Discurso no Senado Federal

ESCLARECENDO EQUIVOCOS COMETIDOS PELA REVISTA 'VEJA', EDIÇÃO DE 17 DE MAIO CORRENTE, NO QUE SE REFERE A S.EXA. NA MATERIA INTITULADA OS REIS DO CALOTE RURAL.

Autor
Geraldo Melo (PSDB - Partido da Social Democracia Brasileira/RN)
Nome completo: Geraldo José da Câmara Ferreira de Melo
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
AGRICULTURA.:
  • ESCLARECENDO EQUIVOCOS COMETIDOS PELA REVISTA 'VEJA', EDIÇÃO DE 17 DE MAIO CORRENTE, NO QUE SE REFERE A S.EXA. NA MATERIA INTITULADA OS REIS DO CALOTE RURAL.
Aparteantes
Bernardo Cabral, Carlos Wilson, Casildo Maldaner, Elcio Alvares, Fernando Bezerra, Hugo Napoleão, Humberto Lucena, Iris Rezende, Osmar Dias, Pedro Piva, Ronaldo Cunha Lima, Sérgio Machado.
Publicação
Publicação no DCN2 de 17/05/1995 - Página 8335
Assunto
Outros > AGRICULTURA.
Indexação
  • ESCLARECIMENTOS, ARTIGO DE IMPRENSA, PERIODICO, VEJA, ESTADO DE SÃO PAULO (SP), ACUSAÇÃO, ORADOR, DESCUMPRIMENTO, CONTRATO, PAGAMENTO, DIVIDA, BANCO DO BRASIL, AMBITO, SETOR, AGRICULTURA.

O SR. GERALDO MELO (PSDB-RN. Como Líder. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, sinto-me no dever de, mais uma vez, prestar esclarecimentos a esta Casa, e o faço, pedindo a palavra como Líder, pelo fato de entender que esses esclarecimentos são indispensáveis ao próprio exercício da função de Vice-Líder, com a qual fui honrado pela minha Bancada.

Em sua última edição, a revista Veja - publicação que merece o respeito dos brasileiros - comete um equívoco em relação a mim que eu gostaria que fosse retificado.

A capa da revista apresenta como tema principal da edição: "Os Reis do Calote Rural" - "Milionários, eles tomam dinheiro público e nunca pagam - Quem são e como vivem" e entre esses que tomam o dinheiro público, e que a revista vai dizer quem são e como vivem, apresenta a mim como um dos caloteiros do setor rural brasileiro.

Informo ao Senado que dirigi, até há pouco tempo, uma empresa que é cliente do Banco do Brasil há 23 anos. Considerando que o Banco do Brasil é uma instituição criada para emprestar dinheiro, o fato de alguém depositar dinheiro nesse banco, fazer o seu cadastro, que é aprovado, pedir ao banco um financiamento, cujo pedido é aprovado, estabelecer a estrutura de um contrato, exigir as garantias, e recebê-las, não quer dizer que essa pessoa ou essa empresa esteja causando algum dano de qualquer natureza a uma instituição que existe somente para emprestar dinheiro.

Se a revista Veja desejava relacionar todos os devedores do Banco do Brasil e colocasse a empresa, que hoje é dirigida por pessoas da minha família, entre as que são mutuários do Banco do Brasil, ela não teria errado. Agora, ela erraria ao dizer que a empresa é caloteira do setor rural, pelo simples fato de que as operações de crédito de responsabilidade dessa empresa não são operações do setor rural. E o que torna grave essa informação, no meu ponto de vista como Senador da República do Brasil, é que ela se insere maldosamente no contexto de um momento em que o Congresso Nacional, tendo rejeitado um veto presidencial que mandava aplicar a TR como índice de correção das operações rurais, parece sugerir que eu, sendo devedor de operações de crédito rural, tivesse utilizado a minha condição de Senador para levar vantagem e derrubar um índice de correção que estaria me prejudicando.

Deixo claro o seguinte: primeiro, na votação do veto presidencial, embora considere absurda toda a concepção da política de juros no Brasil, em particular em relação ao setor rural, cumpri o meu dever de Senador que integra a Bancada do PSDB e não votei pela rejeição do veto. Portanto, se eu tivesse que usar a minha condição de Senador, para derrubar um veto que me prejudicasse, eu teria votado pela derrubada do veto, e não o fiz.

Segundo, parece que eu teria usado essa condição, portanto, para tirar uma vantagem pessoal. Afirmo que, ainda que eu tivesse votado pela derrubada do veto, isso não me beneficiaria, porquanto aquela hipótese, objeto daquele veto, não tem nada a ver com a operação de responsabilidade da empresa de que fui dirigente.

Terceiro, quando se fala de calote, fala-se de tomadores de dinheiro que ou não dão garantia, ou se organizam para desaparecer na primeira esquina com o dinheiro do banco.

Quem é cliente do mesmo banco ao longo de 23 anos não pode ser caloteiro. E se fosse, esse era um banco que, realmente, haveria de estar merecendo calote, porque já teria tido tempo suficiente para conhecer esse cliente ao longo de 23 anos de relações de negócios.

Essa empresa participou, como inúmeras outras, de um programa que foi instituído no País no momento em que eu era um político de Oposição. Era Presidente da República o Sr. Fernando Collor. Eu não tinha mandato de Senador, e o meu mandato de Governador de Estado havia terminado. Eu era um cidadão comum.

Ao ser lançado no Brasil o Programa de Revitalização do Setor Sucroalcooleiro, essa empresa participou desse programa e foi nele que se constituiu o seu débito. O programa previa dois pontos: primeiramente, que, na contratação do negócio com o mutuário, por uma razão que até hoje não consegui entender, todas as suas responsabilidades seriam consolidadas e acrescidas em 30% para que o contrato fosse feito - e isso se fez nessa empresa. A sua dívida de 1 transformou-se em 1,3.

Em segundo lugar, o programa também previa que aquelas empresas que pagassem pontualmente as suas obrigações no ano teriam, no ano seguinte, um rebate correspondente a 11% da parcela paga no ano anterior. A empresa que eu dirigia pagava as suas obrigações corretamente, tanto que recebeu regularmente esse rebate de 11% do Banco do Brasil. Não se trata, portanto, de caloteiro o mutuário de um banco que assina um contrato nas condições normais, aplicadas a todos, que para cada real do seu financiamento oferece três, pois, se aqui se diz que essa empresa deve R$21 milhões ou R$25 milhões, o valor dos bens dados em garantia, avaliados oficialmente por uma empresa especializada em avaliações técnicas, escolhida pelo Banco do Brasil, foi fixado em R$76 milhões. Então, quem deve vinte e poucos, entrega setenta e tantos de garantia e paga as operações com pontualidade, a ponto de receber o prêmio pela pontualidade, não pode ser apresentado como caloteiro.

O Sr. Fernando Bezerra - Permite-me V. Exª um aparte?

O SR. GERALDO MELO - Ouço o aparte do nobre Senador Fernando Bezerra.

O Sr. Fernando Bezerra - Nobre Senador, em primeiro lugar, solidarizo-me com V. Exª por esse equívoco que a revista Veja comete. V. Exª é um homem público que honra o meu Estado, o Rio Grande do Norte; é um empresário como tantos que têm sido vítima de uma política mal engendrada na economia do País. As taxas de juros praticadas são talvez as mais altas da história de Humanidade. Tive a oportunidade, hoje pela manhã, de ouvir com certa tristeza o depoimento do Dr. Edmar Bacha em que definia como redução da dívida interna o aceleramento das privatizações de empresas nacionais como a Vale do Rio Doce e entendia que, mesmo na gravidade das taxas de juros que estão sendo cobradas, são necessárias para a manutenção da estabilidade da inflação. Esqueceu-se o Presidente do BNDES de dizer das conseqüências que essas taxas de juros podem causar a todo o setor industrial e empresarial do País.

Por tudo isso, Senador, renovo minha solidariedade e compreensão para as dificuldades que V. Exª enfrenta, que são fruto sobretudo de uma política errada que se está desenhando neste País.

O SR. GERALDO MELO - Agradeço ao Senador Fernando Bezerra, que conhece de perto toda a história.

Concluindo o meu pronunciamento, devo dizer que, após todo esse período de pontualidade, pela primeira vez na história dessa empresa, a seca de 1993 atingiu a região onde está localizada. Embora situada no Nordeste e estando a pouco mais de 20km do litoral, essa empresa, nos anos de seca, sofria oscilações irrelevantes no seu volume de produção.

No ano de 1993, saindo de um patamar de 1.500ml de chuva todos os anos para pouco mais de 400ml, viu dizimar-se uma safra de 650 mil toneladas e reduzir-se a 200 mil; viu reduzir-se a sua receita total em R$12 milhões

Antes que a safra se instalasse, dirigiu-se ao Banco do Brasil para, juntamente com esse órgão, encontrar solução para um problema que ainda não existia. Havia uma situação de absoluta adimplência que ainda não existia, mas a empresa antevia que poderia manifestar-se, como de fato ocorreu depois.

Essa é a realidade e a operação, portanto, que não têm nada a ver com o crédito rural. Eu, como ex-dirigente dessa empresa, não vim utilizar meu mandato de Senador para tirar vantagens individuais...

O Sr. Carlos Wilson - Permite-me V. Exª um aparte?

O SR. GERALDO MELO - Com muito prazer, Senador Carlos Wilson.

O Sr. Carlos Wilson - Senador Geraldo Melo, quem conhece V. Exª sabe perfeitamente desta sua justificativa: não usar o seu mandato para tirar vantagem alguma. Dou esse testemunho porque tenho acompanhado a sua vida pública durante muitos anos. Tive o privilégio de ser Governador de Pernambuco quando V. Exª era Governador do Rio Grande do Norte. Tenho-lhe na conta de um dos homens mais sérios deste País.

O SR. GERALDO MELO - Muito obrigado.

O Sr. Carlos Wilson - Por essa razão, quando leio hoje a Revista Veja, um veículo de comunicação respeitado, que mostra V. Exª como um devedor do Banco do Brasil na figura de caloteiro, sinto-me indignado. Trago-lhe neste momento a minha solidariedade porque sei que V. Exª é um dos homens públicos do Nordeste que dignifica e honra a nossa região.

O SR. GERALDO MELO - Agradeço o Senador Carlos Wilson, que me comove com suas palavras.

O Sr. Pedro Piva - Permite-me V. Exª um aparte?

O SR. GERALDO MELO - Com todo prazer, Senador Pedro Piva.

O Sr. Pedro Piva - Sr. Senador, esse triste episódio V. Exª não tem que explicar: aos amigos não se explica; aos inimigos não interessa. V. Exª é um homem de luta, cujo passado é marcado por batalhas na vida política, pessoal e empresarial. Para mim esse acontecimento não é um revés; é uma contingência da vida por que todos os empresários passam. Não existe empresário neste País que não tenha, neste momento, dificuldade em pagar os seus compromissos em dia com os juros extorsivos que aí estão. V. Exª não precisa dar explicações, pois é um homem de bem e tem a nossa solidariedade, a do seu Partido e a de toda a Casa, tenho certeza. Muito obrigado.

O SR. GERALDO MELO - Muito obrigado.

O Sr. Sérgio Machado - Permite-me V. Exª um aparte?

O SR. GERALDO MELO - Ouvirei em seguida o aparte de V. Exª.

Senador Pedro Piva, como um dos mais importantes empresários deste País, tem toda autoridade para dar o depoimento que acaba de fazer.

Ouço o Senador Sérgio Machado.

O Sr. Sérgio Machado - Senador Geraldo Melo, em nome da Bancada do nosso Partido, trago a nossa solidariedade a V. Exª, que tem sido um homem de luta, que teve coragem de trabalhar e que sempre escolheu esse caminho de geração de riquezas. V. Exª nunca foi pelo caminho mais fácil: da corrupção ou da especulação. V. Exª quis gerar riquezas, o que, num País instável como o Brasil, sempre é difícil. As mudanças constantes e a falta de continuidade fizeram com que muitos empresários sérios como V. Exª enfrentassem as dificuldades, as quais são feitas para homens que têm coragem de enfrentá-las e vencê-las. Não tenho dúvida de que V. Exª sairá dessa crise com a cabeça erguida e ajudará este País a continuar a crescer, com investimentos na área produtiva, os quais geram emprego e renda, dos quais o Brasil tanto precisa. Muito obrigado.

O SR. GERALDO MELO - Muito obrigado, Senador Sérgio Machado, meu companheiro e Líder.

Aproximo-me da conclusão do que desejava dizer. Agradeço a tolerância da Mesa.

O Sr. Humberto Lucena - Permite-me V. Exª um aparte?

O SR. GERALDO MELO - Concedo o aparte a V. Exª.

O Sr. Humberto Lucena - Senador Geraldo Melo, desejo igualmente solidarizar-me com V. Exª. Há muito tempo eu lhe conheço como empresário, como homem público do Nordeste. O seu trabalho à frente do Governo do Rio Grande do Norte teve repercussão nacional. Sei da lisura com que V. Exª sempre se houve não apenas no trato dos negócios públicos, como também nas suas atividades empresariais. Inclusive, como Presidente do Senado Federal, lembro-me bem das várias vezes em que o ex-Senador e hoje Governador Garibaldi Alves Filho me procurava para dizer da sua preocupação com a situação dos empresários do Nordeste, justamente do setor sucroalcooleiro, do qual faz parte V. Exª. Referiu-se ao seu caso especial, pedindo a intervenção da bancada nordestina, de um modo geral, junto ao Ministério da Fazenda e aos bancos oficiais para que se conseguisse uma renegociação que possibilitasse àqueles empresários o cumprimento fiel de seus compromissos com o Banco do Brasil. Entre eles estava sem dúvida V. Exª. Portanto, incluir V. Exª na relação daqueles que estão em falta com o Banco do Brasil e que poderiam ser beneficiários da queda do veto a que alude V. Exª é uma profunda injustiça à sua personalidade de homem público.

O SR. GERALDO MELO - Muito obrigado, Senador.

O Sr. Elcio Alvares - Permite-me V. Exª um aparte?

O SR. GERALDO MELO - Ouço V. Exª com prazer.

O Sr. Elcio Alvares - Senador Geraldo Melo, V. Exª está dando uma explicação de como deve fazer todo homem de bem, dentro do plenário de sua Casa, que é o Senado. A sua vida para o Senado representa um julgamento altamente vitorioso, porque a sua votação, o seu comportamento na campanha e, acima de tudo, a sua legenda de vida o credenciaram para representar com dignidade o povo do Rio Grande do Norte. O nome de Geraldo Melo no Rio Grande do Norte não surgiu de repente, de forma meteórica. Há uma legenda de trabalho do empresário que acreditou na sua terra, nos trabalhadores de sua terra e construiu com muita dificuldade na perspectiva do dia de hoje, mas com um ideal muito grande. Recordo-me, em recente conversa com V. Exª, de como esses sonhos foram formados; da idéia do empresário de fecundar, realmente, o seu Estado com o trabalho e a visão, acima de tudo otimista, da crença na vitória do trabalho em última instância. Há certas matérias que deveriam necessariamente colocar, logo em seguida, aquilo que representa o contraditório, porque uma revista como a Veja, que hoje tem uma grande penetração nacional, publicando, como o fez, matéria referente àqueles que se beneficiam dessa questão tão momentosa, que são os empréstimos na área agrícola, ao mencionar o nome de V. Exª, cometeu uma injustiça, e nisto o seu pronunciamento foi muito enfático e objetivo. Quero trazer um esclarecimento na condição do Líder do Governo que acompanhou de perto essa votação: no instante em que conferíamos o resultado, que ensejou, inclusive, um recurso à Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania em resposta a um pedido de questão de ordem de minha autoria, V. Exª me falou, com muita dignidade e ênfase, que não tinha votado pela derrubada da TR. Gravei isso muito bem, e V. Exª até acrescentou uma particularidade a respeito da sua votação. Portanto, dou-lhe este testemunho gratuito, mas resultante do reconhecimento de que é da minha obrigação fazê-lo, por ter ouvido a confidência do seu voto no momento em que o Governo realmente tinha preocupação com o resultado da eleição. Portanto, ao lado dos meus Colegas, associo-me a V. Exª. Temos um curto prazo de convivência, mas o nome de V. Exª, naturalmente, transpôs as fronteiras do seu Estado. Fomos unânimes, quando soubemos de sua eleição para este Senado, em dizer que o povo do Rio Grande do Norte resgatava uma dívida com um administrador que usou de probidade, com um governador que teve a visão exata da grandeza de seu Estado e, merecidamente, aqui o enviou para representá-lo. Debitamos esse incidente jornalístico ao momento econômico por que passamos. Disse bem o Senador Pedro Piva:" Que empresário brasileiro, hoje, numa modificação total de política econômica, exime-se de qualquer apreensão no setor econômico-financeiro?" V. Exª dá uma explicação por um ditame da sua consciência, profundamente necessária para todos os que compreendem a sua dignidade não só no exercício dos seus negócios pessoais mas, acima de tudo, na integração constante da vida pública do Rio Grande do Norte.

O SR. GERALDO MELO - Agradeço a V. Exª.

O Sr. Iris Rezende - Permite V. Exª um aparte?

O SR. GERALDO MELO - Com prazer ouço V. Exª.

O Sr. Iris Rezende - Obrigado, Senador Geraldo Melo. No passado, muitos se aproveitaram da agricultura para negócios escusos. Recordo-me que, quando ainda Ministro da Agricultura e conhecedor do quadro existente àquela época, em que muitos e muitos se faziam até de empresários para buscar o dinheiro subsidiado destinado à agricultura, não titubeei em, devidamente escorado pelos agricultores brasileiros, dispensar do Governo aqueles recursos, uma vez que eles praticamente não chegavam às mãos dos que verdadeiramente produziam. Mas tenho observado que, em função daqueles aproveitadores do passado, muita injustiça tem-se praticado com os agricultores atuais. Sendo a agricultura um dos segmentos da nossa economia com maior risco de investimento, mas exercendo uma enorme atração sobre o homem, a terra o tem levado, ainda, a continuar, mesmo diante de tantas dificuldades, a semear, a plantar e a procurar produzir. Por esses fatos do passado é que, muitas vezes, tem no presente a imprensa sido injusta com aqueles que ainda estão envolvidos com a agricultura no Brasil. Notei recentemente a imprensa extremamente rígida em relação ao agricultor quando da rejeição do veto à lei que jogava por terra a Taxa de Referência, a TR. Fui até a um programa de televisão nesta Capital me insurgir contra aquilo que se dizia dos agricultores. Vi a reportagem da Veja e entendo que todos aqui estamos absolutamente solidários com V. Exª, principalmente nós que o conhecemos há mais tempo. Não o conheci aqui no Senado; convivi com V. Exª como companheiro de Partido, eu Ministro da Agricultura, V. Exª Governador do seu Estado, e senti o trabalho exemplar que desenvolveu naquele Estado em benefício da agricultura. Percebi ali a sua paixão pela terra, senti a sua vocação pela agricultura, e jamais passará pela cabeça de quem quer o conheça a idéia de V. Exª ser cúmplice de qualquer ação que significasse aproveitamento de ordem pessoal às custas de uma instituição bancária. Presto esse depoimento justamente para que V. Exª sinta que esses equívocos não atingem uma pessoa da estirpe e do quilate de V. Exª. Nunca! Esses são os ônus, muitas vezes pesados, que nós, homens públicos, carregamos. Estamos expostos. Não existe e nem poderia existir dúvida em relação a quem busca um financiamento e dá como garantia bens de valor muitas vezes superior àquilo que retira para investir. Assim, esperamos que esse equívoco, praticado contra V. Exª, por uma revista tão conceituada, seja devidamente corrigido; que as coisas sejam colocadas nos seus devidos lugares, a fim de que as pessoas que não o conhecem saibam que V. Exª realmente é um dos homens públicos honrados que temos neste País e um dos Senadores que também dignificam esta Casa.

O SR. GERALDO MELO - Muito obrigado, Senador Iris Rezende.

O Sr. Hugo Napoleão - V. Exª concede-me um aparte?

O SR. GERALDO MELO - Ouço V. Exª com muito prazer.

O Sr. Hugo Napoleão - Nobre Senador Geraldo Melo, V. Exª, a rigor, não devia explicações à Casa, mas naturalmente sentiu-se na obrigação de fazê-lo; pessoalmente agradeço essas mesmas explicações. Trata-se de um empréstimo tomado ao tempo em que rigorosamente não exercia nenhum mandato eletivo, nenhum cargo, nenhuma função, e o fez como cidadão e produtor. Melhor dizendo, nem foi V. Exª, pois ficou esclarecido que tratou-se de empréstimo à pessoa jurídica, de acordo com a legislação em vigor, com as normas e regulamentos da espécie e que continua V. Exª cumprindo com as obrigações decorrentes desse contrato. De modo que nada mais vejo senão a preocupação de um cidadão que quer produzir para sua terra e o País e que tem a grandeza e nobreza de vir, perante seus Pares, em função de noticiário da imprensa, dar uma explicação. Portanto, o cidadão e o Senador Geraldo Melo, ex-Governador que conheço, está sempre envolto em aspectos de seriedade, correção, tirocínio e grandeza.

Eram esses os comentários que tinha a fazer.

O SR. GERALDO MELO - Fico muito honrado, Senador Hugo Napoleão.

O Sr. Osmar Dias - Peço um aparte a V. Exª.

O SR. GERALDO MELO - Com o maior prazer, Senador Osmar Dias.

O Sr. Osmar Dias - Além da solidariedade, Senador Geraldo Melo, quero usar esses instantes do meu aparte para dizer que me sinto reconfortado, porque ontem usei da tribuna desta Casa para falar o que penso daqueles que tomam o crédito rural sem necessitar dele. A revista Veja, infelizmente, faz referência a uma parcela que não representa os agricultores brasileiros, porque estes, quando tomam um empréstimo, pagam-no, nem que tenham que vender parte da sua propriedade, os seus animais, a sua junta de bois, a sua carroça, o seu carro; pagam a dívida, e pagam muitas vezes com o sacrifício da sua família. Então a revista Veja, quando faz a imagem da agricultura brasileira baseada numa parcela de produtores rurais que não significa 5% do total, comete uma injustiça. Eu até gostaria de ver a revista fazendo uma reportagem a respeito dos mais de 95% que são os produtores efetivos e que pagam as suas contas em dia. Fico tranqüilo em saber que V. Exª não pertence a esse grupo de produtores rurais ou de pseudoprodutores rurais brasileiros que, muitas vezes, até pegam o crédito rural, aplicam no mercado financeiro e ganham com o dinheiro que é da sociedade. O produtor rural de verdade não fica em dívida com o banco, com o Governo e nem com a sociedade, muito pelo contrário, tem crédito com o banco, com o Governo e com a sociedade. Senador Geraldo Melo, recebi um fax do Presidente Fernando Henrique Cardoso a respeito do meu pronunciamento de ontem. Quando V. Exª pediu a palavra, fiquei em dúvida se eu estava colocando o Presidente Fernando Henrique Cardoso numa situação desconfortável, já que V. Exª é Vice-Líder do PSDB nesta Casa. Vou tomar a liberdade de ler o fax, para mostrar que o Presidente da República também concorda que quem deve tem que pagar, principalmente quando o dinheiro é do crédito rural do Banco do Brasil, é da sociedade: "Senador Osmar Dias, parabéns por seu pronunciamento acerca dos problemas agrícolas do País, combatendo as distorções que uns poucos ruralistas têm provocado nas discussões havidas no Congresso Nacional. Os verdadeiros agricultores, aqueles que produzem a riqueza do País, sempre merecerão o cuidado do Governo e sabem que, sem as reformas constitucionais, o Brasil terá o seu desenvolvimento comprometido. Essas considerações não diminuem a importância de buscar-se soluções adequadas para os problemas emergenciais da agricultura, sempre com critérios de justiça como os que são defendidos pelo ilustre Senador. Assinado, Presidente Fernando Henrique Cardoso". Fiquei muito satisfeito em receber esse fax, porque ele vem comprovar, mais uma vez, que o Presidente Fernando Henrique Cardoso também pensa que aqueles que hoje mancham a imagem da agricultura brasileira não são os verdadeiros agricultores. Fico reconfortado em saber que V. Exª não pertence a esse grupo que, infelizmente, se aproveitou do crédito rural indevidamente.

O SR. GERALDO MELO - Da mesma maneira - como disse o Senador Osmar Dias - que o agricultor, quando não pode pagar o seu financiamento, vende a terra, a vaquinha, o trator, contanto que cumpra o seu compromisso com o banco, no momento em que essa situação de dificuldade a que me referi se apresentou na minha empresa, também dirigi-me ao Banco do Brasil dizendo àquela entidade que das garantias que tinha oferecido desejaria entregar ao Banco imediatamente tantas quantas bastassem para liquidar a operação. Há mais de um ano que um documento como esse está em poder do Banco do Brasil e já foi reiterado este ano.

Na verdade, ainda como dirigente da empresa, tomei a mesma atitude que toma o pequeno agricultor, o pequeno lavrador: se o dinheiro é do Banco, compete à empresa devolvê-lo. Se ela não tem dinheiro no caixa, o patrimônio que deu em garantia deve responder pela dívida. Por isso, o patrimônio foi imediatamente colocado à disposição do Banco do Brasil, não na base da conversa, mas redigido formalmente em um papel.

O Sr. Casildo Maldaner - V. Exª concede-me um aparte?

O SR. GERALDO MELO - Tem V. Exª a palavra.

O Sr. Casildo Maldaner - Senador Geraldo Melo, apresento minha solidariedade a V. Exª de público, assim como já o fiz em particular. Recordo-me bem de V. Exª da época em que era governador do Rio Grande do Norte e, eu, por menos tempo, governador de Santa Catarina. Recordo-me dos encontros que mantínhamos entre os governadores, da nossa convivência muito fraterna e da admiração que tenho desde àquela época por V. Exª. O que disse o Senador Elcio Alvares, Líder do governo nesta Casa, cai muito bem no momento: o povo do Rio Grande do Norte disse muito bem quem é V. Exª pois o enviou a esta Casa para representá-lo.

O SR. GERALDO MELO - Muito obrigado.

O Sr. Bernardo Cabral - Concede-me V. Exª um aparte?

O SR. GERALDO MELO - Com prazer, nobre Senador.

O Sr. Bernardo Cabral - Eminente Senador Geraldo Melo, noto que V. Exª está chegando ao final de seu discurso. A propósito, mantive-me em silêncio, entendendo que essa era a melhor forma de homenageá-lo, já que o silêncio é o clamor de tudo aquilo que não fala. Aceite, pois, o clamor da minha solidariedade e do silêncio em que vou permanecer.

O SR. GERALDO MELO - Muito obrigado, Senador Bernardo Cabral.

Encerro, Sr. Presidente, dizendo que aqui cheguei eleito pelo povo do meu Estado, um Estado que tem uma tradição de luta política radicalizada, que, graças a Deus, começa a desaparecer. Fui sucedido pelo nosso colega, o Senador José Agripino, que comanda, no Rio Grande do Norte, as forças que fazem oposição àquelas a que pertenço. Mas acredito que S. Exª confirmaria o que direi a seguir. Posso ter sido na vida acusado de tudo. A própria luta dos nossos companheiros, que é radicalizada, pode ter me levado a ser apresentado como alguém que, tenha sido prepotente, aqui, injusto ali, eficiente aqui, ineficiente acolá. Mas não houve ninguém, correligionário ou adversário, que tenha, em momento algum, durante o meu Governo ou depois dele, erguido a voz para levantar ao menos uma suspeita de improbidade praticada ou tolerada por mim como governador de Estado.

Não sou um político profissional. Voto popular recebi duas vezes, com grande honra: fui governador e sou agora Senador. Procuro cumprir meu dever com seriedade e, por isso, embora agradeça a meus Colegas que disseram que eu não precisava prestar este esclarecimento, digo que precisava, pois, da mesma forma pela qual sou exigente com a ética e com o comportamento alheio, devo ser muito mais exigente comigo mesmo. Não desejaria andar pelos corredores do Senado, estender a mão a um colega Senador ou encarar um funcionário desta Casa e ver no olhar dessas pessoas a sombra de alguma suspeita de que esteja apertando uma mão que não seja bastante limpa, que pode ser exibida em qualquer lugar deste País.

Encerrando meu pronunciamento, Sr. Presidente, quero dizer que sonho com um país em que a Imprensa possa fazer o que tem feito, mas sonho também com um país...

O Sr. Ronaldo Cunha Lima - V.Exª me permite um aparte?

O SR. GERALDO MELO - Ouço V.Exª com prazer.

O Sr. Ronaldo Cunha Lima - Sei que o tempo de V.Exª está esgotado, mas não queria deixar de somar minha voz às vozes que aqui vieram atestar sua lisura, sua conduta ilibada, seu comportamento elogiável. Associo-me a essas vozes e solidarizo-me com V.Exª porque o conheço, admiro-o e aplaudo-o pela sua conduta, pelo seu espírito público, pela sua correção.

O SR. GERALDO MELO - Muito obrigado, Senador Ronaldo Cunha Lima.

Sr. Presidente, sonho com um País no qual os corruptos, os marginais ou aqueles que se aproveitam do dinheiro público sejam apontados e julgados implacavelmente pela opinião pública quando chegar a hora.

Sonho com um País em que valha a pena ser decente, em que um homem de bem possa dormir, sabendo que, quando acordar, seu nome não estará sendo enlameado irresponsavelmente por outras pessoas.

Espero que, no momento em que se exige que senadores, deputados, ministros, presidente, governadores, vereadores, enfim, políticos sejam éticos, sérios, responsáveis e limpos - e penso que assim é que deve ser - que se compreenda que este País, para ser sério e para ser um lugar bom de se viver e criar os filhos, não pode ser um País em que apenas os políticos tenham essa obrigação. Todos, em todas as profissões, em quaisquer atividades, devem ter o mesmo dever perante a sociedade.

Tenho certeza de que a revista Veja, que tanto contribuiu para a construção da democracia e para a obra de higienização da vida pública brasileira, tem interesse na verdade, na boa informação, pois esta é a forma que ela, a revista, pode servir e oferecer a sua parte na construção do País com que sonhamos e com que ela também sonha. Tenho certeza de que a revista Veja há de compreender que cometeu um engano, e espero que um dia tenha a oportunidade de o retificar. "Patrimônio milionário, grande fortuna, grande riqueza", segundo afirmou a revista, não existe assim como se procurou insinuar. Meu patrimônio, esse tenho que defender. O que tenho para dar a minha família é a história de uma vida honrada e limpa. Espero estar vivendo num país onde eu tenha o direito de preservar esse patrimônio que me custou tanta luta e tanto sacrifício.

Muito obrigado.


Este texto não substitui o publicado no DCN2 de 17/05/1995 - Página 8335