Pronunciamento de Chico Rodrigues em 11/08/2026
Discurso durante a 111ª Sessão Deliberativa Ordinária, no Senado Federal
- Autor
- Chico Rodrigues (PSB - Partido Socialista Brasileiro/RR)
- Nome completo: Francisco de Assis Rodrigues
- Casa
- Senado Federal
- Tipo
- Discurso
- Aparteantes
- Plínio Valério.
O SR. CHICO RODRIGUES (Bloco Parlamentar da Resistência Democrática/PSB - RR. Para discursar.) – Sr. Presidente Plínio Valério, Sras. Senadoras e Srs. Senadores, eu trago hoje a esta tribuna um assunto que Roraima conhece muito bem e do qual guarda lembranças difíceis – o El Niño –, não com a intenção de causar alarmismo, mas porque os números justificam preocupações e, principalmente, preparação. Afinal, o planejamento sempre custa menos do que a reconstrução.
Segundo a Noaa, a agência norte-americana de referência mundial no monitoramento climático, o aquecimento das águas do Pacífico Equatorial associado ao El Niño atingiu 1,2ºC acima da média em julho. Há, hoje, 97% de probabilidade – 97% de probabilidade – de o fenômeno permanecer ativo até o início dos anos 2027 e 81% de chance de alcançar a categoria de El Niño muito forte entre outubro e dezembro, podendo ficar entre os eventos de maior intensidade registrados desde 1950.
No Brasil, seus efeitos não são iguais em todas as regiões. Enquanto o El Niño costuma favorecer maior quantidade de chuva no Sul, ocorre frequentemente o contrário no centro-norte do país. E Roraima possui uma vulnerabilidade particular, não simplesmente por estar próxima à Linha do Equador, mas porque o fenômeno interfere na circulação atmosférica que transporta umidade para a Amazônia Setentrional. Quando isso coincide com a nossa estação naturalmente mais seca, podemos ter menos chuvas justamente quando rios, solos, pastagens e reservatórios já estão perdendo água.
Quando ouvimos que a temperatura ficará um grau acima da média, pode parecer pouco, mas climaticamente é uma diferença expressiva. Somada à redução das chuvas, significa maior evaporação; e essa evaporação, a retirada mais rápida da água do solo e o aumento da demanda hídrica das plantas. O próprio Inmet chama a atenção, especificamente em Roraima, para a pressão adicional sobre a irrigação e os nossos mananciais.
Na agricultura, infelizmente, o que há alguns meses era projeção já começa a aparecer nos números. A safra 2024-2025 alcançou 661 mil toneladas de grão, crescimento de 28,5% em relação ao ciclo anterior. Para 2026, a área da soja deverá crescer 9,42%, alcançando aproximadamente 144,8 mil hectares, e a previsão inicial apontava para mais de 700 mil toneladas de grãos, aquela que seria uma das maiores safras da história do nosso estado.
Agora, a realidade é outra. A Aprosoja Roraima estima que somente a soja poderá perder cerca de 260 mil toneladas, com redução aproximada de 50% na produtividade e prejuízo na ordem de R$500 milhões. Ao considerarmos os impactos nos demais setores do agronegócio, as perdas para a economia roraimense podem ultrapassar R$2 bilhões.
O impacto também chega às comunidades indígenas, para as quais a regularidade das chuvas não representa apenas produtividade econômica, mas segurança alimentar. O calendário tradicional das roças, com mandioca, milho, banana e outros alimentos, precisa acompanhar o ciclo da chuva. O problema climático, portanto, alcança desde a grande propriedade mecanizada até a pequena roça da subsistência.
Na pecuária, temos um exemplo recente de como os efeitos podem ser ainda mais complexos. Em 2024, durante outro episódio severo do El Niño, a seca e as temperaturas elevadas contribuíram para um desequilíbrio ambiental que reduziu em até 60% os organismos que naturalmente controlavam determinadas lagartas, segundo pesquisador da Embrapa. Quando as chuvas retornaram e o capim começou a rebrotar, duas espécies de lagartas encontraram ambiente favorável e consumiram justamente as novas pastagens que deveriam alimentar o gado.
Em menos de dois meses, 7.139 bovinos morreram por falta de pasto, 54 mil hectares de pastagem foram devastados e 840 propriedades rurais foram literalmente atingidas. Esse episódio ensina algo importante: os efeitos de uma grande seca não necessariamente terminam quando volta a chover.
Essa preocupação também se estende aos incêndios florestais e à disponibilidade de água. Vegetação seca, temperaturas elevadas e baixa umidade aumentam o potencial de queimadas e facilitam a propagação do fogo. Ao mesmo tempo, menos chuva significa menor recarga de igarapés, rios, açudes e reservatórios, enquanto o calor aumenta a evaporação. No campo, isso pressiona a irrigação, os poços e os bebedouros de rebanho. Nas comunidades mais afetadas, pode comprometer até mesmo o acesso à água para o consumo humano.
Sr. Presidente, nenhum governo pode impedir a formação de um El Niño, nenhuma lei faz chover e nenhum decreto reduz a temperatura. Mesmo as melhores previsões não conseguem antecipar as consequências de um fenômeno dessa magnitude, como demonstrou a infestação de lagartas em 2024, mas aquilo que não podemos evitar deve, pelo menos, ser enfrentado com preparação.
É preciso que produtores revisem suas reservas de água, planejem a alimentação e a suplementação do rebanho, façam manutenção de aceiros e acompanhem as orientações técnicas sobre plantio e manejo. Municípios, Governo do Estado e Governo Federal precisam avaliar antecipadamente poços, reservatórios, equipamentos de combate ao fogo e estruturas emergenciais de abastecimento. Defesa Civil, órgãos ambientais, assistência técnica, Embrapa e instituições de crédito precisam atuar de forma coordenada enquanto ainda há tempo para prevenção.
O pior momento para descobrir que faltará água é quando o reservatório já está vazio; o pior momento para buscar alimento para o rebanho é quando a pastagem já estiver desaparecendo; e o pior momento para organizar brigadas de incêndio é quando o fogo já estiver totalmente fora do controle.
Os números não permitem indiferença, tampouco improviso. As previsões para agosto já indicam chuvas abaixo da média em todo o estado e temperaturas até 1,5ºC acima do normal. E os prejuízos que já se desenham na agricultura demonstram que não estamos tratando apenas de projeções climáticas, mas de consequências econômicas e sociais que começam a chegar ao campo.
Que Roraima atravesse os próximos meses com prudência, planejamento e atenção permanente. Talvez não consigamos impedir boa parte dos efeitos que virão, mas temos a obrigação de utilizar aquilo que a ciência já consegue nos dizer para proteger vidas, preservar a produção e reduzir, na medida do possível, os prejuízos econômicos, sociais e ambientais que esse novo El Niño poderá deixar em nosso estado.
Sr. Presidente, V. Exa., que é um Senador da Amazônia, um Senador do nosso querido Estado do Amazonas, e que trata dessa questão com muita responsabilidade também, com muita participação, com muita presença, eu tenho certeza de que V. Exa. estará nessa verdadeira cruzada de que nós precisamos para que a Amazônia como um todo – o Estado do Amazonas, o Estado do Acre, o Estado de Rondônia, o Estado de Roraima, o Estado do Amapá, esses que estão mais na região setentrional do país e que sofrem com a intensidade dos ventos e a ausência das nuvens que podem, na verdade, provocar chuva –, para que nós possamos, irmanados, envolvidos totalmente junto aos Governos municipais, estaduais...
(Soa a campainha.)
O SR. CHICO RODRIGUES (Bloco Parlamentar da Resistência Democrática/PSB - RR) – ... e Federal, ajudar a mitigar esses efeitos, porque, na verdade, não é alarme, não é, afinal de contas, desespero, mas são os dados que a ciência, que a tecnologia, que os órgãos climáticos têm mostrado com uma precisão cirúrgica para as autoridades brasileiras. E nós temos a responsabilidade de nos debruçarmos e pressionarmos o Governo – os Governos, na verdade – para que esses efeitos possam realmente ser minimizados para a nossa população.
Era esse registro, Sr. Presidente, que eu gostaria de fazer hoje...
O SR. PRESIDENTE (Plínio Valério. Bloco Parlamentar Democracia/PSDB - AM) – Senador Chico Rodrigues, é só para fazer um aparte...
O SR. CHICO RODRIGUES (Bloco Parlamentar da Resistência Democrática/PSB - RR) – Com certeza.
O SR. PRESIDENTE (Plínio Valério. Bloco Parlamentar Democracia/PSDB - AM. Para apartear.) – ... aí o senhor encerra brilhantemente como iria encerrar, só porque eu queria interromper. Não foi o objetivo, mas o senhor deu uma grande oportunidade e deixou claro.
Olhem só, nós, Senadores da Amazônia, ficamos aqui defendendo a Amazônia, nos recusando a colocar sobre nossos ombros o peso de salvar o planeta, dizendo que a Amazônia não é responsável por alterações no clima, essas mudanças climáticas que nos impõem a culpa – na Amazônia. "A Amazônia está derretendo"... e haja culpa. Olhe só! E a gente sempre dizendo que os mares, os oceanos é que dominam, é que são capazes de provocar mudanças climáticas.
O senhor está dizendo que, se o Oceano Pacífico agora aumentar zero grau ou 0,5 grau, vai causar todo esse transtorno. Eles lá fora não cuidam; e nós somos prejudicados aqui.
E eles invertem – nós falávamos ainda agora da ONG. Eles invertem: é a Amazônia que causa problema para o mundo, é a Amazônia que está prejudicando e favorecendo as mudanças climáticas. Olhe só essa hipocrisia! O seu discurso coloca claramente essa hipocrisia, deixa claro que é de fora para dentro e não de dentro para fora.
Permita-me e me perdoe aproveitar esta oportunidade para elogiar o seu discurso. Nós, amazônidas, sabemos o que sofremos, mas sabemos também do que nós somos capazes.
Parabéns pelo discurso.
O SR. CHICO RODRIGUES (Bloco Parlamentar da Resistência Democrática/PSB - RR) – Muito obrigado a V. Exa.
Eu gostaria que V. Exa. solicitasse a todos os órgãos de divulgação desta Casa, da Câmara Alta do nosso país, do nosso Senado da República, que fosse divulgado em todos os veículos de comunicação esse nosso pronunciamento.
Muito obrigado, Sr. Presidente.