Discurso no Senado Federal

TRANSCRIÇÃO DO ARTIGO DO JORNALISTA RUY FABIANO, PUBLICADO NO CORREIO BRAZILIENSE, DE 31 DE DEZEMBRO DE 1995, SOB TITULO 'TRAGEDIA CARIOCA EM DOIS TEMPOS', SOBRE O USO DE DROGAS NO PAIS.

Autor
Casildo Maldaner (PMDB - Movimento Democrático Brasileiro/SC)
Nome completo: Casildo João Maldaner
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
DROGA.:
  • TRANSCRIÇÃO DO ARTIGO DO JORNALISTA RUY FABIANO, PUBLICADO NO CORREIO BRAZILIENSE, DE 31 DE DEZEMBRO DE 1995, SOB TITULO 'TRAGEDIA CARIOCA EM DOIS TEMPOS', SOBRE O USO DE DROGAS NO PAIS.
Aparteantes
Ney Suassuna.
Publicação
Publicação no DSF de 11/01/1996 - Página 100
Assunto
Outros > DROGA.
Indexação
  • SOLICITAÇÃO, TRANSCRIÇÃO, ARTIGO DE IMPRENSA, JORNAL, CORREIO BRAZILIENSE, DISTRITO FEDERAL (DF), AUTORIA, RUY FABIANO, JORNALISTA, DENUNCIA, SITUAÇÃO, VICIADO EM DROGAS, CAPITAL DE ESTADO, ESTADO DO RIO DE JANEIRO (RJ).
  • APREENSÃO, AUMENTO, DEPENDENCIA, DROGA, PAIS, NEGLIGENCIA, CONGRESSO NACIONAL, GOVERNO, SOCIEDADE, COMBATE, TRAFICO, ACUSAÇÃO, PARTICIPAÇÃO, CLASSE SOCIAL, RIQUEZAS, ESTADO DO RIO DE JANEIRO (RJ), COMANDO, CRIME ORGANIZADO.

O SR. CASILDO MALDANER (PMDB-SC. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, matéria do ilustre jornalista Ruy Fabiano, publicada no Correio Braziliense no último dia 31 de dezembro, diz o seguinte:

      Vera Fischer e Rafael Rabello.

      Tragédia Carioca em Dois Tempos.

      Num Rio de Janeiro, refém das drogas e da violência, gente jovem e bem-sucedida é alvo preferido dos traficantes. O violonista Rafael Rabello não sobreviveu. A atriz Vera Fischer escapa por pouco. Quem será o próximo?

Venho hoje a esta tribuna para requerer que conste nos Anais da Casa a íntegra dessa sensível e corajosa reportagem do jornalista Ruy Fabiano.

Em duas páginas, o jornalista denuncia os meandros do submundo das drogas e da violência no Rio de Janeiro, traçando as semelhanças do ocorrido com seu irmão, Rafael Rabello, considerado um dos maiores violonistas do mundo, morto em 27 de abril último, e a nossa conterrânea atriz Vera Fisher, que se encontra em tratamento de desintoxicação e recuperação psiquiátrica.

Nobres colegas, esse depoimento nos deixa, de certa forma, aterrorizados e impotentes diante do quadro apresentado, pois, a escalada dos chamados soldados do pó, infiltrados em todas as camadas sociais, não é um privilégio do Rio de Janeiro, mas de todos os Estados brasileiros. As famílias estão sobressaltadas. Alguma medida precisa ser adotada.

Gostaria, nesta oportunidade, de destacar algumas afirmativas do texto para que o Congresso Nacional, o Governo Federal e toda a sociedade reflitam sobre o seu papel participativo, em defesa da família, no combate ao narcotráfico.

      "É a tragédia corrosiva das drogas legais (anfetaminas, barbitúricos e tranqüilizantes, servidos com irresponsável bonomia por médicos mercenários) e as ilegais, armazenadas nos "santuários" do narcotráfico (a expressão é do Secretário de Segurança do Rio), espalhados por numerosos bairros da ex-cidade maravilhosa."

Continua o texto:

      "Em meio ao drama de Rafael Rabello, sua família buscou informar-se, junto a autoridades do Governo do Estado do Rio, a respeito dos riscos pessoais que ele poderia estar correndo, sob o assédio obsessivo dos soldados do pó".

Mais adiante diz:

      "Não é, portanto, por falta de dados que a guerra contra o tráfico do Rio de Janeiro tem sido perdida.

Ao tempo em que a cidade estava sob a intervenção do Exército, ouvi de um general, envolvido com a operação, que não havia vontade política nem do Governo, nem da elite da sociedade carioca para que a missão fosse cumprida. Por fim, proferiu a frase, para mim definitiva:

      - O comando do pó não está no morro. A cúpula do tráfico é branca como o pó - e mora no asfalto. No crime, como na vida real, os negros estão em posição subalterna, cumprindo ordens dos brancos."

Sr. Presidente, meus nobres Pares, esse estarrecedor depoimento está recheado de denúncias que devem merecer a atenção não só das autoridades estaduais, mas principalmente das federais, cujas ações são tímidas diante do quadro de violência que impera no país e cuja origem está nas drogas.

Vejam essas outras afirmativas do ilustre jornalista:

      "Há a ação livre e plena dos traficantes em todos os níveis e camadas sociais, desde ambientes indefesos, como favelas e bairros pobres da periferia, até os corredores de instituições poderosas, como emissoras de televisão, universidades e meio artístico.

      Há também a indiferença/conivência de pessoas influentes e com poder de decisão no plano institucional".

      "Em torno desse circo de horrores, há uma poderosa indústria que explora as vítimas das drogas (legais e ilegais): clínicas de desintoxicação improvisadas (não são todas, claro); médicos inescrupulosos, que vendem receitas para remédios de tarja preta, tipo Hipofagin e Frontal, antidepressivos e inibidores de apetite; psiquiatras que recauchutam os pacientes e os devolvem para mais uma temporada no inferno. Lucra-se com as drogas - e tanto basta para que se mantenha toda uma lógica de perversão, que contamina autoridades e instituições. E devora pessoas."

Sr. Presidente, concluindo, gostaria de solidarizar-me com a família Rabello que, por meio da sua dor, presta este relevante serviço público à sociedade brasileira.

0 Sr. Ney Suassuna - V. Exª permite-me um aparte?

O SR. CASILDO MALDANER - Com prazer, ouço V. Exª.

O Sr. Ney Suassuna - Convivo com V. Exª e sei que não é usuário de drogas. Sei também que, se V. Exª quisesse conseguir drogas, na Capital Federal ou em qualquer parte do Brasil, não levaria mais do que meia hora, perguntando até no meio da rua a pessoas que poderiam ter aspecto de usuários. Se V. Exª, eu ou qualquer um, em meia hora, podemos chegar a um traficante, por que a polícia, que vive disso, que dispõe de polícia secreta, passa a vida toda e não consegue pegá-los? É óbvio que o jornalista está com toda a razão. É óbvio que há gente de peso envolvida, que não interessa e que não há vontade política de colocar na cadeia não só o traficante, mas o que financia o traficante e leva toda uma geração e toda uma juventude à apatia, à mediocridade, enfim, a todo esse embotamento a que a droga leva, quando não leva, finalmente, ao crime na tentativa de roubo para conseguir recursos para continuar usando drogas. Muito obrigado.

O SR. CASILDO MALDANER - Acolho, com satisfação o aparte de V. Exª, Senador Ney Suassuna.

Peço, então, Sr. Presidente, a transcrição nos Anais dessas matérias que trazem estampadas as fotografias do grande artista e violonista Rabello e da atriz Vera Fisher, num estado que, na verdade, nos comove.

Precisamos refletir sobre esse problema e rever a legislação relativo a esse assunto.

Era o que tinha a dizer, Sr. Presidente.


Este texto não substitui o publicado no DSF de 11/01/1996 - Página 100