Pronunciamento de Confúcio Moura em 01/12/2025
Discurso durante a 180ª Sessão Não Deliberativa, no Senado Federal
Reflexão sobre as desigualdades territoriais do país, destacando que o Código de Endereçamento Postal (CEP) ainda determina o acesso a direitos e oportunidades. Denúncia do possível abandono de comunidades indígenas, ribeirinhas e rurais, com elogio à criação de universidade voltada aos povos indígenas. Defesa de políticas públicas que garantem dignidade, inclusão e presença efetiva do Estado.
- Autor
- Confúcio Moura (MDB - Movimento Democrático Brasileiro/RO)
- Nome completo: Confúcio Aires Moura
- Casa
- Senado Federal
- Tipo
- Discurso
- Resumo por assunto
-
Atuação do Estado,
Desenvolvimento Regional,
Direitos Humanos e Minorias,
Educação,
Governo Federal,
População Indígena:
- Reflexão sobre as desigualdades territoriais do país, destacando que o Código de Endereçamento Postal (CEP) ainda determina o acesso a direitos e oportunidades. Denúncia do possível abandono de comunidades indígenas, ribeirinhas e rurais, com elogio à criação de universidade voltada aos povos indígenas. Defesa de políticas públicas que garantem dignidade, inclusão e presença efetiva do Estado.
- Publicação
- Publicação no DSF de 02/12/2025 - Página 38
- Assuntos
- Outros > Atuação do Estado
- Economia e Desenvolvimento > Desenvolvimento Regional
- Política Social > Proteção Social > Direitos Humanos e Minorias
- Política Social > Educação
- Outros > Atuação do Estado > Governo Federal
- Política Social > Proteção Social > População Indígena
- Indexação
-
- ANALISE, CRITICA, AUSENCIA, ESTADO, COMUNIDADE INDIGENA, COMUNIDADE RIBEIRINHA, ESPECIFICAÇÃO, ESTADO DE RONDONIA (RO), DEFESA, INCLUSÃO SOCIAL, INDEPENDENCIA, LOCALIZAÇÃO, TERRITORIO, BRASIL.
- ELOGIO, CRIAÇÃO, UNIVERSIDADE, PRESERVAÇÃO, PATRIMONIO INDIGENA, CULTURA, INDIO, VALORIZAÇÃO, MISTURA, RAÇA, TRADIÇÃO, BRASIL.
- DEFESA, GARANTIA, EFICACIA, SERVIÇO PUBLICO, ESCOLA, SAUDE, SANEAMENTO, OBJETIVO, INCLUSÃO SOCIAL, INDEPENDENCIA, LOCALIZAÇÃO, BRASIL.
O SR. CONFÚCIO MOURA (Bloco Parlamentar Democracia/MDB - RO. Para discursar.) – Sr. Presidente, Senadores e Senadoras que estão à distância, eu quero, assim, cumprimentar as galerias, as pessoas que estão aí nos assistindo. Hoje, segunda-feira, é uma sessão só de discursos, debates, encaminhamentos, e os Parlamentares ou estão nos gabinetes, ou estão cumprindo agendas, ou estão nos seus estados, e apenas, hoje, aqui, só estamos o Senador Paulo Paim, do Rio Grande do Sul, e eu, do Estado de Rondônia.
Eu quero iniciar o meu discurso nesta tarde pedindo licença para falar do Flamengo. (Risos.) Realmente, mexeu com os brios do povo brasileiro...
O SR. PRESIDENTE (Paulo Paim. Bloco Parlamentar Pelo Brasil/PT - RS) – Sou parceiro, viu? Sou parceiro!
O SR. CONFÚCIO MOURA (Bloco Parlamentar Democracia/MDB - RO) – ... mexeu muito! Essa vitória do Flamengo, lá em Lima, no Peru, foi realmente... mexeu com esta nação rubro-negra brasileira, e foi uma euforia muito grande, 40 milhões de torcedores muito alegres, entusiasmados. Você sabe que a gente tem nossas mazelas, nossas dificuldades, nossos clamores, nossas injustiças, nossas desigualdades, mas o futebol nos une em parte, porque realmente é um esporte das multidões, e nós gostamos do futebol, cada um torce pelo seu time – eu torço pelo Flamengo e fiquei muito feliz com essa vitória na Libertadores.
Mas eu quero começar este pronunciamento para falar do time, do futebol, e faço isso, porque o título deste discurso é o "Brasil que tem CEP". CEP é aquele endereço postal dos Correios. Todos nós, vocês que estão aqui e quem está me ouvindo, moramos num lugar que tem CEP, uma identificação postal.
Então, o Brasil é um país que tem CEP, isto é, ele conversa diretamente com aquilo que o futebol nos ensina: quando há estrutura, quando há base, quando há organização, até um menino da rua esburacada tem chance de vencer. Assim também são os jogadores de futebol: grande parte são pessoas muito simples, meninos pobres, que desenvolvem esta habilidade, este reflexo cerebral de pegar uma bola e jogar a bola onde ele quer, e isso não é fácil. Você estar ali jogando e imaginar... Aquilo é uma decisão de segundos. E joga aquela bola lá para o companheiro ou chuta a gol. Então, são reflexos de uma capacidade, um talento inato da pessoa.
Quando um clube é sério, quando ele tem gestão, planejamento, base estruturada, nutrição adequada, psicólogos, treinadores competentes, um sistema claro de evolução do menino pobre, aquele que treina no chão batido, aquele que sonha com uma chuteira nova, aquele que dribla com dificuldades desde cedo encontra uma oportunidade real de mudar o seu próprio destino. O talento ele já tinha, e faltava a estrutura de um time. Foi a oportunidade que transformou o caminho de cada atleta no mundo inteiro.
E é exatamente aí é que começa a reflexão sobre o Brasil que tem CEP. Um país só cria oportunidades quando entrega base sólida, quando dá condições reais, quando reconhece seus jovens como cidadãos inteiros; não pela região onde nasceram, mas pelo projeto de país que os abraça.
O Brasil vive um momento tenso. O cidadão sente que a vida ficou difícil demais, e, por vezes, parece que o país perdeu o compasso. Há uma distância crescente entre o que as pessoas precisam e o que as pessoas realmente conseguem receber. E nada ameaça tanto uma nação quanto o sentimento de abandono.
Hoje, no Brasil, o Código de Endereçamento Postal (CEP) ainda define o tamanho da cidadania da pessoa, e é essa uma ferida que não fecha. Existem brasileiros tratados como mais ou menos brasileiros, de acordo com o endereço onde nasceram – essa desigualdade geográfica que fere, que divide, que humilha e que não pode ser normalizada.
Eu venho de Rondônia e, quando percorro aldeias, comunidades ribeirinhas, ramais quase intransitáveis, periferias esquecidas, o que eu encontro são brasileiros completos, dignos, trabalhadores, mas que recebem do Estado apenas algumas migalhas, como se vivessem em regiões sem o Código de Endereçamento Postal, sem o CEP. Vejo jovens indígenas com sede de conhecimento.
Eu fiquei muito satisfeito – aqui eu abro um parêntese – quando, na semana passada, o Presidente Lula lançou a universidade para as comunidades, para os povos indígenas.
Eu achei, assim, o máximo, uma universidade aqui, em Brasília, dedicada especialmente à manutenção das tradições, das línguas, das culturas das comunidades indígenas brasileiras. Uma homenagem extremamente gratificante, uma homenagem grandiosa para o povo brasileiro como um todo, porque, se analisarmos a genética nossa, nós vamos ver que essa mestiçagem brasileira é composta de sangue europeu, de genes europeus, indígenas, negros, e nós somos, antes de tudo, mestiços. Essa mestiçagem é que dá essa beleza ao povo brasileiro.
Vejo filhos de agricultores com sonhos maiores que as estradas que precisam enfrentar e que seguem sem CEP. Vejo mães que fazem milagres para que os filhos estudem, comam, cresçam, lutando todos os dias para aproximá-los daqueles que têm um código melhor. Essas pessoas não pedem favor; elas pedem justiça, elas pedem presença do Estado, elas pedem reconhecimento, elas pedem que o Brasil olhe para elas com o mesmo respeito com que olha para qualquer grande centro urbano, aqueles que têm um CEP diferenciado e especial.
Fala-se muito em futuro neste país, futuro promissor, futuro tecnológico, futuro moderno, mas para milhões de brasileiros esse futuro nunca chega, e não chega porque falta dignidade no presente.
Quando não falo em presente, não falo de milagres, falo de funcionamento. A escola que ensina e acolhe, a saúde que atende e resolve, a infraestrutura que liga dois pontos e protege, a cultura que amplia horizontes, o saneamento que evita doenças, a segurança que dá a paz, o trabalho que garante a autonomia. É no cotidiano que o país se constrói, é na vida real que o Brasil precisa estar presente. Eu já ouvi muitas promessas de modernização durante toda a minha vida, mas aprendi que modernizar não é importar máquinas; é incluir pessoas – isso que é modernização. É garantir que ninguém fique para trás – esse é o grande objetivo. O que um jovem brasileiro quer não é milagre; ele quer coerência, previsibilidade, oportunidade real; é saber que, se ele estudar, se ele trabalhar, se ele fizer a parte dele, o Estado também fará a sua parte.
E volto ao futebol, porque o exemplo é simples e poderoso. Um clube sério não promete título; promete estrutura, promete formação, promete trabalho diário, promete caminho para os seus atletas e para os seus torcedores. E o caminho é que cria o talento.
O Brasil precisa oferecer aos seus jovens exatamente isto: um caminho possível, um ambiente fértil, um projeto nacional claro, que diga: "Você tem valor, você tem direitos, você tem um lugar neste país". O jovem que sente que o Brasil desistiu dele desiste do Brasil também, mas o jovem que se sente visto levanta o país inteiro. E é isso que precisamos garantir, não para o futuro, mas para o presente que está acontecendo.
Senhoras e senhores, nenhuma nação se torna soberana sem cuidar integralmente da sua gente. A Amazônia não será protegida enquanto os amazônidas forem esquecidos; o Brasil não será integrado enquanto o brasileiro for dividido pelo Código de Endereçamento Postal, pelo CEP; e a esperança não voltará enquanto o Estado não voltar para perto das pessoas.
A minha missão aqui é contribuir para isso, para que o Brasil reencontre o seu projeto, a sua unidade, a sua dignidade, e para que cada jovem, do Oiapoque ao Chuí, da Zona Leste de São Paulo às margens do Rio Madeira, lá no Estado de Rondônia, possa levantar a cabeça e dizer: "Eu sou o Brasil, o Brasil acredita em mim; agora eu tenho o endereço, um código postal que não me discrimina, que não me elimina, que não me desqualifica. Agora, finalmente, eu vou vencer".
É esse o meu discurso, Sr. Presidente.
Muito obrigado.
O SR. PRESIDENTE (Paulo Paim. Bloco Parlamentar Pelo Brasil/PT - RS) – Muito bem, Presidente Confúcio Moura.
V. Exa., brilhante como sempre, deu uma aula para todo o Brasil; mostrou qual é o caminho.
E V. Exa., com uma inteligência, que eu diria, especialíssima... V. Exa. começou falando do futebol – eu também sou flamenguista, viu? –, do jogo do Flamengo e do Palmeiras, daquele gol magnífico, em que aquele zagueirão foi lá no terceiro andar, cabeceou e liquidou o jogo. E V. Exa. buscou o exemplo do futebol e terminou na linha da educação, do conhecimento, do saber, da formação, para que qualquer brasileiro, esteja onde estiver – se estiver lá em Manaus, se estiver lá no meu Rio Grande do Sul, se estiver no seu estado, enfim –, acredite que pode chegar.
Nós chegamos aqui; o Flamengo chegou lá, pela quarta vez, se eu não me engano. Pela quarta vez campeão da América, da Libertadores, né? Da Libertadores.
Isso que eu joguei futebol quando era moleque, viu?
Eu só quero cumprimentá-lo com muito carinho e dizer que sempre é uma alegria ouvir V. Exa.
O SR. CONFÚCIO MOURA (Bloco Parlamentar Democracia/MDB - RO. Fora do microfone.) – Obrigado.