Discurso durante a 228ª Sessão Não Deliberativa, no Senado Federal

Reverência à memória e à trajetória do arquiteto Oscar Niemeyer, falecido anteontem.

Autor
Renan Calheiros (PMDB - Movimento Democrático Brasileiro/AL)
Nome completo: José Renan Vasconcelos Calheiros
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
HOMENAGEM.:
  • Reverência à memória e à trajetória do arquiteto Oscar Niemeyer, falecido anteontem.
Publicação
Publicação no DSF de 08/12/2012 - Página 67595
Assunto
Outros > HOMENAGEM.
Indexação
  • HOMENAGEM POSTUMA, OSCAR NIEMEYER, ARQUITETO, CRIADOR, OBRA PUBLICA, BRASILIA (DF), ELOGIO, VIDA PUBLICA, COMENTARIO, BIOGRAFIA, PROJETO ARQUITETONICO.

            O SR. RENAN CALHEIROS (Bloco/PMDB - AL. Sem apanhamento taquigráfico.) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, é com a mais elevada honra que ocupo hoje a tribuna desta Casa para reverenciar a memória e a trajetória de um dos homens mais ilustres do Brasil, Oscar Niemeyer Soares Filho, que nos deixou, na noite de ontem, na cidade do Rio de Janeiro, às vésperas de completar 105 anos.

            O grande arquiteto brasileiro nasceu no dia 15 de dezembro de 1907, na cidade do Rio de Janeiro, então Distrito Federal. Até o final da longa vida, era ativo profissionalmente e atuava, todos os dias, em seu escritório.

            Revisava projetos em gestação e em execução, e costumava fiscalizar, pessoalmente, canteiros abertos. Deixava-se fotografar em suas inspeções, concedia entrevistas diariamente a inúmeros jornais e revistas do mundo inteiro, e, quase sempre, não perdia a oportunidade de manifestar a sua opinião política e ideológica sobre os destinos do mundo e sobre os rumos da democracia brasileira.

            Independentemente de formação ideológica, de manifestações públicas favoráveis ou contrárias a tais e quais assuntos políticos, económicos, sociais e morais, não tenho dúvida de que as opiniões de Oscar Niemeyer devem sempre servir de reflexão.

            Realmente, o reconhecimento da grandeza do arquiteto e do cidadão continua maior do que a dimensão do seu engajamento político, ideológico e social. Entretanto, acho que as duas qualidades sempre se complementaram e foram suficientes para transformar o grande homem em um exemplo de vida.

            Dessa maneira, gostaria de falar, daqui para frente, desse lado mais humano, político -- diferente, é claro, da solidão das mesas de desenho e das discussões sobre a viabilidade ou não de determinado projeto inovador.

            Algum tempo atrás, em uma de suas entrevistas, Oscar Niemeyer afirmou: "… Temos que crescer, viver com simplicidade, com os filhos, ter amizade pelas pessoas. O importante não é o sujeito ver as pessoas procurando adivinhar os defeitos, mas admitindo que todo mundo tem um lado bom (…).

            "Acho que a felicidade do povo é ter uma casa para morar, e ter o suficiente para comer e levar a vida decentemente."

            "Isso não tem nada a ver com arquitetura. A arquitetura não muda a vida, mas a vida pode mudar a arquitetura".

            A simplicidade de Oscar Niemeyer, a sua solidariedade para com os oprimidos, o seu exemplo de justiça e bondade, a firmeza de suas convicções e a determinação de cumprir a sua missão, até o fim totalmente fiel aos seus princípios éticos e morais, é uma referência valiosa para o Brasil e para o povo brasileiro.

            Assim, sua imagem de lutador e sua vontade inquebrantável de não se deixar abater pelo tempo e pelos rigores da vida já está gravada, para sempre, nos corações e mentes de boa parte de homens e mulheres, em todos os continentes.

            Durante a sua vida, sempre encontrou tempo para se manifestar em defesa dos direitos civis, da igualdade, da liberdade e da democracia. Vale ressaltar, nobres colegas Senadoras e Senadores, que tal comportamento, durante toda a sua existência, lhe rendeu perseguições e censura às suas obras, ideias e vida social.

            Apesar de tudo, mesmo sofrendo os sucessivos golpes desfechados pelos que discordavam radicalmente de suas convicções, em nenhum instante, nos momentos mais delicados da vida institucional brasileira, recuou em seu trabalho dedicado à modernidade, ao progresso das artes e da cultura, à política e ao avanço das reformas estruturais, com o objetivo de tornar mais civilizadas as relações entre os homens.

             Muitos dos seus colegas e amigos reconhecem que nunca foi fácil, para Niemeyer, trabalhar e defender esses ideais, em um País do Terceiro Mundo, politicamente instável e conservador em relação às novas ideias, sobretudo, as mais avançadas.

            Porém, Niemeyer sempre demonstrou uma incrível capacidade de gerar inovação e de ousar, em projetos de grande porte. Além de tudo, soube aonde pretendia chegar e, em inúmeras vezes, chegou até onde ninguém havia conseguido.

             Mas, o mais admirável, é que ele conquistou todos esses espaços sem abrir mão de sua enorme solidariedade, que sempre esteve inseparável da obra grandiosa que construiu ao longo de sua vida profissional, plena de criatividade.

            Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, como podemos verificar, o arquiteto Oscar Niemeyer foi um humanista, um homem extremamente preocupado com a vida, com a sociedade, com a felicidade e com a liberdade humana.

            Dessa maneira, costumava repetir, em suas intervenções públicas, que qualquer ameaça contra o homem e contra a justiça o atingia diretamente. Costumava dizer, ainda, que o respeito à vida era o fundamento de qualquer direito, inclusive o da liberdade.

            Em suas manifestações sobre a concórdia e o fim da violência, lembrava que a simples ausência de guerra não significava uma paz verdadeira.

            Dessa forma, para ele, a paz só poderia ser efetiva se viesse acompanhada de igualdade, verdade, justiça e solidariedade.

            Sobre a juventude, não se esquecia de dizer que os jovens reuniam todas as possibilidades de mudar o status quo e que eles detinham a maior força para promover a paz, o direito, as responsabilidades sociais futuras e a fraternidade entre os indivíduos.

            Assim, na visão do eminente arquiteto, para a construção de um mundo novo e solidário, as tarefas primordiais a serem cumpridas estavam nas mãos da juventude.

            Ao completar um século de vida, Oscar Niemeyer recebeu um grande prémio em reconhecimento ao seu talento.

            Seu nome figurou, em nono lugar, em uma lista que reunia os "100 Maiores Génios Vivos", selecionados pela empresa de consultoria Global Synectics.

            A escolha levava em consideração fatores como opinião popular, poder intelectual, realizações e importância cultural.

            De acordo com a empresa Consultora, Niemeyer foi agraciado porque era um dos maiores nomes da arquitetura mundial. Além disso, ele era reconhecido como um pioneiro, que teve a capacidade de explorar, a fundo, as possibilidades de construção do concreto armado.

            Gostaria de finalizar, eminentes colegas Senadoras e Senadores, lembrando uma declaração marcante do nosso arquiteto maior: "Não é o ângulo reto que me atrai.

            Nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual.

            A curva que encontro nas montanhas do meu País, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, nas nuvens do céu, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo/'

            Era o que tinha a dizer. Muito obrigado.


Este texto não substitui o publicado no DSF de 08/12/2012 - Página 67595