Discurso durante a Reunião Preparatória, no Senado Federal

Discurso como candidata à Presidência do Senado Federal.

Autor
Simone Tebet (MDB - Movimento Democrático Brasileiro/MS)
Nome completo: Simone Nassar Tebet
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
SENADO:
  • Discurso como candidata à Presidência do Senado Federal.
Publicação
Publicação no DSF de 02/02/2021 - Página 23
Assunto
Outros > SENADO
Indexação
  • DISCURSO, CANDIDATO, PRESIDENTE, MESA DIRETORA, SENADO, ENFASE, CRISE, SAUDE, ECONOMIA, PROPOSTA, LEGISLAÇÃO, IMUNIZAÇÃO, VACINA, PANDEMIA, NOVO CORONAVIRUS (COVID-19), AUXILIO, EMERGENCIA, POLITICA SOCIAL, POBREZA, REFORMA TRIBUTARIA, EDUCAÇÃO, REPRESENTAÇÃO, MULHER, POLITICA, RECURSOS PUBLICOS, FEDERAÇÃO, MUNICIPIOS, REFORMA, REGIMENTO INTERNO.
  • HOMENAGEM, MORTE, EX SENADOR, AROLDE DE OLIVEIRA, VITIMA, NOVO CORONAVIRUS (COVID-19).

    A SRA. SIMONE TEBET (Bloco Parlamentar Unidos pelo Brasil/MDB - MS. Para discursar.) – Gratidão! Que essa seja a primeira palavra que fique registrada nos Anais desta Casa, porque esse é o sentimento mais puro que hoje brota em meu coração! Gratidão aos amigos e companheiros de primeira hora, àqueles que vieram até aqui nesta caminhada e que, apesar de tudo e contra tudo, continuam firmes no mesmo propósito! Gratidão é uma semente que a amizade verdadeira faz cultivar no meu coração. E, se há algo que nesses 15 dias eu consegui cultivar, foi a gratidão e o agradecimento aos verdadeiros amigos e companheiros dessa jornada.

    Obrigada ao Podemos, na pessoa do Senador Alvaro Dias; ao Cidadania, na pessoa do novo Líder, Alessandro Vieira; ao PSB, na pessoa da nossa querida e guerreira Senadora Leila Barros.

    Eu gostaria de agradecer aos amigos e companheiros do PSDB na pessoa do Senador Tasso Jereissati, do Senador José Serra e da nossa queridíssima Senadora Mara Gabrilli.

    Quero agradecer aos amigos e companheiros do MDB na pessoa do Líder Eduardo Braga.

    Faço um agradecimento especial ao Senador Esperidião Amin e, na sua pessoa, agradeço a todos aqueles que, mesmo contrariando a orientação de suas bancadas, declararam seu voto e seu apoio a mim.

    Senador Kajuru, Senador Major Olimpio, expresso a minha gratidão, o meu respeito e o meu compromisso com as pautas prioritárias do País, que também são as suas. Que possamos estar juntos nessa caminhada!

    Sr. Presidente, Sras. e Srs. Senadores, "navegar é preciso, viver não é preciso". Esses versos, que ainda cativam os corações dos poetas e foram repetidos desde muito tempo aos marinheiros a fim de encorajá-los em suas campanhas marítimas, também foram o lema de navegantes e engenheiros da Escola de Sagres, onde se construíram as naus e se forjaram aqueles que, enfrentando o desconhecido, terminariam por revelar o mundo a si mesmos, colocando em contato para o bem e para o mal todos os povos e territórios do Planeta.

    Parafraseando Fernando Pessoa, o mar que separa os povos e cria distâncias é o mesmo mar que supera as distâncias e reúne os povos. "Navegar é preciso, viver não é preciso." O que pode parecer paradoxal é de simples explicação: viver é, sim, preciso, mas o viver que não é preciso é o viver que se acomoda, é o viver que se acovarda, é o viver que se intimida, é o viver que não suporta as calmarias e treme diante das tempestades. O viver que não é preciso é o viver que se entrega e se curva, que coloca seus próprios interesses pessoais à frente do destino comum, da vida de todos, da vida de 210 milhões de brasileiros. Navegar é preciso, mas a vida que vale a pena, que nos inspira e nos justifica é a vida que encara tanto as tempestades quanto as calmarias com honra e com altivez e segue adiante rumo aos nossos sonhos de futuro que nos guiavam como as estrelas guiavam os velhos navegantes.

    Meu pai, aquele que me inspirou, que me levou nas minhas primeiras navegações políticas e que sempre me deu o norte que até hoje me guia, amava esses versos, como Ulysses Guimarães, nosso eterno timoneiro na travessia democrática. Por que os repito hoje, senhoras e senhores? Porque, neste momento em que graves temores e incertezas parecem escurecer o horizonte da nossa travessia histórica do povo brasileiro rumo ao seu destino, é importante mencioná-los. Nuvens densas se formam à nossa frente e o mar da política brasileira parece hoje infelizmente mais distanciar e separar os brasileiros do que uni-los em torno de um ideal comum.

    É tempo de vigília, é tempo de constante vigilância. As várias restrições impostas pela pandemia do coronavírus infelizmente nos separaram do convívio social e político, fazem pensar a muitos que estamos vivendo em tempos de uma calmaria sufocante. Outros vislumbram, para além da calmaria, as tempestades que nos aguardam nas formas gêmeas de uma crise social e política que se avoluma e que pode ter o potencial de se tornar a maior de todas as que já vivemos, juntando desemprego, desindustrialização, estagflação, fuga de capitais e cérebros nunca antes vista na nossa história.

    Senhoras e senhores, coube à nossa geração enfrentar e ultrapassar as tempestades que nos ameaçam no amanhã que já bate à nossa porta e ameaçam não só o nosso futuro muito próximo, mas o futuro de nossos filhos e dos filhos de nossos filhos. Por isso, viver apenas não é suficiente.

    Sras. Senadoras, Srs. Senadores, a pandemia fez curvas as nossas retas. É preciso revermos nossas equações políticas. Estamos no amanhecer de uma nova vacina para combater a causa desse mal, desse vírus que atingiu a todos. São raios de luz, é verdade, mas incapazes de atingir as suas consequências: desemprego, fome, miséria, falta dos serviços mais essenciais. Isso tudo fugiu às nossas melhores projeções feitas a partir do antes. Enquanto a ciência busca a causa para esse mal, cabe a nós, à política, o seu quinhão para combater as consequências.

    Hoje eu me coloco humildemente diante das senhoras e dos senhores como candidata à Presidência do Senado Federal e peço o voto. A minha candidatura é um aporte a um novo barco. Não ofereço ribalta nem pompa nem circunstâncias. A minha candidatura não está aqui para que tudo permaneça como se encontra. Não tenho nada a oferecer, a não ser o trabalho coletivo de todos nós igualmente a favor do Brasil; ser presidida por esta Casa para que possamos juntos oferecer ao Brasil um novo pacto político. Um pacto político sem as lentes embaçadas dos interesses individuais ou de grupos, um novo pacto político sem as lentes embaçadas das barganhas políticas que fizeram invisíveis para a política milhões de brasileiros. Não tenho cargos externos a oferecer. Não tenho emendas extraordinárias a oferecer aos senhores, não tenho apoios políticos oficiais de quem quer que seja, a não ser os apoios mais espontâneos e legítimos vindos dos diversos segmentos da sociedade. Repito: o que tenho a oferecer é um trabalho conjunto a favor do Brasil.

    Todos nós temos um dever. Todos nós temos o dever de cumprir as promessas que fizemos na nossa cerimônia de posse. Um Senado mais que necessário, um cenário imprescindível ao novo processo democrático no seu sentido mais amplo. O mesmo Senado que nunca fugiu ou desertou nos momentos mais importantes da nossa história. A omissão, principalmente a omissão movida por interesses não republicanos inconfessáveis, não pode percorrer o nosso túnel do tempo. Por isso, ao invés de manter as portas fechadas, as nossas portas do Congresso Nacional, quando lhes batem as crises, temos de mantê-las abertas ao debate para que possamos encontrar juntos, com a experiência de cada um de nós, a melhor porta de saída para cada uma dessas crises.

    O nosso barco tem a bandeira da independência institucional, pintada na melhor harmonia das cores da democracia. Se a prática da independência já se fazia necessária antes, já se tinha dela necessidade profunda antes, agora ela se torna crucial. Independência não para fazer oposição, mas para que possamos exercer o nosso dever constitucional de legislar e fiscalizar os demais Poderes. Legislar visando ao interesse público, ao interesse da população brasileira; fiscalizar os demais Poderes para que sejamos, sim, o freio e contrapeso a qualquer tentativa de abuso de poder vindo de quem quer que seja, seja qual for o Governo, seja qual for o Poder.

    É preciso, senhoras e senhores, que tomemos os remos em direção ao País que sonhamos e para o qual outros tantos lutaram.

    Primeiro, o remo legal para a necessária imunização contra esse mal do coronavírus, que jogou a todos nós nessa nuvem escura da incerteza e que hoje aflige a nossa população, para que cesse o mais rápido possível o grito de dor de milhares e milhares de familiares.

    O remo de uma imprescindível discussão sobre a retomada imediata do auxílio emergencial, ainda que nos limites fiscais, ainda que nos limites da responsabilidade fiscal, sob pena de nos afundarmos num buraco negro de uma das maiores crises humanitárias do País: 12,8% da população brasileira – são 27 milhões de brasileiros –, nesse mês de janeiro, passaram para a linha da pobreza extrema. Nós estamos falando de 27 milhões de brasileiros, senhoras e senhores, que estão ganhando, a partir desse mês de janeiro, R$8,20 por dia. Nós estamos falando da maior miserabilidade da última década. A última vez foi em 2011 que tivemos esse patamar.

    Daí por que também é importante o remo das reformas estruturantes, especialmente da reforma tributária, para que possamos ter crescimento econômico, sim, mas com distribuição de renda, para que possamos ver definitivamente não a criação de impostos que atinjam a classe média, mas que possamos ver definitivamente a justiça tributária, para que quem ganha menos deixe de pagar relativamente mais; que estimule, através de créditos especiais, mas principalmente com condições e encargos compatíveis, as micro, pequenas e médias empresas a continuarem gerando – como são as maiores geradoras – emprego no Brasil.

    O remo da educação, que hoje impulsiona infelizmente nosso barco contra as ciências humanas, para que ela definitivamente possa cumprir o seu papel de acordo com a sua Lei de Diretrizes e Bases e possamos ser um povo repleto de cidadania.

    O remo da representação política da mulher brasileira. Desculpem-me o desabafo, mas eu estou aqui com um misto de tristeza e indignação ao saber e olhar o registro dos 190 anos desta Casa e perceber que eu sou a primeira mulher candidata da história do Senado Federal à Presidência desta Casa. Não é mais importante uma mulher naquela cadeira... Tão importante quanto uma mulher naquela cadeira é vermos as mulheres tendo voz e tendo vez no Colégio de Líderes, com a bancada feminina, nas Comissões, na ordem dos oradores e que nós não tenhamos apenas o mês de março para avançarmos com a pauta feminina, que não é nossa, é da família brasileira, portanto é de toda a população brasileira. E, de imediato – e para isso eu sei que posso contar com os 81 Senadores –, que nós possamos acabar de vez, por meio de um processo legislativo firme, com essa pedra do feminicídio, que é vergonhoso para toda população brasileira.

    Por fim, o remo da Federação, da qual somos Casa representativa, no rumo de uma reflexão definitiva, com leis, com coragem para enfrentar, muitas vezes, os governos, porque nenhum Governo Federal quer abrir mão de suas receitas, mas está na hora de nós honrarmos a Casa que representamos, que é a Casa da Federação, e fazermos valer aquilo está na Constituição Federal, que distribuiu e descentralizou os serviços públicos na mão de Prefeitos e Governadores, na mão de Estados e Municípios, sem a devida desconcentração dos recursos públicos. Está na hora! Que os Prefeitos e Governadores tenham recursos públicos para levar aquelas obras, para levar aqueles serviços de saúde, educação, segurança pública, aqueles serviços mais elementares para a nossa população.

    Sras. e Srs. Senadores, esta Casa tem 81 remos e navegar é preciso. Ainda que saibamos da turbulência dessa travessia, são remos, senhoras e senhores, inegociáveis, talhados apenas para nos levar, o nosso barco, ao destino comum, e não, repito, e não à ilha particular de cada um de nós. O meu compromisso é com as senhoras e os senhores, o meu compromisso é com a soberania do Plenário do Senado Federal, ser presidida antes de presidir, comungar com cada uma das senhoras e dos senhores quais são os reais interesses desta Casa e do País, que possamos democratizar a deliberação das nossas pautas, implantar definitivamente, de forma efetiva, o Colégio de Líderes. Sim, e concordo...

(Soa a campainha.)

    A SRA. SIMONE TEBET (Bloco Parlamentar Unidos pelo Brasil/MDB - MS) – ... com o Senador Rodrigo Pacheco, a quem prezo e tenho toda a estima, é preciso atualizar o nosso Regimento Interno, mais do que nunca é preciso valorizar esta Casa e a classe política e para isso precisamos, sim, reforçar as prerrogativas absolutas de funções de cada um dos Srs. Senadores e de cada uma das Sras. Senadoras.

    Por fim, garantir o direito de Líderes ou liderados terem pautado qualquer, repito, qualquer projeto de sua autoria nas Comissões e no Plenário e a soberania do Plenário é que dirá se o projeto irá para frente, irá para a Câmara dos Deputados ou para sanção do Presidente da República.

    Por fim, o compromisso com a transparência, fortalecendo os órgãos de controle que são nossos, como a ouvidoria, o Portal da Cidadania, mas a transparência maior virá na consonância entre o nosso discurso e a nossa prática parlamentar.

(Soa a campainha.)

    A SRA. SIMONE TEBET (Bloco Parlamentar Unidos pelo Brasil/MDB - MS) – Mais três minutos e eu encerro, Sr. Presidente.

    Os olhos da história não são míopes, os olhos da história não são embaçados, eles penetram vigilantes nas salas esfumaçadas das barganhas, dos acordos, dos conchavos que fogem à boa política!

    Ao final dessa nossa viagem saibamos que estão nos aguardando em todos os recantos deste País, de tantos e tamanhos contrastes, 210 milhões de brasileiros, que cobram de nós apenas uma coisa: justiça social.

    A independência do Senado e a harmonia com os Poderes têm que ser o tijolo e a argamassa da constituição do farol que poderá nos levar ao porto seguro.

    Diante do tempo que é escasso, eu encerro dizendo que a luz desse farol não pode ser outra que não a Constituição Federal.

    Eu poderia terminar a minha fala valendo-me dos poetas de minha maior inspiração: Fernando Pessoa, Mario Quintana, Carlos Drummond. Ou mesmo da poesia simples de Manoel de Barros, poeta de minha gente, que dizia sempre que falava para o seu quintal. Um quintal que ele mesmo dizia era maior que o mundo, quem sabe reconhecendo a alma grandiosa do povo sul-mato-grossense, povo guerreiro, povo valoroso, que tenho orgulho de representar aqui no Senado Federal.

    Mas eu termino buscando a inspiração nas palavras do meu saudoso pai, palavras lançadas deste mesmo pedacinho de chão, que, com orgulho de filha, tenho neste momento orgulho de ocupar, palavras que ainda fazem eco neste Plenário, porque aqui vejo amigos e companheiros de longa data.

    Permitam-me, e peço desculpas se de alguma forma eu falhar com algum, mas sei que as palavras de meu pai foram testemunhadas à época pelo Senador Esperidião Amin, pelo Senador Renan Calheiros, pelo Senador Jarbas Vasconcelos e Senador Jader Barbalho, pela Senadora Maria do Carmo Alves, pelo Senador Paulo Paim, pelo Senador Flávio Arns, entre outros.

    Abro aspas para lembrar Ramez Tebet: "Vi e aprendi que uma disputa não se ganha elevando-se o tom, mais ou menos como o som de um berrante, mas com a força do argumento. O Congresso Nacional não é a Casa do radicalismo – o Congresso Nacional é a Casa dos grandes debates, do entendimento".

    Fecho aspas.

    Força do argumento, construção do entendimento. Mais do que uma boa rima, uma lição de boa política.

    Ontem uma grande jornalista escreveu em sua coluna – e aí eu encerro, mais uma vez, pedindo o voto das Sras. e dos Srs. Senadores – e disse que eu acreditava em ganhar uma eleição, que era um sonho de verão achar que iria ganhar uma eleição na base de princípios e ideias. Não, não é um sonho; é uma crença. Eu acredito e acreditarei, até o último dia em que viver, na grandeza do Senado Federal, que esta é a Casa do princípio, das ideias e dos ideais.

    Sr. Presidente, me permita um aparte, já fugindo obviamente do processo eleitoral. É apenas para aproveitar o silêncio do Plenário, que eu diria até que é um silêncio de catedrais, para fazer aqui acredito que uma prece e lembrar do silêncio, da voz mansa do Senador Arolde de Oliveira, para quem o silêncio se fez eterno.

    Eu faço isso para que o nome do Senador Arolde de Oliveira seja outro nome de todas as 225 mil vítimas do coronavírus. Sei que essa é uma homenagem de todos nós. São vítimas de uma pandemia que nos assolou, são vítimas de uma pandemia que, só para se ter ideia da sua grandeza, corresponde a uma vez e meia o atentado a Hiroshima, aquela cidade que, em agosto de 1945, teve despejada sobre ela 20 mil toneladas de dinamite.

    E John Hersey, em seu livro, ouvindo os testemunhos dos sobreviventes...

(Soa a campainha.)

    A SRA. SIMONE TEBET (Bloco Parlamentar Unidos pelo Brasil/MDB - MS) – ... – eu encerro, Sr. Presidente – que disseram que, depois de tiradas as cinzas dos escombros, ali nasceram imediatamente flores silvestres, yuccas, camomila, gergelim, como se aquele mesmo avião que tivesse lançado a bomba também tivesse lançado sementes sobre o solo.

    O que eu espero com essa prece é que nós possamos, a partir de amanhã, independentemente de qualquer resultado, como aqui foi dito, que nós possamos estar lançando, a partir de amanhã, em que se inicia um novo ano legislativo, lançar as sementes da ética, da justiça social, da cidadania, a justiça da vida, enfim.

    Que assim seja!

    Muito obrigada, Sr. Presidente. (Palmas.)


Este texto não substitui o publicado no DSF de 02/02/2021 - Página 23