Pronunciamento de Sergio Moro em 03/12/2024
Discurso durante a 172ª Sessão Deliberativa Ordinária, no Senado Federal
Registro da viagem de S. Exa. à Ucrânia e insatisfação com a suposta posição favorável à Rússia, assumida pelo Governo Lula, no contexto do conflito.
- Autor
- Sergio Moro (UNIÃO - União Brasil/PR)
- Nome completo: Sergio Fernando Moro
- Casa
- Senado Federal
- Tipo
- Discurso
- Resumo por assunto
-
Assuntos Internacionais,
Conflito Bélico,
Governo Federal,
Relações Internacionais:
- Registro da viagem de S. Exa. à Ucrânia e insatisfação com a suposta posição favorável à Rússia, assumida pelo Governo Lula, no contexto do conflito.
- Publicação
- Publicação no DSF de 04/12/2024 - Página 24
- Assuntos
- Outros > Assuntos Internacionais
- Outros > Conflito Bélico
- Outros > Atuação do Estado > Governo Federal
- Soberania, Defesa Nacional e Ordem Pública > Relações Internacionais
- Indexação
-
- REGISTRO, VIAGEM, UCRANIA, KIEV, ENCONTRO, PRESIDENTE, VOLODYMYR ZELENSKY, CRITICA, PRESIDENTE DA REPUBLICA, LUIZ INACIO LULA DA SILVA, APOIO, RUSSIA, VLADIMIR PUTIN, GUERRA, GRUPO DOS VINTE (G20), IMPORTAÇÃO, BRASIL, FERTILIZANTE, OLEO DIESEL.
O SR. SERGIO MORO (Bloco Parlamentar Democracia/UNIÃO - PR. Para discursar.) – Boa tarde a todos, colegas Senadores e Senadoras!
Eu venho fazer um relato aqui, Senador Weverton, sobre a minha viagem à Ucrânia. Neste último final de semana, nos últimos dias, fomos em uma delegação de Parlamentares, diplomática, em uma missão diplomática, com a Senadora Damares Alves, com o Senador Magno Malta e com o Deputado Federal Paulo Bilynskyj.
Eu fui convidado há cerca de 20 dias a participar, em Kiev, capital da Ucrânia, de uma conferência de Parlamentares latino-americanos contra a guerra e em favor da independência e liberdade daquele país. Causas para apreensão da viagem não faltavam, com informações recorrentes sobre a escalada da guerra, com o aumento dos ataques de mísseis da Rússia contra a Ucrânia, inclusive mísseis supersônicos, e a ameaça, que nós todos temos que repudiar, de Moscou, inclusive, de utilização de bombas nucleares.
Olha, resolvemos ir, apesar desses riscos. Eu sempre fui contra a guerra e sou um admirador da luta da Ucrânia por sua independência e liberdade, em especial desde a chamada Revolução da Dignidade, em 2014, que teve como palco os confrontos da Praça Maidan, passando pela resistência heroica contra a invasão feita pelo exército russo a partir de 2022. Então, quando surgiu essa oportunidade de ir até Kiev numa missão diplomática, para que eu pudesse manifestar pessoalmente o meu apoio a essa causa, eu me senti compelido a ir.
Também não posso aqui deixar de ignorar que o Paraná, o estado que represento, reúne o maior número de descendentes de imigrantes ucranianos da América Latina, estimada, essa população de descendentes, em cerca de 500 mil pessoas. A cultura ucraniana está inserida na paranaense, seja com seus pratos típicos, como o varenyky, ou na versão mais conhecida polonesa, pelo menos pelo nome, do pierogi, seja com os poemas da poetisa maior paranaense, Helena Kolody, sobre um povo indomável que não se cala, e aqui ela se refere, mesmo antes da guerra, ao perfil do povo ucraniano.
Os ucranianos paranaenses repudiam a guerra e sofrem por sua pátria originária. Tendo sido eleito Senador pelo Paraná, era meu dever integrar essa missão e vocalizar esse repúdio dos descendentes de ucranianos residentes no Paraná sobre sua posição em relação a essa injusta guerra.
Registro aqui, em especial, os descendentes que estão lá em Prudentópolis, Mallet, Paulo Frontin e várias outras cidades, inclusive na nossa querida Curitiba, onde são estimados 55 mil descendentes de ucranianos ali residentes.
A viagem também se fazia necessária para fazer um contraponto às vergonhosas – e, aqui, reitero, vergonhosas – declarações de Lula sobre esse conflito! Lula é identificado internacionalmente como tendo uma posição favorável à Rússia, já que insiste não só em demonstrar a sua proximidade com Vladimir Putin, mas também em não reconhecer que a Ucrânia é vítima de uma agressão. Não há uma equivalência em relação à posição da Rússia e da Ucrânia. Lula foi o grande responsável pela tibieza das declarações finais no G20 realizado no Brasil, nas quais, apesar do apelo à paz, foi omitida a responsabilidade da Rússia pela guerra.
Chegar à Ucrânia não é fácil, já que o espaço aéreo está fechado. Fomos, a delegação brasileira, iniciamos por voos até Varsóvia, seguimos por ônibus e trem até chegarmos a Kiev. Os dias seguintes foram intensos. Tivemos reuniões com autoridades ucranianas, soldados e vítimas civis da guerra, com os quais pudemos conhecer melhor os detalhes do conflito, os crimes de guerra de Putin e a vontade indomável – e é a expressão utilizada pela Helena Kolody para retratar o povo ucraniano – da população ucraniana de lutar pelo seu país.
Eu tive certeza do acerto da viagem quando eu pude, no encontro com o Presidente Volodymyr Zelensky, dizer a ele o que todo brasileiro gostaria, o que está engasgado na nossa garganta desde que assistimos a essas declarações tímidas e tíbias do Presidente Lula sobre essa guerra. Disse-lhe claramente, Senador Esperidião Amin: o Brasil, a população do Brasil apoia a Ucrânia, repudia essa guerra de agressão e a posição de Lula não representa o sentimento da população brasileira. Essa fala, como eu disse, estava presa na minha garganta e de vários brasileiros há muito tempo. Fiquei honrado, juntamente com meus colegas da delegação, de ter a oportunidade de dizer diretamente ao Presidente Zelensky, ali, então, representando todos os brasileiros contrários à guerra. Essa oportunidade valeu todo e qualquer risco dessa viagem.
A viagem também se mostrou necessária para evitar o vexame internacional que decorreria da ausência de representantes brasileiros na conferência com Parlamentares de vários países da América Latina. Imaginem os colegas se o Brasil fosse o único país sem representantes nessa conferência.
Não cabe aqui fazer um relato de tudo o que eu vi nessa viagem, já que não cabe neste tempo de tribuna, mas eu também quero dizer que estive na famosa Praça Maidan, que foi o palco da Revolução da Dignidade, em 2014, onde tantos ucranianos ali morreram em defesa da liberdade do seu país, inclusive sendo vítimas de snipers. Tem uma escadaria naquela praça, Senador Esperidião Amin, com os retratos e com homenagens a todas essas vítimas, mas o que me chamou mais a atenção ali, Senador Weverton, foi que existe um espaço, que está repleto de bandeiras, pequenas bandeiras colocadas nessa praça em homenagem aos soldados ucranianos que tombaram na guerra e também aos soldados de outros países que se voluntariaram para lutar pela liberdade.
E qual foi a minha surpresa, agradável, de certa forma, pela homenagem, mas de pesar, pelo luto, ao encontrar um espaço com bandeiras brasileiras retratando os voluntários brasileiros que lutaram na guerra da Ucrânia e que, infelizmente, pereceram? Pereceram por uma causa justa, lutando não só pela defesa da Ucrânia, mas pela defesa de todo o mundo livre.
O que mais me surpreendeu nessa viagem foi a resiliência e a vontade indomável do povo ucraniano. A vida na cidade de Kiev segue com as limitações inerentes à guerra, mas em uma aparente normalidade. As ruas estão cheias; há, inclusive, problemas de tráfego. Os restaurantes, as lojas, os shoppings, tudo isso com movimentação normal, mesmo diante das ameaças injustas decorrentes da agressão russa, que inclui os ataques de mísseis. Há uma vida, afinal, em quase três anos de guerra, que, com dificuldades, segue, com deveres que têm que ser cumpridos e com trabalho que tem que ser realizado pela população.
Por isso, a minha conclusão em relação a essa viagem é a de que Vladimir Putin está em uma guerra que não tem como ganhar. Para a Ucrânia e o seu povo indomável, é uma guerra pela independência e pela liberdade, é uma guerra que tem causa. Eles não vão aceitar ser dominados pela Rússia, vão continuar lutando com mais ou menos ajuda externa.
E há uma apreensão em relação à diminuição dessa ajuda externa, com razão, por parte dos ucranianos, mas eu tenho certeza de que essa guerra da parte dos ucranianos, com mais ou menos ajuda, vai continuar, porque, para eles, é uma guerra fundamental para a sobrevivência.
Já para os russos, a guerra nada tem de animadora. A Rússia, aliás, tem sofrido pesadas baixas humanas no front ucraniano, conseguindo, com isso, apenas pequenos avanços territoriais. A Rússia, como nós temos visto no noticiário internacional, sofre agora outras derrotas em outro campo, na Síria...
(Soa a campainha.)
O SR. SERGIO MORO (Bloco Parlamentar Democracia/UNIÃO - PR) – ... onde as forças rebeldes têm imposto derrotas às forças russas, que apoiam o regime de Bashar al-Assad.
Ainda que, no pior cenário para a Ucrânia, o exército russo consiga derrotar as forças ucranianas e ocupar o país, a vitória será temporária, pois os ucranianos não aceitarão a perda da independência. Uma ocupação forçada da Ucrânia pela Rússia terá um custo e desgastes enormes.
E nós já vimos essa história no Vietnã e no Afeganistão, tanto com a Rússia como com os Estados Unidos, de que essas guerras imperialistas, essas guerras de ocupação não têm como ser permanentes. Não há futuro para Vladimir Putin na Ucrânia.
Caminhando para o fim e contando com a compreensão dos colegas, registro que o Brasil precisa urgentemente ter uma posição mais clara de repúdio à guerra de agressão que a Rússia promove contra a Ucrânia. A desastrosa diplomacia presencial que nos alinha com ditadores contraria a tradição diplomática brasileira, que é de respeito à paz e à soberania dos povos.
O Brasil precisa também rever o seu comércio com a Rússia. As exportações da Rússia ao Brasil dobraram desde o início da guerra: eram cerca de US$5 bilhões em 2021, atingiram US$10 bilhões em 2023 e seguem crescendo em 2024.
(Soa a campainha.)
O SR. SERGIO MORO (Bloco Parlamentar Democracia/UNIÃO - PR) – O principal item de exportação russo para o Brasil não são os fertilizantes – e aqui é até aceitável a importação de fertilizantes, já que somos dependentes –, o principal item de exportação da Rússia é, hoje, o óleo diesel. E, na prática, o Brasil, aumentando esse fluxo comercial, tem comprado combustível sujo de sangue, já que esses recursos ajudam nos esforços de guerra russos, ajudam a Rússia a, de certa maneira, contornar as consequências das sanções comerciais aplicadas por outros países.
O Brasil – e aqui para deixar claro – não deve participar dessa guerra, nem deve romper com a Rússia, que, aliás, tem um povo que também admiramos. Isso é uma coisa; agora, o Brasil aprofundar suas relações comerciais...
(Soa a campainha.)
O SR. SERGIO MORO (Bloco Parlamentar Democracia/UNIÃO - PR) – ... num período em que a Rússia é responsável por uma guerra de agressão aí já é algo que não pode ser admitido, porque, se nós formos fechar os olhos para essa realidade, estaremos nos eximindo de nossas responsabilidades.
Voltamos finalmente da Ucrânia – a delegação brasileira – neste domingo. O nosso trem, Senador Esperidião, atravessou – e posso dizer aí com algum alívio – a fronteira para a Polônia às 5h da manhã de domingo. A guerra ficou para trás, mas não a nossa solidariedade para com a Ucrânia. Precisamos fazer mais no Brasil para dar suporte à Ucrânia.
Slava Ukraini! Isso significa "glória à Ucrânia".
(Interrupção do som.)
(Soa a campainha.)
O SR. SERGIO MORO (Bloco Parlamentar Democracia/UNIÃO - PR) – É o mandamento, o hino que eles utilizam em louvor à causa da sua pátria.
Muito obrigado.