Pronunciamento de Renan Calheiros em 29/10/2025
Discurso durante a 155ª Sessão Deliberativa Ordinária, no Senado Federal
Homenagem ao escritor alagoano Graciliano Ramos pelos 133 anos de seu nascimento, destacando seu legado literário, em especial as obras Vidas Secas e Memórias do Cárcere, e sua atuação política como Prefeito de Palmeira dos Índios-AL.
- Autor
- Renan Calheiros (MDB - Movimento Democrático Brasileiro/AL)
- Nome completo: José Renan Vasconcelos Calheiros
- Casa
- Senado Federal
- Tipo
- Discurso
- Resumo por assunto
-
Cultura,
Homenagem:
- Homenagem ao escritor alagoano Graciliano Ramos pelos 133 anos de seu nascimento, destacando seu legado literário, em especial as obras Vidas Secas e Memórias do Cárcere, e sua atuação política como Prefeito de Palmeira dos Índios-AL.
- Publicação
- Publicação no DSF de 30/10/2025 - Página 38
- Assuntos
- Política Social > Cultura
- Honorífico > Homenagem
- Indexação
-
- HOMENAGEM, ANIVERSARIO DE NASCIMENTO, GRACILIANO RAMOS, ATUAÇÃO, PREFEITO, PALMEIRA DOS INDIOS (AL).
O SR. RENAN CALHEIROS (Bloco Parlamentar Democracia/MDB - AL. Para discursar.) – Sr. Presidente Senador Izalci Lucas, o Brasil tem uma extensa lista de escritores geniais e respeitados mundo afora, cada um com sua peculiaridade. Seria injusto, Presidente, mencionar apenas alguns deles e excluir outros que alcançaram merecidamente o reconhecimento literário mundial.
Como alagoano, gosto de cantar a minha terra e, como admirador de sua extensa obra, me permito situar Graciliano Ramos entre os melhores desta galeria de gênios criadores do Brasil. Eu não poderia deixar de registrar que, na última segunda-feira, 27 de outubro, se comemorou os 33 anos de nascimento desse engenheiro das palavras e ícone da literatura modernista e realista.
Graciliano Ramos nasceu em 27 de outubro de 1892, em Quebrangulo, Zona da Mata, no interior de Alagoas. Filho de comerciantes, Graciliano alternou a vida entre o Nordeste e o Rio de Janeiro e teve uma vida inquieta, ativa, atuando no jornalismo, na crônica, na política, na administração pública, até despontar com um dos nossos maiores literatos brasileiros. Em Alagoas, Sr. Presidente, fez de tudo e morou em várias cidades, como Viçosa, onde cresceu, Quebrangulo, onde nasceu, e Palmeira dos Índios, onde foi Prefeito. Um itinerante nato, como seus principais personagens.
Suas obras retratam a aspereza da vida no Sertão nordestino e guardam uma profunda conexão com as questões sociais e culturais da região e as adversidades da pobreza e da seca. A carreira literária teve um início com Caetés, em 1933, a obra que inaugurou o estilo desidratado e direto da penosa realidade da vida nordestina. O ápice desse estilo, alcançado com Vidas Secas, em 1938, onde o Velho Graça, como era conhecido, se consolidou como uma das grandes referências da literatura brasileira.
O romance aborda a vida de uma família de retirantes, explorando temas como a opressão, o autoritarismo, a luta de classes e a batalha pela sobrevivência. Quem há de se esquecer do abrutalhado vaqueiro Fabiano, de Sinhá Vitória, da impessoalidade desumana dos filhos, que nem sequer tinham nomes e eram tratados apenas como "o menino mais velho" e "o menino mais novo"? Quem não se lembra da cadela Baleia, cuja morte agônica é retratada pelo engenho insuperável de Graciliano Ramos, rodeada de preás para compensar uma vida animalizada de fome e miséria.
Nos últimos anos da vida, Senador Izalci Lucas, Graciliano lançou Memórias do Cárcere, em 1953, ano em que faleceu. O livro relata as misérias de Graciliano Ramos na prisão, entre 1936 e 1937, durante a ditadura Vargas.
Acusado de participar da Intentona Comunista de 1935, Graciliano Ramos foi levado para a Colônia Correcional de Dois Rios, em Ilha Grande, no Rio de Janeiro, sem acusação formal, sem responder a processo, sem provas ou julgamento. A detenção durou 11 meses e representou uma passagem de intenso sofrimento para o escritor, que foi torturado. Ali são destacadas as condições desumanas do cárcere e as injustiças impostas aos prisioneiros. A obra foi publicada sem o seu último capítulo, já que Graciliano não conseguiu finalizá-la.
O legado de Graciliano supera seu próprio tempo. Ao longo dos anos, se transformou num dos autores fundamentais para enxergar o Brasil, principalmente a entender a alma do povo nordestino. As obras esculpidas pelo velho Graça equivalem a um extrato sociológico rigoroso do Brasil e da Região Nordeste.
Graciliano era contido, conciso, assim como muitos dos seus personagens. Em uma carta ao tradutor argentino Raúl Navarro, responsável pela difusão da obra do brasileiro na América Latina, Graciliano reconhecia esta natureza, aspas: "Os dados biográficos é que não posso arranjar, porque não tenho biografia. Nunca fui literato, até pouco tempo vivia na roça e negociava. Por infelicidade, virei prefeito no interior de Alagoas e escrevi uns relatórios que me desgraçaram", fecho aspas – relatou em correspondência assinada em novembro de 1938.
Os tais relatórios, Presidente Izalci Lucas, carregados de ironia aguda e acidez, se referem à gestão da cidade de Palmeira dos Índios, que mudou a trajetória do autor definitivamente. De tão valiosas as suas prestações de contas de 1929 e 1930, em que analisava minúcias e detalhava os gastos e investimentos da curta gestão, são consideradas as primeiras expressões do enorme talento do escritor e seu início literário.
Se me permitirem, eu gostaria de uma breve citação da prestação de contas referente ao ano de 1928, apresentadas ao Governador de Alagoas em janeiro de 1929, uma pedagogia sincera sobre economicidade, austeridade, impessoalidade e publicidade da administração pública.
Aspas: "Procurei sempre os caminhos mais curtos. Nas estradas que se abriram só há curvas onde as retas foram [...] impossíveis. [...] Não favoreci ninguém. Devo ter cometido numerosos disparates. Todos os meus erros, porém, foram erros da inteligência, que é fraca". Fecho aspas.
Como se observa, Presidente Izalci, por esses pequenos trechos da célebre prestação de contas, Palmeira dos Índios e Alagoas podem ter perdido um administrador austero, disciplinado e comprometido com o dinheiro do contribuinte, mas, sem dúvida nenhuma, devemos agradecer, porque, se de um lado abrimos mão de alguns talentos de Graciliano Ramos, de outro ganhamos atributos incomparáveis.
Na literatura brasileira, poucos são os nomes que brilham com a intensidade e a majestade de Graciliano Ramos. Sua obra já atravessou um século e atravessará muitos outros, pela verdade e pela contemporaneidade que carrega.
Muito obrigado, Presidente.