Discurso durante a Sessão Solene, no Congresso Nacional

Em fase de revisão e indexação
Autor
Randolfe Rodrigues (PT - Partido dos Trabalhadores/AP)
Nome completo: Randolph Frederich Rodrigues Alves
Casa
Congresso Nacional
Tipo
Discurso

    O SR. RANDOLFE RODRIGUES (Bloco/PT - AP. Para discursar. Sem revisão do orador.) – Sr. Presidente Rodrigo Pacheco, quanto às homenagens feitas pelo meu colega Omar Aziz, faço as mesmas e acrescento que – sempre faço questão de testemunhar –, quando defini o voto em Rodrigo pela primeira vez à Presidência do Senado, foi a partir de um diálogo que tivemos anteriormente, em que eu dizia para Rodrigo – e era um pouco antes dos notórios acontecimentos de 8 de janeiro de 2023 –, eu dizia para Rodrigo que, certa feita, na Presidência do Congresso Nacional, lamentavelmente, um Presidente do Congresso, o Sr. Auro de Moura Andrade, legitimou um golpe de Estado no Brasil. O Rodrigo teria a chance, naquela quadra histórica, de cumprir um papel central para salvar a democracia. Eu reitero o que já disse mais de uma vez, o Rodrigo assim o fez e, desta forma, eu acho que salvaguardou a cadeira da Presidência do Congresso Nacional. Então, reiterando não só as homenagens aqui feitas, mas cumprimentando-o, Rodrigo, com todo carinho e afeto pessoal que tenho, mas, sobretudo, com as homenagens da democracia brasileira ao seu papel.

    Quero cumprimentar também a Deputada Tabata, por ser uma das autoras da sessão, assim como o Rodrigo; caríssima Maria Judith, Vice-Presidente do UOL; Sr. Paulo Samia; Sr. Murilo Garavello, Diretor de Conteúdo, também do UOL; da mesma forma como cumprimento quem aqui já se pronunciou: Sr. Alexandre Gimenez, Sra. Elizabeth Conway – espero ter acertado –, e caríssimo Josias. Josias, esta tribuna lhe coube bem. Fica a dica, entendeu? Fica a dica.

    Cumprimentos também estendo, mais uma vez, ao meu caríssimo Omar Aziz, colega daqui do Senado e a todos e todas aqui presentes.

    Eu quero me ancorar... Eu acho que nós estamos aqui, nesta cerimônia, fazendo, veja, homenagem a um portal que também se transformou em plataforma, nesse mundo de sociedade algorítmica. Então, para falar desse mundo de sociedade algorítmica, me permitam, meus caros jornalistas, repórteres, âncoras aqui presentes, me ancorar em duas obras sobre as quais estava aqui refletindo que eu acho que são interessantes para definir essa sociedade algorítmica. Uma, primeiro, acho que conhecida de todos vocês, do Giuliano da Empoli, que define o que são os engenheiros do caos. Uma outra, de um ex-Ministro da Economia grega, Yanis Varoufakis, a obra Tecno Feudalismo, o que matou o capitalismo.

    Eu me ancoro nessas obras – e depois falarei de uma outra – porque eu acho que essas obras nos ajudam a entender a sociedade que eclode exatamente nesses últimos 30 anos, quando tem nascimento o UOL. Quando o UOL teve nascimento, não existia o mundo das redes sociais, não existia o mundo do smartphone. Nós ainda estávamos em uma fase de transição com o nascedouro da internet como nós conhecíamos, e, mesmo com o advento do celular, este era apenas um instrumento para você fazer ligação telefônica, nada mais do que isso.

    Só que, após o surgimento do UOL e mais precisamente nos últimos 15, 17 anos, o mundo se tornou mais caótico. Essas duas obras nos dão ciência de que nós estamos sob a égide, ainda, de uma sociedade denominada algorítmica. E é, sobretudo, o Empoli que diz para nós que nessa sociedade algorítmica, o espaço nosso, onde eu estou com o Omar e com o Rodrigo, aqui presentes, se tornou quântico. Numa definição de quântico, emoção e conforto de crenças passaram a ser mais importantes do que os fatos. É assim: eu acho que as urnas eletrônicas não funcionam, então vou dar golpe de Estado e acabar com a democracia, porque é a crença pessoal que mobiliza, algoritmicamente, alguns. Eu acho que, numa pandemia – é a crença pessoal de alguns, digo –, cloroquina resolve, e não vacina: isso pode levar 700 mil brasileiros à morte, como ocorreu aqui.

    Então, esse é o dilema da nossa sociedade algorítmica, que transformou a política em um universo quântico, em que a crença pessoal é mais importante do que a ciência, do que os fatos. Junto com isso, isso trouxe, e aí me ancoro no que dizem Levitsky e Ziblatt, em Como as democracias morrem, no que isso importou para a democracia neste século XXI e o xeque em que está sendo colocada a democracia no século XXI. Faço essa reflexão para, a partir dela, falar do papel do UOL.

    E aí, complementando o que Ziblatt e Levitsky relatam para nós, esse tipo de sociedade algorítmica deu espaço... como dá o espaço para uma política quântica em que a emoção vale mais do que os fatos em si, isso tem uma consequência direta e concreta sobre a ascensão de populismos, que busca mobilizar única e exclusivamente na política a emoção pessoal no lugar da razão. Esses populismos novos dão lugar a uma prática na política velha, porque, veja, solapar a democracia distorcendo a verdade... Essa daí não é mérito dos populistas de extrema direita do século XXI – não é, não.

    Reporto a 1943, Presidente Rodrigo Pacheco, salvo melhor juízo, nos dias 27 e 28 de abril, o exército nazista tinha sido derrotado em Stalingrado. Estando na iminência de uma provável derrota com a reação soviética naquele momento da guerra, o regime nazista chama para o dia seguinte um grande comício. Quem é o principal orador do comício, meu caro Josias? Joseph Goebbels, o ministro da propaganda nazista e um belíssimo orador, que propaga, que inverte os fatos, que coloca no altar do sacrifício o que tinha ocorrido em Stalingrado. E, com aquele comício transmitido ao vivo pela rádio estatal alemã, pela rádio nazista para toda a Alemanha, mobiliza a Alemanha e termina o comício com a proclamação: "Quem quer a guerra total?". Ao que todos, em alusão ao führer, disseram: "Todos nós queremos a guerra total". Isso leva à hecatombe alemã, dois anos depois, com a rendição em 8 de maio.

    Distorcer a verdade, transformar fatos e tentar mobilizar as emoções não foi somente uma invenção da internet, está presente na história desde pelo menos o começo do século. A ascensão de movimentos populistas, com os mesmos valores de antes em que faz alusão às crenças pessoais no lugar dos fatos, não é uma invenção de hoje; é uma invenção que, lamentavelmente, está, em alguns momentos, presente na história humana e, via de regra, levou a tragédias.

    Eu faço esse destaque porque eu quero aqui cumprimentar o UOL por, no meio dessa sociedade algorítmica, no meio dessa sociedade que quer mobilizar crenças pessoais no lugar dos fatos, ter tido papel para pessoas como Josias. Ainda bem, Josias – o Omar disse ainda há pouco –, que nem sempre nós gostamos de suas críticas, porque esse é o princípio da democracia – esse é o princípio. As opiniões de uma imprensa livre não são feitas para nos agradar, mas a opinião celebrada, a opinião detalhada, a análise dos fatos, diante da lógica algorítmica, essa é a lealdade aos fatos que faz as democracias persistirem.

    Então, quero concluir aqui. Eu acho que o principal cumprimento que tem que ser feito ao UOL e ao papel de vocês não é o fato de ter... Poderia somente destacar que, pioneiristicamente, surgiu como portal em 2006, 30 anos, não tinha advento de redes sociais; pioneiristicamente, logo passou de portal para condição de plataforma, como foi relatado nesta tribuna. Poderia destacar tudo isso, mas eu quero destacar um fato: não ter se curvado à sociedade algorítmica, não ter feito com que crenças valham mais do que os fatos.

    Esse é o papel que a imprensa livre tem que cumprir em uma democracia.


Este texto não substitui o publicado no DCN de 30/04/2026 - Página 18