Pronunciamento de Esperidião Amin em 31/03/2022
Discurso proferido da Presidência durante a 28ª Sessão Especial, no Senado Federal
Sessão Especial destinada a comemorar o Bicentenário de Fritz Müller, celebrado em 2022.
- Autor
- Esperidião Amin (PP - Progressistas/SC)
- Nome completo: Esperidião Amin Helou Filho
- Casa
- Senado Federal
- Tipo
- Discurso proferido da Presidência
- Resumo por assunto
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Homenagem:
- Sessão Especial destinada a comemorar o Bicentenário de Fritz Müller, celebrado em 2022.
- Publicação
- Publicação no DSF de 01/04/2022 - Página 9
- Assunto
- Honorífico > Homenagem
- Matérias referenciadas
- Indexação
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- SESSÃO ESPECIAL, COMEMORAÇÃO, BICENTENARIO, ANIVERSARIO DE NASCIMENTO, MEDICO, PROFESSOR, HABITANTE, ESTADO DE SANTA CATARINA (SC), APOIO, TEORIA, EVOLUÇÃO, CHARLES DARWIN.
- DESTAQUE, HISTORIA, CIENTISTA, APOIO, TEORIA, EVOLUÇÃO, ORIGEM, ESPECIE.
O SR. PRESIDENTE (Esperidião Amin. Bloco Parlamentar Unidos pelo Brasil/PP - SC. Para discursar - Presidente.) - Saudando a todos os visitantes, presentes e remotamente, eu devo dizer que farei provavelmente o pronunciamento mais longo da minha passagem pelo Senado.
Dizem que a medida de um homem se tira pela firmeza de suas convicções, pela abrangência de seus interesses e pela altura de seus ideais. Sob quaisquer dessas métricas, dessas medidas, Johann Friedrich Theodor Müller foi um gigante.
Fritz Müller, como se tornou internacionalmente conhecido, nasceu em 31 de março de 1822 - portanto, há exatamente 200 anos -, na Alemanha. Herdou do pai o pendor pela história natural, a curiosidade.
Em outubro de 1845, o jovem universitário Fritz Müller queixou-se, em uma das muitas cartas que deixou, da "ínfima quantidade de homens que, nos dias de hoje [nos dias de hoje, na época], seriam realmente capazes de sacrificar tudo em nome de suas convicções". Fritz Müller foi sem dúvida um homem capaz de sacrificar muito ou mesmo tudo em nome de suas convicções. Às vésperas de concluir seus estudos de medicina, ele se recusou a pronunciar sob juramento uma frase de cunho religioso que contradizia as suas convicções filosóficas, de forte inclinação racionalista. Sem o diploma, ficou impedido para sempre de exercer a medicina, mas não se permitiu cair em contradição. Escreveu mais tarde, abro aspas: "Preferiria ser miserável para sempre a flexibilizar suas convicções em nome de qualquer ganho superficial".
A medicina perdeu um gênio. Felizmente, Fritz Müller foi um homem de muitos interesses. Na Universidade de Berlim, então famosa pela abrangente formação que fornecia aos seus alunos, Müller estudou botânica, zoologia, anatomia, matemática, física, meteorologia, mineralogia e filosofia. Não o preparou, contudo, para enfrentar as dificuldades que a migração para o Brasil lhe apresentaria. Insatisfeito com os rumos da política na Europa, migrou para o Brasil. A família Müller, portanto, trocou os confortos da civilização europeia pela incerteza da sobrevivência em Santa Catarina.
Em 1854, os Müller se mudaram para o Vale do Itajaí. Um ano antes, ele tinha recebido os primeiros livros e artigos do que viria a ser a sua modesta biblioteca de estudos. O resto, como se diz, é história. O breve livro intitulado Para Darwin e as quase três centenas de artigos publicados em periódicos europeus, duas dezenas dos quais na prestigiosa revista Nature, consolidaram o nome de Fritz Müller como um dos mais importantes cientistas envolvidos na confirmação da teoria da evolução de Charles Darwin. E toda essa vasta obra científica, todas essas contribuições inestimáveis foram produzidas em ambiente rudimentar, sem recursos externos, sem equipamentos e sem bibliotecas adequadas.
Quem nos acompanha hoje pode apresentar certa surpresa com alguns dos fatos que eu vou narrar nesse pronunciamento, em virtude da injustiça histórica que o nosso homenageado sofreu e sofre. Embora nossas próprias escolas não explorem o tema com a devida profundidade, o Brasil teve contribuição singular para a construção da teoria da evolução das espécies. Pode-se dizer que fornecemos parte do alicerce da construção dessa teoria.
Foi apoiado nos ombros científicos de Fritz Müller, com base nos estudos por ele realizados na faixa litorânea de Santa Catarina, que ele percorreu de pés descalços, que Charles Darwin consolidou e reapresentou perante a comunidade científica, de forma mais robusta, a paradigmática teoria da evolução das espécies, após as críticas iniciais que recebeu, fazendo com que ela fosse mais bem recebida depois desse aprofundamento nas evidências científicas que a confirmaram.
Apenas um ano e meio após o lançamento do livro A Origem das Espécies, uma cópia chegou às mãos de Fritz Müller, no Brasil. A despeito de a obra estar sofrendo profundas críticas na Europa, Müller comunicou-se com Darwin por carta para corroborar sua teoria e apresentar um arsenal de provas que a tornava cientificamente mais robusta e mais palatável à academia europeia, marcadamente religiosa e, portanto, reticente em negar o criacionismo pleno, ao contrário de Fritz Müller, que era, nessa altura da sua vida, um ateu convicto.
A importância de Fritz Müller para corroborar a teoria de Darwin foi tamanha que, já na sexta edição de A Origem das Espécies, há diversas referências aos resultados das observações levadas a cabo por Fritz Müller em Santa Catarina.
O próprio Darwin reconheceu o brilhantismo e a originalidade dos trabalhos de Fritz Müller, chegando a dar-lhe o apelido de “Príncipe dos Observadores”. Outro famoso cientista da época, Ernst Haeckel, foi ainda mais longe: reconheceu Fritz Müller como “herói da Ciência”.
Os que nos ouvem e que desconheciam a importância de Fritz Müller e do Brasil para a teoria da evolução não devem se sentir culpados, porque a responsável por essa iniquidade é a própria história, que alçou o inglês Charles Darwin ao patamar de herói mundial e relegou ao germano-brasileiro o crédito de figurante, quando a verdade é que Müller teve tanta participação quanto Darwin na validação científica da teoria da evolução das espécies.
Embrionariamente ligado aos primórdios da cidade de Blumenau - cujos representantes nos assistem, apesar da chuvarada que está se abatendo em Blumenau, que dificulta até a conexão -, Fritz Müller não apenas ajudou a fundar as bases paradigmáticas da ciência moderna, como também contribuiu com sua importância e até mesmo com sua genética pessoal para a fundação e crescimento da cidade catarinense. Construiu uma família grande, matriarcal, com nove filhas - quase igual à sua -, presumivelmente com contribuição até mesmo gênica para a formação da importante e querida cidade catarinense de Blumenau.
A ligação de Fritz Müller com Blumenau é tão forte que ele certa vez escreveu - aspas: "Nunca parei de desejar o dia em que pudesse voltar ao Itajaí [ao rio]" - fecho aspas.
Foi um dos fundadores da cidade e viveu por 34 anos na região, desempenhando todo tipo de atividade, de médico, que não era, a juiz de paz, tendo exercido, inclusive, por algumas semanas, não o cargo, mas o encargo de Prefeito.
Sua importância para o povo catarinense e blumenauense é tamanha que foi sua a primeira estátua da cidade - como foi revelado no vídeo a que assistimos -, a primeira estátua de um cientista erguida no Brasil e com público, o que é raro. E conta a história que, mesmo tendo a estátua sido instalada 32 anos após sua morte, a ligação de Fritz Müller com o povo local era tão forte que houve uma grande controvérsia por aquela circunstância ou por aquele detalhe que foi citado: o povo não aceitava que a figura tivesse aquela roupa e botas, porque essa não era a maneira pela qual o povo o conheceu, na sua simplicidade. A estátua - justiça seja feita - quis representar um cientista europeu, mas Fritz Müller era um cientista brasileiro, à moda brasileira, com pés no chão; concomitantemente um sábio e um operário; um labutador, como todos os brasileiros e os imigrantes que aqui chegaram para construir as suas vidas.
O fato de o cientista ser brasileiro muito provavelmente influenciou o papel coadjuvante a que a história eurocêntrica o relegou quando referencia a teoria da evolução das espécies, mas Fritz Müller era muito orgulhoso de suas características brasileiras, especialmente as de valorização do esforço pessoal e físico, tanto que certa vez se gabou em uma carta - citação: "Meus braços eram tão finos e pouco musculosos, iguais aos de todos os alemães que cresceram dentro de casa; agora consigo manejar um machado [não é um bom exemplo, mas foi o que ele disse] [...]".
Além de ajudar a construir a história de Blumenau, Fritz Müller também viveu por mais de uma década na vila de Desterro, hoje Florianópolis. Lá atuou como professor de Matemática e fortaleceu seus vínculos acadêmicos, o que foi facilitado pelo caráter mais urbano da região, permitindo a troca de diversas cartas, de cunho científico exploratório, com seus irmãos na Europa, os quais levaram seus conhecimentos adiante, fazendo com que alcançassem revistas e associações científicas europeias. De modo que sua passagem pela região da atual Florianópolis não apenas foi responsável por sua posterior notoriedade científica, como foi um passo importantíssimo para que a humanidade desse esse salto científico monumental, porque foi certamente uma revolução paradigmática aquela propiciada pela teoria da evolução das espécies.
Afirmo, com muito orgulho, que Santa Catarina é feliz por ter sido o destino desse cientista monumental e que Santa Catarina respeita suas memórias, respeita seu povo, respeita a memória de seu povo, mesmo após a morte.
Fritz Müller, provavelmente, morreu vítima de uma trombose em membro inferior, e, nos delírios que antecederam seu falecimento, exaltou as bromélias, de modo que, até hoje, o túmulo do naturalista é decorado com essas plantas. Embora esteja enterrado em um cemitério luterano, a lápide não faz qualquer referência à religião, respeitando a vontade do homenageado.
Nós, catarinenses, consideramos isso uma demonstração de respeito máximo à liberdade de consciência e de crença, respeito esse que ultrapassa os limites até mesmo da vida.
A questão religiosa ou de negação da religião, certamente, preferiria que fosse dito, como seria esperado de todo bom naturalista, foi fundamental em sua vida, tanto que, às vésperas de concluir seus estudos, ele se recusou a pronunciar o juramento que eu já mencionei. Sem o diploma, ficou impedido de exercer a medicina, mas declarou que preferiria ter uma vida miserável a renegar um princípio.
Desejo aqui trazer uma contribuição pessoal. A Encíclica Humani Generis, de 12 de agosto de 1950, respaldada em documentos anteriores que datam de 1937 a 1950, promoveu uma conciliação entre os princípios do cristianismo, especialmente da religião católica, com a teoria da evolução. E eu pessoalmente tomei conhecimento desta conciliação quando, muito jovem, li o livro Deus, o Homem e o Universo, escrito com textos, composto de textos de 18 cientistas, sob a direção de Jacques de Bivort de La Saudée, livro esse que tem, inclusive, o imprimi potest, o nihil obstat, o imprimatur da Igreja Católica, e com artigos muito interessantes de jesuítas.
Portanto, ao longo do tempo, a humanidade se conciliou com os princípios da teoria da evolução. Sob quaisquer dessas medidas, ele foi realmente um gigante.
Gostaria aqui de, nesta sessão especial, agradecer as inúmeras iniciativas e oportunamente solicitarei ao Dr. Marcondes Marchetti que nos informe sobre esse conjunto de iniciativas que estão sendo tomadas em Santa Catarina para homenagear Fritz Müller, o bicentenário de Fritz Müller.
Desejo registrar também a presença de Jean Volpato, de Blumenau, que está aqui representando os ex-Deputados Décio Lima e Ana Paula Lima.
Concedo, com muita satisfação, a palavra à Sra. Vice-Presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, Sra. Fernanda Sobral.