Pronunciamento de Diógenes da Cunha Lima em 18/03/2013
Discurso durante a 31ª Sessão Especial, no Senado Federal
Homenagem à memória intelectual e à carreira política de Ronaldo Cunha Lima, falecido em 7 de julho de 2012.
- Autor
- Diógenes da Cunha Lima
- Casa
- Senado Federal
- Tipo
- Discurso
- Resumo por assunto
-
HOMENAGEM.:
- Homenagem à memória intelectual e à carreira política de Ronaldo Cunha Lima, falecido em 7 de julho de 2012.
- Publicação
- Publicação no DSF de 19/03/2013 - Página 10848
- Assunto
- Outros > HOMENAGEM.
- Indexação
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- HOMENAGEM POSTUMA, RONALDO CUNHA LIMA, EX SENADOR, ESTADO DA PARAIBA (PB), ELOGIO, VIDA PUBLICA, ATUAÇÃO, ESCRITOR, COMENTARIO, RELAÇÃO, PROXIMIDADE, ORADOR, EX-CONGRESSISTA.
O SR. DIÓGENES DA CUNHA LIMA - Fazendo a nossa saudação ao nobre Presidente, Senador Cícero Lucena, ao talento do Ministro Herman Benjamin, à nobre Mesa, aos Senadores, cumpro o adiantado da hora, reduzindo a um quarto o que desejaria dizer. Quatro minutos.
“Só viverá o homem novo, não importa quando, um dia, se os que por ele sofremos formos capazes de ser semente e flor desse homem”. Isso é do meu novo velho amigo Thiago de Mello.
Quem conheceu Ronaldo sabe que ele foi homem público, um político destemido sem ser insolente e altivo sem arrogância. Cultivava os valores nobres, decência, firmeza, generosa solidariedade, espiritualidade. Tudo isso no tempo em que se verifica a lentidão das virtudes e a velocidade do mal.
Foi poeta em tempo integral, ser humano transparente, sempre confiável. Sua memória era admirável. Essa extrema habilidade era usada para identificar-se com pessoas, lembrar episódios significativos, pitorescos, momentos de intenso lirismo, de contagiante bom humor.
Noto que não há política sem fantasia, mas ele soube dar à fantasia a sólida base da verdade, da realização. O viver presenteou Ronaldo com o benefício da beleza, para fazer coisas antes inexistentes. Animar pessoas: sempre a construção nascida do otimismo, do sonho. Ele foi a encarnação exata da lição de Shakespeare: da substância dos nossos sonhos somos feitos.
Ronaldo Cunha Lima exibiu orgulho de ser brasileiro. Era sua a hierarquia das lealdades ao Brasil, ao Nordeste, à Paraíba, à Campina Grande, à Gurabira, onde nasceu. É certo que ele era um devoto. A Paraíba era a sua religião e Campina, a sede do seu coração.
Está na editora a biografia que lhe escrevi, e tem um título múltiplo, de múltiplo sentido: Ronaldo Cunha Lima, um nordestino de todo canto.
Teve a sua glória e a glória dos seus filhos: Cássio, Ronaldinho, Savigny, Glauce.
A nossa amizade, que transforma primos em irmãos, teve início quando fizemos a primeira comunhão, em João Pessoa.
Ronaldo, Odir, Terezinha e eu, nas bodas de ouro dos nossos avós paternos, os poetas João da Cunha Lima e Maria José da Cunha Lima, ambos poetas.
Corto uma parte.
Tia Nenzinha, depois da tragédia da morte de tio Demóstenes, comandava, exigindo a participação de todos os filhos. Eram 11.
Ronaldo foi entregador de jornais e serviu como garçom no bar do irmão mais velho, Aluísio. Esse fato lhe serviu pela vida toda.
Lembro o episódio em que uma mulher interpelou o então Senador, dizendo que ele estava importante demais, que o conhecera como garçom.
Ronaldo respondeu: “Foi desse tempo, minha querida, que nasceu a minha vocação de servir. Servir é o que eu sei fazer.”
As carências dessa época, ainda que depois transformadas em sonhos e fantasias, são registradas em poema, talvez um dos mais belos da Língua Portuguesa:
Meus sonhos infantis não foram belos.
Eu não pude sequer fazer castelos
Porque no meu quintal faltava areia.
Palavras de Ronaldo.
Apresento, aqui, quem era Ronaldo dito por ele mesmo.
O texto citado é resposta à pergunta que lhe fiz no programa Memória Viva, da TV Universitária de Natal. É simples:
Você vive o ambiente em que respira política, aquilo me transmite. Meu avô, nosso avô, era um político na essência da sua expressão. Grande orador, grande poeta. E ele transmitia a sua vivência, o seu dia a dia, os comentários políticos, depois do período da parte mais agitada da política daquela época, em Areia, os meus familiares de Areia, e você vai ouvindo aquilo, respirando aquilo. Depois meu pai morreu, minha mãe fica contando os episódios da vida política dele, os episódios da família como um todo. Isso vai transmitindo evidentemente esse sentimento, essa vocação. E digo, Diogenes, até porque hoje, no instante em que a classe política perde de forma muito acentuada a sua credibilidade, eu sempre tenho dito que política só deve ser exercida como um sacerdócio, nunca como um negócio. Política feita assim por vocação, por doação. E é isso que eu tenho feito, procurado fazer para corresponder essas expectativas. Ainda ontem, aqui em Natal, quando citando numa oportunidade a uma pergunta que me foi feita mais ou menos assim, qual a minha vocação verdadeira, se era com a poesia, se era com a advocacia, com o direito ou era com a política, eu disse que a minha vida tão agitada, enfrentando empecilhos e embaraços, eu disse que pensando bem, eu acho que a minha vocação maior era ser ascensor de elevador, que a minha vida é subir e descer. Mas subir e descer com absoluta fidelidade aos meus princípios, aos meus ideais, a uma postura que, colocada a modéstia aqui de lado, me tem credenciado a pelo menos resgatar a credibilidade da classe política.
O verso para Ronaldo era mais que fruto da inspiração, era simples como respirar. O poema nascia para a mulher companheira, para as mulheres, os amigos, as crianças, crescia nos comícios, nas reuniões familiares, nos lares, nos bares, nas ruas, nos atos de governo, nos parlamentos, nas festas e nas depressões emocionais. O poema era a sua consciência, forma de comunicar a sua compreensão e solidariedade, visão da realidade circunstante.
Tinha o riso limpo e a palavra convicta. Compreendia com Albert Camus que o poder é triste. Mas conservava, em qualquer circunstância, ser um simples homem do povo, o respeito à pessoa, o bom humor, criando e divulgando histórias engraçadas, sabidas, o inesperado. Assim o retrata o escritor paraibano Juarez Farias: "Ele não se colocava acima de ninguém. Quer um exemplo? A minha mãe dizia que eu não tinha tempo de conversar com ela, mas Ronaldo sentava junto da máquina de costura dela e conversava meia hora sobre costura".
Duas anedotas mostram o seu espírito:
Anoitecendo, Ronaldo, com Humberto Lucena e Antônio Mariz, toma um avião para ir a Cajazeiras. Após algum tempo, o piloto anuncia que os instrumentos do avião não estavam respondendo. Iria fazer pouso forçado, mas não haveria perigo porque voavam sobre um grande descampado. Mesmo assim, tirassem os óculos e colocassem a cabeça baixa sobre as pernas.
Ronaldo cai na gargalhada. O senador Humberto, irritado, reclama: “Deixe de histerismo Ronaldo! Nós vamos cair e você fica rindo dessa maneira!”
“Eu só estou rindo porque imagino as manchetes dos jornais de João Pessoa de amanhã: Cai avião e só Ronaldo escapa.” (Risos.)
Quando governador, disseram-lhe que haviam quebrado a viola do cantador Pinto do Monteiro (1895-1980). Ronaldo compra a viola mais bonita que existia no comércio e vai entregar na casa do cantador. Pinto, maravilhado, verseja - a curiosidade é que não era quadrinha nossa, ele fez uma quintilha bem estilo espanhol.
Ronaldo da Cunha Lima:
Poeta de alma aberta
Amigo de alma larga
É cunha que não aperta
É lima que não amarga
Nesta Casa, líderes incontestes ensinaram ao País quem foi Ronaldo.
Relembro os testemunhos do meu querido - vou pular o que registrei - Senador José Agripino; ele foi colega de Aloysio Nunes, de Pedro Simon, de Renan Calheiros, do Presidente Sarney, por fim, do Eduardo Campos, que registro, por ser curto. Dá relevo à dedicação, à sua política e ao nosso homenageado.
Ele foi um exemplo, para minha geração, um amigo que tudo fez para a redemocratização do País. Ronaldo era consciente de que tinha feito coisas dignas de memória, apesar da brevidade do destino.
Linguagem de Ronaldo: foi breve, muito breve a nossa história, mas o bastante para ser lembrada.
Ronaldo é luz no caminho de Cássio, dos amigos incontáveis, a mesma luz que ajudará seu irmão Ivandro Cunha Lima a honrar este Senado e a transformar o vitorioso empresário Ronaldinho em político vitorioso.
Afirmo, sem medo de errar, a verdade poeta: boas coisas acontecerão se formos capazes de ser semente e flor desse homem.
Muito obrigado. (Palmas.)