Discurso durante a 37ª Sessão Deliberativa Ordinária, no Senado Federal

Homenagem ao legado do artista e humorista Chico Anysio, falecido em 2012, com destaque à relevância de sua obra e de seus personagens para a cultura brasileira.

Autor
Zenaide Maia (PSD - Partido Social Democrático/RN)
Nome completo: Zenaide Maia Calado Pereira dos Santos
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
Cultura, Homenagem:
  • Homenagem ao legado do artista e humorista Chico Anysio, falecido em 2012, com destaque à relevância de sua obra e de seus personagens para a cultura brasileira.
Publicação
Publicação no DSF de 16/04/2026 - Página 50
Assuntos
Política Social > Cultura
Honorífico > Homenagem
Indexação
  • HOMENAGEM POSTUMA, HUMORISTA, CHICO ANYSIO.

    A SRA. ZENAIDE MAIA (Bloco Parlamentar da Resistência Democrática/PSD - RN. Para discursar.) – Sr. Presidente Plínio Valério, colegas Senadores, colegas Senadoras e a todos que estão nos assistindo, Rádio Senado, TV Senado, senhoras e senhores, eu quero falar aqui sobre Chico Anysio, porque amanhã esta Casa vai fazer uma sessão em homenagem a esse grande humorista deste país.

    Já disse o grande escritor Euclides da Cunha, autor do livro clássico, Os Sertões: "O sertanejo é antes de tudo um forte". Essa frase resume o espírito inquebrantável dos homens e das mulheres do Nordeste. Isso tem tudo a ver com o grande gênio das artes cênicas e do humor brasileiro, o nordestino Chico Anysio, que será homenageado, de forma muito justa, em uma sessão especial nesta Casa amanhã.

    A inventividade de Chico legou ao país uma galeria inesquecível de tipos que encaram as dores, incoerências e mazelas da vida nacional. Seus personagens foram canais de críticas mordazes ao poder político, à hipocrisia social, ao abandono do povo mais pobre, à superficialidade da fama, ao egoísmo e à vaidade do ser humano.

    É por isso que a velha máxima se reafirma atual: "A arte imita a vida".

    Outro conhecido dito vale muito para esses dias tão conflagrados no mundo e tão polarizados no Brasil: "Faça humor, não faça guerra". Como não lembrarmos de Justo Veríssimo, Professor Raimundo, Alberto Roberto, Painho, Coalhada, Bento Carneiro, Coronel Pantaleão, Azambuja, Nazareno e Bozó?

    Infelizmente, perpetuam-se em setores da política muitos justos veríssimos, insensíveis à coletividade, querendo que o pobre se exploda. O mestre da Escolinha, imortalizado com "E o salário, ó", deixa um alerta sempre atual sobre os baixos salários da classe trabalhadora deste país. Bento Carneiro, o vampiro brasileiro, encarna uma denúncia contundente sobre as práticas odiosas que assaltam os cofres públicos, sobre a corrupção que desvirtua o cuidado com a coisa pública.

    Chico Anysio viveu de 1931 a 2012 e escreveu sua arte na eternidade efetiva que nos une como povo na identidade nacional. O grande mestre criou, com arguta capacidade de observação de figuras da vida real, mais de 200 personagens ao longo de sua vitoriosa carreira. Seus tipos, com bordões icônicos e traços únicos, definiram o humor da televisão brasileira.

    Intelectualmente elaborado, incrivelmente capaz de se comunicar com as massas, Chico Anysio se conectou de forma profunda com os sentimentos humanos, com a simplicidade do nosso povo, com a vida real dos que sofrem. Seus recursos cênicos e de caracterização se firmaram na picardia, para ironizar os desmandos da elite, as desigualdades sociais e as injustiças. Chico Anysio nunca teve medo de dizer que o rei está nu. Ridicularizou poderosos, questionou os costumes, provocou, com propósito reflexivo. Deixa saudades, deixa orgulho e deixa exemplo.

    Em entrevista à jornalista Marília Gabriela, Chico, numa reflexão de profunda sensibilidade humana e imensa sabedoria, assim definiu o poder e a função da piada, da provocação, do exercício livre da crítica. Abro aspas: "Uma piada é a tragédia de ontem, [...] é a desgraça que passou – a infelicidade passada –; é a demonstração alegre de um momento que estamos vivendo. A piada é a coisa que minimiza o drama. A piada é importante nos países que sofrem, porque ela minimiza o drama [...] [das] pessoas que vivem situações péssimas. Por isso, não há humoristas em países certos: não há humorista holandês, finlandês, norueguês, sueco – não há". Fecho aspas.

    Senhoras e senhores, o poeta Ferreira Gullar, também nordestino, já disse que "a arte existe porque a vida não basta". A grande escritora Clarice Lispector disse que temos direito ao grito e que o humor explicita esse direito à voz, ao protesto, à reivindicação da nossa existência e do nosso direito à dignidade.

    A obra viva de Chico Anysio ultrapassou o entretenimento e se inscreveu como marca nacional no nosso jeito de ser e de estar no mundo como cidadãos e cidadãs.

    Viva o legado de Chico Anysio, que alçou o humor à estatura de um instrumento de salvação, de reconhecimento do outro, de um reconhecimento de humanidade. Rir também inspira, cura, educa e mobiliza. Apesar de tudo que nos deixa indignados, a vida vale a pena e muito.

    Os mais de 200 personagens de Chico Anysio nos convidam, diariamente, a rir de nós mesmos, a recomeçar todo dia com um sorriso no rosto. Por trás do humor ácido e da crítica corrosiva desse mestre, há sempre uma declaração de amor ao povo brasileiro.

    Muito obrigada, Sr. Presidente Esperidião Amin.


Este texto não substitui o publicado no DSF de 16/04/2026 - Página 50