Discurso durante a 133ª Sessão Não Deliberativa, no Senado Federal

Preocupação com as denúncias de corrupção recentemente divulgadas; e outros assuntos.

Autor
Mozarildo Cavalcanti (PTB - Partido Trabalhista Brasileiro/RR)
Nome completo: Francisco Mozarildo de Melo Cavalcanti
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
ESTADO DE RORAIMA (RR), GOVERNO ESTADUAL.:
  • Preocupação com as denúncias de corrupção recentemente divulgadas; e outros assuntos.
Aparteantes
Cristovam Buarque, Cyro Miranda.
Publicação
Publicação no DSF de 13/08/2011 - Página 32757
Assunto
Outros > ESTADO DE RORAIMA (RR), GOVERNO ESTADUAL.
Indexação
  • APREENSÃO, ORADOR, DENUNCIA, IRREGULARIDADE, ADMINISTRAÇÃO ESTADUAL, SECRETARIA DE SAUDE, ESTADO DE RORAIMA (RR), AUSENCIA, MATERIAL HOSPITALAR, MEDICAMENTOS, CORRUPÇÃO, TRANSPORTE ESCOLAR, CONSTRUÇÃO, RODOVIA.

            O SR. MOZARILDO CAVALCANTI (PTB - RR. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Senador Acir, é uma honra ocupar esta tribuna com V. Exª presidindo - portanto, um Senador de Rondônia e um Senador de Roraima. Quero também cumprimentar os Senadores aqui presentes, as Senadoras, os telespectadores da TV Senado e os ouvintes da Rádio Senado.

            Sr. Presidente, venho tratar de um tema que, embora possa ficar cansativo e até, para o ouvido de alguns, não ter interesse, é daqueles temas que, como algumas doenças, a gente tem que estar permanentemente atento, evitando contágios e evitando que elas se alastrem no seio da sociedade. Eu falo da corrupção.

            Senador Cyro, eu estou até fazendo um levantamento para ver quantos pronunciamentos eu já fiz denunciando a corrupção em vários setores.

            Inclusive apresentei aqui um projeto de lei para aumentar a pena em caso de corrupção. Aliás, corrupção é um termo sofisticado para dizer roubalheira, para dizer roubo do dinheiro público. É mais um termo, vamos dizer assim, mais filosófico do que prático.

            Até para lembrarmos Rui Barbosa, cujo busto, digamos assim, honra este Senado - Senador que foi -, em 1914, num discurso, da tribuna, disse uma frase mais ou menos assim - não vou dizer que seja ipsis litteris: de tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar o poder nas mãos dos maus, de tanto ver a corrupção grassar, o homem honesto chega, às vezes, a ter vergonha de ser honesto e se desilude da luta. Isso, infelizmente, acontece, Senador Acir, até com os mais jovens. Por quê? Porque eles vêem, a toda hora, a corrupção em todos os setores. E é bom que se diga que não é só no campo político. Mas o campo político é que deveria dar o exemplo de como realmente conduzir a vida pública e cuidar do que é interesse público - e público quer dizer do povo, das pessoas. Mas, no entanto, o que a gente vê, de longa data - citei o exemplo de Rui Barbosa, portanto, desde lá e, aliás, mais para trás ainda -, é a corrupção imperar. Agora, é lógico que ela vai cada vez se aperfeiçoando mais; e, se não há combate permanente, se não há um combate pertinaz, ela não só se sofistica como se alastra.

            Quero aqui parabenizar a Presidente Dilma, pela coragem como está enfrentando essa questão. Talvez outro não tivesse essa coragem, com medo justamente de como aqueles que têm o mandato parlamentar como instrumento para se locupletar dos recursos públicos podem manobrar algumas maiorias criadas de maneira artificial. Às vezes, o Presidente da República tem receio de combater “certos poderosos” que mantêm essa prática de utilizar-se do cargo em proveito próprio, pessoal, e não em benefício daqueles que o elegeram, do povo de um modo geral, principalmente dos mais necessitados.

            Comecei cedo na política, relativamente. Fui Deputado Federal duas vezes, estou no segundo mandato de Senador. E tenho ouvido, Senador Cyro, de alguns amigos até, dizerem para mim: - Mas, rapaz, você é muito tolo. Já está no quarto mandato e o que você tem? Olha o fulano de tal, que entrou ontem e já tem rádio, tem televisão, tem casa, tem mansão, tem fazenda, não só no Estado, mas em vários outros lugares. E eu digo: - Olha, se ser assim significa ser tolo, eu prefiro ser tolo a não ter paz de consciência e não ter, sobretudo, a tranquilidade de que meus filhos nunca terão como herança um nome manchado pela corrupção.

            Mas eu quero aqui aprofundar o tema, no meu Estado, Senador Cyro.

            Nós vimos aí escândalos em vários Ministérios e, em todos eles, no meu Estado, se analisarmos a população do meu Estado, que é a menor do País, a corrupção é campeã.

            Tivemos o caso na Secretaria de Saúde do Estado, em que, por ação do Ministério Público Estadual e Federal, a Polícia Federal fez uma operação chamada Operação Mácula - para traduzir, operação mancha -, uma mancha, mais uma mancha, na área de saúde do meu Estado. Só nos levantamentos preliminares, constatou-se um roubo de R$30 milhões em um Estado como o meu, em que a população precisa de atendimento - como todos os Estados precisam, mas o meu é mais sofrido, pela distância, pela carência. No Hospital Geral, na maternidade e nas outras unidades de saúde, o que campeia, realmente, é o descaso, a falta de equipamentos, a falta de medicamentos. Na educação, não é diferente, Senador Acir; com recursos do Fundeb, há uma série de irregularidades, roubos mesmo, com transporte escolar. E caminha por outros setores, inclusive e principalmente por causa do vulto dos recursos, na questão das rodovias federais.

            Se olharmos o mapa, diríamos até que o meu Estado é um Estado privilegiado em termos de rodovias federais, porque tem uma rodovia principal, que é a BR-174, que une a capital do meu Estado e vai até a fronteira com a Venezuela. Portanto, é a espinha dorsal que corta o Estado de norte a sul, propiciando ao nosso Estado realmente avançar.

            Temos outras estradas tão importantes quanto ela: por exemplo, a 210, que é a antiga perimetral norte, que atravessa, no sentido transversal, a BR-174, servindo a vários Municípios, como Caracaraí, São Luís, Baliza e Caroebe.

            Eu tive a felicidade, Senador Acir, com projetos meus, de federalizar rodovias estaduais, justamente no sentido de conseguir recursos federais para essas rodovias. Uma é a BR-431, que vai do porto de Santa Maria, à margem do Rio Branco, até a rodovia 174, na localidade de Jundiá. Isso seria um espetáculo, pois teríamos a ligação intermodal do transporte: fluvial, porque, até Santa Maria, o rio é navegável todo o ano; e o terrestre. Portanto, criando opções melhores, além de desenvolver aquela região enorme entre Santa Maria e Jundiá.

            Outra rodovia, a BR-432, que liga a rodovia 401, que vai até a fronteira com a Guiana; liga, portanto, o Município de Cantá ao Município de Caracaraí, atravessando uma vasta região produtora do Município de Cantá até o Município de Caracaraí.

            E a BR-433, que liga o Município de Normandia ao Município de Pacaraima, atravessando, portanto, toda a área indígena Raposa Serra do Sol.

            Ora, Sr. Presidente, levantei um quadro dos recursos que foram para Roraima, só de 2007 para cá, que é o período do governo do atual Governador, que assumiu o mandato em 2007, pelo falecimento do Governador Otomar Pinto, e que, depois, reelegeu-se de maneira fraudulenta - tanto que já foi cassado pelo Tribunal Regional Eleitoral de Roraima. Teve a primeira cassação, houve recurso e o Tribunal manteve a cassação. Está aqui para o TSE julgar.

            E ainda existe um número razoável de ações, de pedidos de cassação do mandato desse Governador.

            Pois bem, o que ele tem feito desde quando assumiu? Primeiro, roubado para ser reeleito. E, depois, continua roubando para poder se manter à

             frente do Governo, e, portanto, como ele já tem dito para algumas pessoas, se sair até dezembro ele já está feito na vida.

            Mas olhe só as rodovias federais, o quanto foi passado para o Estado de Roraima. E aqui eu quero frisar. O Ministério dos Transportes e o Dnit fizeram uma delegação para o Governo de Roraima, portanto, o dinheiro é passado integralmente para o Governo de Roraima, que executa as obras e, portanto, aproveita para roubar o dinheiro.

            Em 2007, o Estado de Roraima recebeu R$148,869.190,82, sendo que só para a BR-174 foram R$70 milhões. Em 2008, o Estado recebeu R$127 milhões, sendo que só para a BR-174, essa rodovia que liga o Amazonas, passando por Boa Vista, à fronteira com a Venezuela, recebeu R$105 milhões. Em 2009, o Estado recebeu R$62 milhões. Foi o ano em que o Estado recebeu menos. Desses R$62 milhões, R$38 milhões foram para a BR-174, mas todas as outras rodovias também receberam. 

            A 210, uma rodovia que eu citei já, que liga 4 Municípios no Oeste do Estado, mais ou menos, a 210 é crônica, está recuperação permanente. Em 2010, ano eleitoral, Senador Cyro, o Estado recebeu R$229 milhões para essas rodovias, notadamente, para a BR-174. Dos R$229 milhões, R$156 milhões foram para a BR-174.

            Então, só de 2007 a 2010, Senador Acir, a BR-174 recebeu R$369. 875.916,00. No total, o Governo do Estado recebeu, de 2007 até 2010, R$569 milhões para as rodovias federais, sendo que desses R$569 milhões, só para a rodovia BR-174 foram R$369 milhões. Podemos arredondar, R$370 milhões, porque foram R$369,875 milhões.

            Mas o mais sério ainda é que, além disso, existem recursos da Cide que vão para rodovias estaduais, que totalizam 36 milhões de reais. Fora isso, o Governo contraiu um empréstimo com o BNDES para construção de estradas vicinais, estaduais, que não são as estradas-tronco.

            Portanto, quero pedir à Presidente Dilma que determine uma força-tarefa no Estado de Roraima. Como, no Estado de Roraima, é fácil de apurar as coisas - é pouca gente e as obras são muito mais fáceis de fiscalizar -, ela poderia fazer do Estado de Roraima um exemplo de como limpar a corrupção, porque, como eu já disse aqui, é na saúde, é na educação, é nisso aqui. E pior: na campanha, eu denunciei o Governador, porque ele estava retendo, Senador, o dinheiro que o funcionário público desconta do salário para o Instituto de Previdência. Ele estava retendo para gastar na campanha e depois repor. Fez isso e, agora, recentemente, estava querendo colocar o dinheiro desse Instituto de Previdência, que é dos funcionários, num banco particular, para receber, com certeza, juros maiores, uma compensação maior e, evidentemente, para contabilizar de maneira fraudulenta em favor da roubalheira que se instalou lá. Então, quero aqui reiterar o pedido aos órgãos fiscalizadores para que façam essa força-tarefa no Estado, façam uma varredura e aí, realmente, teremos um Estado saneado em pouco tempo. Se esperarmos o atual Governador e sua equipe, não vai haver, não; vai haver é mais roubo. Eu não fui eleito Senador para contemporizar com isso.

            Fico muito entusiasmado quando vejo que a Presidente Dilma não vai dizer que não soube de roubalheiras, não vai dizer que tem aloprado fazendo. Ela está procurando realmente passar a coisa a limpo. Espero muito que essa operação seja bem forte em todos os Estados brasileiros, mas, notadamente, no meu, porque lá - não vou nem dizer corrupção, Senador Cristovam - o roubo do dinheiro do povo é um absurdo.

            Senador Cyro, com muito prazer, concedo um aparte a V. Exª. Depois, quero ouvir o aparte do Senador Cristovam.

            O Sr. Cyro Miranda (Bloco/PSDB - GO) - Muito obrigado, Senador Mozarildo. Eu fico extremamente contente quando o senhor diz que inúmeras vezes vai a essa tribuna para falar dos desmandos, dos roubos, das falcatruas que estão existindo. Acho que se todos nós continuássemos tendo essa sua postura talvez um dia chegássemos ao final. E é muito bom ouvir do senhor, uma pessoa ilibada, um Senador íntegro que não vai deixar se manchar. Começou a vida política muito cedo e não vai ser agora que o senhor vai deixar se enlamear - muito pelo contrário. Sinto que as críticas que o senhor faz não são de um adversário político, mas de um Senador que gosta de seu Estado, que gosta de seu País, que quer ver esta Nação passada a limpo, quer ver seu Estado... Eu tenho certeza de que o senhor deve se sentir muito triste. V. Exª deve estar muito triste porque se empenha para levar verbas para seu Estado, para suas rodovias, e com o que daria para fazer inúmeras obras só se faz a metade, porque a outra metade é desviada. Então, o senhor faz o seu papel aqui: o senhor vai atrás, o senhor colabora com seu Estado, colabora com seu País e vê esses desmandos. E isso está acontecendo em todos os Estados, de maneira geral. Eu acho que está na hora de dar um basta. Eu o parabenizo pela sua postura. Peço que continue. Devemos todos continuar assim, porque a Presidente Dilma - pela primeira vez estamos vendo - está tomando realmente suas atitudes. Acho que falta um segundo pedaço: a punição. O que me incomoda muito é ver um cidadão ser incomodado pela mídia, constrangido pela mídia durante uma semana, perde seu posto, mas continua bilionário. Isso não pode acontecer. O dinheiro público tem de voltar. Ele tem de pagar isso, devolvendo-o. E, além de devolver, tem de ir para a cadeia, porque lugar de ladrão e de safado é a cadeia! Parabéns, Senador. Fico orgulhoso de ser seu colega e seu amigo. Obrigado.

            O SR. MOZARILDO CAVALCANTI (PTB - RR) - Muito obrigado, Senador Ciro. Fico muito agradecido aV. Exª e emocionado com as palavras de V. Exª.

            Eu tenho dito, às vezes, quando sou questionado em alguns eventos, que, ao contrário do que possa parecer, não é a maioria dos Senadores, não é a maioria dos Deputados que são corruptos. Não! É uma minoria que articula muito bem e que detém realmente o poder de comandar os partidos. Mas essa minoria é uma minoria forte. Mas eu repito: é evidente que o exemplo de combate à corrupção tem de ser dado por quem detém cargo público, eletivo ou não. Eletivo ou não! Ficha limpa deveria ser não só para quem é eleito, não, mas para quem ocupa cargo público de confiança ou é concursado.

            A gente vê a corrupção se generalizar quando vê na rua alguém corrompendo um policial, quando vê um policial corrompendo pessoas para permitir que as coisas passem, fechando os olhos para certas coisas.

            Então, é preciso que a sociedade se conscientize, e mais: que se conscientize de que, se há político corrupto exercendo mandato, é porque ele foi eleito. Pode ter sido eleito com métodos corruptos, métodos em que se comprou a consciência de eleitores, mas eles foram eleitos, e nem sempre são alcançados pela Justiça Eleitoral.

            O que quero dizer aqui é que tem melhorado muito nos últimos tempos; nunca se ouviu falar antes que, por exemplo, um Senador tenha sido cassado, que um Deputado tenha sido cassado, que um Governador de Estado tenha sido cassado pela Justiça Eleitoral, e nos últimos tempos temos visto isso. Lá no meu Estado já foi cassado um, e espero que, dentro em breve, esse que está aí seja cassado porque, realmente, o que ele fez na eleição, antes, durante e depois da eleição, merece realmente a cassação.

            Senador Cristovam, quero ouvir V. Exª, com muito prazer.

            O Sr. Cristovam Buarque (Bloco/PDT - DF) - Senador Mozarildo, sua fala é muito oportuna neste momento. Veja que, hoje, a imagem que nós temos é de que ser político é ser corrupto. Aqui estamos quatro Senadores. Qualquer um daqui pode falar com toda tranquilidade, de peito aberto, contra a corrupção, sem rabo preso. Mas não somos apenas nós. Ontem se sucederam muitos Senadores aqui, Pedro Simon, Pedro Taques, Jarbas Vasconcelos e outros, deixando claro que não apenas queremos apoiar essa faxina, mas queremos outras faxinas e, se for preciso, mais ainda. Então, seu discurso, o aparte do Senador Cyro e outros demonstram que é uma imagem que não corresponde à realidade achar que todos os políticos são corruptos ou até mesmo que são exceções os que não são corruptos. Eu acho que é o contrário. É uma exceção ser corrupto. Só que a exceção, claro, é que aparece, como só sai no jornal quem assalta uma casa. Nós passamos em frente às casas sem assaltar, e não sai no jornal que a gente passou sem assaltar. Não dá notícia passar em frente a uma casa sem assaltá-la. A gente encontra gente todo dia na rua e não a assalta, e não sai nenhuma notícia. A notícia que sai é sobre quem assalta. A notícia que sai hoje na política é sobre quem é corrupto. Isso está provocando, Senador Cyro, uma outra forma de corrupção: a corrupção da ética. Sabe por quê? Porque a ética era para analisar quem não rouba e quem faz projetos a serviço do povo, a serviço do Brasil. Hoje, está-se olhando apenas quem rouba, não quem faz bons projetos, está-se olhando apenas a corrupção do comportamento, não se está olhando a corrupção nas políticas. Há políticas que desviam muito mais dinheiro sem que ninguém roube do que outras políticas. Cito sempre o exemplo de quando se faz um prédio de luxo no lugar de se fazer obras de saneamento. É uma corrupção, mesmo que ninguém roube o dinheiro que vai para o prédio. É uma corrupção nas prioridades. A outra, a construção, com dinheiro público, de prédios de luxo, é uma corrupção nas prioridades. Rouba dinheiro tanto da verba para um prédio de luxo quanto da verba para saneamento, aí é uma corrupção no comportamento. Nós perdemos a perspectiva de que, às vezes, existe uma forma de corrupção mesmo quando não há roubo do dinheiro público, porque ele está indo para coisas que não são necessárias, para investimentos que não estão a favor do povo. Talvez essa seja a coisa mais grave dessa prioridade ao assunto da corrupção no comportamento nos dias de hoje. Um incomoda a cada um de nós que não rouba, porque parece que somos todos iguais. Mas tem uma que incomoda a Nação brasileira, não a nós, mas as futuras gerações, que é o fato de que, hoje, ninguém vê a corrupção nas prioridades. Eu, às vezes, me pergunto, sinceramente, apesar de toda alegria que isto pode dar ao povo, se fazer estádios tão caros no lugar de obras de saneamento não é uma corrupção nas prioridades. Eu ainda fico em dúvida porque alegria tem um valor. Lamentavelmente, tem gente muito alegre com a Copa aqui mesmo sabendo que não vai assistir ao jogo lá dentro, porque vai ser muito caro. Nós vamos assistir a esse jogo pela televisão. Quem vai ali é quem chegar com dinheiro para comprar aquilo, quem já comprou lá fora, pela Internet. É uma minoria. Mesmo assim está trazendo alegria, uma ilusão, claro, a ilusão de que a Copa aqui mudará as coisas. Então, há uma corrupção da mentalidade. A mentalidade ficou corrupta por deixar de ver, de enxergar a corrupção que existe nas prioridades equivocadas. E acho que o seu discurso é muito oportuno para isso. Aqui há alguns Senadores que não temem, que não têm “rabo preso” e que falam contra a corrupção. Outros falaram todos esses dias. Isso não vale, isso não entra. Agora, ninguém está falando da corrupção nas prioridades, mas alguém tem que levantar isso. Existe corrupção, ás vezes, até onde não há roubo, mas há a má aplicação. O pai de família que fica gastando dinheiro em coisas que não são do interesse de família não está roubando, mas está tirando. Ele ganhou o salário, ele não tirou o salário do vizinho, então ele pode ir para o jogo, pode ir para a cachaça, ele pode ir para onde ele quiser, pode ir jogando dinheiro fora. Ele não é ladrão, mas está fazendo uma corrupção. Ele está indo contra os interesses da sua família. O mesmo acontece com o político que não rouba, mas que não trabalha em políticas, em propostas, em projetos de acordo com as necessidades da população. Volto a insistir e termino dizendo que é uma pena que o excesso - se é que a gente pode dizer que é excesso, porque uma coisinha só de corrupção já é excesso -, que essa quantidade de notícias e de fatos... A culpa não está nas notícias, mas nos fatos. A mesma coisa é com as algemas. Eu acho que não é correto colocar algemas em suspeitos, mas ela tem que ser usada em corruptos, ricos ou pobres. Agora, as algemas aparecem mais do que os cofres. Está havendo uma perversão. Está-se ficando contra as algemas, não contra o roubo dos cofres. Está-se ficando contra o uso de algemas. Pode até ser errado colocar algemas em um simples suspeito, mas mais errado do que esse erro é tolerar que alguém use a chave do cofre para tirar dinheiro. Entre quem tem a chave da algema e quem tem a chave do cofre, eu me preocupo mais com quem tem a chave do cofre. Da mesma forma, eu me preocupo tanto com os que roubam e põem dinheiro no bolso quanto com aqueles que... Às vezes, até sem querer, nós, aqui, de repente, aprovamos projetos tão rapidamente que talvez estejamos usando erradamente o dinheiro, mesmo sem nos apropriarmos dele. Agradeço, como Senador, como político que sou neste momento, agradeço o seu discurso. Acho que ele traz um engrandecimento para a nossa atividade. Não chamei de profissão de propósito, porque não acho que seja profissão, mas atividade. Fico contente que o senhor não tenha sido, e nem será, como se diz, o único. Muitos de nós estamos fazendo isso sem qualquer “rabo preso”, sem qualquer titubeio, mesmo que isso às vezes incomode alguns de nossos colegas.

            O SR. MOZARILDO CAVALCANTI (PTB - RR) - Senador Cristovam, agradeço muito o aparte de V. Exª, até porque muitos dos pontos que V. Exª colocou eu tenho discutido com os jovens ou com alguns setores do meu Estado. Alguns dizem: “Senador, não adianta o senhor ficar combatendo, porque fulano de tal rouba, mas traz dinheiro para cá, rouba, mas faz.” Quando ouço isso de um jovem, eu sofro mais. Talvez esse jovem esteja pensando assim porque o pai já se cansou, já perdeu a esperança de mudança, e está passando isso para o filho. Nós ficamos muito preocupados, até porque, como diz V. Exª, há certo tipo de corrupção que não é perceptível nem alcançável por fiscalizações.

            Eu já ouvi de alguns governantes do meu Estado, tanto de Governadores como de Prefeitos, médico que sou, quando argumentei sobre a questão, por exemplo, de saneamento... Saneamento e água potável eliminam, talvez, muito mais do que 50% de certas doenças, principalmente na infância. Sabe o que eles argumentavam? “Olha, essas obras que ficam enterradas não interessam. Isso a gente faz depois. Bonito é fazer um prédio, é fazer algo colossal que seja visível, é pintar meio-fio, ao invés de cavar a rua e fazer o esgotamento ou colocar água.” Isso realmente é, como diz V. Exª, uma corrupção de prioridades, que temos de combater, apesar de haver realmente esse sentimento.

            Eu me recordo de que, no ano passado ou no ano retrasado, eu li uma matéria, na Folha de S.Paulo, sobre uma pesquisa nacional, Senador Cristovam, Senador Cyro, com eleitores de todos os Estados. Setenta por cento dos eleitores admitiram que votaram em determinados candidatos porque receberam algum tipo de favor, desde uma carrada de barro até um emprego temporário, uma dentadura ou coisa parecida. Só vamos mudar isto de ter políticos corruptos quando tivermos o eleitor realmente consciente, o eleitor ficha limpa. Não adianta exigir candidato ficha limpa se temos o eleitor que não é ficha limpa, que vende o voto.

            Então, quero elogiar o trabalho da imprensa tanto por denunciar a compra de votos nas eleições como por denunciar agora a corrupção. E a Presidente Dilma não tem feito, como eu disse, ouvido de mercador. Às vezes, a revista vai estar na banca na sexta ou no sábado e ela já está tomando providência, durante o fim de semana, para apurar as denúncias que estão lá. Isso é realmente cuidar da coisa pública, cuidar do interesse do povo.

            Entendo que nós precisamos fazer, para realmente conter essa questão, uma verdadeira operação de mãos limpas, um mutirão contra a corrupção. A imprensa já está fazendo a sua parte, mas espero que intensifique. É preciso que as famílias passem para os filhos o valor da dignidade, da moralidade. Lembro-me de que meu pai pregava que era até vergonhoso pedir as coisas ao invés de trabalhar para ter essas coisas. É preciso valorizar esses fundamentos do caráter do jovem. As escolas, as igrejas e outras instituições sérias, como Rotaries, Lions e a maçonaria, deveriam se engajar nessa batalha. Todo mundo que souber, o cidadão comum que souber de um ato de corrupção de alguma forma deve denunciar, nem que seja anonimamente. Se você faz a sua parte, mesmo que seja como naquela história do beija-flor levando uma gotinha d’água no incêndio na floresta, já vale a pena.

            Quero encerrar, Senador Acir, dizendo que nós temos, sim, o dever de fiscalizar, não, como disse o Senador Cyro, apenas trazendo aqui denúncia contra um adversário, mas fazendo, de maneira muito clara, baseada em dados, a denúncia dessas corrupções, porque não podemos ficar calados. Martin Luther King dizia que o que o deixava admirado não era o grito dos maus, ou seja, a ousadia, a roubalheira, os malfeitos dos maus, mas, sim, o silêncio dos bons, porque, se há o silêncio dos bons, como ele dizia lá atrás, é evidente que os maus só vão prosperar e, cada vez, mais mandar e desmandar.

            Quero encerrar, Senador Acir, pedindo que V. Exª autorize a transcrição dos quadros desses recursos repassados ao Estado de Roraima e também quero dizer que, durante a próxima semana, vou trazer aqui, repetindo algumas e acrescentando novas, denúncias em relação à administração atual do meu Estado, que, infelizmente, está muito mais preocupada em gastar dinheiro com advogado para empurrar com a barriga a sua cassação, em construir mansões - como ele está construindo em Roraima -, em comprar fazendas, em comprar apartamentos do que, realmente, em cuidar da saúde, da educação, da segurança do povo, do atendimento ao agricultor, enfim, em cuidar de governar seriamente.

            Muito obrigado, e reitero o pedido da transcrição.

 

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DOCUMENTO A QUE SE REFERE O SR. MOZARILDO CAVALCANTI EM SEU PRONUNCIAMENTO.

(Inserido nos termos do art. 210, §1º, inciso II, do Regimento Interno.)

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Matéria referida:

- Tabela Rodovia 2007-2011.


Este texto não substitui o publicado no DSF de 13/08/2011 - Página 32757