Discurso durante a 178ª Sessão Deliberativa Ordinária, no Senado Federal

Homenagem ao padre Roberto Landell de Moura.

Autor
Eduardo Suplicy (PT - Partido dos Trabalhadores/SP)
Nome completo: Eduardo Matarazzo Suplicy
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
HOMENAGEM.:
  • Homenagem ao padre Roberto Landell de Moura.
Publicação
Publicação no DSF de 05/10/2011 - Página 40080
Assunto
Outros > HOMENAGEM.
Indexação
  • HOMENAGEM POSTUMA, ECLESIASTICO, IGREJA CATOLICA, PIONEIRO, TELECOMUNICAÇÃO, PAIS.

            O SR. EDUARDO SUPLICY (Bloco/PT - SP. Pela ordem. Sem revisão do orador.) - Srª Presidente, eu gostaria de fazer um registro sobre o inventor do transmissor de ondas e telefone sem fio, pois na última terça-feira, dia 20 de setembro de 2011, no Pátio das Palmeiras do Colégio Santana, localizado na rua Voluntários da Pátria 2.624, na zona norte da cidade de São Paulo, foi inaugurado um marco alusivo à primeira transmissão de rádio do mundo, feita pelo Padre Landell.

            Parabenizo, na figura de sua Diretora, Professora Gisele Peterson, essa iniciativa que tem como objetivo rememorar o nome do padre-cientista Roberto Landell de Moura, inventor brasileiro do rádio e pioneiro das telecomunicações, ainda ignorado oficialmente pela História do Brasil.

            O padre Roberto Landell de Moura é considerado o pai brasileiro do rádio. Foi pioneiro na transmissão da voz humana sem fio (radioemissão e telefonia por rádio) antes mesmo que outros inventores, como o canadense Reginald Fessenden (dezembro de 1900). Marconi se notabilizou por transmitir sinais de telegrafia por rádio e só transmitiu a voz humana em 1914. Pelo seu pioneirismo, o Padre Landell é o patrono dos radioamadores do Brasil.

            Nascido em 21 de janeiro de 1861, em Porto Alegre-RS, o menino Roberto estudou com os Jesuítas de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, a partir de 1879, seguindo, depois, para a Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Em companhia do irmão Guilherme, foi para Roma, em 1878, para estudar no Colégio Pio Americano e na Universidade Gregoriana. Cursou Teologia, Física e Química e se tornou sacerdote católico em 1886. Em Roma, iniciou os estudos de física e eletricidade.

            Voltando ao Brasil, continuou seus estudos e realizou as primeiras experiências públicas na cidade de São Paulo, no final do século XIX. Exerceu o ministério sacerdotal em Porto Alegre-RS (1887), Uruguaiana-RS (1891), São Paulo-SP (1892) e Campinas-SP (1893). Aliás, foi nessa cidade que, numa tarde, encontrou a porta da casa paroquial arrebentada e seu laboratório e instrumentos completamente destruídos. Em todas essas localidades, ele fazia demonstrações de transmissões da palavra à distância. Na capital paulista, transmitiu sinais sonoros da hoje Avenida Paulista até Santana, numa distância de oito quilômetros.

            Foi o pioneiro na transmissão da voz, utilizando equipamentos de rádio de sua construção patenteados no Brasil, em 1901, e, posteriormente, nos Estados Unidos, em 1904.

            O Padre Landell transmitiu a voz humana por meio de dois veículos; o primeiro, um transmissor de ondas que utilizava um microfone eletromecânico de sua invenção que recolhia as ondas sonoras através de uma câmara de ressonância, onde um diafragma metálico abria e fechava o circuito do primário de uma bobina de Ruhmkorff e induzia, no secundário dessa bobina, uma alta tensão que era irradiada ou através de uma antena ou de duas esferas centelhadoras. A detecção era feita por dispositivos que foram sendo melhorados ao longo do tempo.

            O segundo meio utilizado pelo Padre Landell foi por intermédio do aparelho de telefone sem fio, que utilizava a luz como uma onda portadora da informação de áudio. Nesse aparelho, as variações das pressões acústicas da voz do locutor eram transformadas em variações de intensidade de luz, de acordo com a onda de voz, que eram captadas em seu destino por uma superfície parabólica espelhada em cujo foco havia um dispositivo cuja resistência ôhmica variava segundo as variações da intensidade de luz. No circuito de detecção, havia apenas o dispositivo fotossensível, uma chave, um par de fones de ouvido e uma bateria. Por utilizar a luz como meio de transporte de informação, Landell é considerado um dos precursores das fibras ópticas.

            Também em 1901, no Rio de Janeiro, o inventor solicitou ao Presidente Rodrigues Alves dois barcos para poder demonstrar o seu invento, ocasião em que foi tachado de "maluco e espírita" e teve seu equipamento destruído outra vez. O humilde clérigo foi então exercer o seu ofício religioso em Botucatu e Mogi das Cruzes. Depois, em Porto Alegre, nas paróquias do Menino Deus e do Rosário. Na Itália, quando fez um pedido semelhante, Marconi teve toda a esquadra à disposição.

            Padre Landell morreu em Porto Alegre aos 30 de julho de 1928. Nos escritos teóricos e em suas experiências concretas, há descobertas científicas bem mais avançadas do que as de Marconi. Por falta de compreensão e recursos financeiros, até as patentes sobre seus inventos ficaram no esquecimento.

            O Padre Landell realizou experiências a partir de 1892 e 1893, em Campinas e em São Paulo. O jornal O Estado de S. Paulo noticiou que, em 1899, ele transmitiu a voz humana a partir do Colégio das Irmãs de São José, hoje Colégio Santana, no alto do bairro de Santana, zona norte da capital paulista. Também efetuou demonstrações públicas de seu invento, em 3 de junho de 1900, noticiado assim pelo Jornal do Commercio de 10 de junho de 1900:

No domingo passado, no alto de Santana, na cidade de São Paulo, o padre Landell de Moura fez uma experiência particular com vários aparelhos de sua invenção. No intuito de demonstrar algumas leis por ele descobertas no estudo da propagação do som, da luz e da eletricidade através do espaço, as quais foram coroadas de brilhante êxito. Assistiram a esta prova, entre outras pessoas, Percy Charles Parmenter Lupton, representante do governo britânico, e sua família.

            Notícia que também está no livro Brasil Atual, de 1903, conforme aqui, peço para registrar na íntegra.

            Enfim, Padre Landell foi um homem à frente de seu tempo, um inventor, um cientista, um grande brasileiro.

            Desejo aqui parabenizar a importante iniciativa do Colégio Santana, pelo reconhecimento do Padre Roberto Landell de Moura que, com certeza, ajuda a resgatar nossa história contemporânea.

            Muito obrigada, era o que tinha a dizer, Srª Presidenta.

 

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SEGUE, NA ÍNTEGRA, PRONUNCIAMENTO DO SR. SENADOR EDUARDO SUPLICY

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            O SR. EDUARDO SUPLICY (Bloco/PT - SP. Sem apanhamento taquigráfico.) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, na última terça-feira, dia 20 de setembro de 2011, no Pátio das Palmeiras do Colégio Santana, localizado na rua Voluntários da Pátria 2.624, no bairro de Santana, na zona norte da cidade de São Paulo, foi inaugurado um marco alusivo à primeira transmissão de rádio do mundo, feita pelo Padre Landell. Parabenizo, na figura de sua diretora, Professora Gisele Peterson, essa iniciativa que tem como objetivo rememorar o nome do padre-cientista Roberto Landell de Moura, inventor brasileiro do rádio e pioneiro das telecomunicações, que ainda é ignorado oficialmente pela História do Brasil.

            O padre Roberto landell de Moura é considerado o pai brasileiro do Rádio. Foi pioneiro na transmissão da voz humana sem fio (radioemissão e telefonia por radio) antes mesmo que outros inventores, como o canadense Reginald Fessenden (dezembro de 1900). Marconi se notabilizou por transmitir sinais de telegrafia por rádio; e só transmitiu a voz humana em 1914. Pelo seu pioneirismo, o Padre landell é o patrono dos radioamadores do Brasil.

            Nascido em 21 de janeiro de 1861, em Porto Alegre-RS, o menino Roberto estudou com os Jesuítas de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, a partir de 1879, seguindo, depois, para a Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Em companhia do irmão Guilherme, foi para Roma, em 1878, para estudar no Colégio Pio Americano e na Universidade Gregoriana. Cursou Teologia, Física e Química e se tornou sacerdote católico em 1886. Em Roma, iniciou os estudos de física e eletricidade.

            Voltando ao Brasil, continuou seus estudos e realizou as primeiras experiências públicas na cidade de São Paulo, no final do século XIX. Exerceu o ministério sacerdotal em Porto Alegre-RS (1887), Uruguaiana-RS (1891), São Paulo-SP (1892), Campinas-SP (1893). Aliás, foi nessa cidade que, numa tarde, encontrou a porta da casa paroquial arrebentada e seu laboratório e instrumentos completamente destruídos. Em todas essas localidades, ele fazia demonstrações de transmissões da palavra à distância; na capital paulista, transmitiu sinais sonoros da hoje Avenida Paulista até Santana, numa distância de 8 quilômetros.

            Foi o pioneiro na transmissão da voz, utilizando equipamentos de rádio de sua construção, patenteados no Brasil em 1901, e, posteriormente, nos Estados Unidos em 1904. O Padre Landell transmitiu a voz humana por meio de dois veículos; o primeiro, um transmissor de ondas que utilizava um microfone eletromecânico de sua invenção que recolhia as ondas sonoras através de uma câmara de ressonância onde um diafragma metálico abria e fechava o circuito do primário de uma bobina de Ruhmkorff, e induzia no secundário dessa bobina uma alta tensão que era irradiada ou através de uma antena ou de duas esferas centelhadoras. A detecção era feita por dispositivos que foram sendo melhorados ao longo do tempo.

            O segundo meio utilizado pelo Padre foi por meio do aparelho de telefone sem fio, que utilizava a luz como uma onda portadora da informação de áudio. Neste aparelho, as variações das pressões acústicas da voz do locutor eram transformadas em variações de intensidade de luz, de acordo com a onda de voz, que eram captadas em seu destino por uma superfície parabólica espelhada em cujo foco havia um dispositivo cuja resistência ohmica variava segundo as variações da intensidade de luz. No circuito de detecção havia apenas o dispositivo fotossensível, uma chave, um par de fones de ouvido e uma bateria. Por utilizar a luz como meio de transporte de informação, Landell é considerado um dos precursores das fibras ópticas.

            Também em 1901, no Rio de Janeiro, o inventor solicitou ao Presidente Rodrigues Alves dois barcos para poder demonstrar o seu invento; ocasião em que foi tachado de "maluco e espírita" e teve seu equipamento destruído outra vez. O humilde clérigo foi então exercer o seu ofício religioso em Botucatu-SP e Mogi das Cruzes-SP. Depois, em Porto Alegre-RS, nas paróquias do Menino Deus e do Rosário. (Apenas como registro, Na Itália, quando fez um pedido semelhante, Marconi teve toda a esquadra à disposição).

            Padre Landell morreu em Porto Alegre aos 30 de julho de 1928. Nos escritos teóricos e em suas experiências concretas há descobertas científicas que eram bem mais avançadas do que as de Marconi. Por falta de compreensão e recursos financeiros, até as patentes sobre seus inventos ficaram no esquecimento.

            O Padre Landell realizou experiências a partir de 1892 e 1893, em Campinas e em São Paulo. O jornal O Estado de S. Paulo noticiou que, em 1899, ele transmitiu a voz humana a partir do Colégio das Irmãs de São José, hoje Colégio Santana, no alto do bairro de Santana, zona norte da capital paulista. Também efetuou demonstrações públicas de seu invento no dia 3 de junho de 1900, sendo noticiada pelo Jornal do Commercio de 10 de junho de 1900:

No domingo passado, no alto de Santana, na cidade de São Paulo, o padre Landell de Moura fez uma experiência particular com vários aparelhos de sua invenção. No intuito de demonstrar algumas leis por ele descobertas no estudo da propagação do som, da luz e da eletricidade através do espaço, as quais foram coroadas de brilhante êxito. Assistiram a esta prova, entre outras pessoas, Percy Charles Parmenter Lupton, representante do governo britânico, e sua família.

            Em 1903, Arthur Dias, em seu livro "Brasil Actual", faz referência a Landell de Moura, descrevendo, entre outras coisas, o seguinte:

... logo que chegou a S. Paulo, em 1893, começou a fazer experiências preliminares, no intuito de conseguir o seu intento de transmitir a voz humana a uma distância de 8, 10 ou 12 km, sem necessidade de fios metálicos.

Após alguns meses de penosos trabalhos, obteve excelentes resultados com um dos aparelhos construídos. O telefone sem fios é reputado a mais importante das descobertas do Padre Landell, e as diversas experiências por ele realizadas na presença do vice-cônsul inglês de S. Paulo, Sr. Percy Charles Parmenter Lupton, e de outras pessoas de elevada posição social, foram tão brilhantes que o Dr. Rodrigues Botet, ao dar notícias desses ensaios, disse não estar longe o momento da sagração do Padre Landell como autor de descobertas maravilhosas.

            O êxito das experiências do Padre Landell não tiverem a devida acolhida das autoridades brasileiras da época, conforme se verifica em reportagem publicada no jornal La Voz de Espana, (editado em S. Paulo), no dia 16 de dezembro de 1900, que diz:

quantas e que amargas decepções experimentou Padre Landell ao ver que o governo e a imprensa de seu país, em lugar de o alentarem com aplauso, incentivando-o a prosseguir na carreira triunfal, fez pouco ou nenhum caso de seus notáveis inventos.

            Padre Landell foi um homem à frente de seu tempo, um inventor, um cientista, um grande brasileiro. Mais uma vez desejo parabenizar essa importante iniciativa do Colégio Santana, pelo reconhecimento do Padre Roberto Landell de Moura que, com certeza, ajuda a resgatar nossa história contemporânea.


Este texto não substitui o publicado no DSF de 05/10/2011 - Página 40080