Discurso durante a 99ª Sessão Especial, no Senado Federal

Sessão especial destinada a celebrar os 200 anos da Biblioteca e do Arquivo do Senado Federal. Afirmação de que não existe democracia sem acesso a dados fidedignos. Elogios à categoria dos servidores públicos, ressaltando que o trabalho técnico da Biblioteca e do Arquivo dá suporte essencial a todo o Parlamento e à sociedade brasileira.

Autor
Zenaide Maia (PSD - Partido Social Democrático/RN)
Nome completo: Zenaide Maia Calado Pereira dos Santos
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
Homenagem:
  • Sessão especial destinada a celebrar os 200 anos da Biblioteca e do Arquivo do Senado Federal. Afirmação de que não existe democracia sem acesso a dados fidedignos. Elogios à categoria dos servidores públicos, ressaltando que o trabalho técnico da Biblioteca e do Arquivo dá suporte essencial a todo o Parlamento e à sociedade brasileira.
Publicação
Publicação no DSF de 09/07/2026 - Página 41
Assunto
Honorífico > Homenagem
Matérias referenciadas
Indexação
  • SESSÃO ESPECIAL, CELEBRAÇÃO, ANIVERSARIO DE FUNDAÇÃO, BIBLIOTECA, ARQUIVO, SENADO, IMPORTANCIA, DEMOCRACIA, INFORMAÇÃO, COMBATE, NOTICIA FALSA, ELOGIO, COLABORADOR, SERVIDOR PUBLICO CIVIL.

    A SRA. ZENAIDE MAIA (Bloco Parlamentar da Resistência Democrática/PSD - RN. Para discursar.) – Bom dia a todos e a todas aqui presentes.

    Queria dizer que todos que aqui falaram são exímios oradores, gente. Fala-se de biblioteca, mas aqui tem representação da academia, das universidades, dos historiadores.

    Eu quero aqui cumprimentar o nosso Presidente, o Senador Izalci Lucas, já parabenizando pela memória, o lembrar. Eu digo aqui que, de tudo que foi falado – eu sempre digo –, informação é poder. Ninguém empodera um povo sem informação correta.

    Nós temos uma prova viva disso recentemente com a pandemia do covid: quem mais salvou vidas, fora o SUS (Sistema Único de Saúde), essa pérola maravilhosa deste país, e vacinas, foi informação correta, informação de combate às fake news, informação em defesa da ciência. E mais: ninguém faz democracia sem informação correta. Quem mais empodera um povo é informação, e sem informação não tem democracia. É tanto que, nas ditaduras, a primeira coisa que se faz é um calar bocas.

    E também aqui, como foi falado pelos colegas, a cultura – eu sempre digo – é a digital de um povo. Sem a cultura, nós não sabemos de onde viemos, onde estamos e onde queremos chegar.

    Então, a Biblioteca do Senado e o Arquivo fazem isto muito bem: preservam nossa história, nossa cultura.

    Por isso, gente, é que isso a gente tem que aplaudir, Izalci, quando vê profissionais, homens e mulheres, cada um que vai entrando, sucedendo, sabendo que os que nos antecederam já cuidaram de preservar a nossa cultura, e os próximos que estão chegando, como foi falado aqui, estão dizendo: "Nós podemos fazer mais!". E esta de digitalizar, usar, incorporar as novas tecnologias, isso só merece nossos aplausos, para todos vocês que fazem a Biblioteca e o Arquivo.

    Mas agora, voltando, eu quero, Izalci...

    Diretora-Geral, Ilana Trombka, eu vejo o esforço, e é um orgulho para nós mulheres, gente... A gente sabe que, apesar de sermos maioria, sempre somos tratadas como minoria. E, quando 52% da população brasileira é tratada como minoria, é difícil a gente entender. E eu digo, Ilana, que sinto orgulho de ter uma mulher como Diretora-Geral do Senado.

    Ela é um exemplo para nós, mulheres, de que podemos, sim, estar onde queremos estar – porque a gente conversa muito sobre isso e, na prática, a gente tem que ver.

    A Sra. Diretora da Secretaria de Gestão da Informação e Documentação, Daliane Aparecida, fez uma fala linda, mostrou que a biblioteca não são só livros, papéis importantes. É uma coisa viva, é a informação, é a manutenção, é a luta pela democracia, é a luta de todos nós para que não tenhamos jovens analfabetos políticos, porque nós precisamos, sim... Não é fácil, no momento que vivemos, quando se demoniza a política. E a gente sabe que, sem a política, não se chega a lugar nenhum.

    Eu sou médica da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e estou Senadora. E, às vezes, quando encontro meus pacientes, eles dizem assim: "Senadora Zenaide, Dra. Zenaide, não tenho nada a ver com política". Isso me preocupa. E aí eu digo: "Como não, se são decisões políticas que dizem quanto vai ser o nosso salário, com que idade vamos nos aposentar, quantas horas vamos trabalhar?". E, se isso ainda não convencer, digo que são decisões políticas que dizem quais são os recursos que vão para a saúde, para a educação, para a cultura, para a segurança pública. Então, é esse o papel da gente.

    E gostei de cada um aqui que falou sobre democracia. Sem democracia, sem informação, sem cultura, nós não vamos a lugar nenhum.

    Quero cumprimentar também o Sr. Coordenador-Geral da Secretaria de Gestão da Informação e Documentação, Maciel Rodrigues, que lembrou que eu gosto de frequentar a biblioteca. E minhas netas também. Eu trouxe aqui, Izalci, minhas netas. Elas adoram livros – e, por enquanto, livros físicos mesmo. Quando chegaram, elas passaram uma manhã toda lá e muito satisfeitas de estar vendo aquilo ali.

    Cumprimento o Sr. Coordenador do Arquivo do Senado Federal, Diogo Guerra, e o Sr. Coordenador da Biblioteca do Senado, Osmar Carmo Arouck.

    Mas, gente, o Izalci já estava olhando o tamanho da minha fala. E eu disse: "Ei, Izalci, eu já cortei muita coisa e não vou...". (Risos.) Com medo de falar...

    Mas eu queria dizer aqui, Sras. e Srs. Senadores, todos que nos acompanham nesta sessão do Senado, veículos de comunicação, que têm uma importância fundamental para a gente, que esta sessão especial para celebrar os 200 anos da Biblioteca Acadêmico Luiz Viana Filho e do Arquivo do Senado representa mais do que um evento solene, é a reafirmação de dois séculos de contribuição ao país, o que não se comemora todo dia. Falar de educação, do poder da leitura... Já existia alguém que dizia que lemos para saber que não estamos sós.

    E o poder da leitura, da literatura e de memória histórica, gente, significa restaurar nosso pacto nacional em defesa de uma democracia verdadeiramente irrestrita, que dê oportunidades e acessibilidade a todos os cidadãos e a todas as cidadãs. Dois séculos de contribuição ao país, como a gente estava falando, que se comemora todo dia, temos que comemorar todo dia.

    E eu gostaria aqui de dar um testemunho pessoal de paixão pela leitura e de encantamento com os livros. Eu era criança no Sertão do Nordeste, uma de 16 filhos de um agricultor e de uma dona de casa que costurava e ajudava a manter a casa, há mais de 60 anos. A gente sobreviveu à seca e à mortalidade infantil e nossos pais sempre nos ensinaram a ter esperança nos olhos e a estudar para alcançar um futuro melhor. Quero dizer que meu pai não tinha nem o primário, nem minha mãe. Eu tenho irmãos e irmã com mais de 80 anos, eram oito homens e oito mulheres e eles já tinham um olhar diferenciado. Papai dizia, naquela época que se preparava a mulher só para casar, que nós tínhamos que nos formar, formar era ter um nível superior. Isso era raro, Izalci, porque normalmente a filha mulher era preparada já para casar e a gente cresceu nesse ambiente, com um homem de 1911 e uma mulher que pensava diferente disso aí.

    E eu já tinha, a gente estudava em Jardim de Piranhas, mas só tinha o primário. Aí já tinha que ir para Caicó, gente. Aos 14 anos eu era diretora de um departamento feminino de uma casa de estudante, com 80 mulheres, porque Caicó nos oferecia uma educação pública de qualidade em tempo integral, ao ponto de eu sair de Caicó, porque tinha alguém conhecido em Recife, fazer vestibular de Medicina em Pernambuco, na Universidade Federal de Pernambuco, ou seja, era a prova viva de que se podia, sim, oferecer uma educação pública de qualidade.

    Aí eu mergulhava muito nos romances de Jorge Amado, conheci a genialidade, estudava Tolstói, Kafka e Dostoiévski. Entrei no universo regionalista de Graciliano Ramos, aprendi política por meio da literatura desses clássicos. Mas eu confesso a vocês aqui que muito jovem, entre 9 e 10 anos, eu lia esses livros todos, mas eu observava não muito a parte política, era mais o romance, como é característica de qualquer adolescente. E depois, quando eu voltei a ver, era que eu via a parte política por trás desses grandes clássicos da literatura.

    Quanto a essa minha ligação amorosa com a literatura, eu contei essa história em uma gravação recente dentro da Biblioteca aqui do Senado, homenageada nesta sessão. Este evento é uma forma de reconhecer os serviços prestados pelas duas unidades ao Parlamento e à sociedade ao longo de dois séculos.

    Os setores estão entre os mais antigos do Senado. Previstos na Constituição de 1824, ambos iniciaram suas atividades em 1826, juntamente com a Assembleia Geral, o antigo Congresso Nacional.

    Parabéns aos profissionais que construíram e constroem essa Biblioteca e esse Arquivo. Não se trata de meras repartições internas de um órgão público, são serviços públicos oferecidos a toda a coletividade, permitindo acesso gratuito à memória e à trajetória do nosso país e conhecimento delas.

    Para vocês terem uma ideia, o Arquivo do Senado preserva um acervo de valor histórico, documentos como as Falas do Trono, reconhecidas pela Unesco como patrimônio documental, o processo legislativo da Lei Áurea, as Constituições promulgadas e os termos de posse dos Presidentes da República. História pura, cultura pura, preservada. Isso enche a gente de orgulho e sabemos que isso é feito por todos, todos os servidores e servidoras.

    Já a Biblioteca é um repositório dinâmico e multidisciplinar de informação técnica imparcial para subsidiar a atividade legislativa, além de oferecer serviços digitais e apoiar Parlamentares, consultorias e outras unidades administrativas da Casa. Pessoas vêm de fora para consultar esses arquivos, para estudar, para ler obras do acervo, para se aperfeiçoar, para pesquisar e enriquecer nosso mundo acadêmico.

    Eu mesma, como Procuradora Especial da Mulher no Senado, do biênio 2023 a 2025, estive na Biblioteca lançando uma cartilha que estimula o empreendimento feminino no setor de varejo. Há um sem-número de livros e outros projetos editoriais lançados ou recepcionados pela nossa Biblioteca. Eu sempre digo que investir em biblioteca e em preservação da memória não é gasto, é investimento público em vidas humanas, em cidadania plena, em massa crítica, em desenvolvimento, em riqueza social, em prevenção da pobreza e da violência. Sem acesso à educação pública de qualidade e ao passado de nossa nação, não estaremos equipados para construir o futuro sonhado para todos nós.

    Sou apoiadora e defensora da educação pública e testemunho os benefícios que uma escola bem estruturada proporciona. Relatei a Lei nº 14.836, de 2024, que incentiva a criação e a melhoria de bibliotecas no país e cria o Sistema Nacional de Bibliotecas Escolares. Quanto melhores as bibliotecas, o acervo digital e a qualificação da comunidade escolar, mais exitosa será a nossa caminhada.

    O ensino de qualidade transforma famílias, comunidades, cidades e o país como um todo. Avançamos em ciência, conhecimento e qualificação acadêmica profissional. Os jovens ganham um diploma, uma profissão, trabalham e levam para a frente consigo a família, realizando o sonho e preservando a democracia.

     Eu digo isso porque estou constantemente empenhada em cobrar nesse Congresso maior fatia de recursos do Orçamento Geral da União para investir em escolas e financiar um modelo de educação em tempo integral. Isso não é inventar a roda. Nada sem educação. Tudo pelo país, mas nada sem educação.

    Os países que resolveram reduzir a violência, diminuir as desigualdades sociais e se desenvolver economicamente, investiram em uma educação pública de qualidade em tempo integral. Eu, como médica, diria que nós temos o diagnóstico, Izalci, e sabemos que, se não investirmos em uma educação pública de qualidade em tempo integral, seria, como médica, um diabético ter uma grande ferida e eu tratar só a ferida com curativos, Ilana, e não reduzir a glicemia, que é a causa.

    Todos nós do Congresso, todos os brasileiros e brasileiras, sabemos que se faz necessário colocar a educação pública deste país no Orçamento. Eu e o Izalci fazemos parte da Comissão Mista de Orçamentos e nos assusta, porque a gente se senta à mesa para discutir, e quem fica com quase 47% do orçamento deste país são os bancos, o sistema financeiro. Você sabe o que é você ter 47% do orçamento da nona economia do mundo e não se sentar à mesa para discutir? E aí ficamos eu, o Izalci e outros tentando aumentar o quinhão para a educação, para a saúde, para a segurança pública, para todos os gastos primários.

    Investir em biblioteca das instituições públicas é uma preservação, e os estudantes têm essa liberdade criativa que a gente tem que ter – para todos, gente. E isso é uma luta do dia a dia, Ilana.

    Eu costumo dizer, gente, que sou uma mulher de fé, e é aquela fé que faz a gente insistir, persistir e nunca desistir de lutar por aquilo que a gente sabe, não só sabe, mas tem certeza de que para melhorar a vida do nosso povo precisamos lutar por um orçamento justo e necessário. Eu costumo dizer que eu não aceito que digam que os recursos deste país são gastos com servidores públicos, que estamos gastando muito com os servidores públicos. Eu sou servidora pública, como todos vocês que estão aqui. Não é com a gente que estão gastando, com a gente é no máximo 4%, 3% e – pasmem –, com segurança pública, menos de 0,5%. E a gente não tem outro jeito a não se dar as mãos e tentar continuar lutando por aquilo que a gente acredita. Isso é essencial.

    Eu, quando adolescente, pegava parte do meu dinheiro do lanche e comprava livro. Não tinha livros de bolso, aqueles livrinhos pequenos? Eu tinha todos. Eu juntava, reduzia a alimentação... É até bom, porque não fiquei obesa, né? Porque eu sou de uma região, do Seridó... que o Seridó é uma alimentação para a gente encher os olhos, o coração e tudo.

    Mas podemos sempre fazer muito mais. E temos que acreditar nisso. Quem nos antecedeu fez, mas nós podemos fazer mais, sim, Izalci. Ilana, podemos, sim. Todos nós podemos. A trajetória exitosa da Biblioteca do Senado e do Arquivo desta Casa prova que informação confiável, trabalho técnico e servidores comprometidos com o bem comum nunca sairão de moda e fazem toda a diferença, gente – toda a diferença. Sem dúvida, os 200 anos deste Senado, desta Biblioteca, têm a valiosa digital desses setores.

    Parabéns a todas e a todos os servidores da Biblioteca e do Arquivo! E muito obrigada pelo trabalho exemplar e inspirador. O país como um todo agradece a cada um de vocês.

    Muito obrigada. (Palmas.)


Este texto não substitui o publicado no DSF de 09/07/2026 - Página 41