Pronunciamento de Magno Malta em 29/05/2025
Discurso durante a 56ª Sessão de Premiações e Condecorações, no Senado Federal
Sessão de premiação e condecorações destinada à entrega do Prêmio Adoção Tardia - Gesto Redobrado de Cidadania.
- Autor
- Magno Malta (PL - Partido Liberal/ES)
- Nome completo: Magno Pereira Malta
- Casa
- Senado Federal
- Tipo
- Discurso
- Resumo por assunto
-
Crianças e Adolescentes,
Homenagem:
- Sessão de premiação e condecorações destinada à entrega do Prêmio Adoção Tardia - Gesto Redobrado de Cidadania.
- Publicação
- Publicação no DSF de 30/05/2025 - Página 46
- Assuntos
- Política Social > Proteção Social > Crianças e Adolescentes
- Honorífico > Homenagem
- Indexação
-
- SESSÃO DE PREMIAÇÕES E CONDECORAÇÕES, ENTREGA, PREMIO, ADOÇÃO TARDIA.
- DENUNCIA, TRAFICO DE PESSOAS, CRIANÇA, PARTICIPAÇÃO, MEMBROS, JUDICIARIO, DEFESA, PROGRAMA, ACOLHIMENTO FAMILIAR, REINTEGRAÇÃO SOCIAL, JOVEM, EGRESSO, INSTITUIÇÃO ASSISTENCIAL, REGISTRO, PROJETO, AUTORIA, ORADOR, RECUPERAÇÃO, DEPENDENTE QUIMICO.
O SR. MAGNO MALTA (Bloco Parlamentar Vanguarda/PL - ES. Para discursar.) – Sr. Presidente desta sessão, Senador Contarato, e Angelo Coronel, na verdade, eu nasci na Bahia, somos conterrâneos. A Bahia me pariu e o Espírito Santo ajudou a me criar. Eu fui adotado, não é? Estou na condição de adotivo hoje aqui na tribuna. E fui bem adotado por um povo que me amou, que cuidou de mim e me deu todas as oportunidades para que eu chegasse aonde eu cheguei.
Embora meu primeiro palanque fosse em Itapetinga, na Praça Dairy Walley, na campanha do Dr. Evandro Andrade para Prefeito – eu só tinha 13 anos de idade –, Deus me deu a graça de virar o processo eleitoral, porque era o Evandro Andrade que deveria ter sido o Prefeito de fato daquela ocasião.
Estou feliz e tenho dito por aí que este é um momento para mim muito emocional, apesar de ter disposição para a luta sempre. As pessoas me olham e acham sempre que estão olhando para uma muralha, mas as pessoas não sabem quem eu sou por dentro. Este momento para mim é muito emocional. A luta da vida, a luta da criança... Aliás, a nossa luta pelo nascituro. Estamos aqui porque nascemos, embora tenha gente que não goste disso, de quem tenha nascido e luta para que outros não nasçam. Eu nasci. Mas depois de conhecer Deus, a maior e mais forte de todas as experiências é adotar. Eu tenho dito que as pessoas que adotaram são aquelas que descobriram que o coração tem útero. E a adoção é a única chance que um homem tem de dar à luz.
O Brasil é um país miscigenado.
(Soa a campainha.)
O SR. MAGNO MALTA (Bloco Parlamentar Vanguarda/PL - ES) – Eu tenho dois filhos adotivos. Se fosse contar a minha história tirando pessoas da rua, eu teria centenas de milhares de filhos adotivos, desde adolescentes até adultos alcoólatras, porque essa tem sido a minha vida, a minha luta. Mas eu tenho especialmente a minha filha Jaisliny.
Eu havia pedido à minha assessoria que me desse um pouco mais para que os senhores pudessem acompanhar, pois o meu tempo é curto e eu não tenho a capacidade de síntese. Isso me falta. Esse era o detalhe que eu queria ter na minha vida, mas eu não tenho. Assim, é muito difícil para mim. As pessoas falam três minutos, e para mim estão falando em zero: você está começando, não é?
Eu tenho uma história atípica com meu filho adotivo, que tem síndrome de Down, e com a minha filha. Eu vou tentar mostrar.
Eu adotei essa criança chamada Jaisliny. Se a câmera puder mostrar aqui, eu vou mostrar aos senhores.
Essa criança nós recebemos de Deus, um presente para receber no abrigo chamado Lar Batista, no Município da Serra. Só que essa criança tinha mais três irmãs. É um país miscigenado e vocês percebem que elas são negras.
Essa é a minha filha, fez 23 anos, acabou de se formar em psicologia, Dra. Jaisliny. Essa é Jajá, a irmãzinha dela, e essas aqui são todas elas em volta de mim.
Acontece que essas quatro crianças já tinham sido vendidas por um juiz do meu estado para um casal de pedófilos italianos, mas quando Deus colocou essa criança em nosso coração, ela já estava vendida. E foi um problema porque o juiz não tinha como entregar as quatro. Os italianos já estavam no Espírito Santo, num hotel, para ter um convívio de 30 dias. Essa conversa fiada quando um juiz é desonesto e participa de quadrilhas que vendem as nossas crianças, mas apareceu um entrave, entrou um cisco no olho dele. Ele não queria deixar que a criança fosse à nossa casa passar um final de semana, colocou um juiz substituto para poder negar, Senadores. Em seguida, ele mesmo negou.
Começou o recesso, eu ia à Natal, no Rio Grande do Norte, e pedi para que a criança fosse com a gente. A resposta do juiz substituto foi: "Essa prática é velha. Todo final de ano acontece isso, não fazem nunca nada e no final quer dar um pouquinho de bala, fazer um gracejo com a criança". Essa foi a resposta.
Eu fui ao tribunal, Senador Contarato, falar com o Presidente do Tribunal. Ele disse: "Eu estou saindo hoje, quem vai assumir é o Dr. Adalto, vai tomar posse em meu lugar". Eu fui ao Dr. Adalto. Ele disse: "Eu tomo posse hoje à noite e será o meu primeiro ato despachar isso aí, vou atrás". E ele foi, despachou, a criança viajou.
Imaginem 30 dias depois você ter um filho e ter que devolvê-lo. Ele chora sem querer ser devolvido e você chora no portão porque o juiz diz que não. A lei é ruim, o juiz é pior! Ele estava contrariado, as outras crianças estavam no hotel já. Mas o Dr. Adalto, depois de muita luta, assistente social indo à minha casa, perguntando quantos metros quadrados iria ter o quarto da criança. "A criança mora num abrigo, moça, não estou lhe entendendo". "Qual vai ser o tamanho do guarda-roupa dela?". "Não estou lhe entendendo...
(Soa a campainha.)
O SR. MAGNO MALTA (Bloco Parlamentar Vanguarda/PL - ES) – ... ela não tem um guarda-roupa no abrigo!". "Qual o espaço para ela correr? Ela terá bicicleta?". "Eu não estou lhe entendendo, ela mora num abrigo".
E é assim que acontece.
São essas dificuldades que são colocadas, num país que ainda tem fila privilegiando o adulto, e a criança é só um objeto.
Acontece que essas três foram, e a minha ficou.
Há dois anos, um menino que não está aqui, chamado Jaison, encontrou Jaisliny pelo direct. Mas eles não falam português, eles falam italiano.
Essa aqui, Jajá, saltou de um quarto andar depois de ser abusada de forma vil pela mulher, pela mãe, pelo pai, esses desgraçados que nunca foram mãe e pai. E ela se arrebentou, tem problemas cognitivos, quebrou as pernas, quebrou os braços. Essa menina vive num abrigo na Itália.
Essa aqui, a mais velha, vive no hospital de louco na Itália. Um juiz do Espírito Santo! E o menino vive perambulando pelas ruas da Itália, lutando contra o alcoolismo.
Eles encontraram minha filha, e eu quero dizer uma coisa, eu tenho outras coisas para falar. O tempo é curto, de verdade, mas é questão de honra para mim: essas meninas são filhas deste chão. Elas são filhas desta pátria. Elas são filhas desta terra. Nós, as autoridades...
Essas foram levadas para o abuso. O casal foi preso, cumpriu quatro anos. Já está na rua novamente, certamente indo a outros lugares, pegando outras crianças para abusar.
E essas crianças, com a vida destruída, com o estado psicológico destruído, com a moral destruída, vivendo abrigadas. Saíram de um abrigo para ir para o abuso e voltaram para um abrigo de pessoas com comorbidades.
Antes de o Presidente Davi Alcolumbre assumir, eu vim a esta tribuna e pedi que uma Comissão fosse criada. E eu quero fazer uma denúncia para o mundo, para o Brasil, porque esse fato vai trazer à luz outros que são piores, de crianças que são vendidas, e ninguém sabe mais delas, porque elas foram desmontadas, porque elas foram vendidas para tirarem o rim, tirarem as córneas, tirarem o fígado. Elas foram desmontadas como ferro velho!
E o abuso e a violência contra a criança? Nós precisamos ter uma atividade em que o poder público fiscalize! Nós temos abrigos onde as crianças não são abrigadas, porque os donos dos abrigos querem viver do abrigo. E fazem vida, e trocam de carro, e compram apartamento com aquilo que é donativo que vem para o abrigo. É o meio de vida. E há outros que abusam das crianças!
E a criança com adoção tardia começa a ter um drama psicológico muito forte
ao ver a outra indo embora, e ela começa a achar "poxa, é porque eu sou feia; ninguém me adota porque eu estou com os dentinhos podre; ninguém me adota, eu não sei por quê; ninguém me adota". E vai embora, e aquilo fica. Ela dorme com aquilo. Aí, ela chega aos 16 anos – e muitas nem chegam, saltam o muro e vão embora ser avião do tráfico; outras saltam o muro, vão embora usar crack pelo meio da rua e se prostituírem porque o poder público é falho. Chega aos 16 anos, mas a lei diz: "Se tu fizeres 18 aqui dentro, com 18 anos, você vai embora". Senador Angelo Coronel, vai embora para onde, se não tem família, com 18 anos? E já falei isto para todo mundo – olha que coisa clara –: isso tem que ser um programa de Governo. Se, aos 18 anos, a criança tem que ir embora, não tem problema. Ela está dentro do abrigo, está estudando? Está e estuda. Então, a partir dos 16 anos – façamos, então, o projeto; eu tenho pronto, o projeto está...
(Soa a campainha.)
O SR. MAGNO MALTA (Bloco Parlamentar Vanguarda/PL - ES) – ... pronto –, ela será colocada num curso técnico. Por quê? Ao ser colocada num curso técnico, ela se formou em mecânica. Torneiro mecânico o menino se tornou, com 18 anos. Dos 16 aos 18 anos, ele é um torneiro mecânico. O poder público financia o torno dele, financia o local dele, faz a empresa dele, ele sai de lá para gerar emprego, e a Caixa Econômica Federal, por via de consequência, entrega para ele uma quitinete. Ele sai de lá com casa e com trabalho, dando trabalho e com um juro e – como se diz quando você abre mão de tributo? – com uma renúncia. Sim, que ele tenha 20 anos, 15 anos para começar a pagar 000, não sei o quê. Você o forma ali dentro. Àquele de 13 anos, 14 anos, o pessoal já pode dizer a ele: "Ó, você vai fazer curso técnico. Você vai sair daqui com o seu emprego". É uma menina, ela vai fazer um curso de doceira. É o poder público que vai financiar e vai entregar a ela uma quitinete, e, se tem família – e são famílias que têm dificuldade –, que seja, e a família vá viver junto.
É muita coisa que nós temos que fazer, e isso é projeto de Governo, mas eu sinto muito, muito mesmo. Veja que eu sou miscigenado, eu sou negro, eu sou filho de uma negra, eu sou neto de uma índia. Minha filha é negra. Essas crianças são miscigenadas. Vejam aí: são todas filhas da mesma mãe.
Eu agradeço à minha filha Karla, que descobriu essa pérola. Eu agradeço a Deus por ter feito com que essa criança cruzasse o nosso caminho. Eu já ouvi tanta frase: "Quem adota faz um bem para uma criança". Você está completamente errado. Quando você adota, a criança lhe faz o bem. Quem recebe o bem é você, o benefício é seu. Quando essa criança entra na sua vida e você, na dela, é preciso até que você tenha cuidado, se tem outros filhos, de não fazer uma transferência muito forte de sentimento, de amor para essa criança. Adotar é um privilégio, é um bem.
E o meu projeto, que é de Governo, eu espero que alguém um dia tenha coragem de fazê-lo, porque este país é rico. Ele está destruído, mas é rico. Tem dinheiro, sim, e tem dinheiro para muita coisa. Parece que hoje só tem para a cultura, mas, para cuidar de criança, não.
Eu encerro dizendo aos senhores o que os senhores não sabem. Eu tinha pedido, mas não deu tempo. Eu queria que cada um de vocês levasse essas fotos. Vocês não conhecem essa história. Eu vou atrás desses adultos brasileiros criados na Itália, sofrendo, sendo humilhados, fora do seu chão natal.
Se vocês não sabem, eu já sofri quatro processos de racismo – quatro. Eu já respondi por quatro processos de racismo. Sabem em quantos eu tomei providência? Em nenhum, porque Deus sabe quem eu sou e eu sei quem eu sou.
E eu encerro com a Bíblia: "Toda arma forjada contra ti [...] em juízo, tu a condenarás".
Aos senhores, às entidades que eu sei como sofrem, aos senhores e às senhoras homenageadas, eu sei como uma entidade... Faz 43 que eu tiro drogado da rua, com o Projeto Vem Viver. Meu primeiro filho, ainda criança, eu peguei na rua, em Cachoeiro, com 9 anos de idade e faleceu aos 12 – o Marcinho –, lá no Projeto Vem Viver. E eu sei as dificuldades.
Enquanto a senhora citava o nome de Alan Rick, outros Senadores e Deputados fazem as mesmas coisas com essas emendas que não nos pertencem. Alguns acham que pertencem a eles e fazem o que eles querem, mas pertencem ao povo, de onde veio o imposto, do município, do estado; tem é que voltar. Não tem Deputado nem Senador dando nada para ninguém, porque, se estiver dando, vendeu a casa dele e está entregando dinheiro, mas, se não, é dinheiro de vocês. E precisam voltar, principalmente, para aqueles que cuidam de criança, para que a gente encerre de vez essa conversa fiada de que criança é o futuro do Brasil. Criança nunca foi e nem será. Criança é o presente. Ou você cuida do presente ou não teremos futuro.
Obrigado. (Palmas.)