hoje, inclusive, destacadas na imprensa pela jornalista Eliane Cantanhêde - do ex-Governador Antonio Carlos Magalhães, depois Senador da República, de lhe apresentar um chamado dossiê, método usado por ele muitas vezes, denunciando os adversários baianos, destacadamente o Senador Jutahy e o seu filho, Ministro naquele momento. O Presidente Itamar mandou que o Senador Antonio Carlos fosse à audiência com ele e apresentasse as denúncias. E, chegando lá, toda a imprensa nacional estava a postos para ouvir e ver as denúncias que foram apresentadas, desconstruindo e desmascarando um método absolutamente condenável, antidemocrático e que tanto rejeitamos de fazer política.

            Essa era a forma de fazer política de Itamar Franco. Ele era sincero, direto, comprometido com seus ideais, com seus pensamentos, nacionalista, honrado, honesto e, portanto, digno de exercer o papel que, em apenas dois anos, numa circunstância ocasional que o fez Presidente da República, tornou-o o Presidente que marcou, de forma profunda, a vida nacional, porque foi a Presidência de pouco mais de dois anos do Presidente Itamar que fez com que pudéssemos ter a garantia da estabilidade democrática no Brasil, do ponto de vista político, e, do outro lado, a estabilidade econômica. E, com essas duas vertentes, constituiu o Brasil de hoje.

            Sem a transição democrática do Governo de Itamar Franco, com todas as suas características e, principalmente, com sua firmeza de caráter e de posições políticas, não teríamos o Governo de Fernando Henrique, nem o Governo de Lula, nem o Governo de Dilma.

            Num momento essencial, de crise política nacional, em que não se sabia ao certo sobre o amanhã, Itamar Franco, mesmo sendo considerado por muitos um político cuja forma de fazer política era irreverente e, muitas vezes, inconstante, foi essencial na sua constância, na sua absoluta honradez e, principalmente, na sua firmeza de princípios.

            Portanto, quero me associar à dor dos seus familiares e à de todo o Brasil pela passagem de Itamar, que, em tão pouco tempo, com as mesmas características com que esteve à frente da Presidência da República, esteve aqui, neste Senado. Apesar de a idade já estar avançando, ele foi absolutamente moderno e pegou no ponto nevrálgico da relação política deste Poder Legislativo com o Poder Executivo, que é a forma de tramitação das medidas provisórias aqui, no Senado.

            Viva o Presidente Itamar! Sempre no coração do nosso povo e no do povo mineiro!


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Este texto não substitui o publicado no DSF de 05/07/2011 - Página 26856