Pronunciamento de Ney Maranhão em 19/04/1994
Discurso no Senado Federal
COMEMORAÇÃO DO 'DIA DO EXERCITO BRASILEIRO'.
- Autor
- Ney Maranhão (PRN - Partido da Reconstrução Nacional/PE)
- Nome completo: Ney de Albuquerque Maranhão
- Casa
- Senado Federal
- Tipo
- Discurso
- Resumo por assunto
-
HOMENAGEM.:
- COMEMORAÇÃO DO 'DIA DO EXERCITO BRASILEIRO'.
- Aparteantes
- Cid Sabóia de Carvalho, Francisco Rollemberg, Marco Maciel, Mauro Benevides.
- Publicação
- Publicação no DCN2 de 20/04/1994 - Página 1918
- Assunto
- Outros > HOMENAGEM.
- Indexação
-
- HOMENAGEM, DIA NACIONAL, EXERCITO.
- ESCLARECIMENTOS, MOTIVO, FIXAÇÃO, DIA NACIONAL, EXERCITO, SIMULTANEIDADE, DATA, VITORIA, GUERRA, ESTADO DE PERNAMBUCO (PE), INICIO, INDEPENDENCIA, CIDADANIA, PAIS.
O SR. NEY MARANHÃO (PRN - PE. Como Líder. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, hoje, 19 de abril, comemora-se, pela primeira vez, o dia do Exército Brasileiro, data da 1º Batalha dos Guararapes, travada em 1648, e da criação, em 1971, do Parque Histórico Nacional dos Guararapes.
Sr. Presidente, como descendente de Jerônimo de Albuquerque Maranhão, fundador da Capitania de Pernambuco, palco das memoráveis batalhas contra os batavos, eu não poderia deixar de levar as minhas homenagens ao glorioso Exército Brasileiro, na oportunidade em que comemora o seu dia.
Para que os brasileiros reverenciem com conhecimento a trajetória do Exército Brasileiro, que se confunde com a própria história da nossa Pátria, levo ao conhecimento da Nação as razões que fizeram do dia 19 de abril a data natalícia dessa Força, que tem como Patrono Máximo o Marechal Luís Alves de Lima e Silva, exemplo de bravura, dignidade e honradez, o nosso Duque de Caxias.
Sr. Presidente, o "espírito de Guararapes" foi a gênese da nacionalidade brasileira. Em um momento histórico, quando Portugal, em vista da restauração de sua independência, em 1640, e da "Guerra dos Trinta Anos" na Europa - que levou católicos e protestantes (huguenotes) aos campos de batalha - fraquejava frente à Holanda, desejando mesmo negociar o Nordeste brasileiro junto àquele país, os patriotas firmaram um solene juramento. Tal compromisso de honra se verificou em 23 de maio de 1645, quando 18 chefes insurretos das três raças formadoras de nossa gente, liderados por João Fernandes Vieira, Vidal de Negreiros, Felipe Camarão e Henrique Dias, assinaram a seguinte proclamação:
Nós, abaixo assinados, conjuramos e prometemos, em serviço da liberdade, não faltar, a todo tempo que for necessário, com toda ajuda de fazendas e de pessoas, contra qualquer inimigo em restauração de nossa Pátria, para o que nos obrigamos a manter todo segredo que nisto convém, sob pena de quem o contrário fizer ser tido como rebelde e traidor e ficará sujeito ao que as leis em tal caso permitam.
Como se observa, surgia, em relação ao Brasil, pela primeira vez, a palavra Pátria". Já é fato assente na historiografia militar brasileira que as raízes do Exército nacional, criado oficialmente por Decreto de 24 de dezembro de 1824, encontram-se fincadas em Guararapes, a partir da constituição do Exército Libertador, que venceu os batavos naquele local histórico, em 1648 e 1649.
O Exército Libertador de 1648 e 1649 foi a célula mater do glorioso Exército Brasileiro.
A constituição do "Exército Libertador", forte de 1500 homens, deu-se pela junção de quatro Terços (organização militar espanhola, substituída posteriormente pelo batalhão sueco de GUSTAVO ADOLFO) e FELIPE CAMARÃO (o índio Poti), sob o comando do Ten. Gen. FRANCISCO BARRETO DE MENEZES; tal "Exército Patriota" impôs duas fragorosas e decisivas derrotas, nos montes Guararapes, ao adestrado exército holandês de 6.200 homens: em 19 de abril de 1648 e na segunda batalha em 19 de fevereiro de 1649, combinando táticas de guerrilha e emboscada, utilizando meios expeditos de combate - como chuços, escudos de couro endurecido, paus afilados e tostados - e aproveitando melhor e mais judiciosamente o terreno por meio de rapidez, agressividade e espírito de iniciativa.
Assim, venceram o inimigo - muito superior numericamente, aguerrido e bem treinado -, homens como DIAS CARDOSO, HENRIQUE DIAS, VIDAL DE NEGREIROS, FERNANDES VIEIRA e FELIPE CAMARÃO, este último que não participou da segunda batalha dos Guararapes por haver falecido em agosto de 1648, sendo seu Terço comandado naquela batalha pelo sobrinho DIOGO CAMARÃO.
O Sr. Marco Maciel - V. Exª me concede um aparte, nobre Senador Ney Maranhão?
O SR. NEY MARANHÃO - Com muito prazer, nobre Senador Marco Maciel.
O Sr. Marco Maciel - Senador Ney Maranhão, desejo em rápidas palavras associar-me à iniciativa de V. Exª no momento em que, em Pernambuco, celebramos a passagem da 1º Batalha de Guararapes. É o dia 19 de abril. Quero também dizer que, com muita propriedade, V. Exª situa uma questão de transcendental importância para o nosso Estado: a decisão do Presidente da República, por proposta do Ministro do Exército, de declarar o dia 19 de abril o Dia do Exército. Nós, como pernambucanos, ficamos muito satisfeitos e desvanecidos, porque, de alguma forma, esse ato não deixa de representar uma homenagem a Pernambuco. Foi no território pernambucano que se travaram as batalhas que expulsaram o invasor e ajudaram não somente a formar o Exército Brasileiro - foram o embrião do Exército Brasileiro - com a fusão, aliás, de três etnias (o negro, o branco, o índio) mas também a formar, como disse certa feita com propriedade Gilberto Freire, a própria nacionalidade. "Em Guararapes", dizia com muito conhecimento de causa Gilberto Freire, "nasceu a nacionalidade". E o reconhecimento que agora faz o Exército Brasileiro, por meio do ato do Presidente da República Itamar Franco, é mais uma demonstração da importância de Guararapes para o nosso País e que nós, pernambucanos, não podemos deixar de exaltar neste dia. Lamentavelmente, não pude ir a Pernambuco participar diretamente dos eventos que lá hoje se realizaram; eventos esses que tiveram a presença do Ministro do Exército, General Zenildo Zoroastro de Lucena, que é pernambucano por sinal; de representantes do Alto Comando do Exército e também do Governador do meu Estado, Joaquim Francisco de Freitas Cavalcanti, ao lado de muitas e muitas outras autoridades. Por isso, nobre Senador Ney Maranhão, receba os cumprimentos pelo discurso que profere destacando a epopéia de Guararapes - se assim posso dizer - e receba também, de modo especial, os meus cumprimentos por poder, nesta tarde, estar trazendo uma questão que talvez passasse desapercebida neste Senado não fora a iniciativa de V. Exª
O SR. NEY MARANHÃO - Senador Marco Maciel, quero agradecer a V. Exª, em primeiro lugar, pelo aparte oportuno com que V. Exª me honrou. Sabe V. Exª que a palavra "pátria" foi proferida pela primeira vez justamente em Pernambuco, nessa memorável batalha que foi o início - queiram ou não os historiadores - da independência e da cidadania brasileira.
Em segundo lugar, quero lamentar por não ter atendido o convite e por não poder estar presente - também pelo motivo de estarmos participando da Revisão Constitucional -, juntamente com o Ministro do Exército e outras autoridades, nesse evento que hoje se celebra em Pernambuco: a vitória nos Montes Guararapes.
Nesta homenagem, Senador Marco Maciel, que estamos prestando ao Exército brasileiro, estamos também prestando justa homenagem a nossa Pátria e a nossa Força Terrestre.
A propósito, irei, no desenvolvimento do meu discurso, citar a frase histórica que o Marechal Mascarenhas de Moraes, quando de volta com os nossos pracinhas vitoriosos ao solo pátrio, tendo vencido a Alemanha, enfim os países do Eixo, depositou justamente nos Montes Guararapes.
O Sr. Francisco Rollemberg - Sr. Senador Ney Maranhão, V. Exª me permite um aparte?
O SR. NEY MARANHÃO - Ouço com atenção o meu amigo nobre Senador Francisco Rollemberg.
O Sr. Francisco Rollemberg - Senador Ney Maranhão, V. Exª aborda na tarde de hoje, no Plenário do Senado da República, um dos acontecimentos da maior importância para a nossa história pátria. Vivemos em um País que já de há algum tempo, não tão curto, vem esquecendo de reverenciar seus heróis; vem esquecendo de conhecer a sua história; retira das nossas escolas a matéria Moral e Cívica, que costumava ser ministrada desde o curso primário, que ensinava aos alunos a conhecer os símbolos de sua pátria, a reverenciar a sua bandeira, a entender porque existe este País, quais foram os homens que deram a vida na sua construção. V. Exª, nesta tarde, ao registrar esse ato do Senhor Presidente da República, referendando uma proposta do Sr. Ministro do Exército, merece os nossos encômios, os nossos elogios. O Senhor Presidente da República, com esse gesto, resgata para o Brasil e para a sua história um momento da maior importância para a formação da nossa brasilidade. Se o Exército tem o seu patrono, o Duque de Caxias, com o Exército já organizado à época do Paraguai, Pernambuco com a representação das três raças, com Antônio Filipe Camarão, Negreiros e tantos que se uniram para expulsar o invasor holandês, criou, naquele instante, o embrião, a célula-mater daquilo que hoje se constitui o Exército brasileiro. Entretanto, ninguém deu a Guararapes o seu realce e o seu real valor na tradição histórica brasileira. Ninguém falou da coragem dos pernambucanos. Ninguém enalteceu o caldeamento de raças que, no Estado de V. Exª, ocorreu quando todos eles - pretos, índios e brancos - disseram: "somos brasileiros e vamos defender a nossa pátria". Foi o exército do povo, o exército da massa, o exército desarmado, mas com uma profunda coragem e com um amor imenso dentro do seu coração, que permitiu que a Pátria brasileira se livrasse do jugo holandês; que permitiu lançar a semente das nossas Forças Armadas; que permitiu que nós, nesta tarde, tanto tempo depois, lembrando-nos dos primórdios da nossa História, pudéssemos registrar que hoje é o dia do Exército brasileiro, o dia escolhido pela força maior da nossa Pátria, porque este dia, Senador Ney Maranhão, foi realmente o brotar e o desabrochar da brasilidade nas raças que atualmente compõem a nosso etnia. Eu o felicito, bem como o Sr. Ministro do Exército e o Senhor Presidente da República pela escolha louvável, em ter dado ao Nordeste a primazia da criação da raça brasileira, do povo brasileiro que está construindo esta Pátria a duras penas; que lá continua caldeando as suas raças, que lá continua batalhando em outros campos de batalha que não aqueles onde se mata e se morre em nome do País, mas no campo da batalha da sobrevivência, da fome, do abandono, da seca, da mortalidade infantil, da mulher que não tem proteção. Em suma, continua em outro campo de batalha, já desta vez não construindo o seu exército, nem sua força armada, mas aquilo que todos temos no nosso coração: o sentimento de pátria, de civismo, de amor à terra em que nascemos e a coragem de defendê-la com o nosso próprio sangue. Eram essas as considerações que eu gostaria de tecer, porque, nordestino como V. Exª, estou profundamente emocionado e surpreendido. Nós nos juntamos para expulsar o holandês: Sergipe, meu pequeno Estado, que chegou a ser a Holanda ocidental, Bahia, mas coube aos senhores, pernambucanos, o golpe final. E, nesse golpe fatal para aquela nacionalidade, firmou-se aquilo que hoje chamamos Brasil. V. Exª fez muito bem em registar isso. Nós, nordestinos, e brasileiros de uma maneira toda especial, temos que reconhecer que esse foi um gesto digno, porque restaura a dignidade daqueles que lutaram em Guararapes, dos pernambucanos que souberam expulsar aqueles que invadiram sua terra e dos brasileiros que souberam conservá-la para os pósteros. Muito obrigado.
O SR. NEY MARANHÃO - Senador Francisco Rollemberg, o aparte de V. Exª veio engrandecer, abrilhantar, fazer mais justiça ao nosso Exército brasileiro, a essa força terrestre que, com muita propriedade, V. Exª lembrou.
São tantos os programas veiculados pela mídia, seja em rádios, jornais e televisões, mas nenhum, infelizmente, para ensinar a nossos filhos, aqueles que irão governar e administrar este País, sobre as nossas Forças Armadas, o respaldo da nossa cidadania, da nossa segurança e do respeito por essa bandeira que tremula do Oiapoque ao Chuí.
Como V. Exª bem destacou, devemos fazer uma crítica ao ensino sobre a Pátria que as escolas têm ministrado aos nossos jovens. A nossa geração conhece a história das memoráveis batalhas da Guerra do Paraguai, da Batalha de Riachuelo, das Paliçadas de Dourado, pois dissertávamos a respeito disso.
Posso, inclusive, citar aquelas palavras heróicas do Ten. Antônio João, quando, cercado nas Paliçadas de Dourado em companhia de poucos homens, centenas de paraguaios exigiam que ele se rendesse e entregasse as armas: "Sei que morro, mas o meu sangue e o dos meus companheiros será o protesto solene contra a invasão do solo pátrio".
São estas palavras que calam fundo dentro de nós; contudo, isso não é ensinado nas escolas hoje em dia.
O Sr. Francisco Rollemberg - Permite-me V. Exª um aparte?
O SR. NEY MARANHÃO - Ouço V. Exª com prazer.
O Sr. Francisco Rollemberg - Era exatamente a isso que eu gostaria de me referir. Não se ensina Moral e Cívica, o aluno não sabe cantar o Hino Nacional, não sabe o Hino da Bandeira, não conhece sequer a história do seu próprio Estado. Não se ensina a história de Pernambuco, de Sergipe, da Bahia, imagine a história do Brasil como um todo. Estamos criando uma geração que está perdendo o sentido de nacionalidade, de civismo, de amor à Pátria, por não conhecer e não valorizar os fatos que constituíram a fonte do nascimento do nosso País, nem mesmo desenvolver nele o orgulho da sua brasilidade. Se os alunos conhecessem o que foi a Batalha de Guararapes - acredito que poucos saberão contar como V. Exª contou agora -, se soubessem o que ocorreu no Paraguai com Antônio João, se soubessem falar o que foi Pernambuco na construção da unidade nacional, o que representaram as idéias pernambucanas do Império à República, o pernambucano teria amor ao seu Estado, estaria cheio de civismo e teria uma noção de brasilidade muito mais densa e mais profunda. Mas estamos esquecendo isso. Estamos ensinando agora educação sexual.
O SR. NEY MARANHÃO - Há espaço nas televisões e nas rádios para essas coisas.
O Sr. Francisco Rollemberg - Não sou contra; mas. evidentemente, antes disso, a criança tem que aprender a ser brasileiro, tem que conhecer a sua própria história, tem que ter amor pelo seu país, tem que valorar-se e valorar a sua nação; ela tem que saber o que pode fazer pelo seu país, o que pode esperar do país, o que poderá fazer no sentido de legar este País para uma geração que vai sucedê-Ia, tornando-o mais potente, mais respeitado, mais estimado. Acabamos com isso. Se, de um lado, não se aprende mais Moral e Cívica no início do primário, também na universidade não se ministra mais Estudos de Problemas Brasileiros. Está-se
tirando da formação cultural do homem brasileiro esse sentido profundo de nacionalidade e de brasilidade. É preciso que esses sentimentos voltem a existir, porque são necessários. O brasileiro tem que conhecer a sua história e as suas necessidades. Quando não se conhece Moral e Cívica, História do Brasil, Estudos de Problemas Brasileiros, meu Deus, que vida esperamos ter?
O SR. NEY MARANHÃO - Não se respeita família, não se respeita Governo, não se respeita coisa nenhuma, Senador.
O Sr. Francisco Rollemberg - É a essa geração que vamos legar este País tão grande, tão imenso. Eles precisam estar preparados para isso.
O SR. NEY MARANHÃO - Está em tempo de resgatarmos.
O Sr. Francisco Rollemberg - Só se prepararão para isso se conhecerem da nossa história e das nossas necessidades. Portanto, é com pesar que registramos a retirada dessas duas cadeiras do curso primário à universidade, o que vai impedir que homens como V. Exª e como eu, Senador Ney Maranhão, possam se sentar e discutir, contar histórias, empolgar-se, emocionar-se dizendo o que o Brasil já fez para ser a nação que é. Se continuar assim, será que nossos filhos e netos saberão dizer por que nos chamamos Brasil?
O SR. NEY MARANHÃO - Exatamente, Senador. Agradeço a V. Exª, mais uma vez, por essa colaboração ao meu pronunciamento. Pela maneira como V. Exª aparteou-me, Senador Francisco Rollemberg, senti que veio de dentro do seu coração quando disse que queremos ver para nossos filhos e netos uma Pátria respeitada. Sim, para que essa Pátria seja respeitada, é preciso que seus filhos saibam a sua história. Muito obrigado a V. Exª
O Sr. Cid Sabóia de Carvalho - Permite-me V. Exª um aparte?
O SR. NEY MARANHÃO - Com muito prazer, nobre Senador Cid Sabóia de Carvalho.
O Sr. Cid Sabóia de Carvalho - Quero hipotecar a minha solidariedade, no momento em que V. Exª discursa, às idéias que expressa neste momento aqui do plenário do Senado Federal. Quero dizer a V. Exª que um dos livros mais importantes da Literatura portuguesa se chama Epanáforas. É de autoria de D. Francisco Manuel de Melo, um dos maiores escritores da língua, um dos nossos maiores clássicos. E uma dessas epanáforas trata exatamente de batalhas travadas em território pernambucano quando da ocupação holandesa. D. Francisco Manuel de Melo foi um escritor clássico em duas línguas: no espanhol e no português. Um dia, em face de uma desavença com o rei de Portugal, dizem que, por disputa de uma mulher, ele feriu a pessoa do próprio rei, e, como tal, foi mandado ao Brasil e viveu 10 anos em território pernambucano, sem que se tenha a menor memória desses 10 anos do formidável D. Francisco Manuel de Melo. Mas ele escreveu uma página que haveria de ser popularizada no Brasil, se predominasse essa idéia que V. Exª expôs aqui no plenário do Senado Federal. Quero dizer a V. Exª que sua idéia é muito interessante, sua idéia é ótima. Os acréscimos de V. Exª a tanta idéia, e tudo igualmente acrescido pelos aparteantes, inclusive Francisco Rollemberg, tudo isso ilustra bastante a reunião desta tarde-noite aqui no Senado Federal. A cultura brasileira, no sentido sociológico, precisa ser bem pesquisada e bem averiguada para a sua conservação. A cultura, no sentido intelectual, se toca com toda a cultura portuguesa, por razões naturais. A nossa língua precisa também ser preservada como um acontecimento igualmente patriótico. Tudo de que fala V. Exª é muito importante. Mas essa nova efeméride merece, de fato, aquilo que V. Exª fala, aquilo que V. Exª menciona. É com muito prazer que ouvimos V. Exª hoje no Senado Federal. O Exército brasileiro tem uma longa história, uma longa trajetória, merece toda a gratidão e todo o respeito do povo brasileiro. E não é somente pelos aspectos históricos. Não temos que ir às batalhas, não temos que ir às questões com o Paraguai, não temos que ir a Pernambuco e verificar a história guerreira, defensiva, desse Estado, nem a questão dos franceses, nem a questão dos holandeses em diversos pontos do território nacional. O Exército é importante é nesta hora também, neste exato momento em que estamos falando, e que outra vez ele participa da História, agora, mais do que nunca, como sustentáculo democrático e como ponto de referência para a tranqüilidade do povo brasileiro. Não há ninguém que faça frutificar a desobediência à ordem constitucional, o desrespeito às instituições, exatamente porque temos as Forças Armadas, Exército, Marinha e Aeronáutica, naquilo que poderíamos chamar da prontidão mais democrática jamais registrada no decurso da História do Brasil. Portanto, essa efeméride, se vem do passado, se fala de acontecimentos tão bem narrados por V. Exª, ela se faz mais merecedora no seu existir ante o papel das Forças Armadas, no exato momento em que V. Exª discursa aqui no Senado Federal. Muito obrigado.
O SR. NEY MARANHÃO - Senador Cid Sabóia de Carvalho, V. Exª, com o seu saber jurídico e conhecimento profundo da História do Brasil, com muita propriedade, nesse aparte, citou um escritor português, uma personalidade importante de Portugal que passou vários anos no Brasil, no meu Estado, Pernambuco, fato do qual eu não tinha conhecimento.
Isso significa, Senador Cid Sabóia de Carvalho, que, hoje, precisamos dar condições, principalmente através da mídia, que entra nas nossas casas, à nossa população de saber o que são as nossas Forças Armadas.
Algumas pessoas - graças a Deus não se trata da maioria, mas sim de minoria - tentam, direta ou indiretamente, denegrir a imagem das nossas Forças Armadas, que, no meu modo de entender, como também no de V. Exª, deste Senado e das pessoas que são patriotas, são a espinha dorsal da Nação brasileira.
Assim sendo, Senador Cid Sabóia de Carvalho, gostaria de agradecer V. Exª por seu oportuno aparte, no momento em que estamos homenageando o Exército brasileiro e em que se comemora a Batalha dos Guararapes. Muito obrigado a V. Exª.
Continuo, Sr. Presidente. Assim, ao vencerem um inimigo muito superior numericamente, aguerrido e bem treinado, homens como Dias Cardoso, Henrique Dias, Vidal de Negreiros, Fernandes Vieira e Felipe Camarão (que não participou da segunda Batalha dos Guararapes por haver falecido em agosto de 1648, sendo o seu Terço comandado nessa batalha pelo sobrinho, Diogo Camarão), além de "modeladores da nacionalidade brasileira", devem ser considerados como inovadores da arte da guerra, pois foram personagens determinantes para o enriquecimento das avançadas doutrinas militares da época, que se confrontaram na Europa, durante a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), que se refletiu em nosso País na chamada Guerra Brasílica (1624-1654), extensão da que se travava no continente europeu, defasada, entre nós, de seis anos quanto ao seu início e término. E mais: "nascia, com os Guararapes, a doutrina militar brasileira, desenvolvida em 24 anos de lutas contra o invasor, decisiva para a vitória e posterior expulsão dos holandeses do Brasil", como nos ensina o emérito historiador militar Cel. Cláudio Moreira Bento, concluindo que, após Guararapes, "o Exército patriota passou a dominar Pernambuco". Eis por que, com muita propriedade, o ilustre historiador Gal. Flamarion Barreto afirma que, "em Guararapes, nasceu o Exército Brasileiro".
Constata-se a forte influência sobre a Força Terrestre do "espírito de Guararapes". Destarte, não foi sem propósito que, em 1945, a Força Expedicionária Brasileira, ao retomar vitoriosa da Itália, depositou os louros da vitória nos montes Guararapes, onde se encontram as verdadeiras raízes do invicto Exército brasileiro. Na ocasião, assim se expressou o Gal. Mascarenhas de Morais: "nestas colinas sagradas, na batalha vitoriosa contra o invasor, a força armada do Brasil se forjou e alicerçou para sempre a base da nação brasileira".
O Sr. Mauro Benevides - V. Exª me permite um aparte, nobre Senador Ney Maranhão?
O SR. NEY MARANHÃO - Com muito prazer, nobre Senador Mauro Benevides.
O Sr. Mauro Benevides - Nobre Senador Ney Maranhão, os nobres Senadores Francisco Rollemberg, Cid Sabóia de Carvalho, dentre outros, já enalteceram a postura de V. Exª na tarde de hoje ao evocar o episódio de Guararapes, ao reportar-se também ao aniversário do inolvidável Presidente Getúlio Vargas e também destacar outros eventos militares, outros feitos heróicos que glorificam a gente brasileira. Neste instante, desejo também ser, digamos, nobre Senador, um turiferário de V. Exª por essa correção de procedimento. V. Exª vem à tribuna, engrandece exatamente aqueles momentos épicos da nossa história e induz-nos a dirigir nossas atenções para todos esses fatos que, recordados agora, fazem com que se enraízem no nosso sentimento o civismo e a brasilidade. A nossa adesão, portanto, às manifestações de V. Exª e os nossos aplausos por sua iniciativa.
O SR. NEY MARANHÃO - Nobre Senador Mauro Benevides, V. Exª, como um dos Senadores mais brilhantes desta Casa, tem se comportado aqui de uma maneira heróica. Os seus coestaduanos o respeitam pela sua bravura, pela sua luta em defesa do povo do Nordeste, do seu Ceará.
O aparte de V. Exª irá incorporar-se, com muita honra, a este discurso que faço na tarde de hoje. O pronunciamento de V. Exª marca, juntamente com os Senadores que me apartearam, esta homenagem justa e patriótica que todos nós, do Poder Legislativo, que representamos o povo brasileiro, prestamos neste momento ao Exército brasileiro, à nossa Força Terrestre e - por que não dizer - às nossas Forças Armadas. Muito obrigado a V. Exª
Sr. Presidente, continuo o meu discurso. A grande importância histórico-cultural da área dos montes Guararapes fez o Governo brasileiro criar, em 1971, o Parque Nacional Histórico dos Guararapes.
Por essas justas razões, o Exército brasileiro acertou mais uma vez quando decidiu estabelecer o 19 de abril como o dia de sua comemoração, em função dos laços históricos e as raízes da nacionalidade que se irmanam e se confundem com as próprias lutas dos Guararapes.
Nessa oportunidade, pelos relevantes serviços prestados à Pátria e ao Exército Brasileiro, não poderíamos deixar de também enaltecer e homenagear além do Duque de Caxias, o Brigadeiro Antônio Sampaio, Patrono da Infantaria; o Mal. Manoel Luís Osório, Patrono da Cavalaria; o Mal. Emílio Luís Mallet, Patrono da Artilharia; o Ten.-Cel. João Carlos de Villagran Cabrita, Patrono da Engenharia; o Mal. Carlos Machado Bittencourt, Patrono da Intendência; o Mal. Cândido Mariano da Silva Rondon, Patrono das Comunicações; e o Mal. Carlos Antônio Napiom, Patrono do Material Bélico.
Eram essas as considerações que eu gostaria de fazer. Muito obrigado, Sr. Presidente.