Discurso durante a 223ª Sessão Especial, no Senado Federal

Comemoração do centenário de nascimento do compositor e cantor Luiz Gonzaga.

Autor
Romero Jucá (PMDB - Movimento Democrático Brasileiro/RR)
Nome completo: Romero Jucá Filho
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
HOMENAGEM.:
  • Comemoração do centenário de nascimento do compositor e cantor Luiz Gonzaga.
Publicação
Publicação no DSF de 04/12/2012 - Página 65384
Assunto
Outros > HOMENAGEM.
Indexação
  • HOMENAGEM, CENTENARIO, ANIVERSARIO DE NASCIMENTO, LUIZ GONZAGA, MUSICO, ESTADO DE PERNAMBUCO (PE), CONTRIBUIÇÃO, OBRA MUSICAL, DESENVOLVIMENTO CULTURAL, PAIS, VALORIZAÇÃO, CULTURA, REGIÃO NORDESTE.

            O SR. ROMERO JUCÁ (Bloco/PMDB - RR. Sem apanhamento taquigráfico.) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, Gonzaga trouxe o Nordeste para o Brasil. Referenciou o mundo na cultura popular nordestina no Sul maravilha e a transformou em um elemento da reconfiguração identitária de nosso País. Com ele, o brasileiro passou a ser compreendido de forma mais abrangente, incorporando as matrizes culturais nordestinas na moldagem da visão de mundo nacional.

            A biografia de Lua, apelido pelo qual era reconhecido o filho de Januário e de Santana, é uma trama sertaneja digna das paragens do Exu, repleta daqueles ingredientes que transformariam o sertão em uma referência tantas vezes reelaborada em nossa cultura, contrastando o regime da carência e da privação de coisas materiais com a riqueza da vivência e a fertilidade das práticas culturais locais. De Euclides da Cunha a Capistrano de Abreu, muitos quiseram definir a alma sertaneja, mas Gonzaga a capturou na sua modalidade mais sensível, a expressão musical.

            O destino de Gonzaga é uma trama sertaneja também no sentido de sintetizar, no percurso de uma vida, o fenômeno massivo da modernização brasileira, que transformou o Brasil rural e tradicional em outra sociedade, urbana e mais aberta. Essa alteração trouxe consigo o êxodo rural, o deslocamento de multidões de sertanejos para as áreas mais desenvolvidas do Centro Sul.

            A trama sertaneja de Gonzaga explica a sua educação musical, matriz da mesma experiência cultural que permitiu ao sertão constituir-se na fonte transbordante dos mestres do patrimônio imaterial, nascidos no caldo do xote, do baião, do repente, do coco e de tantas outras expressões musicais e coreográficas conhecidas nacionalmente e alhures.

            Gonzaga, Srªs e Srs. Senadores, emancipou a cultura sertaneja do isolamento em que se encontrava, espremida pela marginalização das elites, não apenas locais e regionais, mas, sobretudo, do Sul maravilha, que compreendiam aquela manifestação cultural como o subproduto daquilo que se queria, à época, negar ou esconder, as mazelas de um País subdesenvolvido e periférico.

            Quando Lua estourou com seu baião e o seu xote, a nossa cultura era extremamente permeável a modelos importados, afeita a estrangeirismos, a modas e modos concebidos nos polos desenvolvidos do mundo ocidental e vendidos, aqui, com a aura da superioridade e da modernidade, revelando os recalques de uma sociedade de terceiro mundo.

            Gonzaga transformou esses hábitos culturais, inserindo a cultura sertaneja no mass media, criando aquelas condições que patrocinariam produtos culturais populares e nacionais à condição de produtos da cultura de massa, um dos vetores da vibrante economia criativa nacional. Com isto, nosso País ficou melhor, pois passou a valorizar práticas culturais genuinamente nossas.

            Isto contribuiu sobremaneira para conferir cidadania ao modo de ser nordestino, fazendo transbordar o orgulho de ser nordestino. Não menos importante, também permitiu a abertura, divulgação e documentação do Brasil até então escondido e envolto em névoas, provavelmente o País que melhor se identifica nas matizes da cultura popular, a fonte básica dos modos de expressão cultural marcados pela diversidade e tolerância, marcas duradouras da cultura nacional.

            E ele conseguiu a enorme proeza de repercutir, com a sua criação, o que seria o sonho de todo grande artista: fazer com que a sua obra contribua para a memória afetiva coletiva de nosso País, misturando as vivências pessoais de cada um de nós, brasileiros, com as evocações produzidas pela expressão artística que singulariza o criador.

            Gostaria muito que esta homenagem fosse lida como um gesto de carinho e afeto da sociedade brasileira para com Gonzaga. Esse gesto, ainda que tardio e imperfeito, para quem alçou a cultura sertaneja à condição de elemento essencial da construção da identidade brasileira, para quem ajudou a construir o Brasil naquilo que é mais intangível na formação da alma de um País, o seu jeito específico de ser, de se compreender e de situar perante o mundo; esse gesto, reafirmo, Srªs e Srs. Senadores, traduz o sentimento desta Casa de sempre estar com as portas abertas para reverenciar a memória de um dos maiores nomes de nossa cultura.

            Muito obrigado, Luiz Gonzaga!


Este texto não substitui o publicado no DSF de 04/12/2012 - Página 65384