Comunicação inadiável durante a 41ª Sessão Deliberativa Ordinária, no Senado Federal

Lembrança dos cinquenta anos das Quarenta Horas de Anjicos, experiência educativa de Paulo Freire no Rio Grande do Norte.

Autor
Paulo Davim (PV - Partido Verde/RN)
Nome completo: Paulo Roberto Davim
Casa
Senado Federal
Tipo
Comunicação inadiável
Resumo por assunto
HOMENAGEM, EDUCAÇÃO.:
  • Lembrança dos cinquenta anos das Quarenta Horas de Anjicos, experiência educativa de Paulo Freire no Rio Grande do Norte.
Aparteantes
Cristovam Buarque.
Publicação
Publicação no DSF de 04/04/2013 - Página 14721
Assunto
Outros > HOMENAGEM, EDUCAÇÃO.
Indexação
  • HOMENAGEM, ANIVERSARIO, EXPERIENCIA, METODO, ALFABETIZAÇÃO, EDUCAÇÃO, POPULAÇÃO, ANALFABETO, MUNICIPIO, ANGICOS (RN), ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE (RN), ELOGIO, PROFESSOR, AUTOR, EXPERIMENTAÇÃO.

            O SR. PAULO DAVIM (Bloco/PV - RN. Para uma comunicação inadiável. Sem revisão do orador.) - Srª Presidente, Srªs Senadoras, Srs. Senadores, eu faço, na tarde de hoje, desta tribuna, um registro muito importante.

            Nós, lá do Estado do Rio Grande do Norte, estamos comemorando, estamos vivenciando as 40 horas de Angicos. Muitos dos que me ouvem e que me assistem e alguns dos senhores, suponho, não têm conhecimento do que significam as 40 horas de Angicos, mas eu vou explicar.

            No Rio Grande do Norte, há um Município no Sertão potiguar que se chama Angicos. Em Angicos, em 1963, 75% de sua população era analfabeta. No início de 1963, um educador pernambucano fez chegar a essa cidade um novo método de alfabetização, o Método Paulo Freire.

            Numa Kombi, 18 jovens saíram da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, levaram algumas horas para chegar ao Sertão potiguar, ao Município de Angicos, e começaram um trabalho de visitação na região rural e até mesmo na zona urbana, convidando jovens e adultos a frequentarem uma escola para aprender a ler. A magia desse método era alfabetizar em 40 horas.

            O método se utilizou de palavras que faziam e fazem parte do cotidiano do homem do campo, do homem do interior, palavras do seu universo. Esses jovens, executando o método revolucionário do Prof. Paulo Freire, na sua primeira experiência, em apenas 40 horas, alfabetizaram 300 adultos nesse pobre Município do interior do Rio Grande do Norte.

            O método ficou famoso, recebeu recursos da Sudene, de organismos internacionais e chamou atenção dos olhares de todo o Brasil, de jornalistas, de educadores, de autoridades. Todos se voltavam para Angicos, que, com seu método revolucionário, alfabetizava jovens e adultos em apenas 40 horas.

            Naquela ocasião, o Governador do Estado era Aluizio Alves. Mas, em seguida, veio 1964, e todos sabem o que aconteceu nesse fatídico ano: implantou-se o regime militar, o governo militar, e foi dado fim a essa experiência exitosa. O Prof. Paulo Freire foi preso e exilado.

(Soa a campainha.)

            O SR. PAULO DAVIM (Bloco/PV - RN) - O Governador da época, Aluizio Alves, teve o seu mandato cassado; o Prof. Marcos Guerra, que foi coordenador dessa experiência em Angicos, da mesma forma, foi perseguido e exilado, e todas aquelas pessoas foram castigadas.

            Familiares de adultos que foram alfabetizados por aquele método, naquela época, deram depoimentos recentes de que tiveram de rasgar os cadernos, não falar da experiência, se esconder de qualquer pergunta sobre aquela experiência pelo medo de serem perseguidos pelo regime militar. Sepultou-se uma experiência fantástica.

            E agora, esta semana, comemoram-se, no Rio Grande do Norte, os 50 anos das 40 horas de Angicos. E eu não poderia deixar, Senador Cristovam, de registrar esse fato histórico da tribuna desta Casa e de render as minhas homenagens e as homenagens do povo potiguar e do povo do Brasil ao grande educador que foi o Prof. Paulo Freire, que trouxe o método revolucionário.

            Mais do que ensinar e alfabetizar, ele despertava a consciência de cidadania naquele homem do campo, naquele jovem e naquele adulto que procuravam as escolas para se libertarem da escuridão do analfabetismo.

            Faço esse registro, Srª Presidenta, por questão de justiça, como resgate histórico dessa experiência fantástica e desse professor, desse educador incomparável...

(Soa a campainha.)

            O SR. PAULO DAVIM (Bloco/PV - RN) - ... que foi o Prof. Paulo Freire.

            Um aparte ao Prof. Cristovam.

            O Sr. Cristovam Buarque (Bloco/PDT - DF) - Tenho direito, Senadora Lídice, ou não?

            A SRª PRESIDENTE (Lídice da Mata. Bloco/PSB - BA) - Nós só temos 45 minutos.

            O Sr. Cristovam Buarque (Bloco/PDT - DF) - Minutos, não; segundos. É só para manifestar a minha satisfação de vê-lo, Senador, trazendo aqui a lembrança do Paulo Freire, nesta data em que sua experiência, no Rio Grande do Norte, foi interrompida. Eu fui lá uma vez; visitei o Rio Grande do Norte durante a última seca e estive em Angicos, e falei inclusive com um senhor que vendia confeitos na porta de uma escola, que me disse: “No meio do meu curso de alfabetização...

(Soa a campainha.)

            O Sr. Cristovam Buarque (Bloco/PDT - DF) - ... ele foi interrompido pelo golpe militar, e eu não pude continuar aprendendo a ler”. Esse é o exemplo de milhões e milhões que provavelmente ficaram analfabetos porque nós não fomos capazes, o Brasil, de levar o método Paulo Freire para todo o País. Hoje, 49 anos depois, 50 anos depois daquilo, ainda temos 10 milhões de analfabetos, mais do que no tempo de Paulo Freire, pelo crescimento demográfico. Foi uma experiência perdida, uma oportunidade jogada fora pelo Brasil. Por isso, muito bem que o senhor esteja lembrando essa grande figura.

            O SR. PAULO DAVIM (Bloco/PV - RN) - Muito obrigado pelo aparte, Senador Cristovam.

            Era o que eu tinha a dizer, Presidente.

            Muito obrigado.


Este texto não substitui o publicado no DSF de 04/04/2013 - Página 14721