Discurso durante a 22ª Sessão Não Deliberativa, no Senado Federal

Comentário sobre a ascensão do PT a partir da figura do ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de um possível projeto comunista, e crítica às supostas manobras feitas pelo partido para a sua manutenção no poder.

Autor
José Medeiros (PPS - CIDADANIA/MT)
Nome completo: José Antônio Medeiros
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
ELEIÇÕES E PARTIDOS POLITICOS:
  • Comentário sobre a ascensão do PT a partir da figura do ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de um possível projeto comunista, e crítica às supostas manobras feitas pelo partido para a sua manutenção no poder.
Aparteantes
Cássio Cunha Lima, José Agripino.
Publicação
Publicação no DSF de 05/03/2016 - Página 9
Assunto
Outros > ELEIÇÕES E PARTIDOS POLITICOS
Indexação
  • COMENTARIO, ASCENSÃO, PARTIDO DOS TRABALHADORES (PT), ENFASE, LUIZ INACIO LULA DA SILVA, EX PRESIDENTE DA REPUBLICA, CRITICA, HIPOTESE, PARTIDO POLITICO, UTILIZAÇÃO, AUSENCIA, VERDADE, OBJETIVO, CONTINUAÇÃO, MANDATO ELETIVO, DEFESA, MODELO, GOVERNO ESTADUAL, ESTADO DE MATO GROSSO (MT), MOTIVO, MELHORIA, SITUAÇÃO, CRISE, ECONOMIA NACIONAL, CONVOCAÇÃO, POPULAÇÃO, PARTICIPAÇÃO, MANIFESTAÇÃO COLETIVA, OBJETO, IMPEACHMENT, DILMA ROUSSEFF, PRESIDENTE DA REPUBLICA.

    O SR. JOSÉ MEDEIROS (Bloco Socialismo e Democracia/PPS - MT. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Muito obrigado, Sr. Presidente.

    Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, todos que nos ouvem pela Rádio Senado, pela TV Senado, e que também acompanham esta sessão do Senado Federal brasileiro pelas redes sociais, em 1989, eu estava entrando para a universidade. Passei no vestibular - na época, o temido vestibular - e estava iniciando os meus estudos.

    Era uma época de sonhos. Era uma época em que praticamente todos os estudantes das universidades brasileiras estavam imbuídos de um projeto de mudança deste País. E, naquele momento, havia um brasileiro que puxava muito essa linha e que era, vamos dizer assim, o superstar político daqueles estudantes que estavam ali, entrando na universidade, e que estavam bebendo pela primeira vez da fonte de Antonio Francesco Gramsci, porque naquela época boa parte das universidades estavam pelas teorias do filósofo italiano.

    Eu não fui diferente; e nossa estrela a ser seguida, nosso líder, vamos dizer assim, chamava-se Luiz Inácio Lula da Silva. Lembro-me da música que, posteriormente, era cantada quase como se fosse um hino: "Lula lá, uma estrela vai brilhar". E assim foi.

    Esse projeto de poder que o Partido dos Trabalhadores construía cresceu, esse sonho cresceu. E cresceu num discurso lastreado principalmente - dito e cantado em verso e prosa pelo Lula - em combater a corrupção e melhorar a vida da gente. Esse era um mantra praticamente, e aquilo a gente defendia como se fosse uma religião até.

    Chegou ao poder aquele projeto - aquele sonho de mudar o Brasil, aquele sonho de colocar o Brasil naquele lugar em que achávamos que ele deveria estar. E o nosso líder continuava com o mantra: combater a corrupção e melhorar a vida da gente.

    Bem, não sabíamos nós que o projeto era calcado, mais ou menos, ou melhor, era um arremedo do projeto do Lenin, do projeto do Stalin - um projeto cujo original não havia dado certo. Era um projeto que não deu certo e não dá certo porque nasce torto, Senador Ferraço. O projeto de Lênin nasceu justamente com o objetivo de acabar com tudo que estava ali para mudar tudo, para tornar tudo melhor, segundo eles.

    Nesse projeto de comunismo - estou fazendo aqui, obviamente, uma avaliação rápida e simplista -, a base, as pilastras eram justamente que os fins justificam os meios. Dito isso, qualquer coisa poderia ser feita para a consecução daquele projeto. Vale lembrar que, na União Soviética, naquela época, matar, expropriar - e estou falando expropriar para ser elegante -, roubar propriedades, matar adversários, trair, tudo isso era plenamente normal naquele jogo, porque justificava um objetivo maior: justificava mudar as instituições e, segundo eles, construir uma sociedade melhor.

    Bem, esse era o projeto daquela época, que não deu certo, que acabou, teve o seu apogeu, mas, mesmo com toda a força, mesmo com a violência, tinha um fundo muito bonito, que era levar os trabalhadores ao poder, a chamada ditadura do proletariado, que na verdade se tornou, posteriormente, a ditadura sobre o proletário. Isso foi o que aconteceu. Tentaram por fora, com toda a violência, e acabou ruindo. E acredito que não há coisa que exemplifique melhor a derrocada daquele projeto do que o que ocorreu após o final da Segunda Guerra Mundial: quando a Alemanha foi dividida em duas, parte ficou com aquele projeto da União Soviética e parte ficou com o projeto ocidental. A Alemanha Ocidental teve aquele boom de desenvolvimento, e a Oriental continuou em ruínas. Só após 1989 é que começou a melhor, com a junção das duas e a queda do Muro de Berlim.

    Mas esse é só um preâmbulo para mostrar por que esse projeto ruiu ontem e continua desmoronando hoje, com essa, vamos dizer, prisão coercitiva do Presidente Lula - vamos tirar o termo prisão -, esse depoimento coercitivo dele que, creio, simboliza definitivamente o fim daquele sonho, daquele projeto. Mas é justamente isto: desmorona porque o alicerce não era bom, desmorona porque era um arremedo de uma coisa que já não tinha dado certo. Infelizmente.

    Digo isto aqui, e não falo com alegria, porque fui um dos que sonhei esse sonho junto. Mas, infelizmente, o que o Presidente Lula dizia a todo o Brasil não era verdade, não estava calcado na verdade. Quantas vezes ele disse que este Legislativo brasileiro era composto de picaretas? Falou que ali havia 300 picaretas. Ele era um Parlamentar, Senador Ferraço, mas muitas vezes vi entrevista dele dizendo e até demonizando essa verba que há para os Parlamentares trabalharem; ele era contra, tamanha era a aura de santidade com que se coroou para chegar ao Poder. Foi isso o que o Presidente Lula vendeu.

    Então, hoje tentam vitimizá-lo e dizer que a oposição tenta enxovalhar essa figura mítica brasileira, o maior líder político brasileiro. Ninguém nega isso. O Presidente Lula foi a maior liderança dos últimos tempos no Brasil. Querido aqui dentro e lá fora. Mas o único responsável pela ascensão e queda do Presidente Lula tem um nome: é Lula. Não é a oposição, não é o Judiciário e não é o Ministério Público. O responsável pela ascensão e queda, pelo sucesso e declínio dele foi ele. O Presidente Lula construiu a sua trajetória, a sua ascensão com as suas palavras, com o seu discurso, e construiu o seu declínio com o seu discurso e com os seus atos. Vestiu a farda da Marinha - e é bom que se diga que alguém que se veste de branco tem que passar longe da lama.

    O discurso foi sempre de apontar o dedo. É bom que se diga isso, porque, neste momento, tenta-se passar que a oposição ou que parte da imprensa tenta desconstruir o Presidente Lula. Isso não é verdade. Não há pessoa que foi mais querida e mais apupada, vamos dizer assim, pelos meios de comunicação. Agora há pouco, eu vi o Twitter de alguns dos mais renomados comunicadores deste País, sentidos e, de certa forma, até fazendo uma defesa, porque o ex-Presidente Lula ainda goza do carinho de boa parte dos brasileiros. Mas não goza da solidariedade em seus desmandos. Essa é a grande realidade.

    Esse sonho foi vendido e, neste momento, tudo o que está acontecendo não é ataque ao Presidente Lula; é simplesmente o resultado da expectativa frustrada. Não existe coisa pior do que expectativa frustrada. Casamentos são desfeitos, muitas vezes, sabem por quê? Pela desconfiança, pela confiança quebrada, pela expectativa frustrada, pelo desencanto. E, às vezes, aquele tórrido amor, aquele amor mais forte transforma-se em ódio visceral, transforma-se em ódio pela decepção e pela traição de ter tido aquela expectativa tão almejada quebrada. Não há coisa pior do que a confiança quebrada. É como um vaso. Essas coisas são muito difíceis de construir. Confiança, honra são valores muito tênues, e, quando se quebram, são como um vaso que não tem conserto.

    O que aconteceu com o Presidente Lula foi isso. Mas o grande artífice disso tudo foi ele. Estou dizendo isso aqui justamente para que se quebre esse discurso que estão tentando colocar na mídia neste momento, que o PT está tentando plantar, de que estão fazendo uma prisão política, de que neste momento o ex-Presidente Lula é um preso político. É isso que o PT acabou de colocar nas redes: que o ex-Presidente Lula é um preso político. Ora, isso é de uma irresponsabilidade muito grande, porque não é verdade. Agora há pouco, eu dizia, num aparte ao Senador Cássio Cunha Lima, que o Brasil é hoje uma democracia sólida como nunca foi. Um momento de ebulição da democracia, porque as instituições estão funcionando de forma ordeira, de forma serena e de forma muito alicerçada nos pilares legais construídos por esta Casa - pilares legais que o ex-Presidente Lula, como Parlamentar, ajudou a construir. Pilares legais evocados, em muitos momentos, pelo Partido dos Trabalhadores e por seus membros.

    Agora, a única coisa - e é bom que a gente deixe esta história do tamanho que ela é - que está acontecendo aqui é que houve uma dissonância, houve uma quebra entre o discurso e a prática. Esse é o problema! E isso foi que levou este Governo da Presidente Dilma a perder a credibilidade do mercado internacional, perder a credibilidade dentro do Legislativo, perder a solidariedade da sua Base e perder a solidariedade das ruas.

    Esse governo, quando começa, lá em 2002, tinha solidariedade das ruas, tinha credibilidade dentro desta Casa, tinha tudo o que precisava para governar e para fazer. E mais: um cenário econômico internacional perfeito. Houve uma janela de oportunidades, inclusive perfeita! Jogaram no mato. Vi uma entrevista do Paul Krugman, aquele economista que previu a bolha imobiliária. E, na época, ele disse: "O Brasil está em céu de brigadeiro, porque saneou o seu sistema financeiro por uma bagatela". Enquanto os países, naquele momento, gastavam trilhões de dólares para sanear o seu sistema financeiro, o Brasil tinha saneado seu sistema financeiro com menos de US$10 bilhões. E o PT e o Lula herdaram isso. Tiveram céu de brigadeiro.

    Podiam remar no mar da tranquilidade.

    Mas, com o tempo, as suas ações culminaram com o que aconteceu ontem, quando, com o simples fato da possibilidade de o impeachment se reviver, o mercado entrou em frenesi. Num momento em que era de se esperar... Qualquer aluno de primeiro ano de Economia faria a previsão de que as bolsas cairiam fortemente, que o dólar dispararia, porque foi o dia em que foi anunciado que o PIB brasileiro teve sua maior queda em 25 anos; ao contrário disso, as bolsas dispararam, e o dólar caiu. Sabe por quê? Por causa da remota possibilidade de o impeachment ser revivido, a possibilidade de a Presidente cair.

    E o que levou a isso foram justamente as manobras, o discurso rasteiro, a mentira. Isto a população brasileira já descobriu: este é um Governo que mente e que deixa mentir; é um Governo que rouba e que deixa roubar. Isso ficou muito patente ontem nos discursos e nas falas, principalmente sobre a notícia da possível delação do Senador Delcídio do Amaral.

    O Senador Delcídio, é bom que se lembrem, foi o presidente da CPI dos Correios. Aliás, ele construiu uma credibilidade nacional naquele momento, porque conduziu, de forma muito competente, juntamente com o Deputado Osmar Serraglio, a CPI dos Correios, a CPI que originou todo aquele processo em que se descobriu o crime do mensalão.

    Pois bem, o Senador Delcídio era, até bem pouco tempo, o Líder do Governo aqui nesta Casa, e ontem, quando saiu a notícia de que a revista IstoÉ teria publicado uma reportagem sobre a delação premiada do Senador Delcídio, mais do que depressa, o presidente do PT, o ex-Ministro da Justiça e o Ministro Jaques Wagner passaram a enxovalhar a imagem do Senador Delcídio do Amaral, passaram a descredibilizá-lo, passaram fazer um discurso de desconstrução, passando-o como um desqualificado, uma pessoa que não merecesse crédito. Aliás, uma desconstrução que já tinha começado a ser feita no dia da sua prisão, quando o noticiário teria dito que o ex-Presidente Lula o teria chamado de imbecil e idiota, e o presidente do PT também teria feito uma carta a mais desabonadora possível.

    Essa desconstrução tem um único objetivo. Só faltava dizer: o Senador Delcídio não é do PT. Essa desconstrução que fizeram ontem, chamando-o de mentiroso, desqualificado, é um contrassenso, porque quer dizer que, de repente, de uma hora para outra, ele passou a não ter credibilidade, mas ele era o Líder aqui na Casa. Foi estribado na credibilidade pessoal do Senador Delcídio do Amaral que o Governo conseguiu, inclusive, aprovar muita coisa aqui dentro. Foi estribado na sua credibilidade que o Governo resolveu escolhê-lo como Líder, como representante do Governo aqui no Senado, porque, naquele momento, ninguém queria. Eu vi Senadores aqui correndo da Liderança do Governo que nem o diabo corre da cruz. Ele matou no peito e fez o seu papel de Líder do Governo. E o Governo estava muito satisfeito com a credibilidade do Senador Delcídio.

    De repente, não mais que de repente, no momento em que ele cumpria uma missão do Governo Federal para tentar impedir a delação premiada do Nestor Cerveró, ele foi pego e é como se fosse naqueles filmes de espionagem em que o agente recebe uma mensagem dizendo: "agora você está por sua conta. A missão é essa, mas, se você for pego, nós não o conhecemos e não teremos nenhuma responsabilidade sobre os seus atos". Foi isso que o PT disse. Foi isso que o Presidente Rui Falcão escreveu na carta: "Não temos nenhuma responsabilidade. Ele agiu de forma unilateral, e por sua única e exclusiva responsabilidade."

    A quem quer enganar? Hoje, com o cabedal de informações a que a população tem acesso, ela faz análise. E são justamente essas manobras, essas coisas mentirosas... Ontem, de repente, vieram dizer: "Olha, é só poeira e materialidade nenhuma." O outro disse que ele mentia. Veio uma Senadora aqui tentar começar a construir um alicerce para descredibilizar, mas não adianta. As nuvens podem encobrir o sol por um momento, mas, em algum momento, ele vai brilhar.

    Há um jurista norte-americano que dizia, Sr. Presidente: "Em matéria de poder, não existe detergente melhor do que a luz do sol." E o sol está brilhando.

    Não existe perseguição alguma contra o Partido dos Trabalhadores. Não existe perseguição alguma contra o Governo da Presidente Dilma. E é bom que fique claro, porque, se há alguém, se há instituição que tem se posicionado a favor do Brasil e tem se posicionado de forma a ajudar inclusive o Governo tem sido a oposição. Em determinado momento, o Partido dos Trabalhadores ficou contra o Governo, mas a oposição aqui dentro desta Casa ficou a favor do Brasil.

    Não existe uma oposição inflexível. Não. Aqui nós sempre estivemos a favor de ajudar o Brasil.

    Concedo, com muita honra, um aparte ao Senador José Agripino.

    O Sr. José Agripino (Bloco Oposição/DEM - RN) - Senador José Medeiros, a propósito exatamente do que V. Exª acaba de dizer, estamos aqui, o Senador o Cássio, que já falou; o Senador Ricardo Ferraço, que preside esta sessão; V. Exª e eu. Tenho certeza de que nenhum de nós quatro está neste momento, diante dos fatos que aconteceram ontem e principalmente hoje, feliz com o que está acontecendo. Todos nós estamos movidos aqui pelo compromisso de responsabilidade com o País. Nós estamos vindo dar o testemunho da correção das instituições e da necessidade da correção de rumos. Com nenhuma satisfação, ninguém. Eu tenho certeza de que V. Exª pensa como eu. Eu não tenho nenhum prazer em comentar a condução coercitiva do ex-Presidente Lula e de seus familiares para prestar depoimento em uma situação que, evidentemente, é de constrangimento nacional, porque trata-se de um ex-Presidente República. Mas é a nossa obrigação. Há momentos em que os brasileiros - seja, como aqui foi dito, um modesto trabalhador rural, um dirigente ou um líder político - têm a obrigação de tomar posição. E chegou a nossa hora. Não há nenhuma satisfação. O que há é dever de responsabilidade. Aquilo que nós estamos fazendo, estamos de plantão nesta sexta-feira de manhã, é por dever de responsabilidade para com o País, o País onde mora V. Exª, moro eu, moram os meus filhos, moram os meus netos, mora a sociedade brasileira. Eu, em seguida, peço a palavra ao Senador Ricardo Ferraço para manifestar minha posição, contar um pouco da minha história política e dizer da necessidade das lideranças deste País se manifestarem, tomarem posição, antes que o País vá pelo ralo. Chegou a hora da definição. É o juízo final. Não tem mais saída. Os fatos são por demais escrachados. Denúncia de que R$200 milhões foram mobilizados para calar a boca de Marcos Valério? De que, por trás de Pasadena, havia o conhecimento pleno da ex-Presidente Dilma? Dito isso tudo, como V. Exª disse, pelo ex-Líder do Senado, um homem escolhido por critério de confiança. Isso não pode ficar impune. As instituições se moveram. O Ministério Público Federal moveu a Polícia Federal, que está atuando para corrigir rumos, para estancar um processo de sangria, que está esvaindo em sangue a Nação brasileira. Temos a obrigação de dar a nossa colaboração para que esse estancamento da hemorragia aconteça. Cumprimento V. Exª pela oportunidade, pelo compromisso partidário do seu PPS e pela sua presença. V. Exª, que é um Senador jovem nesta Casa, está imbuído da responsabilidade de que cabe a nós marcar posição.

    O SR. JOSÉ MEDEIROS (Bloco Socialismo e Democracia/PPS - MT) - Agradeço o aparte, Senador José Agripino. V. Exª lembra muito bem que não existe comemoração, não existe ninguém aqui sapateando em túmulo alheio, muito mais da minha parte, porque acabei de fazer um relato aqui da minha história e também por ser um nordestino. V. Exª, que é nordestino, sabe muito bem o grau de pertencimento que os nordestinos têm pela sua terra e pelos seus. Todos ficamos muito contentes quando víamos ser cantado em verso e prova o sucesso desse nordestino chamado Luiz Inácio Lula da Silva. Nos congraçamos com ele. Agora, não temos comprometimento com o erro. Falei aqui nesta Casa que fui um dos que ajudei o PT a chegar ao poder, mas não tenho compromisso com o erro. Tenho compromisso com o País.

    Senador Ricardo Ferraço, V. Exª é um dos meus espelhos, aqui, nesta Casa. Tenho buscado um pouco trilhar esse caminho. Eu cheguei há pouco, a Casa, e vejo a sua luta, o seu comprometimento em fazer um mandato independente, e tem buscado fazer com qualificação. Vejo V. Exª estudando a fundo cada ponto dos projetos de que trata aqui. Vejo sua preocupação com o Estado que defende aqui.

    Tenho visitado o meu Estado, o Estado de Mato Grosso. Estou aqui. Entrei em substituição ao atual Governador e grande Senador Pedro Taques, que também foi um Procurador da República.

    Senador Ricardo Ferraço, Mato Grosso, hoje - sem querer puxar muita sardinha para o meu prato -, é o espelho do caminho que precisa o Brasil traçar. Em determinado momento da história do Estado de Mato Grosso, ele estava afundado na lama, tal qual está o Brasil neste momento, mas surgiu um Procurador da República, um membro do Ministério Público chamado Pedro Taques. Ele se insurgiu contra tudo aquilo e começou uma cruzada que culminou com uma limpeza no Estado. Depois, se candidatou a Senador da República e a Governador. Hoje, toda a cúpula do Governo do Estado e da Assembleia do Estado de Mato Grosso está presa há mais de 100 dias - ex-Governador, Secretários e toda a parte que administrava o Legislativo.

    O Governador Pedro Taques está saneando o Estado. As leis funcionaram ali no Estado, e o Mato Grosso começou a andar. Eu tenho visitado o Estado, Senador José Agripino, e tenho visto a grande dificuldade que o Governador Pedro Taques está tendo para conduzir, para fazer frente às muitas demandas da saúde daquele Estado, para fazer frente à segurança daquele Estado, que tem 700km de fronteira seca e em cujos corredores o narcotráfico grassa.

    Tenho visto a dificuldade que ele tem tido para fazer frente à infraestrutura do Estado, que está toda esburacada e precisa escoar a sua grande produção, produção essa que tem ajudado a sustentar a balança comercial brasileira e que foi responsável por não ter sido até maior a queda do PIB, porque foi o setor do agronegócio que ajudou a sustentar um pouco.

    Mas eu tenho visto a dificuldade desse brasileiro de fazer frente a todas aquelas demandas. Falta dinheiro para tudo lá. E sabe por que falta? Porque ele foi para o ralo aqui em Brasília. Ele foi para projetos, Senador José Agripino. V. Exª falou muito bem aqui da preocupação com a corrupção, que a corrupção foi perniciosa, mas a má gestão foi devastadora, quando foram quase R$40 bilhões para Abreu Lima, quando foi não sei quanto para Pasadena. Eu tenho dito sempre aqui: a corrupção é perniciosa, mas ela, quando se junta com a má gestão, com a incompetência, é devastadora. E a dificuldade pela qual passa Mato Grosso neste momento para fazer frente ao serviço público é justamente devido aos desmandos que aconteceram aqui.

    Mas, tal qual aconteceu em Mato Grosso, em que o Ministério Público Federal agiu e conseguiu colocar novamente o Governo nos trilhos da administração, eu não tenho dúvida de que as instituições estão funcionando aqui no Brasil, e com o apoio da oposição, sim. Senador Ricardo Ferraço, Senador José Agripino, meu querido Deputado Pauderney - V. Exª tem sido um baluarte ali na Câmara dos Deputados, fazendo frente a tudo o que está acontecendo -, a importância de, nessa manhã, a oposição, Senador Cássio Cunha Lima, estar aqui é justamente dizer ao Brasil, contar ao Brasil o roteiro, o verdadeiro roteiro, desse filme, para que, com a habilidade que tem de falsear as situações, de falsear as coisas, o PT não venha querer impingir e jogar cortina de fumaça nos olhos dos brasileiros, dizendo que é golpe ou que está acontecendo qualquer coisa diferente do normal. Neste momento, o que está acontecendo é simplesmente o cumprimento da lei e o cumprimento do que a Constituição deste País reza. É o cumprimento daquilo que se espera de um país.

    Já concedo o aparte ao Senador Cássio, que havia me pedido.

(Soa a campainha.)

    O SR. JOSÉ MEDEIROS (Bloco Socialismo e Democracia/PPS - MT) - Com a palavra o Senador Cássio Cunha Lima, que me pediu um aparte.

    O Sr. Cássio Cunha Lima (Bloco Oposição/PSDB - PB) - Senador José Medeiros, agradeço a oportunidade do aparte. Quero apenas reforçar aquilo que eu havia dito há poucos instantes na tribuna do Senado. Há um aparente paradoxo quando se verifica a fragilidade imensa do Governo, que fica cada vez mais frágil, é inegável, com a reação positiva do mercado financeiro. A Bolsa está operando em alta de quase 6%. Ou seja, está cada vez mais claro, está cada vez mais nítido que o problema do Brasil hoje é o desgoverno que se percebe pelos quatro cantos do País. A economia em frangalhos, o desemprego crescente, a inflação fora de controle e a população sofrendo com os péssimos serviços públicos. Estamos diante de uma grave crise de abastecimento do Nordeste brasileiro, de um surto de zika, uma verdadeira epidemia na omissão e na incompetência que o Governo Federal teve em coordenar as ações para o combate ao mosquito e as declarações confusas da própria Presidente Dilma sobre o tema. As pessoas estão vivendo pior. E além de estarem vivendo pior, estão sem perspectiva, porque o grande problema do Governo da Presidente Dilma é a falta de confiança. Não há mais confiança do nosso povo, da nossa gente, na condução do País pela Presidente da República. Hoje o País acorda com mais essa etapa da Lava Jato, que leva a esse sentimento de desilusão, de tristeza, de descrença de milhões e milhões de brasileiros que sonharam e acreditaram em um projeto político que hoje se revela distorcido pela sua prática e pela sua conduta. Quero louvar, Senador Medeiros, não apenas esse seu pronunciamento, mas a atuação de V. Exª na Casa, no cotidiano, com uma palavra sempre firme, corajosa, altiva, destemida. Tenho certeza de que a contribuição que V. Exª estará dando, neste momento grave do Brasil, será decisiva para o desfecho que todos nós queremos, que é abreviar esta crise. Abreviar a crise significa reduzir o sofrimento do nosso povo, da nossa gente. Então, cumprimento V. Exª pelo seu pronunciamento. Saúdo a presença, no plenário, do Deputado Pauderney Avelino. É uma satisfação, Deputado, tê-lo aqui conosco, neste momento difícil da nossa trajetória, ao lado do Presidente dos Democratas, Senador José Agripino. Estaremos cumprindo o nosso papel, em nome do povo brasileiro, como partidos de oposição que somos, para que não façamos nenhum processo de provocação. É a expressão que eu usei e vou repeti-la: nós não vamos tripudiar deste momento. A história do Brasil não comporta isso, e o nosso povo também não merece uma postura pequena, mesquinha, da oposição. Nós não vamos tripudiar da circunstância, nem vamos sapatear em cima do Governo, mas teremos a firmeza necessária que a Nação espera de todos nós para conduzir o País para o desfecho desta crise. Temos caminhos apontados na nossa bússola, que é a Constituição do Brasil, para o desfecho desta crise, seja através do impeachment, seja através de novas eleições, que, em meu entendimento, a meu ver, é a melhor solução para essa crise, porque devolve à sociedade, ao nosso povo, ao eleitor, à eleitora brasileira o poder do voto, da sua escolha, tudo dentro da Constituição, tudo dentro da lei. Então, estaremos cumprindo o nosso papel, fazendo a nossa parte, procurando abreviar essa crise. E eu finalizo o aparte, agradecendo a V. Exª e cumprimentando-o por seu pronunciamento. Muito obrigado.

    O SR. JOSÉ MEDEIROS (Bloco Socialismo e Democracia/PPS - MT) - Senador Cássio, eu é que agradeço o aparte de V. Exª.

    Ao me encaminhar, Sr. Presidente, para o final desta fala, eu aproveito para convidar a população brasileira para que, no dia 13, vá às ruas mostrar a sua opinião, o seu descontentamento com tudo o que tem acontecido, porque a grande verdade, Sr. Presidente, é que o Governo nos vendeu o tempo inteiro uma mercadoria que não entregou.

(Soa a campainha.)

    O SR. JOSÉ MEDEIROS (Bloco Socialismo e Democracia/PPS - MT) - Eu resumo isso, Senador José Agripino, com o episódio que aconteceu em Mato Grosso. Nós temos praticamente só um corredor rodoviário e uma demanda muito grande por infraestrutura.

    Em determinado momento, a Presidente Dilma fez um discurso, vendendo que nós iríamos ter uma rodovia duplicada. Disse que iria fazer uma concessão, que a nossa rodovia seria duplicada e que haveria uma rodovia de qualidade.

    Pois bem, Sr. Presidente, hoje a população de Mato Grosso, a população que transita entre Rondonópolis, que é a segunda maior cidade do Estado, e Cuiabá, que é a capital, paga pedágio numa rodovia esburacada e que não foi duplicada. Isso resume praticamente o que foi vendido ao Brasil.

    Os mato-grossenses sonhavam com uma rodovia de pista dupla - coisa que nunca houve ali -, sonhavam com aquela rodovia conservada; pois bem, as praças de pedágios parecem um shopping center de tão bonitas, mas a rodovia está totalmente esburacada.

(Interrupção do som.)

    O SR. JOSÉ MEDEIROS (Bloco Socialismo e Democracia/PPS - MT) - Já concluo, Sr. Presidente.

    É isto que foi vendido ao Brasil: foi vendido um eldorado. Nesses projetos todos - PAC 1, PAC 2 -, parece que, primeiro, chamavam um marqueteiro, arquitetavam um nome muito bonito - temos Brasil Melhor, Bolsa Família -, nomes que, em termos de marketing, são uma maravilha, mas a frustração vem quando esses programas todos não funcionam: quando a população precisa de médico, quando precisa de estrada e não encontra. É o caso que está acontecendo com Mato Grosso e com o Brasil neste momento.

    Reforço justamente para que, dia 13, possamos ir à rua, levar a nossa manifestação de que não estamos concordando com o que está presente e pedir que esse Governo se encerre.

(Soa a campainha.)

    O SR. JOSÉ MEDEIROS (Bloco Socialismo e Democracia/PPS - MT) - Reforço as palavras do Senador Aécio Neves ontem, aqui nesta tribuna: que a Presidente Dilma possa seguir o gesto de outros grandes brasileiros, como Jango e Getúlio Vargas, que, por menos, mas muito menos do que aconteceu aqui, resolveram salvar o Brasil. Resolveram: "Já que está difícil, vou deixar". E olha que Jango fez isso por uma questão muito nobre, não era por corrupção, não era por desmando.

    São essas as minhas palavras, para que possamos, dia 13, ir à rua, ordeiramente, com paz, mas, acima de tudo, com muita reflexão. Esta fala fica aqui, Senador José Agripino, justamente para que todo o Brasil saiba que não existe, nessas falas da oposição, no posicionamento da oposição, qualquer manifestação de alegria ou de golpismo como tentam passar.

(Soa a campainha.)

    O SR. JOSÉ MEDEIROS (Bloco Socialismo e Democracia/PPS - MT) - Na verdade, o que estamos cobrando é o cumprimento das leis e o funcionamento das instituições, que é o que está acontecendo.

    Muito obrigado, Sr. Presidente, pelo carinho e tolerância com que V. Exª me cedeu o tempo.


Este texto não substitui o publicado no DSF de 05/03/2016 - Página 9