Pronunciamento de Marina Silva em 16/02/1995
Discurso no Senado Federal
LUTA DE S.EXA. PARA REDUZIR AS DESIGUALDADES REGIONAIS E PONDERAÇÕES SOBRE A PROBLEMATICA DO DESENVOLVIMENTO DA REGIÃO AMAZONICA.
- Autor
- Marina Silva (PT - Partido dos Trabalhadores/AC)
- Nome completo: Maria Osmarina Marina Silva Vaz de Lima
- Casa
- Senado Federal
- Tipo
- Discurso
- Resumo por assunto
-
DESENVOLVIMENTO REGIONAL.:
- LUTA DE S.EXA. PARA REDUZIR AS DESIGUALDADES REGIONAIS E PONDERAÇÕES SOBRE A PROBLEMATICA DO DESENVOLVIMENTO DA REGIÃO AMAZONICA.
- Aparteantes
- Eduardo Suplicy, Nabor Júnior, Ney Suassuna, Pedro Simon.
- Publicação
- Publicação no DCN2 de 17/02/1995 - Página 2050
- Assunto
- Outros > DESENVOLVIMENTO REGIONAL.
- Indexação
-
- COMENTARIO, POSIÇÃO, ORADOR, DEFESA, REDUÇÃO, DESIGUALDADE REGIONAL, IMPORTANCIA, DESENVOLVIMENTO, REGIÃO AMAZONICA, PRIORIDADE, RESPEITO, VIDA HUMANA, NECESSIDADE, ATENÇÃO, DEFINIÇÃO, OBJETIVO, INTERESSE, REALIZAÇÃO, REFORMA CONSTITUCIONAL.
A SRª MARINA SILVA (PT-AC. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão da oradora.) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, em primeiro lugar, registro a minha satisfação em estar nesta Casa e em compartilhar com V. Exªs as responsabilidades que têm em relação à resolução dos grandes problemas que enfrenta nosso País.
Ao iniciar este primeiro pronunciamento, peço a Deus que nos dê sabedoria e humildade para que possamos desenvolver nosso trabalho.
O nosso povo deposita esperanças neste Senado. Cento e cinqüenta e sete milhões de brasileiros esperam vê-lo renovado, ativo, procurando respostas concretas para os problemas que vivencia. Essas esperanças estão espalhadas pelos vinte e sete Estados que compõem o nosso País.
Venho de uma região, posso até dizer, desconhecida e distante; venho de um Estado pequeno, onde conheci a pobreza, a fome, o desemprego, mas cujo povo tem coragem para lutar por seus sonhos. Na luta pela realização desses sonhos, frente às dificuldades, esse povo não perdeu a ternura, e, com o coração cheio de amor, ousa dar ao Brasil respostas para alguns problemas que parecem não ter solução.
A tarefa que desejo cumprir no Senado Federal, Sr. Presidente, Srªs Senadoras e Srs. Senadores, não é pequena e pode parecer ousada: fazer o Brasil conhecer a sua outra metade.
Cinqüenta por cento do território brasileiro não é conhecido. Chama-se Amazônia. Ao abordar esse tema, não trago para esta tribuna uma discussão meramente regional. Os problemas do Norte e Nordeste não são regionais; são problemas brasileiros, e devem ser tratados como tal. Por essa razão, Srªs e Srs. Senadores, nas discussões desta Casa, nos debates sobre nossas dificuldades, devemos encará-los dessa forma.
O desenvolvimento da Amazônia representa uma saída para o Brasil e tranqüilidade para o Planeta; disso não tenho dúvida. Minha tarefa no Senado Federal será levantar essa discussão.
Ressalto, Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, que existe na nossa cultura a idéia dominante do ter ao invés do ser. Vale-se por aquilo que se tem; não se vale pelo que se é. Há diferenças, devemos respeitá-las. Nós, da Amazônia, somos obrigados a exigir o elementar: o respeito pelo diferente. O desenvolvimento apressado, o desenvolvimento a qualquer custo, que se nos imprimiu, levou-nos a estabelecer uma desastrosa relação com a vida, com as pessoas e com a cultura. O resultado de tudo isso foram as mazelas de que fomos vítimas.
Precisamos ajudar a sociedade a mudar esses valores. Devemos investir em uma sociedade que respeita a pessoa humana. A solução dos problemas econômicos deve ser, acima de tudo, a resolução dos problemas da vida das pessoas. Com esse propósito, conseguiremos respostas duradouras para os problemas que enfrentamos.
Esta Casa irá passar por um momento muito importante. Trata-se das esperadas reformas constitucionais. Estamos de acordo, cada um com o seu pensamento, em relação à necessidade de que sejam feitas reformas. É preciso, no entanto, que pensemos no tipo de reformas que queremos fazer, com que interesses, com que objetivos. Ao fazê-las, não devemos seguir o exemplo daqueles que estão tentando vender algumas empresas para acumular bilhões de reais, e gastá-los, em anos, meses até, na solução de questões dos que já têm tantas facilidades e tão poucos compromissos.
É preciso que se pense, com clareza e firmeza, nas reformas que pretendemos fazer na nossa Constituição.
Como dizem que a boa justiça começa dentro de casa, precisamos renovar, reformular, agilizar os projetos que nesta Casa tramitam, muitos dos quais se encontram engavetados. Esta Casa tem que se renovar também em relação à sua cultura, ao seu relacionamento com a sociedade e até no que se refere ao relacionamento entre nós, que somos pessoas diferentes, mas com o propósito comum de defender o Estado que representamos. Devemos, portanto, começar pela nossa Casa a grande mudança que o Brasil espera de todos nós.
A política, infelizmente, e os políticos são motivo de achincalhamento. Ser político, muitas vezes, é assumir posição de chacota perante a sociedade.
Reconheço, Srªs e Srs. Senhores, que nem sempre merecemos o contrário. Às vezes, o legislar em causa própria, o corporativismo, o não-estar atento aos grandes problemas da Nação fazem com que a população tenha essa visão da política e dos políticos.
Precisamos assumir o desafio - acho que há boa vontade da nova Mesa, dos Parlamentares que nesta Casa já estavam e dos que estão chegando -, assumir o compromisso de fazermos o que se espera desta Casa, que é ainda o desaguadouro das grandes questões sociais. Aqui já comemoramos muitas vitórias, mas também choramos muitas derrotas, porque nem sempre nós, os políticos, representamos os anseios da população.
Em muitos momentos, o jogo e o exercício do poder, que poderiam ser utilizados para resolver problemas, são usados de forma incorreta, como jogo de cartas marcadas, de interesses particulares. A briga, às vezes, é para ser amigo do rei ou, quem sabe, até dono do rei.
O Sr. Ney Suassuna - V. Exª me permite um aparte?
A SRª MARINA SILVA - Concedo a V. Exª o aparte.
O Sr. Ney Suassuna - Peço o aparte apenas para informar a V. Exª que a Mesa do Senado já criou um grupo de coordenação para reformular não somente rotinas administrativas, como procedimentos na área política e até mesmo da imagem do Senado Federal. O Presidente da Casa tomou essa deliberação hoje. Provavelmente, teremos um período de captação das sugestões de todos os Senadores, inclusive da sociedade civil.
A SRª MARINA SILVA - Agradeço a V. Exª pelo aparte. Eu já havia mencionado a boa vontade da Mesa desta Casa e fico feliz pelo fato de estar V. Exª confirmando essa disposição da Presidência.
Nós, que temos as responsabilidade às quais me referia, devemos ter a preocupação de não desviarmos, em função de interesses particulares, o caminho das nossas discussões - e olhem, quem está falando é militante do Partido dos Trabalhadores.
A Nação brasileira não aguenta mais o fato de, muitas vezes, em relação a um tema sobre o qual há unidade, sobre o qual é possível trabalhar conjuntamente, para não dar nome a alguém ou para evitar que fulano saia como herói, nos omitirmos, não participarmos das discussões.
Estou imbuída desse propósito e gostaria muito que os demais colegas também estivessem. A esse tema também se referiu meu Líder, o Senador Eduardo Suplicy, que, em seu pronunciamento, ressaltou que a nossa Bancada estaria disposta a ajudar no que for possível.
O Sr. Pedro Simon - Permite-me V. Exª um aparte?
A SRª MARINA SILVA - Com muito prazer, nobre Senador Pedro Simon.
O Sr. Pedro Simon - Vejo, com muita emoção, a presença de V. Exª na tribuna. Acompanhei sua campanha, assisti ao seu programa de televisão, tomei conhecimento de sua biografia. Creio que esta Casa deve receber com emoção a presença de V. Exª.
A SRª MARINA SILVA - Muito obrigada.
O Sr. Pedro Simon - V. Exª, que lutou e sentiu as dificuldades e as agruras da vida, que encontrou seu lugar e buscou conhecimentos maiores, que enfrentou as dificuldades dramáticas da sobrevivência na sua região, tem o sentido da luta e a representatividade da Amazônia. Talvez até mais do que nós, porque V. Exª conta com a representatividade da gente simples, necessitada daquele outro Brasil, que é o Brasil-Índia, o Brasil dos que passam fome, onde há miséria e injustiça. A presença de V. Exª , seu discurso, sua biografia, honram esta casa. Digo muitas vezes, nobre Senadora, que em nossos gabinetes de Senadores, Ministros, Governadores e Deputados, e principalmente em nossos apartamentos de Brasília, normalmente podem chegar pessoas que têm posses e condições, como empresários, homens de comunicação, pessoas importantes. Mas, às vezes, esquecemo-nos daqueles que mais precisam de governo, daqueles trinta e dois milhões que passam fome, daqueles que por este Brasil esperam uma nova realidade. Tenho dito muitas vezes, nobre Senadora, e lhe digo, com toda sinceridade, que devemos, andando pelos tapetes do Congresso Nacional, no final de cada dia, fazer a seguinte pergunta - e peço a todos que a façam: hoje, o que eu fiz para que, no Brasil, as pessoas sofram menos, tenham um pouco menos de injustiça, um pouco mais de caridade no lar? O perigo que corremos é que esse grande debate, essa grande discussão, que, às vezes, é acadêmica, às vezes fica no alto das grandes teses e das grandes polêmicas, não chegue às pessoas mais simples, mais necessitadas. O que fizemos? O que eu, Pedro Simon, que estou no Congresso Nacional há 12 anos, fiz para que o Brasil seja diferente? Para que menos pessoas passem fome? Para que haja mais justiça social, melhor distribuição de renda? V. Exª, pela biografia, pelo passado, pela resistência, pela sobrevivência, pela origem, pela competência, é um retrato vivo do Brasil dos que lutam e do Brasil dos que sofrem. Que bom ter V. Exª aqui! Que emoção vê-la nesta Casa, representando, debatendo, com a coragem do seu pronunciamento, dizendo com todas as letras: "Quantas unidades podemos encontrar no interesse da nação?" Por que ficamos a debater dias, madrugadas, anos, as divergências que temos e não nos unimos em torno, como diz V. Exª, das nossas unidades? Alguém é a favor de que 32 milhões passem fome? Alguém é a favor das disparidades sociais e regionais deste País? Pois se há imensas unidades que nos unem, por que não nos damos as mãos? Por vaidade? Por incompetência? Por irresponsabilidade? Tem razão V. Exª: se queremos mudar, devemos começar aqui. V. Exª falou, com muita razão e muita lógica, que, embora sendo representante de um partido, buscará a unidade. O grande debate, nobre Senadora, acontece nesta Casa. Com todo respeito que tenho à Câmara dos Deputados - até pelo número, são 513, e pela impossibilidade material do tempo -, sabe-se que é muito difícil haver lá as oportunidades que temos aqui. Saúdo-lhe com muito carinho, sinto - repito - imensa emoção, grande Senadora, em vê-la nesta Casa, porque V. Exª, de fato, tem representatividade. Faço um apelo para que todos possamos ver em V. Exª o Brasil que V. Exª representa. Que Deus lhe dê a chance de ver esse pronunciamento vibrante, firme, real de V. Exª ser repetido, daqui a oito anos, talvez em um Brasil um pouco mais otimista.
O SR. PRESIDENTE (Júlio Campos) - Advertimos a Senadora Marina Silva de que dispõe de quatro minutos para concluir seu pronunciamento.
A SRª MARINA SILVA - Muito obrigada. Agradeço aos que me apartearam, especialmente ao Senador Pedro Simon que me dirigiu palavras tão carinhosas.
O Sr. Nabor Júnior - Permite-me V. Exª um aparte?
A SRª MARINA SILVA - Concedo o aparte ao Senador Nabor Júnior.
O SR. NABOR JÚNIOR - Saúdo a presença de V. Exª na tribuna do Senado no dia de hoje. V. Exª é colega de representação do nosso Estado e está muito bem na tribuna, merecendo a atenção de todos os Senadores. Registro a minha satisfação em poder participar, embora modestamente, desse seu brilhante pronunciamento. Parabéns!
A SRª MARINA SILVA - Muito obrigada, Senador Nabor Júnior, que é do meu Estado, membro histórico do PMDB do Estado do Acre.
O Sr. Eduardo Suplicy - Permite-me V. Exª um aparte?
A SRª MARINA SILVA - Concedo o aparte ao Senador Eduardo Suplicy.
O Sr. Eduardo Suplicy - Quero cumprimentá-la por suas primeiras palavras e atitudes. V. Exª demonstra, ao lado de extraordinário bom-senso, vontade imensa de contribuir para que esta Nação possa crescer com justiça. V. Exª traz a esta Casa a voz daqueles que vivem na imensidão da Amazônia. Certamente colaborará para que venhamos a aprender com os demais Senadores da Amazônia certos aspectos ainda pouco conhecidos por nós. V. Exª vem aqui com a chama da indignação, com o amor às causas mais caras do povo sofrido. Cumprimento-a por trazer essa chama para a luta infindável que teremos pela frente.
A SRª MARINA SILVA - Muito obrigada, Senador Eduardo Suplicy.
E aqui encerro, Sr. Presidente, com mais um pedido. Se iniciei com um pedido a Deus para que nos desse sabedoria, finalizo com um pedido aos meus colegas para que tenhamos bastante humildade, porque, do meu ponto de vista, sem querer ser arrogante, a humildade é um atributo que deve estar presente mesmo na vida dos mais experientes.
Tenho a certeza de que isso não é fácil. Não sou uma sonhadora ingênua, mas uma sonhadora dada aos desafios, e como diz a bela frase, que para mim foi uma orientação de vida, citada no livro de Antony Roby: "A boa madeira não cresce em sossego, quanto mais fortes os ventos, mais resistentes são as árvores". Aprendi com as árvores resistentes da Amazônia que devemos ter persistência e que, por mais que não haja sossego, temos que solidificar, com raízes profundas, os ideais em que acreditamos.
Muito obrigada.