Discurso durante a 132ª Sessão Deliberativa Ordinária, no Senado Federal

Leitura da carta-testamento do ex-Presidente da República Getúlio Vargas, morto em 24 de agosto de 1954.

Autor
Lindbergh Farias (PT - Partido dos Trabalhadores/RJ)
Nome completo: Luiz Lindbergh Farias Filho
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
HOMENAGEM:
  • Leitura da carta-testamento do ex-Presidente da República Getúlio Vargas, morto em 24 de agosto de 1954.
Publicação
Publicação no DSF de 25/08/2016 - Página 49
Assunto
Outros > HOMENAGEM
Indexação
  • HOMENAGEM POSTUMA, MORTE, GETULIO VARGAS, LEITURA, CARTA, TESTAMENTO, AUTORIA, EX PRESIDENTE DA REPUBLICA.

    O SR. LINDBERGH FARIAS (Bloco Parlamentar da Resistência Democrática/PT - RJ. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, hoje é dia 24 de agosto, e dia 24 de agosto de 1959 foi o dia do suicídio do Getúlio. Nós vamos começar tragicamente no mês de agosto, amanhã, dia 25, o julgamento da Presidente Dilma. Também foi em agosto, no dia 25 de agosto, que Jânio Quadros renuncia e que Brizola começa a sua cadeia da legalidade.

    Eu estou aqui, Sr. Presidente, com a carta-testamento do Getúlio, cuja atualidade é impressionante. Momentos distintos da história, várias questões se comunicam. Getúlio Vargas, no dia 1º de maio de 1954, dobrou o salário mínimo. Isso causou um grande impacto nas elites empresariais do País que se voltaram contra ele. Em 1953, Getúlio Vargas criou a Petrobras. Nós temos também com a Presidenta Dilma esta discussão: a discussão do salário mínimo, do pré-sal que querem entregar às multinacionais a preço de banana, a discussão de uma política externa altiva e da falta de compromisso das elites brasileiras com a democracia.

    Eu queria, Sr. Presidente, três minutos para ler a carta-testamento de Getúlio Vargas, porque isso não pode passar em branco hoje aqui no Senado Federal. É uma carta que, volto a dizer, é muito atual.

    Carta-testamento de Getúlio Vargas:

Mais uma vez, as forças que os interesses contra o povo coordenaram novamente, se desencadeiam sobre mim.

Não me acusam, me insultam; não me combatem, caluniam e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei um regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se a dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobras, e mal começa esta a funcionar a onda de agitação se avoluma. A Eletrobras foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja independente.

Assumi o governo dentro da espiral inflacionária, que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de cem milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia a ponto de sermos obrigados a ceder.

Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida. Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem sentireis minha alma sofrendo a vosso lado. Quando a fome bater a vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no meu pensamento a força para a reação. Meu sacrifício nos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta.

Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão. E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo, não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate.

Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia, não abateram meu ânimo. Vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.

(Rio de Janeiro, 23 de agosto de 1954, Getúlio Vargas)

    Muito obrigado, Sr. Presidente.


Este texto não substitui o publicado no DSF de 25/08/2016 - Página 49