Pronunciamento de Randolfe Rodrigues em 07/04/2026
Discurso durante a 28ª Sessão de Premiações e Condecorações, no Senado Federal
Sessão de Premiações e Condecorações destinada à entrega da Comenda Nise Magalhães da Silveira. Defesa apaixonada do Sistema Único de Saúde como um patrimônio imaterial do povo brasileiro.
- Autor
- Randolfe Rodrigues (PT - Partido dos Trabalhadores/AP)
- Nome completo: Randolph Frederich Rodrigues Alves
- Casa
- Senado Federal
- Tipo
- Discurso
- Resumo por assunto
-
Homenagem,
Saúde:
- Sessão de Premiações e Condecorações destinada à entrega da Comenda Nise Magalhães da Silveira. Defesa apaixonada do Sistema Único de Saúde como um patrimônio imaterial do povo brasileiro.
- Publicação
- Publicação no DSF de 08/04/2026 - Página 28
- Assuntos
- Honorífico > Homenagem
- Política Social > Saúde
- Indexação
-
- SESSÃO DE PREMIAÇÕES E CONDECORAÇÕES, ENTREGA, SENADO, Comenda Nise Magalhães da Silveira, DESTINAÇÃO, PESSOA FISICA, CONTRIBUIÇÃO, TRATAMENTO ESPECIAL, SAUDE.
- DEFESA, IMPORTANCIA, SISTEMA UNICO DE SAUDE (SUS), SAUDE PUBLICA, POPULAÇÃO, ELOGIO, APLICAÇÃO, TECNOLOGIA, HOSPITAL.
O SR. RANDOLFE RODRIGUES (Bloco Parlamentar Pelo Brasil/PT - AP. Para discursar.) – Minha querida Presidente Eudócia, que muito bem dirige esta sessão!
Quero cumprimentar também a Senadora Daniella Ribeiro e, ao cumprimentá-la, destacar, nos melhores termos, cumprimentá-la pela indicação da querida Dra. Ludhmila e destacar a escolha que V. Exa. fez.
Minha querida Senadora Soraya Thronicke.
Eu quero também estender meus cumprimentos ao meu caríssimo Paulo Teixeira, Deputado Federal, Ministro de Estado.
Cumprimento também os Srs. Ministros do Superior Tribunal de Justiça: Ministro Rogério Schietti; Ministro Francisco Falcão; e Ministro Benedito Gonçalves, que ainda há pouco também estava aqui conosco.
Minha querida amiga Liana Andrade Alcolumbre, Primeira-Dama do Congresso Nacional, é uma enorme alegria para nós estar conosco aqui nesta sessão.
Aos homenageados: meu caríssimo Dr. Guilherme; minha caríssima Dra. Sheila; Nise da Silveira, que dá nome à comenda e também, in memoriam, é por nós hoje homenageada; e minha querida Ludhmila.
Peço permissão aos homenageados porque tem traços em comum das homenagens a V. Exas. que também se confundem com a homenagem e a comenda que é entregue agora à Dra. Ludhmila Hajjar. As personalidades de V. Exas. têm em comum o sentido da expressão da medicina. Medicina – embora o Dr. Guilherme seja engenheiro –, mas medicina vem do latim, a arte de curar. Tem interpretações distintas, não é, Ludhmila? O mederi, para alguns, significa curar, tratar, cuidar bem. Cuidar, talvez, seja a melhor definição para medicina.
Presidente Eudócia, nós estamos na primeira semana após a Páscoa – a Páscoa foi no último domingo. O calendário cristão tem na Páscoa a sua principal data, tem significado diagnóstico disso. O calendário, inclusive, que o Gregório XIII definiu para nós, em 1583, foi a partir da inspiração da Páscoa como centro. A ampla maioria dos que estão aqui, acredito, são discípulos deste Cristo ressurrecto no último domingo. O calendário cristão, como eu disse, define a Páscoa para ser no primeiro domingo de lua cheia após o equinócio – que, Ludmila, acontece lá no nosso Amapá, não é, Liana? Lá é onde nós o vemos. O Corpus Christi é 60 dias depois da Páscoa, então a Páscoa define o calendário, por uma razão de ser.
A ampla maioria de nós que aqui estamos somos discípulos de um Cristo que deixa como mensagem para nós que quem tem a palavra final é a vida, que a vida, ao final, vence a morte. É por isso que a Páscoa é o núcleo central do calendário nosso. É por isso que a Páscoa é a mensagem principal do Cristo. A ressurreição, a vitória da vida sobre a morte, ser a palavra final tem o sentido do fazer do cristão e de quem é discípulo do Cristo. Significa que, para nós, cristãos, Paulo Teixeira, temos que nos colocar, como princípio, à frente e na frente de todas as mortes evitáveis. Existem as mortes inevitáveis, é destino da existência e de tudo que ocorre no universo. O próprio universo, daqui a outros 10 bilhões de anos, deixará de existir. Existência é transitória, mas o Cristo que nós seguimos nos ensina que todas as mortes evitáveis têm que ter por nós a responsabilidade de nos colocarmos à frente. Então isso tem um sentido de ser, não é aceitável. Por isso, é princípio para o cristão repudiar toda forma de propagação da morte: seja o racismo, seja a misoginia, seja toda forma de discriminação, porque caminha e avança para a morte, porque cria as condições para a morte. É dever de nós, cristãos, discípulos do Cristo ressurrecto, fazer tudo para o triunfo da vida.
Ludhmila, tem cinco séculos que separam o Cristo ressurrecto de um outro filósofo que inspira a prática de vocês na medicina: Hipócrates. Hipócrates, no seu juramento, em dois trechos do juramento, diz, em amplo e em completo tom, o seguinte: é princípio meu, enquanto médico, defender o tratamento para com o outro – em palavras simples, diz assim –, o tratamento para com o outro, respeitando a individualidade destes. É princípio meu, como médico, não passar medicamentos e remédios que não tenham base nos estudos e nas pesquisas que faço. Em uma rápida tradução, tem dois trechos do juramento de Hipócrates que me parecem fazer essa referência.
Eu faço essas duas referências, faço essas duas assertivas, uma sobre um indivíduo, um cidadão, Galileu, conhecido como filho de Deus, que inspirou toda a era como nós conhecemos hoje. E sobre aquele que fez o primeiro juramento, que é a base para a medicina que viveu cinco séculos antes, para fazer referência e destacar o papel de senhores ao receberem essa comenda. Hipócrates, cinco séculos antes, tinha tudo a ver com o ensinamento do Cristo, cinco séculos depois. Ambos tinham a defesa da vida como valor central. Hipócrates, detalhando sobre a ciência, dizia que uma das recomendações e posturas do médico era nunca recomendar e aplicar medicamentos que não tivessem base na ciência.
Falo isso para você, Ludhmila, porque no momento mais dramático da vida desta nação, da humanidade no último período, durante a pandemia da covid-19, a sua voz se levantou em função do conhecimento, a sua voz denunciou tratamentos que não tinham base na ciência, a sua voz salvou milhares de vidas. E a pandemia da covid-19, querida Ludhmila, fica na história. Não sou, não tive competência para ser engenheiro, Doutor, não tive competência para ser enfermeiro, nem tive competência para ser médico. Eu sou historiador. Como historiador, Ludhmila, posso dizer para você: a história coloca no altar da honra, e a história, também, ao mesmo tempo, coloca no piso da desonra. É no altar da honra daqueles que defendem a vida humana que você está colocada, porque, no momento mais dramático da vida nossa, você foi uma voz a favor da ciência, a favor do conhecimento, com lealdade ao juramento de Hipócrates ao não recomendar nenhum tipo de tratamento que o conhecimento não tivesse levado a tanto.
Ludhmila, em nossa homenagem, e refuto aqui o que Daniella – reitero, perdão, aqui o que Daniella –, ainda há pouco, colocou, Ludhmila: sua escolha, entre outros atributos, para receber, junto com Sheila, junto com o Dr. Guilherme, a comenda com o nome de Nise da Silveira se dá também pela iniciativa dos hospitais inteligentes. A iniciativa dos hospitais inteligentes é dentro, a que você arquiteta e organiza, do âmbito do Sistema Único de Saúde. À sua trajetória eu não precisaria fazer essa referência. Você está muito bem, você tem a realização, teria a realização da medicina privada, mas você vem da universidade pública, você se dedica à universidade pública, e você descreveu, como poucos aqui, o sentido do Sistema Único de Saúde, a maior – talvez a maior, junto com a democracia, a maior – conquista que os brasileiros tiveram nos últimos 30 anos.
Antes do Sistema Único de Saúde, nós tínhamos duas formas de tratar as pessoas, os cidadãos: aqueles que tinham dinheiro iam para a medicina privada, aqueles que não tinham eram tratados como indigentes, Paulo Teixeira, iam para o Instituto Nacional de Previdência Social, era para o Inamps que iam. Depois do SUS... Com o SUS, o Constituinte criou e organizou neste país o maior sistema público de saúde do planeta. E fez mais que isso: criou um sistema público de saúde gratuito universal. Se no dia de hoje um norte-americano sofrer – que Deus o livre e guarde – algum tipo de acidente, fraturar o braço, se tiver qualquer enfermidade, uma unidade básica de saúde o socorrerá. Se esse mesmo norte-americano sofrer esse mesmo acidente, Sheila, lá nos Estados Unidos, ele terá que pagar para ter isso. Esta é a diferença do Sistema Único de Saúde que nós constituímos e inauguramos no Brasil: é universal. Não é para brasileiros somente, é para todo indivíduo que tiver assento ou que estiver aqui no Brasil, Sistema Único de Saúde público, gratuito, universal.
E o terceiro elemento desse sistema: sob controle social. A qualidade dele é fiscalizada a todo tempo sobre a participação da sociedade nos conselhos que o constitui. Isso foi a grande conquista dos brasileiros, junto com a democracia. Por ambos temos que zelar, tanto pela democracia quanto por esse sistema único público de saúde. Tem suas vicissitudes, mas a sua existência em si já é uma virtude.
Esse Sistema Único de Saúde precisa de médicos, Sheila, precisa de enfermeiros, meu caríssimo Guilherme, precisa de médicos que se apaixonem por ele.
E me permita, Ludhmila, você é uma devotada, apaixonada por esse sistema de saúde. O que você projeta com o financiamento do Brics, dirigido pela querida Presidente Dilma Rousseff, é uma revolução na condição do Sistema Único de Saúde para os próximos anos. É a compreensão que você tem de que a mesma qualidade que se tem aqui no DF Star, que se tem em alguns hospitais da Rede D'Or, é direito de todo cidadão brasileiro ter – e terá, com um hospital inteligente. Você traz para o Sistema Único de Saúde os princípios de redução de tempo, porque é bom ter um tratamento digno de saúde, é bom estar no hospital, mas vamos combinar, não é, Ludhmila? Você sabe, eu sou um desses, ninguém gosta de ficar muito tempo em hospital, nós queremos passar o menor tempo. A gente ama os médicos, mas, sobretudo, quando eles consultam a gente e nos liberam. Isso é da natureza de cada um de nós. Reduzir o tempo no atendimento é dignidade para as pessoas que pode ser trazida para o Sistema Único de Saúde. Ter precisão no diagnóstico é algo que só é possível com essa revolução que pode haver a partir dos hospitais inteligentes.
Nós vivemos tempos de transformações profundas. Talvez há um século, Soraya e Eudócia, o mundo não viva tempos de tantas transformações. O conjunto dessas transformações traz virtudes também. A tecnologia existe para isso. Lamentavelmente, o conjunto dessas transformações traz pecados e vicissitudes também. Espalhar fake news, desvirtuar e disseminar ódio através de um tal de algoritmo que advém dessa história de redes sociais são dos traumas e vicissitudes do nosso tempo. Cabe a nós... tem uma frase que diz, Ludhmila: a gente não escolhe o tempo em que vivemos, mas nós podemos escolher o que fazer para transformar para os outros humanos o tempo que vivemos. Usar a tecnologia para aperfeiçoar o Sistema Único de Saúde, a melhor conquista dos últimos 30 anos, como eu já disse aqui, é algo que tem profundo fundamento e base no juramento de Hipócrates e nos princípios que o Cristo ressurrecto deixou para todos nós.
Sempre que necessário... mortes evitáveis não são aceitáveis. Sempre, mortes evitáveis têm que ser impedidas. A vida sempre tem que ter a palavra final: esse é o ensinamento do Cristo, isso está no juramento de Hipócrates, mas está também na prática diária do que você e vocês estão fazendo.