Discurso proferido da Presidência durante a 120ª Sessão Deliberativa Ordinária, no Senado Federal

Em fase de revisão e indexação
Autor
Confúcio Moura (MDB - Movimento Democrático Brasileiro/RO)
Nome completo: Confúcio Aires Moura
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso proferido da Presidência

    O SR. PRESIDENTE (Confúcio Moura. Bloco Parlamentar Democracia/MDB - RO. Para discursar - Presidente.) – Devido a eu ter ali uma audiência agora no gabinete me esperando, eu estou inscrito aqui para falar, eu era o 11º, já adiantei os demais até o 19º. Vou fazer aqui rapidinho, vou pedir depois... Assume aqui para mim a Presidência e dá a sequência, dando a palavra aqui? A seguir, é o Astronauta Marcos Pontes e depois o Fernando Dueire.

    Eu subo a esta tribuna hoje – aliás, estou aqui nela – por uma inquietação que ultrapassa...

(Intervenção fora do microfone.)

    O SR. PRESIDENTE (Confúcio Moura. Bloco Parlamentar Democracia/MDB - RO) – Só um pouquinho, viu? Só um pouquinho.

    ... uma indignação diante dos episódios isolados. Eu tenho acompanhado, como tantos brasileiros, cenas de violência que revelam algo muito profundo sobre a forma como estamos convivendo. O que mais me preocupa não é apenas a violência, mas a facilidade com que, antes dela, nós já julgamos. Um jovem foi espancado até a morte em Copacabana, Rio de Janeiro, depois de ser confundido com um ladrão de bicicleta – a bicicleta pertencia à própria irmã. Um estudante de filosofia foi agredido dentro da Universidade Federal do Rio de Janeiro depois de ser rotulado como nazista ou fascista por suas posições políticas. Em Anápolis, aqui vizinho, aqui em Goiás, uma mulher foi morta após uma discussão banal provocada pela comida que havia preparado. Em um estádio de futebol em São Paulo, uma criança de apenas oito anos precisou ser retirada sob escolta policial porque pediu a camisa de um jogador do time adversário.

    São acontecimentos distintos. Não seria correto colocá-los no mesmo contexto ou atribuir-lhes a mesma causa, mas há entre eles uma inquietante semelhança: em todos, alguém se sentiu autorizado a ultrapassar um limite porque antes já havia formulado um julgamento precoce, e é desse julgamento que eu quero falar aqui hoje.

    Porque existe uma violência que começa muito antes do golpe, antes do disparo, antes da agressão. Começa quando deixamos de buscar os fatos e passamos a agir com base naquilo que acreditamos saber. Os números da segurança pública acrescentam uma dimensão ainda mais inquietante a esse quadro: segundo o levantamento da Rede de Observatórios da Segurança Pública, que monitora nove estados brasileiros, foram registrados 223 casos de linchamento em 2024 e 227 em 2025. Até maio deste ano, já foram 88 casos de linchamento no Brasil.

    Ao mesmo tempo, o Brasil registrou, em 2025, uma redução de 8,2% das mortes violentas e intencionais, chegando a 40.775 – a menor taxa da série histórica iniciada em 2012. Eu acho um absurdo o assassinato, o homicídio, no Brasil, ter 40 mil casos. Eu acho que são mais. Eu não somei, não, mas devem ser mais do que na guerra da Ucrânia. Aqui em um ano, no ano passado, em 2025, foram 40.775 homicídios, assassinatos.

    Não há contradição estatística nesses números. Uma coisa não explica automaticamente a outra, mas há uma contradição social que merece muita atenção.

    Enquanto alguns dos principais indicadores de violência letal melhoram, continua presente, entre nós, uma disposição para o justiçamento: diante de uma suspeita ou de uma indignação, substitui-se a investigação pela certeza e a justiça pela própria mão. E isso é mais do que um problema de segurança, é um problema de convivência, muito sério. Talvez estejamos diante de uma inversão preocupante. Antes de saber o que aconteceu, já escolhemos quem é o culpado. Primeiro, escolhemos o culpado; depois, procuramos a explicação.

    Nas redes sociais, esse mecanismo ganhou escala e velocidade. Criamos um tribunal sem toga, sem defesa, sem apelação; um tribunal em que o veredito pode chegar antes da prova, antes da pena, antes do julgamento. Uma imagem fora de contexto pode alcançar milhares de pessoas antes que alguém descubra o que realmente aconteceu de verdade. Uma acusação pode adquirir a aparência de verdade simplesmente porque foi repetida muitas vezes nas redes sociais.

    O algoritmo não conhece a história de ninguém, conhece aquilo que chama atenção. Talvez esteja aí uma das marcas mais perigosas do nosso tempo: confundimos a visibilidade com verdade e o volume com razão, mas as redes não criaram esse comportamento.

    Quando enxergamos apenas o rótulo, fica mais fácil esquecer que existe ali uma pessoa, uma história, uma família, um sentimento e direitos. E assim acabamos justificando contra ela aquilo que jamais aceitaríamos fazer contra alguém que conhecemos e reconhecemos como ser humano.

    Talvez o que esteja desaparecendo, entre nós, seja justamente o intervalo entre o que pensamos e o que fazemos. Um intervalo em que ainda cabem as dúvidas, a escuta e a possibilidade de estarmos errados.

    A questão é o que fazemos com essa diferença, ou seja, essa diferença entre as opiniões que nos incomodam e os comportamentos. A democracia criou instituições justamente porque nenhum indivíduo deveria ser, ao mesmo tempo, acusador, juiz e executor. E aqui surge uma questão que não pode ser ignorada. Onde se formam os limites que impedem uma pessoa de transformar indignação em violência? Nem tudo pode ser resolvido pela lei. Nenhuma polícia estará presente em cada discussão pequena ou grande. Nenhum juiz estará diante de cada tela. Existe uma parte da ordem social que nasce antes da lei.

    E assim eu vou discorrendo, neste meu pronunciamento, mais ou menos abordando e justificando essa temática do justiçamento pelas próprias mãos das pessoas, por um julgamento feito na hora, no repente, sem nenhuma análise do caso.

    O desafio é aprender a conviver com quem pensa diferente da gente. Nós temos que respeitar as opiniões. Essa polarização tem feito isso. Podemos discordar, podemos nos indignar, podemos até considerar que o outro está errado, mas não podemos transformar essa diferença em ódio e violência. A democracia depende disto: da liberdade de falar, mas também da capacidade de ouvir.

    Que Brasil nós estamos construindo para aqueles que virão depois de nós? Essa reflexão é muito séria. E essas coisas estão acontecendo no dia a dia do nosso país. A gente vê todo dia uma notícia dessa maneira, de um julgamento sumário, muitas vezes sem nenhuma análise do caso.

    Era isso o que eu tinha a falar.

    Eu passo aqui a Presidência ao Heinze, para ele dar continuidade às falas.

    E o próximo a ocupar a tribuna é o Senador Astronauta Marcos Pontes. (Pausa.)


Este texto não substitui o publicado no DSF de 02/09/2026 - Página 39