Discurso proferido da Presidência durante a 38ª Sessão Especial, no Senado Federal

Sessão Especial destinada a comemorar os 60 anos da Universidade de Brasília (UnB).

Autor
Leila Barros (PDT - Partido Democrático Trabalhista/DF)
Nome completo: Leila Gomes de Barros Rêgo
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso proferido da Presidência
Resumo por assunto
Educação Superior, Homenagem:
  • Sessão Especial destinada a comemorar os 60 anos da Universidade de Brasília (UnB).
Publicação
Publicação no DSF de 26/04/2022 - Página 7
Assuntos
Política Social > Educação > Educação Superior
Honorífico > Homenagem
Matérias referenciadas
Indexação
  • SESSÃO ESPECIAL, COMEMORAÇÃO, ANIVERSARIO DE FUNDAÇÃO, UNIVERSIDADE DE BRASILIA (UNB).
  • COMENTARIO, HISTORIA, CRIAÇÃO, ARQUITETO, OSCAR NIEMEYER, DEFINIÇÃO, PLANO, EDUCAÇÃO, ENSINO SUPERIOR, DARCY RIBEIRO, ANISIO TEIXEIRA.
  • COMENTARIO, PERIODO, DITADURA, MILITAR, DETENÇÃO, PRISÃO, ESTUDANTE, TORTURA.
  • COMENTARIO, PIONEIRO, COTA, RAÇA, NEGRO, ACESSO, UNIVERSIDADE.

    A SRA. PRESIDENTE (Leila Barros. PDT/CIDADANIA/REDE/PDT - DF. Para discursar - Presidente.) - Sras. e Srs. Senadores, Magnifica Reitora Márcia Abrahão, ilustres convidadas e convidados, brasileiras e brasileiros que acompanham esta sessão, acessando os veículos de comunicação e de redes sociais do Senado Federal!

    Há poucos dias, celebramos os 62 anos de fundação de Brasília: a cidade que nasceu de um sonho e se materializou como a capital da esperança e o símbolo de um país que tinha pressa em encontrar seu futuro de prosperidade, integração e justiça social.

    No dia 21 de abril de 1962, exatamente dois anos após o Brasil se instalar na nova capital, a Universidade de Brasília foi inaugurada.

    E, da mesma forma como havia ocorrido com Brasília, a UnB foi entregue sem que suas instalações físicas estivessem concluídas.

    O próprio auditório no qual foi realizada a solenidade de inauguração havia sido liberado pelos trabalhadores apenas 20 minutos antes do início do evento.

    A título de ilustração, lembro que ele recebeu o nome de "Auditório Dois Candangos", em homenagem a dois pedreiros que morreram trabalhando na obra.

    Mas, por trás daqueles poucos prédios construídos de forma acelerada, a UnB já nasceu com um importante projeto.

    A universidade da nova capital foi criada para conduzir a educação superior brasileira ao futuro.

    Ela tinha como uma de suas ambições formar as gerações de profissionais que transformariam o país. A criação da UnB contou com a moderna arquitetura de Oscar Niemeyer, responsável pela parte física; e com a dupla Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira, que definiram as bases e traçaram o plano educacional da instituição. Conceitos como escola em tempo integral e educação de qualidade para todos, independentemente de raça, credo ou classe social, ganharam força com a implantação da Universidade de Brasília. Em seu primeiro ano, a universidade, criada por lei sancionada pelo então Presidente João Goulart, recebeu 413 alunos.

    A proposta do processo seletivo da UnB era muito mais inclusiva e incluía até entrevista com os candidatos. A ideia era selecionar os alunos que mostravam vocação, e não só aqueles alunos que tinham tido, até por razões econômicas e de classe social, uma educação anterior melhor.

    Tradicionalmente, o projeto da elite brasileira era transformar a elite econômica numa elite cultural. É mais ou menos como se a gente quisesse formar uma seleção de futebol só com as crianças cujos pais pudessem pagar uma escolinha de futebol, privando-nos de um Garrincha, de um Pelé, de um Romário ou de um Ronaldinho.

    Não, queridas pessoas aqui presentes e que nos assistem, não podemos selecionar os melhores apenas entre os que podem pagar. A UnB veio romper com isso com um projeto de dar chance a todos e a todas também. Em 1962, estávamos às vésperas de sermos bicampeões do mundo no futebol e queríamos ser também campeões na educação.

    Aquele pequeno primeiro grupo de alunos selecionados na UnB ocupou as vagas dos poucos cursos inicialmente oferecidos pela instituição: Administração, Arquitetura e Urbanismo, Direito, Economia e Letras Brasileiras.

    A título de comparação, na última década, a UnB teve mais de 100 mil alunos matriculados. Deste total, no mesmo período, 45 mil foram diplomados em alguma das atuais 147 graduações e 20 mil se especializaram nas pós-graduações oferecidas. Em 2021, 4,8 mil estudantes e 1,2 mil professores participaram de projetos de extensão.

    Sras. Senadoras, Srs. Senadores, ilustres convidadas e convidados, foi preciso muito esforço, dedicação, inteligência e coragem para construir essa biografia de sucesso.

    Já em seus primeiros anos de existência, a UnB teve que conviver com um dos períodos mais dramáticos da nossa história recente e, apesar de tão jovem, não se intimidou: foi contra o regime que impôs ao nosso país uma ditadura militar que durou 21 anos.

    A oposição de setores da comunidade universitária ao regime autoritário foi rechaçada, inclusive com quatro invasões sofridas no período; a de 1968 foi a mais marcante pela sua brutalidade e excessos fartamente documentados pela imprensa, depoimentos e publicações que resgataram aquelas cenas de opressão e repressão.

    Conta a história que agentes das Polícias Militar e Civil e do Departamento de Ordem Política e Social, junto com integrantes do Exército, mantiveram detidas mais de 500 pessoas naquela ocasião, e, desse total, 60 delas ficaram presas.

    Um dos aprisionados foi o líder estudantil Honestino Guimarães, que, anos depois, morreria após ser preso novamente, só que no Rio de Janeiro, e seu corpo nunca apareceu. Anos depois, em 2014, portaria do Ministério da Justiça declarou Honestino como anistiado político e reconheceu, em sua certidão de óbito, que a causa da sua morte foram "atos de violência praticados pelo Estado".

    Muitos desses crimes de tortura foram denunciados ao Superior Tribunal Militar entre 1975 e 1985. As sessões nas quais o assunto foi discutido foram gravadas e os áudios só começaram a ser divulgados na semana passada.

    Precisamos lembrar, senhores, que, naquela invasão de 1968, um aluno do 3º ano de Engenharia Mecânica, Waldemar Alves da Silva Filho, que, na época, tinha 27 anos, foi baleado na cabeça. Depois de permanecer em coma e passar meses internado, felizmente, ele sobreviveu; porém, lamentavelmente, perdeu parte da visão do olho esquerdo e passou a enfrentar dificuldades de raciocínio.

    É bom lembrar que aquele protesto na UnB era contra a morte do estudante secundarista Edson Luís de Lima Souto, assassinado pela Polícia do Rio de Janeiro, e que inspirou a célebre Passeata dos 100 Mil, um dos mais marcantes atos de repúdio à ditadura militar.

    Só com o fim da ditadura e a abertura política, a UnB pôde retomar o seu caminho e contribuir para a consolidação da democracia brasileira.

    Sras. e Srs. Senadores, convidadas e convidados, o processo de reconstrução e consolidação da UnB, após o fim da ditadura, contou com a inteligência, a dedicação, o esforço, o suor e a luta de várias brasileiras e brasileiros.

    Peço a permissão para, cumprimentando o ex-Reitor e ex-Senador Cristovam Buarque e a atual Reitora, querida Márcia Abrahão, homenagear não apenas todos os dirigentes que comandaram a instituição ao longo dos anos, mas também os professores, funcionários e alunos que contribuíram para que a Universidade de Brasília seja, hoje, destaque em todos os rankings de qualidade acadêmica.

    A UnB é, por exemplo, a 10ª melhor universidade brasileira e, se a disputa for apenas entre as federais, a Universidade de Brasília sobe para o 7º lugar. No ensino superior mundial, a UnB ocupa a posição de número 604, entre mais de 3 mil instituições avaliadas.

    Senhoras e senhores, Senadoras e Senadores, ilustres convidadas e convidados, eu não poderia deixar de lembrar também que a Universidade de Brasília, há quase 20 anos, foi a primeira universidade federal a adotar cotas raciais em seus processos de seleção para o ingresso na graduação. O sucesso da iniciativa pode ser traduzido em números: no primeiro semestre de 2003, a UnB contava com 105 estudantes negros; dez anos depois, o total chegava a 1.355; em 2019, a instituição alcançava a marca de 3.727 alunos negros.

    Esses dados são fundamentais para a reflexão nesta tarde, pois, neste ano de 2022, uma das pautas legislativas importantes é justamente a revisão da Lei 12.711, de 2012, a chamada Lei de Cotas. No que toca a isso, eu tenho a convicção de que as cotas aceleraram o processo de democratização do acesso à universidade. O Brasil só será democrático quando for democrático racialmente também.

    No caso de Brasília, quero chamar a atenção para a importância que "entrar na UnB" tem para a nossa população mais desfavorecida economicamente, mais periférica e mais negra também.

    Durante muitos anos, principalmente sob a ditadura, aceitava-se com "naturalidade" que uma universidade pública como a UnB fosse frequentada exclusivamente por moradores do Plano Piloto ou do Lago Sul. Hoje, a universidade está na Ceilândia, está em Planaltina, porque sabe que não pode se privar do talento de pessoas que ainda hoje são desprezadas porque moram longe, ganham pouco ou não são brancas.

    Essa história de pioneirismo, resistência e sucesso faz com que a instituição complete seis décadas de existência antenada com o presente e esbanjando o vigor necessário para concretizar os planos para o futuro.

    Neste sentido, nada mais correto do que a campanha que a UnB está divulgando para celebrar a data: "UnB 60 anos: atuante como sempre, necessária como nunca".

    Como o próprio material de divulgação diz, são seis décadas de atuação em ensino, pesquisa, extensão e em defesa da democracia. E uma atuação de excelência, acrescento eu. Faço o acréscimo com conhecimento de causa, porque tenho a UnB, e não só eu, Reitora, mas toda a Bancada do Distrito Federal, como uma das importantes parceiras dos nossos mandatos.

    E aqui, da trincheira do Senado, tenho, sempre que necessário, levantado a minha voz em defesa dessa instituição que tanto admiro e merece o respeito de todos nós. Sobretudo neste momento em que a educação brasileira está sendo tão maltratada e tem enfrentado situações da maior gravidade, é dever de cada um de nós lutar por ela.

    Estamos atravessando um período de trevas em que o fanatismo, o negacionismo e as fake news tentam se contrapor à ciência, ao progresso e ao conhecimento. Eu tenho lado nessa guerra; e ele é na mesma frente de batalha que tem a UnB como expoente.

    O mundo não pode retroagir para a ignorância e o obscurantismo.

    Por isso, esta sessão especial se reveste de tanta importância.

    Estamos aqui celebrando não apenas a nossa Universidade de Brasília, mas também a inovação, o saber, o ensino público de qualidade e a educação como um todo.

    A todas e todos vocês que fizeram e fazem da nossa Universidade de Brasília uma instituição de extrema grandeza, o nosso caloroso aplauso.

    Vida longa à nossa UnB! E contem sempre comigo, conosco e com esta Casa.

    Muito obrigada. (Palmas.)

    Está tudo certo, né? (Risos.)

    A SRA. PRESIDENTE (Leila Barros. PDT/CIDADANIA/REDE/PDT - DF) - Eu vou pedir agora, neste momento, para exibirmos um vídeo. Nós assistiremos a um vídeo em comemoração aos 60 anos da nossa querida Universidade de Brasília.

(Procede-se à exibição de vídeo.)

    A SRA. PRESIDENTE (Leila Barros. PDT/CIDADANIA/REDE/PDT - DF) - Eu gostaria de anunciar a presença dos ilustres convidados que estão aqui: o Presidente da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares, Sr. Oswaldo de Jesus Ferreira; a representante do Presidente da Associação Brasileira para o Progresso da Ciência, a Vice-Presidente, Sra. Fernanda Antônia da Fonseca Sobral; a Diretora da Fundação Oswaldo Cruz Brasília, Sra. Fabiana Damásio; a Superintendente do Hospital Universitário de Brasília, Sra. Elza Ferreira Noronha. Também registro a presença do Secretário-Executivo das Instituições Federais de Ensino Superior, Sr. Gustavo Balduino. Sejam todos bem-vindos!

    Eu gostaria de passar a palavra, inicialmente, para o meu companheiro aqui de bancada, o Senador Izalci Lucas.


Este texto não substitui o publicado no DSF de 26/04/2022 - Página 7