Discurso durante a 38ª Sessão Especial, no Senado Federal

Sessão Especial destinada a homenagear o legado de Chico Anysio. Ênfase em sua capacidade de revelar verdades e provocar reflexão com personagens marcantes. Defesa da liberdade de expressão como condição essencial ao humor e à democracia, ressaltando o riso como forma de crítica e transformação social.

Autor
Izalci Lucas (PL - Partido Liberal/DF)
Nome completo: Izalci Lucas Ferreira
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
Cultura, Defesa do Estado e das Instituições Democráticas, Homenagem:
  • Sessão Especial destinada a homenagear o legado de Chico Anysio. Ênfase em sua capacidade de revelar verdades e provocar reflexão com personagens marcantes. Defesa da liberdade de expressão como condição essencial ao humor e à democracia, ressaltando o riso como forma de crítica e transformação social.
Publicação
Publicação no DSF de 17/04/2026 - Página 10
Assuntos
Política Social > Cultura
Soberania, Defesa Nacional e Ordem Pública > Defesa do Estado e das Instituições Democráticas
Honorífico > Homenagem
Matérias referenciadas
Indexação
  • SESSÃO ESPECIAL, HOMENAGEM POSTUMA, LEGADO, CHICO ANYSIO, HUMORISTA.

    O SR. IZALCI LUCAS (Bloco Parlamentar Vanguarda/PL - DF. Para discursar.) – Obrigado, Presidente. Cumprimento e, ao mesmo tempo, parabenizo V. Exa. pela iniciativa desta sessão justa, desta justa homenagem ao Chico Anysio.

    Cumprimento também aqui o Francisco Cardoso, que é o nosso Conselheiro do Conselho Federal de Medicina; também a Malga di Paula, que é a senhora viúva do homenageado; o Edgar Lagos, também, que é o Presidente da Organização Judaica e Ação Social de Direitos Humanos; e também a Sra. Fernanda Bernstein.

    Cumprimento a todos os parentes, amigos, convidados e servidores aqui desta Casa.

    Hoje, esta Casa celebra os 95 anos de nascimento de um homem que não apenas fez o Brasil rir, fez o Brasil se enxergar. Chico Anysio não foi apenas um humorista, foi um intérprete do Brasil.

    O Psicólogo Gardner, Professor e Pesquisador de Harvard, ficou conhecido pela teoria das inteligências múltiplas. Segundo ele, Girão, não existe um único tipo de inteligência, mas nove: linguística, lógico-matemática, espacial, musical, corporal-cinestésica, interpessoal, intrapessoal, naturalista e existencial. A mim me surpreende que ele não tenha listado ao final um décimo tipo: a inteligência humorística, aquela na qual Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho, o nosso eterno Chico Anysio, certamente ocuparia um lugar de muito destaque.

    O discurso humorístico, especialmente quando tem em suas veias o tom corrosivo, possui o poder de revelar a verdade numa síntese que talvez nenhuma outra forma de comunicação consiga. E Chico era mestre nisso: era na lata, na cara, nas fuças do público, um mar de verdades, sem pretensão de ser didático – porque humor de tese não tem graça –, mas, sem querer ensinar, nos ensinava, e ensinava muito; sem querer formar, formava.

    Nem nós políticos éramos poupados do seu humor crítico. Nenhum político queria ser confundido com o Justo Veríssimo. Quem não se lembra do bigode que corria o lábio superior, da voz assoprada do político que só se movia por proveito pessoal e transformava tudo em negociata. Tinha ao seu lado um assessor bajulador, uma espécie de aspone, que entrava no gabinete anunciando quem esperava na antessala. E Justo Veríssimo tinha "horror a pobre" – essa era a sua marca.

    Sem perceber, todos nós políticos aprendemos com o Chico que nós deveríamos ser o oposto, para que a caricatura não se tornasse o nosso retrato. Era uma caricatura, e toda caricatura é uma amostra da realidade. Mas Chico Anysio, com aquele talento natural para fazer graça, avançava em uma abordagem crítica da nossa sociedade, e o povo, claro, entendia imediatamente.

    Citei um personagem, mas havia muitos outros, quase todos inesquecíveis: o Pantaleão, o velho contador de aventuras mentirosas; o Bozó, que se dava ares de importância e dizia ser diretor de TV para seduzir as jovens atrizes; o Prof. Raimundo; o Bento Carneiro, o vampiro brasileiro. Foram mais de 200, ao longo da vida, e cada um deles era um brasileiro real tirado das ruas, das feiras, dos bares, das casas simples deste país enorme.

    Lembro-me de uma apresentação em que ele contava a história do primeiro foguete espacial do Brasil. O foguete não funcionou, não deu partida na hora do lançamento, os técnicos ficaram atrapalhados e alguém sugeriu, então, chamar um primo que tinha uma oficina, um mecânico. Então, o mecânico chega, examina o foguete e diz: "Olha, não vai dar para consertá-lo aqui não, vou ter que botá-lo numa Kombi e levá-lo para uma oficina". Era a crítica genial da esculhambação brasileira, da falta de planejamento, da improvisação elevada a política de Estado. O público ria: ao rir, reconhecia; ao reconhecer, pensava, refletia. O brasileiro não ri porque a vida é fácil, o brasileiro ri porque precisa seguir em frente. Chico entendeu isso. Antes de qualquer um, ele mesmo disse, certa vez: "O humor é irmão da poesia. Não tenho a possibilidade de consertar nada, mas tenho a obrigação de denunciar tudo". E denunciou, durante décadas, com elegância, com ironia, com aquela sagacidade de quem entende o Brasil por dentro.

    Chico tinha também uma qualidade rara entre os grandes: a generosidade. Não usou seu espaço para brilhar sozinho, abriu caminhos, incentivou talentos, dividiu palcos. Em uma indústria muitas vezes marcada pelo ego, escolheu a humildade de quem sabe que o riso coletivo vale mais que o aplauso individual.

    Esse legado não ficou só nos arquivos da televisão, ficou também nos filhos que ele criou, como o Lug de Paula, o Nizo Neto, o Bruno Mazzeo, entre outros. Cada um com sua voz, o seu estilo, o seu caminho, a sua marca, mas todos com aquela mesma luz que o pai acendeu. E que belo celeiro de grandes humoristas é o Ceará! Como se explica isso? Eu não sei dizer, mas é incontestável.

    Termino com algo que precisa ser dito: não existe humor onde não existe liberdade. É natural ao humor desagradar pessoas, grupos. Humor sem um grão de sal é humor asséptico, inócuo, sem graça. Já houve, no Brasil, caso de autoridade judicial mandando prender humorista por conta de piada. Vivemos um momento especialmente grave, com tantas ameaças à liberdade de expressão.

    Ao homenagear Chico Anysio, homenageio também, na pessoa dele, o valor inegociável da liberdade de expressão, porque, sem liberdade, não há humor; sem humor, não há verdade; e, sem verdade, não há democracia.

    Chico Anysio fez mais do que nos fazer rir. Nos ensinou que o riso também é uma forma de resistência e que um povo que ri de si mesmo é um povo que ainda não desistiu de se transformar.

    À sua família a nossa gratidão por compartilhar com o Brasil um talento que atravessa gerações, e a Chico, onde quer que ele esteja, nosso muito obrigado, porque poucos tiveram a capacidade de fazer um país inteiro rir enquanto, ao mesmo tempo, nos fazia pensar.

    Parabéns a todos!

    Parabéns ao nosso querido Chico Anysio!


Este texto não substitui o publicado no DSF de 17/04/2026 - Página 10