Pronunciamento de Astronauta Marcos Pontes em 30/03/2026
Discurso durante a 22ª Sessão Especial, no Senado Federal
Sessão Especial destinada a celebrar os 32 anos da Agência Espacial Brasileira (AEB). Reconhecimento da trajetória da AEB como uma história de superação e sucesso, enfatizando que o desenvolvimento tecnológico depende de apoio político concreto. Reflexão sobre a capacidade técnica brasileira em comparação às grandes potências mundiais. Detalhamento de momentos críticos e simbólicos da Missão Centenário, primeira missão de um brasileiro no espaço.
- Autor
- Astronauta Marcos Pontes (PL - Partido Liberal/SP)
- Nome completo: Marcos Cesar Pontes
- Casa
- Senado Federal
- Tipo
- Discurso
- Resumo por assunto
-
Ciência, Tecnologia e Informática,
Data Comemorativa:
- Sessão Especial destinada a celebrar os 32 anos da Agência Espacial Brasileira (AEB). Reconhecimento da trajetória da AEB como uma história de superação e sucesso, enfatizando que o desenvolvimento tecnológico depende de apoio político concreto. Reflexão sobre a capacidade técnica brasileira em comparação às grandes potências mundiais. Detalhamento de momentos críticos e simbólicos da Missão Centenário, primeira missão de um brasileiro no espaço.
- Publicação
- Publicação no DSF de 31/03/2026 - Página 28
- Assuntos
- Economia e Desenvolvimento > Ciência, Tecnologia e Informática
- Honorífico > Data Comemorativa
- Matérias referenciadas
- Indexação
-
- SESSÃO ESPECIAL, CELEBRAÇÃO, ANIVERSARIO DE FUNDAÇÃO, AGENCIA ESPACIAL BRASILEIRA (AEB), MES, MARÇO.
- NECESSIDADE, APOIO, RECURSOS FINANCEIROS, AGENCIA ESPACIAL BRASILEIRA (AEB).
- ELOGIO, IMPORTANCIA, SERVIÇO NACIONAL DE APRENDIZAGEM INDUSTRIAL (SENAI), CURSO TECNICO.
- REGISTRO, CARATER PESSOAL, MISSÃO, ESPAÇO, ASTRONAUTA.
- COMPARAÇÃO, CAPACIDADE, BRASIL, PAIS ESTRANGEIRO, DEFESA, COOPERAÇÃO.
O SR. ASTRONAUTA MARCOS PONTES (Bloco Parlamentar Vanguarda/PL - SP. Para discursar.) – O.k. Emoção muito boa.
Caro Presidente Chico Rodrigues, amigo Chamon, Rodrigo, todos aqueles que estão aqui nos acompanhando, quero agradecer a presença de cada um – e também àqueles que nos acompanham pela Rede Senado, pela TV Senado – e agradecer a presença dos embaixadores, dos representantes dos países aqui presentes também. Agradeço a cada um que hoje está aqui comigo, primeiro, para prestar homenagem à nossa Agência Espacial Brasileira pelos seus 32 anos, uma história repleta de dificuldades, mas repleta de sucessos também.
É importante ressaltar que essa história teve a participação de muita gente, ou seja, ninguém faz nada sozinho. Nós temos que ter a presença de muitas pessoas, a ideia, as emoções de muitas pessoas para que as coisas aconteçam. Eu venho acompanhando esse processo durante muito tempo da minha vida e continuo acompanhando aqui no Senado com a ajuda de companheiros, Senadores, Senadoras, Deputados que apoiam realmente a ciência e a tecnologia não só no discurso, mas também na hora de votar o Orçamento, na hora de colocar a sua assinatura ali em um documento importante que pode permitir ao programa espacial evoluir, pode permitir que as atividades espaciais sejam tão importantes para um país do tamanho do nosso, com as dificuldades que nós temos, e que vão ser muito facilitadas com o trabalho e as operações espaciais. Então, é muito bom no dia de hoje a gente lembrar a importância desse programa, e que isso não fique só na comemoração, que isso fique aqui a cada dia dentro desse Congresso, a cada dia dentro dos gabinetes, para que nós tenhamos realmente um país com sucesso no programa espacial.
Eu tenho aqui um discurso, Presidente – estou vendo que o tempo está parado, obrigado –, porque não dá para falar de 20 anos em pouco tempo, é um discurso de umas dez páginas. Mas, em vez de eu ler o discurso – eu quero agradecer, aliás, a escrita e tudo mais –, eu vou falar um pouco da cabeça, que eu acho que é o mais importante neste momento. Porque, se a gente for pensar direito, de tudo que a gente viu aqui, a vida da gente é feita de momentos, e cada momento desse tem um lugar, tem um evento, tem pessoas, tem uma emoção e alguma coisa que a gente aprende com aquele evento em especial ali, naquele local.
Então, eu vou tentar lembrar de algumas coisas, eu já peço desculpas àqueles que eu não lembrar, dos detalhes, mas saibam que estão no meu coração, mas eu vou contar algumas histórias aqui. Quem é do interior, a gente gosta de contar histórias, então eu quero contar algumas histórias aqui, primeiro, começando lá em Bauru. Estou vendo o Deputado... Olha, estou colocando para frente aqui, nosso Vereador Helinho, lá de Bauru, aqui conosco, um guerreiro lá na cidade, para defender a cidade. Espero que seja Prefeito da cidade um dia, não sei quais são os seus planos, mas, se for, pode contar com o meu apoio. E eu tenho certeza de que vai fazer um ótimo trabalho lá, ou em outros cargos, como Deputado, Senador, quem sabe? Então é importante, uma pessoa de respeito, que trabalha com carinho para realmente ajudar a cidade. Parabéns, obrigado por estar aqui conosco.
Eu lembro, lá de Bauru, da D. Zuleika, meu irmão falou aqui um pouquinho, o Luiz Carlos, a minha sobrinha falou, filha da Rosa, minha irmã, infelizmente ela não está mais aqui, mas deve estar acompanhando a gente de algum lugar. Mas eu me lembro muito bem daquele tempo lá, no começo de Bauru, com o Senai, que tinha até um grupo do Senai aqui, e como que a gente fazia ali na época para ir ao aeroporto ver os aviões lá. E o meu irmão íamos de bicicleta, ele é muito mais velho do que eu, diga-se de passagem – sacanagem, não é tanto assim, não –, mas ele ia comigo e me levava ali para ver os aviões, pensar, sonhar em voar, mas eu não tinha a mínima condição de pagar a hora de voo. Então, com 14 anos, eu consegui meu primeiro emprego lá, graças ao Senai. Daí a importância do curso profissionalizante, a gente viu ali a WorldSkills internacional, eu sou embaixador mundial do ensino profissionalizante, Presidente da frente aqui para o ensino profissionalizante, porque isso é muito importante para o desenvolvimento do país. E olha, você quer ver redução de nível de criminalidade, droga, tudo isso, aumente a quantidade de escolas profissionalizantes no país, a quantidade de alunos do ensino médio que participam dos cursos profissionalizantes, eu te garanto que vai reduzir esses números num prazo mais curto do que a gente imagina aqui no nosso país.
Então, daquela época ali, muitas coisas para se lembrar no tempo lá de Bauru, mas eu lembro de um evento, numa situação muito interessante, em que eu estava lá numa locomotiva, estudando com os livros embaixo do braço, e os amigos lá olharam para mim e falaram assim, lá na rede ferroviária federal, onde era meu primeiro emprego, olharam para mim e falaram assim: "Você está estudando o tempo todo, está estudando para quê, moleque?" "Estou estudando para fazer a prova da Academia da Força Aérea, vou ser piloto, não vou ficar aqui, não." "Você ser piloto? Caia na real, isso é coisa para filho de rico, você nunca vai conseguir, você vai ficar frustrado." Eu cheguei, naquele dia, em casa, a D. Zuleika, com seus olhos azuis, olhou para mim, minha mãe, e falou assim: "Olhe, eles são errados. Você pode ser tudo o que você quiser na vida, desde que você estude, trabalhe, persista e sempre faça mais do que esperam de você".
Aliás, eu vi isso ser repetido, hoje, pelo Eric, também pelo Israel, e é importante que essa mensagem seja passada. Está ali o Prof. Canalle, Coordenador da Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica, que tem essa função de levar a ciência e a tecnologia para tantos alunos.
Não é só o conhecimento; a atitude é importante também, e esse tipo de atitude é importante que os nossos alunos tenham. Então, o ensinamento disso, a lição aprendida é esta: por mais difícil que seja a situação, é possível chegar lá e realizar o que a gente quer na vida; começa assim.
Bom, dali eu fui para a Força Aérea. Eu estou vendo aqui meus amigos de Força Aérea, brigadeiros com duas estrelas, com três estrelas. Imaginem por quanto tempo eu sonhei em ter essas estrelas! Bom, não consegui, mas podem ter certeza de que, no meu coração, eu estou aqui junto com vocês, junto com a Força Aérea; eu decolei nas asas da Força Aérea. Eu me lembro de Pirassununga, da Academia da Força Aérea, de chegar lá cheio de ideias e emoções: "como vai ser o curso de cadete?", "quando vou me formar piloto?" – acho que todo mundo que está aqui sabe exatamente do que eu estou falando –, "vou ser desligado ou não vou ser?", "eu tenho que estudar", "tenho um cheque", "tenho um XF nesta semana para fazer" – depois, vocês pesquisem para saber o que é isso.
Mas a vida não era fácil lá, quatro anos para se formar na Academia da Força Aérea. E eu lembro de muitos dos meus amigos naquela situação toda. Eu vejo aqui comigo centauros também, membros do Esquadrão Centauro, de que eu fiz parte lá em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, onde eu me casei, onde meu filho Fábio nasceu e onde eu aprendi, também, o valor da vida, de se estar ali. Na época, eu perdi vários amigos na Força Aérea, pilotos, em acidentes. Eles não estão mais aqui, mas, de certa forma, eles voaram comigo. Eu me lembro lá de Santa Maria também, do frio, do esquadrão, de cada dia ali, e uma coisa que a gente aprende, ao longo da carreira, é que você não chega lá de uma hora para a outra. Não é um esforço de um dia, não é mesmo um esforço de um ano concentrado; é um esforço do dia a dia, é o briefing que a gente faz direito.
Aliás, está ali... Nós voamos juntos e, depois, muito mais tarde, ele no Esquadrão Centauro, eu fazendo um programa de TV com a Record. Ele era o líder da esquadrilha, e eu voei com ele.
Você faz no dia a dia, é aperfeiçoar a cada dia. Como piloto, a gente faz o voo, volta, tem o debriefing. Você sempre erra alguma coisa, sempre tem uma coisa para melhorar, e a vida da gente é isto: sempre ter alguma coisa a melhorar. Então, é no dia a dia, coisa que a gente aprende como piloto, o valor da vida dos nossos amigos, e tudo mais.
Dali, eu fui lá para o CTA. Está aqui o Azevedo, representante de lá. Olhem, a gente ali no ITA... Quando eu cheguei lá no ITA, "será que eu vou conseguir concluir esse curso? Todo mundo fala das dificuldades"... Muita coisa eu aprendi ali. Eu me lembro do Prof. Lacaz, Francisco Lacaz Netto, que dá nome a auditório lá do ITA e que foi meu professor. Eu fui da última turma para a qual ele deu aula, ele já estava bem velhinho na época. E uma vez ele me surpreendeu, falou assim: "Ô senhor [ele fala 'ô senhor', assim], veja bem que nós não formamos engenheiros aqui no ITA". Aí, eu olhei e falei: "Pô, não, eu vim aqui para me formar engenheiro". "Não, não, aqui nós formamos profissionais que usam a engenharia para resolver problemas, então eu espero que o senhor resolva muitos problemas na sua carreira usando os conhecimentos da engenharia.". É isso que a gente faz no dia a dia, inclusive aqui, nessa luta aqui pelo Brasil.
Ali no ITA você aprende também que, a cada dia, tem uma coisa nova para ser aprendida, e, quanto mais você sabe, mais você percebe que falta muita coisa ainda para aprender tudo. Então, o ITA ensina bastante a humildade em aprender.
Depois do ITA, na Nasa... Tem outras coisas no meio do caminho, mas Nasa, seleção de astronautas, lá em 1998... O Dr. Mussi, que estava aqui conosco, recebeu o prêmio. Raimundo Mussi foi o chefe da seleção aqui.
Ah, cadê? Ah, está aqui! Eu pensei que não estava mais, mas está aqui do meu lado.
Ele foi o chefe da seleção aqui no Brasil e acompanhou cada detalhe daquilo. Então, vimos as dificuldades, o que nós tínhamos, o que nós não tínhamos. Não foi fácil colocar aquilo para funcionar, mas funcionou.
Fui lá para Houston. Eu lembro que, quando eu cheguei lá, o pessoal ficava preocupado, falava assim: "Será que esse cara vai ter condição de acompanhar o curso aqui e tudo?". Não só tive condição como fui um dos primeiros lá da turma.
É importante você dar valor àquilo que a gente tem aqui no nosso Brasil. Quando você sai e começa a se colocar junto com outros países em programas dessa natureza, nós vemos o quanto nós temos de capacidade aqui no Brasil. A gente só precisa acreditar nisso aí e lutar para que as coisas realmente funcionem da maneira como a gente precisa, ou seja, colocar todo mundo na mesma proa, colocar todo mundo fazendo esforço no mesmo sentido, e a gente vai ter a condição de transformar este país no melhor país do planeta Terra. E isso não é só falando, assim – nós temos essa condição. Eu pude ver lá, de frente para tantas nações que participam ali.
Foram muitos anos da Nasa e muitas incertezas dentro daquele processo como um todo: será que a gente vai entregar as peças, será que não vai? Será que a gente vai conseguir ou não? Novamente o Senai participou bastante desse período – lembra? O Senai participando e outras instituições, para que a gente pudesse manter a participação do Brasil ali.
Em muitos países eu trabalhei. Estavam aqui os representantes do Japão, e eu trabalhei com o Japão também. Durante três anos, no laboratório japonês, eu era responsável pela integração de módulos da estação e fui responsável direto no laboratório japonês.
Então, ali eu aprendi muita coisa, ao trabalhar com outras nações, outras culturas, outras línguas e perceber o seguinte: primeiro, nós somos só uma raça em cima desse planeta nosso, e a gente precisa aprender a trabalhar junto. A única maneira, na verdade, que nós temos de sobreviver a essa nossa espaçonave é trabalhar junto. E as diferenças que existem entre culturas, entre línguas, religiões, tudo isso, em vez de se usar contra a união, tem que usar a favor da união. Basta uma coisa: aprender a ouvir, e a ouvir o outro lado, o que o outro lado tem a dizer, o que a outra cultura tem a dizer.
Nós estamos olhando para o mesmo problema de vários ângulos diferentes, por culturas diferentes, e nem sempre – ou na maioria das vezes – a nossa solução não é a melhor. Pode ser que a solução vista por uma outra cultura, de outra perspectiva, seja a melhor solução para aquele planeta, para aquele problema. E nós temos muitos problemas para serem resolvidos nesse nosso planeta, que só vão ser resolvidos se nós nos juntarmos e trabalharmos juntos, usando as diferenças para somar, e não para dividir.
Depois, o voo espacial em si. Ah, que horas são agora? Quase 1h da tarde, exatamente a essa hora eu estava... Há 20 anos, eu estava dentro da espaçonave, provavelmente fazendo a preparação de algum sistema – nós ficamos dois dias na Soyuz até nos conectar à estação espacial. Ali há uma questão interessante porque você tem que se adaptar às condições de microgravidade, você já passou por uma decolagem, que é impressionante... E lá estava o Chico Rodrigues, acompanhando a decolagem. Aliás, durante todo o processo da manutenção do Brasil na Estação Espacial Internacional, eu contei aqui com vários Deputados, como Chico Rodrigues, Aroldo Cedraz, Maurício Rabelo, Jair Bolsonaro, ajudando para que nós permanecêssemos na estação espacial, o Brasil. Eles notaram a importância disso. E o Chico estava lá, acompanhando aquela decolagem.
Foi interessante – estava falando aqui do finalzinho, antes de ir para a espaçonave – porque nós tivemos a preparação toda ali num hospital em que a gente fica lá em Baikonur. No dia anterior teve um eclipse, e o pessoal falando: 'Um eclipse no dia anterior, vocês não estão preocupados?", "Você vai na Expedição 13, você não está preocupado com o número 13?", "Não, é um número igual a outro, é um evento igual a outro", mas aí... Nós tivemos a Valentina Tereshkova falando conosco lá durante praticamente a madrugada toda, toda aquela preparação, e aí saímos ali do hotel, e eu lembro que na saída tinha três sacerdotes da Igreja Ortodoxa, que é a igreja lá da Rússia, com aqueles chapéus grandes – é diferente daqui –, barba. E aí eles falaram e eu estava entendendo bem russo na época, mas eu não entendia nada do que eles falavam, porque eles estavam falando em um russo arcaico, como se fosse falar em latim para a gente, então não entendi, perguntei para o Pavel: "O que é isso, o que eles estão falando?", ele: "Não, depois eu te falo". Quando nós saímos, fomos para o ônibus lá, eu falei: "O que era aquilo que eles estavam falando, afinal de contas?", "Não, aqueles eram the last rites, depois procura". Aqui a gente costuma falar "extrema-unção". É estranha a sensação, mas é essa a sensação.
E eu tive, no dia anterior também, às 5h da tarde, a oportunidade de conversar com a Fátima, o Fábio e a Carol, a minha família, durante meia hora – com a enfermeira olhando no relógio, marcando meia hora –, e ali foi difícil porque eu não sabia o que falar para eles. É estranho. Você já pensou nisso? O que você falaria para os seus filhos se você tivesse meia hora para se despedir deles, sem saber se você vai voltar ou não? É uma sensação estranha, a gente não para pra pensar nessas coisas. E eu lembro que, quando eles saíram pelo corredor do hospital, eu olhei para eles... Podia ser a última vez que eu estava olhando.
E a gente tem que continuar a cumprir a missão, o que a gente aprende com isso, e também na nossa missão como força aérea, como piloto de caça, piloto de combate, é que, independentemente se o inimigo é forte ou se o inimigo não é forte, independentemente das condições, você tem que decolar, você tem que cumprir a missão; você é responsável por uma bandeira, você é responsável por um país, em cumprir essa missão. Foi por isso que, durante a decolagem, eu apontei para a bandeira, apontei para cima. Eu apontei com dois dedos porque eu queria dizer que estávamos todos indo juntos, e a bandeira significa: todos nós, cada um de nós, estamos indo juntos. Eu ia apontar com um dedo só, mas um não dá noção de "juntos": estamos indo juntos, com dois dedos para cima.
E esta é uma coisa que a gente precisa falar neste nosso país: nós precisamos ir juntos, para cima, resolver qualquer diferença e ir juntos, realmente ter sucesso aqui, juntos. Ninguém decola faltando o motor: a gente precisa decolar junto aqui neste país.
E, depois daquela decolagem ali, tudo aquilo, de repente eu estava no espaço. Quando eu olhei para a Terra pela primeira vez, aquela Terra azul maravilhosa, eu me lembro bem da primeira coisa que passou na minha cabeça. Foi lá da D. Zuleika, lá atrás, minha mãe, D. Zuleika, com os olhos azuis da cor da Terra, falando para mim: "Olha, você pode ser tudo que você quiser na vida, desde que você estude, trabalhe, persista e sempre faça mais do que esperam de você". E ela estava certa. Ela não pôde ver aquilo, com os olhos azuis dela, porque ela faleceu em 2002, mas meu pai, Sr. Virgílio, viu, lá de Bauru. E eu tenho certeza de que ela me acompanhou lá naquele momento, e foi um momento muito especial.
Quando você se vê ali no espaço, entre tantas coisas que você tem para fazer, os experimentos nossos, experimentos dos outros países, manutenção dos sistemas – a gente estava montando o sistema de comunicação da estação espacial na época –, o dia é contado a minuto, mas você tem um momentinho em que você fica com você mesmo, e você olha para aquela Terra e raciocina: qual a importância da nossa vida aqui neste planeta? Qual a importância do nosso legado aqui? Porque às vezes a gente se perde no meio de tantas coisas que nós achamos que são importantes no dia a dia, ou que nós achamos que são importantes, em troca ou contra outras pessoas. A gente vive discutindo se nós estamos corretos ou errados, enquanto tem muito mais coisas importantes para se fazer nessa vida – e a vida da gente passa rápido.
Eu estava vendo minhas fotos, meus vídeos aqui naquela época, com cabelo preto ainda, e estava lá o Chico também com cabelo preto, o Dr. Mussi já tinha cabelo branco, mas estava lá... (Risos.) E agora você vê como a vida passa tão rápido. No final das contas, o que fica, atrás de tudo isso, é um legado, é aquilo que, quando você chega no final da vida, você fala assim: o que eu vou levar disso aqui? E não é material, não, nada disso. Você vai ter orgulho daquelas coisas que você fez na vida? É bom a gente pensar isso a cada dia, nas coisas que a gente faz, nas escolhas que nós fazemos em cada dia da nossa vida.
Nós fazemos muitas escolhas estranhas, muitas vezes levados pela emoção, emoções ruins, é raiva, eu quero descontar alguma coisa. E, de repente, você percebe que isso não vale absolutamente nada, o que realmente significa são aquelas pessoas que, de alguma forma, você pôde ajudar.
E aí vem um ponto bacana, depois da Nasa. Participei da ONU como embaixador para desenvolvimento industrial, eles vieram aqui dar o WorldSkills também, da fundação, que lá em Bauru a gente faz... Aliás, está todo mundo convidado aqui, no segundo final de semana de junho, para o Arraiá Aéreo.
É muito bom você ver o resultado de tudo isso, do trabalho no ministério, nas coisas que você faz no dia a dia, todas as dificuldades, dificuldades financeiras, dificuldades de burocracias e tudo mais, mas você vê os resultados dessas coisas acontecendo. Eu não vou entrar aqui pelas execuções lá do Ministério da Ciência e Tecnologia, pelas realizações do Ministério da Ciência e Tecnologia, tem muita coisa para falar, mas não é esse o meu objetivo aqui.
Agora, o programa espacial é algo de que é importante a gente citar aqui. Então, hoje, o programa espacial está diferente. Chamon você pegou um momento de crescimento no programa espacial. Eu lembro que o Moura, Zé Raimundo... Com muita dificuldade lá atrás também, falta orçamento, falta estratégia, falta prioridade de o país olhar para o programa espacial da maneira como deveria olhar.
Eu, como Ministro, sofri bastante para que isso pudesse sair e acontecer. E isso não é só com relação à infraestrutura ou dinheiro, isso tem a ver com a formação dos jovens, a motivação dos jovens, tem a ver com a formação dos cientistas, a infraestrutura para os cientistas poderem produzir. O recurso para isso também, sem dúvida nenhuma. E tem a ver com a capacidade de desenvolver aqui no Brasil foguetes, satélites, desenvolver os nossos centros de lançamento, a capacidade de operar comercialmente aqui no Brasil, e tudo isso está funcionando. Está ali o Davi, da Innospace, empresa coreana que fez o primeiro lançamento comercial aqui do Brasil. Parabéns! Eu tenho certeza de que vai ser muito sucesso, e ainda tem vários lançamentos para serem feitos. E não para por aí. Aqui no Senado, nós trabalhamos com a Lei Geral do Espaço, trabalhamos com a criação da empresa Alada, e o programa espacial está num momento maravilhoso. Ele pode, sim, e vai decolar, e como!
E dentro dessa decolagem entram os nossos futuros astronautas. Nós ouvimos aqui o Israel, falando lá de Cerquilho. Eu me lembro do dia em que eu fui lá visitá-lo. Ele está muito diferente agora daquele dia em que a gente foi lá. A Christiane está aqui – ela me acompanha, há 25 anos, nessa jornada. Eu tenho que agradecer muito a ela por tudo que a gente tem feito aí ao longo disso. E eu lembro que, lá em Cerquilho, na primeira vez que eu falei com o Israel – ele era tímido, quase não falava nada, ele era, e é, muito inteligente, sabe? –, eu percebi que tinha alguma coisa ali diferente: esse rapazinho vai ter sucesso. Entregamos lá a medalha da OBA, que eu faço questão de entregar, eu acho importante motivar os alunos, tanto que a gente tinha a secretaria, no ministério, de promoção e popularização da ciência, o que eu acho extremamente importante, e é nossa promessa aí. E, assim como o Israel, está aqui o Eric, que mostrou o foguete dele, as ideias, os sonhos. Eu tenho certeza de que ele vai conseguir chegar, e – quem sabe, né, Chico? – quem sabe seja não só engenheiro, engenheiro aeronáutico, engenheiro aeroespacial, astronauta também, mas venha aqui – porque a gente não fica aqui para sempre, ele tem que vir aqui – representar a ciência e tecnologia e falar a respeito de assuntos estratégicos para o país da maneira como nós sabemos fazer? Cada um aqui tem o seu estilo, cada um aqui tem a sua história. Traga a sua história, o seu estilo, traga as suas capacidades para cá. A gente precisa de jovens capazes, jovens que são inteligentes, jovens que acreditam no Brasil e fazem as coisas pelo Brasil. Não é só falar; é vir aqui e fazer, isso é importante demais.
Eu estou muito feliz, hoje, de estar nessa comemoração dos 32 anos da Agência Espacial Brasileira, 20 anos da Missão Centenário – para mim, parece ontem, o tempo passa muito rápido. Eu tenho certeza de que esse dia vai ficar gravado como mais um dia, como eu falei, de lugares, eventos, pessoas, emoções e aprendizados. Hoje trouxe aqui o Senado este evento, com essas pessoas todas que aqui falaram e deram seu testemunho, com aquelas estão acompanhando também, com as emoções que nós sentimos aqui. Eu confesso que foi difícil segurar as lágrimas muitas vezes. Aliás, às vezes, o pessoal fala que eu não demonstro muita emoção, mas sinto, sim, bastante. É que piloto de caça trabalha de forma lógica na maior parte do tempo, mas, aqui, a emoção é bom sentir, sentir essa emoção de prazer, essa emoção de honra de estar aqui com vocês, essa emoção de orgulho de fazer parte dessa história e de fazer parte do nosso Senado.
Nós temos muitas coisas para fazer. Eu sou um dos que vêm aqui reclamar da inércia do Senado em muitos aspectos, mas nós não vamos desistir. Nós vamos vencer, o país vai vencer, o programa espacial vai vencer, o Eric vai vencer, todos os nossos jovens que realmente se dedicam, estudam, trabalham, persistem e sempre fazem mais do que esperam deles vão vencer também.
Obrigado, Presidente Damares Alves, por marcar esta sessão, por colocar isso para funcionar aqui. Obrigado, Chico, não só por hoje, mas por todo o passado, por essa ajuda toda. Obrigado, Chamon, por estar conduzindo a Agência Espacial Brasileira. Obrigado, Rodrigo – um abraço lá para os nossos amigos da Força Aérea, um abraço para o Damasceno lá e todos. Obrigado pela presença de cada um.
Obrigado aos nossos embaixadores e representantes aqui. O trabalho em conjunto é extremamente importante. Eu vejo aqui o nosso representante também da Embaixada da Rússia aqui conosco, que morou lá em Baikonur, no Cazaquistão, e sabe bem como é que funciona tudo. E eu quero agradecer o carinho, toda a recepção que eu tive na Rússia e que eu tenho na Rússia em todas as vezes que eu vou para lá e a amizade que nós temos entre cosmonautas, entre pessoas. No final das contas, nós vivemos numa espaçonave só, que a gente chama de Terra. Então, o espaço acaba servindo como um exemplo para que a nossa relação entre países e entre pessoas fique cada vez melhor – e precisa ficar. Então, a presença aqui para mim é essa demonstração. Olhe, muito obrigado. Estarei lá muito em breve, se Deus quiser, para ver uma decolagem do Soyuz por fora, porque eu nunca tive chance de enxergar uma – só estava dentro dela.
Obrigado, obrigado a todos.
Sucesso a todos nós. (Palmas.)