Discurso durante a 19ª Sessão Não Deliberativa, no Senado Federal

Registro sobre o Dia Internacional de Luta contra o Racismo, com menção ao massacre de Sharpeville, na África do Sul, e à luta contra o "apartheid", destacando o legado de Nelson Mandela. Cumprimentos à Caixa Cultural Brasília pela Exposição “Comigo Ninguém Pode”, do artista pernambucano Jeff Alan, e pelo espetáculo “Menino Mandela”.

Autor
Paulo Paim (PT - Partido dos Trabalhadores/RS)
Nome completo: Paulo Renato Paim
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
Direitos Humanos e Minorias, Homenagem:
  • Registro sobre o Dia Internacional de Luta contra o Racismo, com menção ao massacre de Sharpeville, na África do Sul, e à luta contra o "apartheid", destacando o legado de Nelson Mandela. Cumprimentos à Caixa Cultural Brasília pela Exposição “Comigo Ninguém Pode”, do artista pernambucano Jeff Alan, e pelo espetáculo “Menino Mandela”.
Publicação
Publicação no DSF de 24/03/2026 - Página 53
Assuntos
Política Social > Proteção Social > Direitos Humanos e Minorias
Honorífico > Homenagem
Indexação
  • REGISTRO, DIA INTERNACIONAL, COMBATE, RACISMO, COMENTARIO, MORTE, HOMICIDIO, AFRICA DO SUL, HOMENAGEM, NELSON MANDELA.
  • REGISTRO, MEMORIA, MISSÃO OFICIAL, AFRICA DO SUL.
  • ELOGIO, CAIXA ECONOMICA FEDERAL (CEF), EXPOSIÇÃO, ARTISTA, ESTADO DE PERNAMBUCO (PE).

    O SR. PAULO PAIM (Bloco Parlamentar Pelo Brasil/PT - RS. Para discursar.) – Presidente, eu vou direto no tema aqui, porque sei que todo mundo está com pressa hoje.

    Sr. Presidente, eu vou comentar aqui que 21 de abril foi o dia internacional de luta contra o racismo e o preconceito, baseado no massacre de Sharpevillee, que aconteceu na África do Sul, onde em torno de 70 pessoas foram assassinadas, porque lutaram contra o Apartheid; lutavam e morreram contra o Apartheid e seguiam claramente o caminho de Nelson Mandela.

    Senhoras e senhores, quero iniciar cumprimentando a Caixa Cultural, em especial a Caixa Cultural Brasília, que acolhe, com sensibilidade, o compromisso com a cultura e onde fui assistir, nesse 21 de março, à belíssima exposição feita com o artista e pintor Jeff Alan, com o título Comigo Ninguém Pode – é o que os quadros retratam.

    Trata-se de uma amostra com cerca de 50 obras do talentoso artista pernambucano Jeff Alan, que nos convida a mergulhar em temas profundos como memória, identidade e pertencimento. Suas telas, vibrantes e cheias de vida, colocam no centro da cena o protagonismo do povo negro e a sua situação do mundo. Há em suas obras uma atmosfera que emociona. A palavra sonho aparece como um fio condutor, um sonho coletivo, ancestral, resistente. Ali está retratada a força que vem da ancestralidade, da união, da caminhada compartilhada, uma mensagem poderosa: que ninguém constrói sozinho. Somos fruto de uma história, de um povo, de uma luta. A exposição permanece em Brasília até o dia 31 de maio e depois seguirá para a Caixa Cultural Curitiba. Eu diria a todos que vale a pena ir lá, vale a pena visitar, sentir e refletir.

    Também assisti, na Caixa Cultural Brasília, ao espetáculo de teatro Menino Mandela, um musical sensível, premiado, que narra a infância de Nelson Mandela, uma produção que encanta pela delicadeza e pela força. O palco, Sr. Presidente, e o plenário estavam com uma energia especial; plenário lotado de pais, mães e crianças. Uma produção, repito, que encanta pela delicadeza e pela força, com texto de Ricardo Gomes e Mariana Jaspe, direção de Arlindo Lopes e direção musical de Wladimir Pinheiro. O espetáculo reúne um elenco talentoso que emociona a todos do início ao fim. É uma viagem poética à infância de Mandela, onde música, dança e palavra nos mostram como os ensinamentos dos mais velhos, dos anciões, foram fundamentais para formar aquele jovem que mais tarde se tornaria um dos maiores símbolos na luta contra o apartheid: Nelson Mandela.

    A peça não fala apenas do passado, ela fala também com o presente. Ela nos chama à reflexão, ela nos lembra que a luta por justiça, igualdade e dignidade continua aqui e agora. Por isso, deixo aqui meus parabéns a todos os artistas envolvidos, à Caixa Cultural, ao Ministério da Cultura e ao Governo do Brasil, por promoverem iniciativas que alimentam a alma do nosso povo.

    Permitam, senhoras e senhores, que eu diga que, enquanto eu estava ali assistindo àquele espetáculo no Teatro da Caixa, eu viajei no tempo, porque grande parte do que eu vi ali eu tinha assistido quando eu fui à África do Sul, numa missão do Congresso Nacional, representando os Constituintes de 1988, exigir a libertação de Nelson Mandela. Assim, eu posso dizer que eu me senti como se estivesse no palco – mas estava sentadinho, quietinho, lá atrás.

    Eu estive na África do Sul na condição de Deputado Federal Constituinte. Integrei uma missão oficial do Congresso Nacional Brasileiro, ao lado de Benedita da Silva, Carlos Alberto Caó, Edmilson Valentim, João Herrmann, já falecido, e Domingos Leonelli – Alberto Caó, também já falecido. Fomos à África do Sul com um único objetivo: exigir a libertação de Nelson Mandela. Naquele tempo, o regime do apartheid ainda impunha sua face cruel. Não nos receberam, mas entregamos o documento junto àquele poder constituído. Não foi nos permitido encontrar pessoalmente Nelson Mandela, mas não recuamos. Estivemos com Winnie Mandela e com o Congresso Nacional Africano, entregamos a eles a carta de solidariedade e apoio a Nelson Mandela. Recebemos o carinho e o apoio de Winnie Mandela, que foi muito atacada, porque era uma mulher negra e líder naquele país também, mas era atacada pelo apartheid.

    Protocolamos documentos, denunciamos a injustiça, levantamos nossa voz em nome do povo brasileiro. Foi naquele momento que recebi das mãos de Winnie Mandela a Carta da Liberdade do povo sul-africano. Aquela carta não era apenas um documento; era um grito de liberdade, um projeto de nação, um sonho coletivo de igualdade e dignidade. E posso afirmar: aquela experiência nos ajudou na construção do Estatuto da Igualdade Racial no Brasil, nos inspirou. Lembro também que, nas ruas de Joanesburgo, onde estive, o povo gritava com força e esperança naquela época: "Liberdade a Mandela!", "Amandla! Amandla! Amandla!", "O poder é nosso!". E o povo também dizia: "Cada lança, um voto; cada voto, uma lança".

    Depois, já em um novo tempo, tive a honra de finalmente encontrar Nelson Mandela, liberto. Ele veio ao Brasil e visitou aqui o Congresso Nacional, em 1991. Foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida pública, estar diante de um homem que enfrentou a prisão durante 29 anos. Diziam para ele: "Você será liberto, mas pare de lutar pelo fim do apartheid". E ele respondia: "Lutarei até o fim, só sairei daqui com o fim do apartheid". Foi perseguido, humilhado e, mesmo assim, escolheu o caminho da reconciliação, do diálogo e da paz – uma lição que levarei para sempre.

    Enfim, ele foi liberto pela pressão de todo o planeta. O mundo todo queria a libertação de Mandela.

    O governo do apartheid recua, Mandela é liberto e se elege Presidente da África do Sul. Estivemos lá com o Congresso Nacional Africano e ali não tinha como não reconhecer a força, o carisma e a imagem de Mandela.

    Lembro-me de que, numa oportunidade, Bill Clinton disse que Mandela não precisava falar. Cada vez que ele o via numa reunião de Presidentes do mundo todo, ele era recebido com silêncio e, depois, muitas palmas.

    Sr. Presidente, na prisão, Mandela lia muito, estudava muito, escrevia, conversava com seus colegas da prisão. Entre eles havia grandes debates. E eles sairiam de lá só quando acabasse o apartheid. Ele rezava muito, pedia aos céus, orava com toda a sua força. E eu me lembro da frase: "Meu povo é a minha África", e não merece o apartheid, disse Mandela.

    Antes de ser transferido da Ilha Robben, um prisioneiro levou uma cópia das obras reunidas de um grande dramaturgo inglês e pediu que os prisioneiros marcassem suas mensagens favoritas. Mandela não hesitou. Foi até Júlio César, Ato 2, Cena 2, e marcou o trecho onde diz que os covardes morrem várias vezes antes das suas mortes, mas o bravo sente o gosto da morte uma única vez. "De tudo que vi, o mais estranho é que os homens tenham medo, já que a morte, um fim necessário, vem quando vem", esse é Nelson Mandela. Não tinha medo. Na prisão aprendeu, segundo ele mesmo, a ter autocontrole, foco e disciplina.

    Mandela, depois que conseguiu, com muita luta e o apoio planetário que teve, a liberdade, se elegeu Presidente, então, da África do Sul. Importante lembrar que, em um país onde 90% eram negros, na hora de escolher seus Ministros, para unificar o país, ele escolheu um branco e um negro, um branco e um negro, e também escolheu mulheres na mesma proporção.

    Mandela, esse Líder, para mim, de todos nós, faleceu em 2013, aos 95 anos. O mundo todo lamentou a perda do homem que foi, para brancos e negros, ricos e pobres, homens e mulheres, uma grande inspiração e um exemplo a ser seguido. Seus conterrâneos choraram sua partida por dias, ao mesmo tempo em que dançavam e cantavam nas ruas das principais cidades, celebrando sua vida longa e generosa.

    Estive em Pretória, estive em Soweto, estive na região do massacre de Sharperville, estive nos lugares onde Mandela viveu, lutou e caminhou até ser preso e virar Presidente num terceiro momento, praticamente 30 anos depois.

    Enfim, Sr. Presidente, o grande humanista, forjado no calor da resistência política e moldado na prisão, buscou ardentemente, até o fim de seus dias, a resolução pacífica de conflitos e o aperfeiçoamento das relações inter-raciais, a promoção e proteção dos direitos humanos, a igualdade de gêneros e a melhoria da qualidade de vida dos mais pobres. Uma vez perguntado, Mandela... O movimento social, popular, sindical pediu uma reunião com Mandela, que os recebeu. Perguntaram o que Mandela achava de eles fazerem movimento de rua. Mandela respondeu: "Façam pressão, sim. Se vocês não fizerem, a elite vai fazer movimentos. Eu preciso ouvir a voz das ruas, a batida do tambor, o canto de vocês e as pautas de vocês".

    A missão de Mandela, eu diria, foi a de um grande jardineiro. Ele cultivou um jardim de humanidade, regou dia após dia, sem esperar nada em troca, podou o necessário para que novos caminhos surgissem, cuidou da semente da esperança mesmo quando o solo parecia árido, um jardim onde os seres humanos pudessem ser iguais entre si, onde a liberdade cantasse suas canções suaves, onde o abraço fosse mais forte que o ódio e prevalecesse o amor, onde o respeito florescesse acima das diferenças de raça, cor, origem ou crença.

    Este foi Nelson Mandela, uma referência para mim por toda a vida: perseguido, preso, humilhado, mas jamais derrotado, libertado e, mais do que isso, libertador de consciências, um africano de todas as cores, um homem que nos ensinou que a verdadeira força está na capacidade de perdoar, sem esquecer de lutar.

    Por isso, eu encerro dizendo: vida longa aos ideais, aos pensamentos, a Nelson Mandela. Amandla, amandla, amandla! O poder é nosso! "Cada homem, uma lança; cada homem, um voto." Assim, ele instalou a democracia naquele país.

    É isso, Presidente.

    Agradeço a tolerância de V. Exa., como sempre.

    O SR. PRESIDENTE (Confúcio Moura. Bloco Parlamentar Democracia/MDB - RO) – Perfeito.

    O SR. PAULO PAIM (Bloco Parlamentar Pelo Brasil/PT - RS) – Fiquei aí nos meus 15 minutos.


Este texto não substitui o publicado no DSF de 24/03/2026 - Página 53