Pronunciamento de Geraldo Melo em 06/02/1996
Discurso no Senado Federal
RELATO DE SUA VIAGEM A INDIA, A CONVITE DO SENHOR PRESIDENTE DA REPUBLICA. VANTAGENS E RESPEITO ADQUIRIDOS PELO BRASIL NO EXTERIOR DECORRENTES DAS VIAGENS EXTERNAS DO PRESIDENTE FERNANDO HENRIQUE CARDOSO.
- Autor
- Geraldo Melo (PSDB - Partido da Social Democracia Brasileira/RN)
- Nome completo: Geraldo José da Câmara Ferreira de Melo
- Casa
- Senado Federal
- Tipo
- Discurso
- Resumo por assunto
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POLITICA EXTERNA.:
- RELATO DE SUA VIAGEM A INDIA, A CONVITE DO SENHOR PRESIDENTE DA REPUBLICA. VANTAGENS E RESPEITO ADQUIRIDOS PELO BRASIL NO EXTERIOR DECORRENTES DAS VIAGENS EXTERNAS DO PRESIDENTE FERNANDO HENRIQUE CARDOSO.
- Aparteantes
- Jefferson Peres.
- Publicação
- Publicação no DSF de 07/02/1996 - Página 1355
- Assunto
- Outros > POLITICA EXTERNA.
- Indexação
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- REGISTRO, IMPORTANCIA, VIAGEM, EXTERIOR, PRESIDENTE DA REPUBLICA.
- COMENTARIO, ALTERAÇÃO, CONCEITO, OPINIÃO PUBLICA, MUNDO, RELAÇÃO, BRASIL, MOTIVO, VIAGEM, EXTERIOR, PRESIDENTE DA REPUBLICA.
- COMENTARIO, IMPORTANCIA, VIAGEM, PRESIDENTE DA REPUBLICA, RETRIBUIÇÃO, VISITA, CHEFE DE ESTADO, PAIS ESTRANGEIRO, INDIA.
- ANALISE, SITUAÇÃO ECONOMICA, SITUAÇÃO SOCIAL, POPULAÇÃO, PAIS ESTRANGEIRO, INDIA.
O SR. GERALDO MELO (PSDB-RN. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, cumpro, com muita honra, o dever de transmitir a esta Casa um relato sobre a experiência que vivi há poucos dias, quando, distinguido por um convite do Senhor Presidente da República, acompanhei-o em viagem à Índia. Não o faço apenas porque o Senado decidiu, há algum tempo, que, de volta das suas viagens, compete aos Srs. Senadores prestar o depoimento que testemunhe perante a Nação que não se ausentaram para fazer turismo.
Penso que este depoimento vem reunir-se a outros que se fazem no momento em que muitos, até com certa leviandade, criticam a política externa presidencial que passamos a fazer a partir da posse do Presidente Fernando Henrique à frente do Poder Executivo no Brasil.
A importância desta viagem não é diferente das demais que o Presidente tem feito. Qualquer um de nós que saiu do Brasil antes de se iniciar a fase que estamos vivendo hoje e que tenha saído agora há de compreender, há de concordar, que a percepção do Brasil no exterior mudou.
Eu mesmo sou um que testemunho o constrangimento que tive muitas vezes, quando, em anos recentes, viajava para fora do Brasil e as pessoas me olhavam como se eu fosse o autor da dívida externa e o responsável pelo atraso do seu pagamento.
Ser brasileiro no exterior era alguma coisa desconfortável e, tanto quanto possível, uma condição que nenhum de nós fazia muita questão de proclamar. Isso, que somente por obstinado amor a esta Pátria nos recusávamos a fazer, que era o disfarce da condição de brasileiro, está cedendo lugar, pouco a pouco, ao orgulho de nos apresentarmos fora do Brasil como brasileiros.
Um depoimento semelhante prestei ao Senado quando assisti, em Washington, a uma reunião do FMI e do Banco Mundial. Percebia-se que o Brasil deixava de ser apenas um país que o mundo via como responsável por uma dívida externa impagável, dirigido por uma malta de incompetentes e corruptos. Fosse verdade ou mentira, fosse real ou falsa, essa era a nossa imagem.
Não sei se não temos o dever - não o dever político do correligionário, mas o dever de brasileiro - de registrar e de reconhecer que nós todos passamos a dever ao Presidente Fernando Henrique a construção de uma imagem diferente, parecida com a realidade de um povo que luta pela construção de um novo destino, parecida com a realidade de um país que tem um grande futuro na sua inserção internacional, parecida com o direito que temos de aspirar a que a nossa voz seja ouvida e que sejamos olhados com respeito.
O Sr. Jefferson Péres - Senador Geraldo Melo, permite-me V. Exª um aparte?
O SR. GERALDO MELO - Com muita honra, Senador Jefferson Péres.
O Sr. Jefferson Péres - Senador Geraldo Melo, não conheço nada de mais pequenino, de visão mais curta, do que as críticas feitas ao Presidente da República pelas viagens que empreende ao exterior. Evidentemente que essas viagens são proveitosíssimas para o País; não apenas melhoram de imediato a imagem do Brasil no exterior, como, a médio e longo prazo, têm por efeito melhorar as relações comerciais e atrair capitais externos dos quais muito precisamos. Como V. Exª bem frisou, no entanto, pouco adiantaria o Presidente do Brasil de ontem viajar para o exterior; um país mergulhado na corrupção, no descontrole inflacionário, um país sem rumo, um país desgovernado, quase. Mas o Presidente Fernando Henrique viaja para o exterior com uma retaguarda e com a credencial de estar, realmente, governando um País que, pelo menos, encontrou o caminho da recuperação. Penso que a Oposição comete um grande erro ao fazer essas críticas. Ontem, ouvi um Deputado do PT, daqueles mais lúcidos, dizer, com absoluta razão, que a oposição precisa entender que o Presidente Fernando Henrique Cardoso não é presidente do regime militar e nem é o Sr. Fernando Collor de Mello. Sua Excelência é uma outra pessoa, de um outro Governo, de um outro Brasil. Portanto, a Oposição precisa se reciclar, tornar-se mais refinada, mais sofisticada, sob pena de estar insistindo em um discurso que não tem nada mais a ver, repito, com a situação do Brasil atual. V. Exª pode dar o seu testemunho nesse sentido, porque acompanhou o Presidente em sua última viagem. Muito obrigado, Senador, pela oportunidade do aparte.
O SR. GERALDO MELO - A palavra de V. Exª, além de enriquecer o meu pronunciamento, traz a ele um conteúdo de autoridade que o comportamento de V. Exª nesta Casa já granjeou com muito merecimento.
Portanto, as viagens de Sua Excelência contribuem no sentido de mudar essa realidade, o que não é importante para satisfazer a nossa vaidade. Graças à nova moldura que cerca a imagem do Brasil no mundo, pouco a pouco, este País deixou de ser uma aventura para os investidores, os governos. As instituições bancárias passaram a trazer o seu conhecimento, os seus investimentos e, assim, contribuem para essa arquitetura, para a construção da nova realidade da nossa Pátria.
E a Índia? Por que a Índia? Que importância teve essa visita em particular?
Em primeiro lugar, o Brasil estava em falta com a Índia há muitos anos, pois foi visitado por dezenas de autoridades daquele país. O Brasil já recebera, inclusive, a visita da Primeira-Ministra Indira Ghandi há mais de vinte anos e não retribuíra essa visita até agora. De certa forma, no discurso do Presidente da República da Índia, por ocasião do banquete oferecido ao Presidente Fernando Henrique Cardoso, não deixa de estar presente uma certa marca de desgosto, quando disse, a certo momento, mais ou menos estas palavras: "Foi preciso que um país se construísse na América do Sul, que uma civilização ali se estabelecesse e que V. Exª chegasse à Presidência do Brasil para que, enfim, no dia de hoje, se completasse a viagem de Pedro Álvares Cabral na busca do caminho marítimo para as ilhas". Na realidade, ali estava a manifestação de agrado pela nossa presença e, de certa maneira, a manifestação de desagrado pela desatenção do Brasil com aquele país.
A Índia representa um desafio a todos os que tiverem a curiosidade intelectual para procurar compreendê-la. Um país onde não vivem entre 160 a 170 milhões de brasileiros, mas quase 1 bilhão de indianos em um terço do território do Brasil, cuja população era estimada em 903 milhões de habitantes em 1993. Um país com um PIB da ordem de US$300 bilhões, ou seja, o equivalente à metade do PIB do Brasil em números redondos. Possui 900 milhões de habitantes. Significa que, se temos aqui uma renda per capita de mais de US$3 mil, lá se tem uma renda per capita de apenas US$300.
Naquele país vivem mais de 40 milhões de pessoas que já nasceram, que vivem e vão morrer sem jamais terem passado uma noite de suas vidas ao abrigo de um telhado; que nunca moraram sequer em um barraco de uma favela. Habitantes das ruas, das avenidas, das cidades quentes, como Bombaim, das cidades às vezes frias, como Nova Délhi. Entretanto, quando o Brasil produziu 80 milhões de toneladas de grãos no ano passado, a Índia estava produzindo 180 milhões de toneladas de grãos. Um país que tem uma estrutura fundiária sobre a qual precisamos nos debruçar, nós que estamos pensando em reforma agrária no Brasil. Ali não existem propriedades agrícolas maiores do que 30 hectares e, apesar disso, produziu 180 milhões de toneladas de grãos.
Não estou recomendando nada desse tipo nem para este país nem para nenhum outro. Estou apenas dizendo que aqueles que sustentam a tese de que a grande, a enorme propriedade é inseparável de qualquer avanço na produção agrícola precisam pensar um pouco sobre a realidade da Índia, pois, apesar de todos esses desafios, aquele país ainda se permite o luxo de gastar, como gasta, as fortunas que investe em defesa e armamento. A Índia já explodiu uma bomba atômica e tem pesquisas muito avançadas no campo nuclear. E, pelo fato de ter dedicado esse conhecimento à explosão da bomba, tem certa dificuldade em sustentar que as utiliza para fins pacíficos. Aquele país desfilou em nossa frente modelos modernos de tanques, um míssil balístico e um avião Mig de modelo soviético, um Mig de construção indiana.
Um país do outro lado do mundo, cujo fuso horário é oito horas e meia de diferença do nosso, mas que aceita dizer - e gosta de dizer - que nós somos a Índia das Américas e eles são o Brasil do continente asiático; um país que tem o que nos oferecer, que tem o que nos dar e que precisa receber o que nós podemos oferecer.
Lá foi o nosso Presidente em uma missão à frente de uma comitiva de alto nível, integrada por quatro Ministros - Ministro da Agricultura, Ministro das Relações Exteriores, Ministro da Ciência e Tecnologia e o Chefe do Gabinete Militar -, pelo Secretário da SAE e por dois Parlamentares - um Senador e um Deputado federal. Essa foi a comitiva que lá esteve.
Vi o respeito que se tem, hoje, pelo Presidente deste País e o sentimento, o desejo, a vontade, a aspiração que têm as instituições e o povo indiano de criar uma fraternidade efetiva com o nosso País. Voltei dessa viagem orgulhoso da minha condição de brasileiro. Voltei dessa viagem confiante de que não tenha sido apenas um registro, um momento efêmero, fugaz a ser noticiado pela imprensa do Brasil e da Índia, mas sim um momento de construção de uma relação entre dois povos com um grande papel a desempenhar, juntos, nos fóruns internacionais, diria até um papel chave agora, quando se discute a recomposição das Nações Unidas e de um novo modelo de seu Conselho de Segurança. Um país que tem uma linguagem comum e propostas comuns para fazer ao mundo. Foi lá, nesse país, que o Presidente Fernando Henrique, na condição de único Chefe de Estado convidado de honra para as cerimônias de comemoração do Dia da República da Índia - o sete de setembro desse país, que se comemora no dia 26 de janeiro de cada ano -, juntamente com os demais membros da comitiva, estivemos e é com essas esperanças que de lá voltamos.
Eu precisava dar esse depoimento à Casa, o que faço com muita alegria e satisfação. Muito obrigado, Sr. Presidente.